Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 19, n° 36 (jan-jun/2025)

Depois de completar 18 anos, a pergunta enfrentada por muitos recém-adultos (ainda quase adolescentes) não deixa de ser perturbadora: o que eu vou fazer do resto da minha vida?

Por mais que essa pergunta siga ressoando (na melhor das hipóteses) ao longo de vidas nem tão adolescentes, a Revista Viso oferece neste seu primeiro número após completar sua maioridade – esta publicação nasceu no longínquo ano de 2007, tendo mantido uma periodicidade regular desde então, feito quase heroico em revistas nascidas unicamente do desejo de seus fundadores, sem qualquer subvenção institucional – uma resposta a um só tempo coerente com sua história e possivelmente desmedida (“Mais do que o incêndio, é a hybris que precisa ser apagada”, pensamos os editores em mais de uma ocasião): como já fizemos por diversas vezes em se tratando dos encontros bienais do GT de Estética da ANPOF, cujas edições temos ajudado a eternizar desde 2012, neste número abrimos uma chamada especial para acolher os textos apresentados num dos maiores eventos de Estética do país, o 16º Congresso Internacional de Estética Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Estética (ABRE) no fim de 2023, na Universidade Federal Fluminense. Se as 141 comunicações do evento já representariam por si mesmas o crescimento vertiginoso do interesse pela área de Estética na última década, este número da Revista Viso complementa o testemunho da intensa atividade dessa crescente comunidade acadêmica: recebemos mais de 40 submissões, o que exigiu a mobilização de quase uma centena de pareceristas Brasil afora. Terminadas as blind reviews feitas pelos pares, a quem agradecemos entusiasticamente pela contribuição, temos o prazer de oferecer a nossos leitores e leitoras 20 ensaios que apresentam um panorama bastante rico do estado da arte da pesquisa em Estética no Brasil.

Dentre os textos tão heterogêneos publicados nesta edição, há de tudo um pouco. Há muito Walter Benjamin, como é de praxe (4 textos); mais Byung Chul-Han do que o habitual (3 textos); uma certa volta a Heidegger (2 textos); o bom e velho Kant (2 textos); além de Hölderlin, Nietzsche, Duchamp, Winnicott, Adorno, Rancière, e Susan Buck-Morrs (1 texto para cada). Sem falar em artistas bastante singulares como Marília Garcia, Ítalo Calvino, Caetano Veloso e o cineasta Matti Helde.

Pela ordem em que aparecem na página inicial do site, listamos abaixo os temas e autores abordados em cada texto, para que cada leitor(a) possa construir o seu próprio mapa de leitura conforme seus interesses mais ou menos prioritários.

Arthur Dal Ponte Santana abre esta edição mostrando uma continuidade entre as obras do jovem Benjamin e do Benjamin das Passagens a partir de uma aproximação entre as noções de linguagem como médium que marca suas obras iniciais e o modo como, ao tratar da vida urbana parisiense nas obras de maturidade, materializa essa noção de linguagem no modo fragmentário como escreve.

Cláudia França da Silva propõe uma instigante aproximação entre os conceitos de “Inframince”, extraído da obra de Marcel Duchamp, e de “transicionalidade”, extraído das obras do psicanalista inglês David Winnicott, valendo-se de um célebre texto de Ítalo Calvino em torno da “leveza” como mediador entre dois pensadores aparentemente tão distintos.

Daniel Gilly retoma os escritos de Walter Benjamin sobre seu amigo Bertolt Brecht para rebater duas críticas bastante influentes no debate teatral contemporâneo ao excessivo racionalismo ou excessivo textocentrismo da obra de Brecht feitas por dois importantes teóricos alemães: Christoph Menke e Hans-Thies Lehmann.

Já Daniel Pucciarelli parte de uma reconstrução do sentido e do alcance da noção de “nominalismo” na obra de Theodor Adorno para refletir sobre as condições de criticabilidade de construtos estéticos ditos nominalistas e assim poder lançar algumas provocações sobre o destino, a função e o método da crítica de arte contemporânea.

O texto de Eder Aleixo é uma verdadeira aula sobre o modo como uma concepção de arte bastante específica vai sendo construída ao longo da obra de Byung-Chul Han, passando por diversos de seus livros. Finalmente, o autor apresenta a visão haniana da atual crise da arte, produção humana que permaneceria refratária à erosão do outro e à digitalização da vida que marcam as principais formas de socialização contemporâneas.

Eliana Henriques Moreira vale-se de conceitos extraídos de “A origem da obra de arte”, de Martin Heidegger, para propor que a filosofia heideggeriana contribui numa leitura ontológica não estetizante da arte dos povos originários, necessariamente distanciada do ideal moderno das belas-artes autônomas e sem dúvida mais próxima da ideia heideggeriana de que a arte se liga à inauguração da identidade de um povo.

Guilherme Granato propõe uma leitura detalhada do disco Araçá azul, de Caetano Veloso, tomando por base a noção de transfonografia desenvolvida por Serge Lacasse a partir da obra de Gerárd Genette.

Ivana Grehs, no terceiro texto deste número diretamente inspirado por Walter Benjamin, e mais especificamente por seu anjo da história, analisa detidamente o filme Na ventania, do diretor Martti Helde, que narra a barbárie produzida pelo Estado Soviético contra seus opositores na Estônia ao longo dos quase 50 anos de ocupação. Como seria possível a um anjo da história arquivista, com os olhos escancarados de horror, salvar seus mortos?

Jessica Di Chiara aprofunda sua pesquisa sobre a ideia de poema-ensaio na obra de Marília Garcia propondo a análise de fragmentos do célebre “O poema no tubo de ensaio”, no qual Marília sintetizou boa parte de suas inquietações como poeta-ensaísta e ensaísta-poeta que vem borrando de forma consistente as fronteiras entre crítica e criação nos últimos anos.

Juliana de Moraes Monteiro mergulha no ensaio “Estética e anestética”, de Susan Buck-Morss, para perseguir uma das questões mais candentes da reflexão estética contemporânea: de que modo seria possível mapear (e quiçá combater) as táticas anestesiantes que caracterizam a lógica de boa parte dos espetáculos dos séculos XX e XXI?

Qual é o lugar da arte na época da técnica, especialmente quando esta passa a ser operada segundo a cibernética? Esta é a pergunta que move Leidiane Coimbra em sua reconstrução do pensamento de Heidegger em torno da Ge-stell como princípio explicador da técnica moderna. Em uma possível reformulação de sua questão central, é possível que seu texto se debruça sobre o problema do papel da arte na sociedade do algoritmo.

Marcelo Capello Martins parte de uma série de diagnósticos histórico-filosóficos presentes na obra de Byung-Chul Han para contrastar a nossa época com algumas distopias clássicas produzidas ao longo do século XX, especialmente Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, nos quais o papel da leitura é central para a resistência a muitas formas de opressão e anestesiamento.

Michelly Alves Teixeira propõe uma releitura da “teoria do romance” de Jacques Rancière com o objetivo de pensar o que, para o filósofo, seria a indispensável presssuposição da igualdade em partilhas do sensível de cunho mais emancipatório.

Miguel Gally parte dos recursos teóricos das assim chamadas artes espaciais para analisar detidamente, com o apoio das imagens que permeiam o seu texto, a obra Evanescente, de autoria de José Resende em parceira com João Bosco Renaud, a qual consiste materialmente num conjunto de 7 mil moedas de bronze.

Rafael do Valle traz importante contribuição ao construir um retrato delicado e pungente das relações da ensaísta Gilda de Mello e Souza com a cidade de São Paulo, cujas transformações permeiam as metamorfoses de sua obra.

Rafael Zacca Fernandes segue em sua pesquisa sobre Anne Carson, pensadora que vem se dedicando a traduzir nos últimos anos, e traz às leitoras da Viso uma reflexão sobre as complexas relações entre tradução e ensaio na obra da autora, que não hesita em interferir e amplificar o alcance das obras do passado que traduz, como, no caso, a Antígona de Sófocles, que ela transforma em Antigonick.

Ricardo Barbosa, com a rigorosa carpintaria conceitual que lhe é peculiar, apresenta uma visão da estética kantiana, e do espírito do Esclarecimento como um todo, que acaba mostrando que a crítica da faculdade do juízo estética resultaria numa “emancipação do gosto”.

Ronaldo Pelli parte de uma análise da Genealogia da moral, de Nietzsche, para mostrar que a arte é sempre interessada, e deveria ser vista como uma potência que aviva a existência. A tese central do artigo é a de que, na leitura de Nietzsche, Stendhal teria visto o mesmo que Schopenhauer, mas numa chave oposta: a arte afirma a vida em sua complexidade e funciona como um antídoto para o ideal ascético.

Theo Machado Fellows constrói o seu artigo de modo a revelar a presença do poeta e ensaísta Friedrich Hölderlin em alguns dos momentos mais decisivos da história do sublime estético, seja na filosofia do trágico e nas discussões sobre a tragédia, seja na centralidade que o conceito de sublime adquiriu como operador de uma nova compreensão da arte moderna.

Em mais um texto que funciona como uma aula, Wesley Souza apresenta um rico panorama da obra crítica de Lukács tendo como fio condutor a sua compreensão do realismo na literatura e o modo como esse operador pode permanecer sendo relevante na atualidade, indo muito além da recepção simplificadora de seus possíveis alcance e sentido.

Ao terminar mais este editorial e repassar um por um todos os textos publicados, fica a certeza de que uma leitura prazerosa e instrutiva é um destino quase inescapável para as leitoras e leitores que se aventurarem pelas páginas desta nova edição.

Divirtam-se!