Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 19, n° GT2024 (Especial: GT 2024)

Desde 2012, a Viso publica as apresentações do encontro bienal do GT de Estética da ANPOF, contribuindo assim para o registro e a disseminação de um dos momentos acadêmicos mais importantes da pesquisa estética em nível nacional. Damos continuidade a essa tradição, agora com um número especial, reunindo 25 textos que resultaram da XII edição do evento, realizada entre os dias 2 e 5 de julho de 2024, no Instituto Moreira Salles de São Paulo. Nos variados temas e abordagens aqui recolhidos, a leitora e o leitor encontrarão um retrato privilegiado dos muitos modos de se fazer estética no Brasil e perceberão, para além da mera heterogeneidade, uma reflexão multifacetada sobre as tensões da disciplina filosófica, suas formas e experiências, a partir dos desafios modernos e contemporâneos representados por catástrofes históricas, mutações tecnológicas, desigualdades estruturais e transformações institucionais.

Não é assim despropositada a abertura com o problema da tragédia — uma das formas mais tradicionais e que remonta às raízes da reflexão filosófica sobre a arte — relido a partir de Shakespeare e da constelação dos problemas modernos. Pedro Süssekind reconstrói as tramas de sucessão e usurpação no Rei Lear à luz de Maquiavel, mostrando como, num mundo sem transcendências, é o agenciamento humano que produz a catástrofe, deslocando assim o significado do trágico. Marcela Oliveira, por sua vez, aproxima Cordélia de Antígona para pensar o lugar do feminino no trágico, encontrando nelas uma ética que tensiona a gramática patriarcal do poder. Encerrando o bloco, Vladimir Vieira recoloca o conflito em chave schilleriana, mostrando como a tragédia moderna é transposta para o palco da consciência, agora sob o prisma kantiano da oposição entre agir por dever ou por inclinação.

Na segunda discussão, a crise se desloca dos palcos para o país e para a matéria brasileira. Pedro Duarte de Andrade retoma o tema da formação nacional a partir de Nuno Ramos para apontar o esgotamento desse “gerúndio esperançoso”, que se abria para um futuro, então suspenso pela persistência de uma violência que sempre retorna. Diante desse impasse, uma arte política responderia com um “gerúndio corajoso”. Em seu comentário, Juliana de Moraes reinsere o artista numa genealogia crítica e decolonial da modernidade, mostrando que o futuro desse projeto já se realizou no Brasil sob a forma de extrativismo e destruição; lembra, contudo, que, nas margens, a brasilidade da festa e do improviso ainda alimenta a imaginação de outros futuros.

O dossiê então se volta ao espaço institucional, com o texto de Luiz Camillo Osorio sobre Malraux. Nele, o autor reconstitui a trajetória da figura do curador na arte moderna, recuperando o gesto de deslocamento do museu imaginário para repensar os desafios contemporâneos da mediação cultural. Em sua intervenção, Rizzia Rocha critica a tradição curatorial do cubo branco como um espaço nada neutro, mas sim da colonialidade, expondo, portanto, a curadoria como arena de disputa. O desafio contemporâneo seria então pensar práticas curatoriais que escapassem dessa raiz colonial.

E, já que falamos de raízes, Ulisses Vaccari, na sequência, recua a discussão para os fundamentos da estética clássica alemã ao investigar, com Szondi e Bürger, como a matriz hegeliana de uma dialética entre forma e conteúdo se torna um dos principais operadores para pensar as manifestações artísticas modernas e de vanguarda — chegando até as leituras de Antonio Candido e Roberto Schwarz. Os comentários de seu texto vão em direções históricas opostas e, assim, se complementam: Anderson Bogea avança ainda mais no tempo para pensar como essa tensão se reconfigura no teatro e na performance contemporâneos; Pedro Franceschini, por sua vez, reconstrói a semântica das formas por meio de uma pista dada por Szondi, retomando seu pressuposto não hegeliano: o romantismo.

O problema da colonialidade retorna no artigo de Pedro Galé, ao explorar a figura do artista no Brasil colônia, relegado à sombra pela luz do discurso clássico do academicismo do século XIX. Galé propõe assim um outro olhar sobre a arte do período, para além de sua categorização usual sob o barroco. Cum grano salis — e também como bom mineiro, poderíamos dizer — Rodrigo Duarte defende, em sua réplica, a validade da categoria para além da velha polêmica sobre a existência do estilo no país, para descobrir no barroco mineiro, com Flusser, justamente aquilo que ele teria de promessa de uma outra humanidade.

De outra escuridão trata o debate seguinte: como figurar a catástrofe? A partir dos textos de Sebald sobre a literatura alemã do pós-guerra, Luciano Gatti formula, com Walter Benjamin, a dificuldade de narrar quando a própria experiência parece colapsar. Jeanne-Marie Gagnebin, em sua curta intervenção, insiste na temporalidade do testemunho e do trauma, que exige tempo e silêncio, perguntando-se também se não seria demais exigir que toda essa tarefa coubesse à literatura. Rafael Zacca Fernandes — que começa inusitadamente com Winnie-the-Pooh — reflete sobre a tarefa infinita da crítica, ao reconhecer a insuficiência de qualquer forma para dar conta da catástrofe.

De crise em crise, chegamos à própria crise da estética. Em contraponto ao purismo negativo que encontra tanto em Lyotard quanto em Adorno, Bruno Guimarães analisa como a ressignificação da estética feita por Rancière a reaproxima da experiência comum, que adquire assim um novo sentido político. Em seu comentário, Fernando Barros questiona os limites dessa leitura da estética como política do comum, lembrando concepções de criação artística que a extrapolariam. Também em chave crítica, e revelando sua filiação frankfurtiana, Francisco Machado contesta a declaração de obsolescência do conceito de indústria cultural e da postura da teoria crítica em geral, que continuariam necessários em um mundo marcado pela dominação e pela regressão.

Como uma espécie de pausa, a análise de Imaculada Kangussu sobre o filme Dias perfeitos, de Wim Wenders, faz das pequenas epifanias na rotina desse limpador de banheiros, com suas leituras e músicas, os gestos de uma estética modesta, mas poderosa. O intervalo é bem-vindo, pois, na sequência, retornamos à crise, agora sob o significativo título de Ricardo Barbosa: “Para que ainda uma estética?”. Em uma espécie de irônico saldo teórico — seria também biográfico? — das pretensões da disciplina desde sua origem, Barbosa reconsidera sua dupla linhagem como ciência sistemática e como poética, reivindicando que, para não perder relevância, ela deveria reaproximar-se desta última, como reflexão filosófica sobre as condições materiais e sensíveis da criação artística. Sem ignorar a importância de uma autocrítica da disciplina, Virginia Figueiredo parece tomar a questão lançada como um desafio existencial, e quase pessoal, sustentando, em sua resposta, a persistente relevância da estética filosófica, ou melhor, de uma filosofia poética. Já Guilherme Foscolo assume a sugestão de reorientação da estética feita por Barbosa como oportunidade para afirmar a dimensão material da técnica e seus impactos como campo central para a disciplina, sobretudo na contemporaneidade.

Coerente com esses questionamentos, o último bloco de textos nos leva aos artistas e ao seu processo de criação. Rosa Gonçalves aborda a poética de Tunga, em diálogo com Lygia Clark, na criação de mundos contínuos, feitos de dobras, repetições e recorrências materiais, como a sugerir uma temporalidade alternativa à fragmentação moderna. Moderna é também a temática por excelência de Manet, tratada no par de textos finais, de Luis Inacio Costa e Ruy Luduvice. O primeiro analisa o pintor como fundador de um regime de indeterminação pictórica que rompe com a profundidade renascentista, de modo que a modernidade nasce assim da suspensão, que institui problemas perceptivos. Como a ler essa suspensão às avessas, Luduvice analisa a interpretação de Manet feita por Bataille para mostrar como seu gesto radical estaria no abandono da eloquência e da correspondência simbólica que ainda se sustentavam como indícios de uma totalidade divina. Assim, a ausência de transcendência de sentido ou fundamento não é apenas evidenciada pela arte, mas tornada campo de produção de significado.

Com a perda de transcendência, a crise da forma e a opacidade do mundo, este número se encerra como começou: recolhendo na ausência de solo firme um espaço de criação — o mesmo que esperamos abrir ao entregarmos este dossiê ao público. Para aqueles que estiveram presentes nos dias intensos deste encontro, o dossiê trará também a saudosa lembrança de Vinicius Berlendis de Figueiredo, cuja inteligência vivaz e atenção generosa acompanharam todas essas discussões, em meio ao sobe e desce das escadarias do IMS. Diante de sua perda abrupta e inconsolável, no início deste ano, torna-se ainda mais justo que este número permaneça também como um gesto de memória.

A capa desta edição é baseada na montagem
de Rei Lear, da Royal Shakespeare Theatre
em Stratford upon Avon, 1950.