Este número 30 da revista Viso: Cadernos de estética aplicada marca uma pequena revolução em nossa estrutura editorial. Tendo fundado e editado sozinhos a Viso por 15 anos consecutivos, de 2007 a 2021, os professores Patrick Pessoa e Vladimir Vieira (ambos da UFF) decidimos aumentar o corpo de editores responsáveis pelo periódico e, no início deste ano, foram convidados dois colegas do GT de Estética da ANPOF com larga experiência editorial para trabalharem como editores a partir deste número 30. Damos então as boas vindas à professora Cíntia Vieira (UFOP) e ao professor Pedro Franceschini (UFBA) e esperamos que esta colaboração possa durar no mínimo outros 15 anos.
Este primeiro número editado a 8 mãos contém 8 textos. Em uma seção de Atualidades especialmente robusta, contamos com 3: uma entrevista inédita realizada no primeiro semestre de 2022 com Cildo Meireles, um dos mais importantes e influentes artistas contemporâneos brasileiros; um ensaio de Otavio Leonidio (um dos entrevistadores de Cildo, junto com Manuela Müller) cujo subtítulo é uma provocação notável: “Será que a arte contemporânea brasileira acabou?”; e um ensaio crítico de Patrick Pessoa sobre a peça História do olho: um conto de fadas pornô-noir, de Janaina Leite, que estreou em junho de 2022 na 8ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Complementa ainda o conjunto de publicações especiais uma tradução original da Oração de Zoroastro, de Kleist, por André Felipe Gonçalves Correia.
Na riquíssima entrevista que concedeu a Otavio Leonidio e Manuela Müller, cujo ponto de partida é a sua participação na exposição Information, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, em 1970, quando tinha apenas 22 anos, Cildo Meireles esclarece retrospectivamente: “[Eu tinha] a pretensão de, aos 22 anos, fazer uma coisa que se relacionasse, mas ao mesmo tempo se opusesse, à ideia-parâmetro daquela modernidade, da contemporaneidade dos anos 1970, e que é um dos marcos da produção do século XX – o ready-made do Marcel Duchamp. Então, tinha essa pretensão juvenil de tentar fazer uma coisa que, ao mesmo tempo em que se relacionasse com o ready-made, tentasse de alguma maneira ir além, fazendo um caminho contrário: partir de uma coisa muito individual, muito íntima, muito pessoal, e fazer com que aquilo atuasse numa macroestrutura”. Os trabalhos do artista que se sucederam a essa preocupação de “ir além do ready-made” foram, entre outros, suas Inserções em circuitos ideológicos, nos quais Cildo trabalha com a ideia de “circuito, de coisas que circulem no interior na sociedade, e que assim é infectada, parasitada através de intervenções, de inserções”.
Partindo de sua conversa com Cildo e da resistência do artista, naquela fase de seu trabalho, em produzir “objetos”, Otavio Leonidio propõe uma longa discussão com a “Teoria do não-objeto”, de Ferreira Gullar, e com a teoria dos “objetos específicos”, de Donald Judd. Depois de retraçar as origens da assim chamada “arte contemporânea brasileira” nas obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica – que não seriam mais “objetos para a vista”, como as obras de arte modernas, mas antes obras (ou proposições) que “não teriam nem “existência nem significado sem o suporte e a manipulação do ser humano” –, o autor as posiciona no contexto do Neoconcretismo (de que o texto de Gullar é uma espécie de manifesto) e se pergunta: “o que pode ser a herança de uma arte na qual as questões centrais da história social e política brasileira – a começar por um racismo e uma misoginia estruturais – ou não estão colocadas, ou estão colocadas de modo ambivalente? (...) Haverá um outro Neoconcretismo?” Como tentativa de apresentar um possível exemplo do que seria esse “outro Neoconcretismo”, Otavio Leonidio apresenta uma análise de Bixinha, da artista Lyz Parayzo, esclarecendo que “não é exatamente uma reapropriação de uma das obras mais icônicas do Neoconcretismo (La Bête, de Wagner Schwartz, faz isso, e de modo muito produtivo). É, em vez disso, uma inapropriação da obra de Clark”.
Fechando a seção de Atualidades, Patrick Pessoa escreve um ensaio crítico sobre a subversiva leitura da História do olho, de Georges Bataille, realizada pela diretora e performer Janaina Leite em sua peça teatral História do olho: um conto de fadas pornô-noir. Os doze atuantes dirigidos por Janaina encenam de forma cômica e circense os episódios do romance de Bataille e intercalam a sua tradução cênica do texto com depoimentos sobre suas práticas sexuais a princípio dissidentes, desviantes, ou “perversas”, no vocabulário da psicanálise. Em seu ensaio, Patrick Pessoa mostra como a pedagogia sexual de Janaina Leite e Georges Bataille tem um cunho profundamente freudiano, na medida em que ambos aproximam a sexualidade dita perversa de brincadeiras infantis que não provocam escândalo em ninguém. Por que certas práticas sexuais provocariam escândalo ou censura?
Já em nossa seção principal, o artigo de Ângela Cristina Salgueiro Marques faz uma ampla revisão dos textos mais recentes de Jacques Rancière, concentrando-se no problema da invenção ficcional. Explorando os mais diversos exemplos artísticos do filósofo francês – dos quadros de Murillo até o cinema de Pedro Costa –, a autora ressalta o sentido político da fabulação que, longe de se apresentar como o mero contrário da realidade, pode ser entendida como a produção de novas formas de aparecimento e reconhecimento dos sujeitos.
Também associando estética e política, Guilherme Foscolo e Alessandra Barbosa Adão tratam de invenções feministas negras em “Why We Need Black-feminist Poetry”, propondo interpretá-las tanto como crítica do pensamento colonialista, como criação de mundos não-totalitários. Para tanto, o artigo analisa obras de artistas negras, com especial destaque à escritora Conceição Evaristo e seu conceito de “escrevivência”, relendo à sua luz algumas passagens do pensamento de Adorno de maneira original.
Em “O ponto cego de Madame Bovary”, Patrick Bange investiga o estilo indireto livre de Flaubert em seu célebre romance, mecanismo inovador que nos permite acompanhar intimamente a protagonista em sua derrocada, mas ao mesmo tempo oferece, a nós e ao próprio autor, um gancho que impede que nos percamos completamente nessa identificação. Ao examinar cuidadosamente algumas cenas do livro, Bange sugere, no entanto, um momento em que a própria narração alucina, criando um ponto cego que tensiona as usuais leituras desta engenhosa arquitetura narrativa.
O artigo de Frederico Coelho, por sua vez, parte de uma estranheza: o aparecimento do significante “madeira” tanto na descrição da personagem Felicité, do conto “Um coração simples”, de Gustave Flaubert, quanto da personagem Odradek, da narrativa curta “Preocupação de um pai de família”, de Franz Kafka. Ao desdobrar essa estranha coincidência na análise minuciosa dessas duas obras e valendo-se de um diálogo com trabalhos de Rancière e Roberto Schwarz, o autor coloca um dos problemas estéticos mais urgentes em nosso tempo: o do possível engajamento da ficção (ou da arte em geral) na tarefa de fazer ecoar a voz de quem nunca teve voz nem na literatura nem fora dela.
Desde o último ano, é recorrente entre os editores de periódicos acadêmicos a constatação de que a pandemia e a redução nos investimentos públicos vêm provocando efeitos nefastos sobre a produção científica brasileira. Não são raras as notícias de revistas que não conseguiram seguir adiante, vendo-se forçadas a fechar as portas após trajetórias de mais de uma década. Nós, desses Cadernos de estética aplicada, seguimos acreditando na pesquisa de alta qualidade em nosso país, e convidamos nossas leitoras e leitores a aproveitar os textos deste número 30 compartilhando a certeza de que tempos melhores virão.