Fazendo jus à proposta editorial da Revista Viso, fechamos este ano de 2024 trazendo 9 artigos de estética que se debruçam sobre uma rica gama de objetos artísticos: neste número 35, há ensaios que vão da poesia à arte digital, passando pela pintura, a performance, a dança, a música e o cinema, dos quais 7 compõem a Seção principal da Revista e outros 2 encontram-se divididos entre as seção especial de Traduções e a novíssima seção especial de Efemérides.
De origem anglófona, mas com os pés na Bahia, a tradução de uma conferência de Richard Eldridge inicia este número remontando àquela que é tida como uma das primeiras perguntas da filosofia da arte ocidental, que remete a Platão: como se justifica filosoficamente a poesia em relação às nossas práticas sociais? Debruçando-se sobre o caso específico da lírica, Eldridge passeia pela história da estética para dar um sentido bastante concreto a essa questão a partir de alguns impasses contemporâneos, explorando o sentido político que a lírica pode adquirir ao ampliar a vivência individual.
Na nova seção Efeméride, o ensaio “Contexto e melancolia” marca os dez anos da exposição “A obra está”, de Maria Palmeiro, com uma reflexão até certo ponto polêmica sobre o modernismo. Contrastando a exposição/performance das pinturas da artista carioca com modelos agora canônicos da arte moderna e contemporânea,, Otavio Leonidio, colaborador habitual da Viso, reconhece um trabalho de luto nessa obra de 2014, e mostra como ela aponta criticamente para certos pressupostos masculinistas do projeto modernista.
Abrindo a Seção principal, o artigo de Celina Lage discorre sobre a arte em novas mídias a partir do conceito de “mundos das artes”. Sua investigação de cunho bastante atual , a ponto de abordar o ainda pouco discutido fenômeno dos tokens não fungíveis (NFTs), problematiza o modo como a ampliação dos espaços de difusão e criação artísticas impacta a criação de novos objetos estéticos que muitas vezes não se parecem mais com “obras de arte” na acepção tradicional. A necessidade de reavaliação conceitual para a compreensão dessas novas dinâmicas conduz o artigo até mesmo a uma notável retomada do conceito heideggeriano de “espaçamento”, provando a vitalidade do diálogo entre a história da filosofia e os objetos estéticos concretos.
Notável, nos demais artigos que compõem o restante da Seção principal da revista, são as múltiplas ressonâncias da filosofia francesa contemporânea.
“Tempo presente e tempo mítico em Carlos Drummond de Andrade”, de Cristiano Perius, inicia também uma sequência de análises de obras brasileiras, levantando o problema do engajamento político da literatura. Mais do que objetos diretos de análise, as categorias filosóficas do debate entre Sartre e Merleau-Ponty em torno do problema do engagement são aqui mobilizadas pelo autor a partir de uma análise até certo ponto panorâmica da poesia do poeta mineiro, com especial ênfase sobre a passagem entre as coletâneas A rosa do povo e Claro enigma.
Movimentando-se igualmente por solo pátrio, Daniel Guerra trata da obra do coreógrafo Marcelo Evelin, Matadouro (2010). Desdobrando um outro sentido das possíveis relações entre estética e política, o autor analisa, mediante uma miríade de contribuições da filosofia, e especialmente de Jacques Rancière, o pensamento em torno da noção de comunidade artística que seria posto em obra por esta peça de dança contemporânea.
Fazendo a transição para o bloco final deste número, cujo tom dominante é por assim dizer deleuziano, Diego Marques aborda a obra de um artista brasileiro, aliás, brasileiríssimo: nosso Hermeto Pascoal. A máquina conceitual de Deleuze e Guattari, com seu conceito de bloco de sensações, é colocada em funcionamento não tanto para ser aplicada à “Música da lagoa” do multi-instrumentista, mas sim para, de maneira imanente, pensar e produzir pensamento com a sua arte. Haveria aí um desafio ao nome e à proposta editorial destes Cadernos de estética aplicada? Que cada um de nossos leitores possa decidir!
É no encontro entre Deleuze e a música que encontramos uma possível continuidade com o artigo seguinte, “Dos afetos do silêncio”, de Gustavo Rodrigues Penha. Partindo de uma apreciação do papel crescente que o silêncio adquire na música de compositores/as dos séculos XX e XXI, o autor examina as possibilidades diversificadas de expressão musical oferecidas por esse elemento assumido tradicionalmente apenas como pausa ou ausência.
Por fim, fechando este número com uma reflexão sobre o mistério de fechar os olhos, o artigo de Marta Mendes trata do cinema de Víctor Erice. Tomando como guia o mais recente filme do cineasta espanhol, Cerrar los ojos, mas demonstrando um conhecimento amplo de toda sua filmografia, a autora investiga processos de reconhecimento que desafiam os modelos centrados na consciência subjetiva e na memória, e mostra como Erice desenvolve, por meio dos recursos cinematográficos que mobiliza, um pensamento do impessoal.
Nós editores desejamos que, ao completar com este número 18 anos de idade, a Revista Viso: Cadernos de Estética Aplicada conquiste uma nova maturidade mas sem jamais abrir mão da alegria e do caráter experimental de seus anos de infância e adolescência.
Boa leitura!