Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 20, n° M.PRES (Special Edition: Modes of presence)

O dossiê “O irrepresentável no paradigma dos ‘modos de presença nos fenômenos estéticos’’ consiste no terceiro conjunto de artigos produzidos pelo grupo de pesquisa “Modos de presença nos fenômenos estéticos”1 (doravante MdP), criado em abril de 2020, no âmbito da Linha de Pesquisa “Estética e Filosofia da Arte” do PPG-Filosofia da UFMG. A proposta do grupo é explorar as possibilidades de abordagem dos fenômenos estéticos e artísticos a partir do paradigma dos “modos de presença”, estabelecido pela primeira vez no artigo de Rodrigo Duarte intitulado “Modos de presença nas manifestações estéticas contemporâneas”2 e desenvolvido nos ensaios “Do irrepresentável à perpresentação: revisitando os modos de presença nos fenômenos estéticos”3 e “Modos de presença revisitados (à guisa de um posfácio)”.4

Nesse paradigma, destacam-se quatro modalidades de presentificação, associadas aos campos específicos de nossa percepção estética dos fenômenos sensíveis: a audição relaciona-se ao modo da irrepresentação (ou do irrepresentável); a visão divide-se em dois âmbitos, a saber, o das imagens, constituindo o modo da apresentação, sendo o da escrita conexo ao campo da representação, observando-se que a linguagem discursiva existe também, de modo conatural e correlato, em conexão com a fala, que, por sua vez, reporta-se a um modo de sonoridade representativa, em constraste com a irrepresentatividade da sonoridade musical e dos seus conexos. O quarto modo de presença, que, a partir de 2023, foi intitulado “perpresentação”, constitui-se na confluência dos outros três modos, podendo ser considerado tanto um fenômeno ancestral na existência humana –historicamente associado a rituais atávicos em que sons, imagens e narrativas convergem –, quanto conexo aos mais recentes fenômenos multimediais, oriundos de recursos tecnológicos de última geração, nos quais confluem elementos visuais, sonoros e gráficos.

No que concerne à produção intelectual do MdP, registra-se que o primeiro conjunto de textos produzidos por esse grupo de pesquisa foi publicado no livro Modos de presença nos fenômenos estéticos5, constituído por sete artigos originais dos componentes do grupo, abrangendo, dentre outros, temas como a polimedialidade, a música, a dança e as artes visuais. Nesse volume consta também a republicação do texto de Rodrigo Duarte que gerou as discussões do grupo.6 A segunda leva de produções do MdP apareceu no dossiê “Modos de presença nos fenômenos estéticos”, no nº 38 (v. 19, 2025) da Revista Artefilosofia7, no qual constam oito textos originais que abordam temas como a relação dos modos de presença com a língua brasileira, com a semiótica goodmaniana, com a inteligência artificial generativa, com a dança, com o jazz, com a poesia contemporânea, com a ópera e com a moda.

Vale o registro de que o lançamento acadêmico de cada uma dessas publicações gerou eventos, em forma de jornadas, nos quais os autores dos textos expuseram as suas linhas gerais diante de um público acadêmico (presencial em ambos eventos e também online no relativo ao lançamento do livro). O registro em vídeo desses dois eventos se encontra no canal “TV Aisthesis” do YouTube.8

Este dossiê, a exemplo dos outros conjuntos de textos do MdP, busca estender o alcance do conceito de “modos de presença” a múltiplos domínios da estética, explorando o modo da irrepresentação em diferentes eixos temáticos. Partindo da música, Rodrigo Duarte examina a relação entre sonoridade, irrepresentável e horror, demonstrando que o som puro se inscreve no modo da irrepresentação por não remeter a nada além de si mesmo. A partir da oposição entre Apolo e Dionísio, Duarte revela a ambiguidade do elemento dionisíaco da música, que conjuga prazer e dor e vincula-se à violência originária. Dialogando com Adorno, sustenta que o horror de Auschwitz torna problemática a arte pós-Auschwitz, traçando um paralelo entre a impossibilidade de representar o trauma extremo e a irrepresentabilidade da sonoridade. Por fim, recorrendo a Flusser e Deleuze, Duarte sugere que a música pode expressar, de modo não conceitual, o horror que desafia toda representação discursiva. Também no âmbito da música, Rafael Sellamano e Willian Vasconcellos analisam, em seu artigo, a síncope no jazz como um elemento que tensiona a sobrerrepresentação típica da indústria cultural. Inspirados no debate entre Adorno e Walter Benjamin sobre o cinema, os autores argumentam que, assim como o choque e a montagem cinematográfica podem romper a percepção reificada, a síncope no jazz é capaz de instaurar uma crise interna na sobrerrepresentação. Desse modo, ela faz irromper o irrepresentável, vinculado à autonomia musical e ao horror histórico, e aponta para novas formas de experiência estética e social.

Tomando a dança como tema central, Ana Rita Nicoliello argumenta que, além do movimento físico que produz figuras gestuais (apresentáveis) e ritmos (irrepresentáveis), existe um movimento mais sutil e não redutível a deslocamento espacial, o qual opera como trânsito entre os modos de presença. Inspirada na leitura deleuziana de Kant, Nicoliello propõe compreender esses movimentos como variações intensivas, isto é, flutuações de grau das sensações que independem de alterações espaço-temporais extensivas. Tais variações permitem que diferentes modos de presença coexistam e alternem sua dominância na experiência estética, como ocorre na pantomima, na canção e na écfrase.

Situando a literatura no centro da análise, Mariana Freitas investiga a relação entre os dois sentidos do irrepresentável em Rodrigo Duarte, isto é, o sentido estrito (autorreferencialidade musical) e o sentido amplo (impossibilidade de refigurar o horror), a partir da poética de Mallarmé durante a Crise de Tournon. A autora argumenta que as inovações do poeta simbolista aproximam a literatura do irrepresentável estrito ao mesmo tempo que elaboram o sentido amplo (acaso, morte), acolhendo o irrepresentável como condição constitutiva do ato literário, tensão que encontra seu pleno desenvolvimento em Un coup de dés. Paralelamente, Wesley Sousa investiga a possibilidade de repensar forma e representação na literatura tardia de Machado de Assis a partir da estética do jovem Lukács em diálogo com a teoria dos modos de presença de Rodrigo Duarte. Souza argumenta que a ironia e o “narrador volúvel” de Memórias póstumas de Brás Cubas deslocam a representação ao irrepresentável, fazendo da impossibilidade de representar o desajuste entre liberalismo e escravidão o próprio gesto crítico machadiano.

Explorando o horror na literatura fantástica como eixo temático, Walter Menon investiga a irrepresentabilidade no horror lovecraftiano a partir da ontologia de Ludueña Romandini e da contingência absoluta de Meillassoux, argumentando que a ficção de Lovecraft opera como um laboratório de ontologia especulativa no qual o horror cósmico emerge da impossibilidade de reduzir o real a esquemas representacionais. O artigo problematiza os limites dessa ontologia, como o deslize para alegorias racistas e xenófobas, e conclui que a exterioridade radical fundamenta não apenas o horror, mas também uma ética e uma política do engajamento baseadas na memória e na abertura ao futuro. Por outro lado, Guilherme Foscolo propõe uma arqueologia das técnicas do horror como mídia, investigando como diferentes regimes de mediação produzem o medo a partir da gestão entre visível e invisível. Analisando mídias como rádio, cinema, videogames e realidade virtual, o autor identifica no horizonte contemporâneo uma estética da hipervisibilidade, na qual o horror emerge não do ocultamento, mas da exposição da própria materialidade da mídia, sugerindo que a irrepresentação pode ser pensada também como efeito dos regimes técnicos de produção da sensibilidade.

Expandindo a irrepresentação ao domínio da inteligência artificial, Luciana Nacif e Alice Alonso propõem o desdobramento do conceito em três eixos: a irrepresentação (natureza autorreferencial e probabilística, sem vínculo com o real); o irrepresentado (infraestruturas ocultas, extração mineral e assimetrias epistêmicas); e o irrepresentável (sofrimento humano, trabalho precário e cumplicidade com violações de direitos humanos). As autoras situam as imagens generativas não apenas como fenômenos estéticos ou técnicos, mas como síntese de uma condição cultural, econômica e política própria ao universo contemporâneo das imagens técnicas. Ainda no campo da inteligência artificial, Thobila Costa e Sousa e Anna Luiza Coli analisam a natureza ontológica das imagens hiper-realistas geradas por IA, propondo o termo “promptografia” em substituição a “fotografia de IA”, uma vez que tais imagens não possuem vínculo causal com um referente físico. As autoras argumentam que a promptografia constitui um caso peculiar de irrepresentação de natureza técnico-ontológica, pois sua ausência de referente decorre da lógica algorítmica de inferências estatísticas. Articulada ao conceito de superindústria do imaginário de Eugênio Bucci, a promptografia opera como simulacro autossuficiente que dispensa o real, tornando-se um instrumento central na modelagem contemporânea do imaginário social.

Na esfera das artes visuais, Laura Moosburger revisita o conceito de sublime em Lyotard, argumentando que ele enfatiza o espanto diante da presença sensível em sua gratuidade, isto é, o “simplesmente haver” do ser. Ao analisar a pintura de Barnett Newman, Moosburger demonstra que a cor e o traço podem operar de modo autorreferencial e não denotativo, aproximando-se da irrepresentação originalmente vinculada à música. Essa aproximação amplia a irrepresentação para certos fenômenos visuais, permitindo compreender o sublime lyotardiano como uma experiência de presença que antecede e escapa à partilha do sensível. Concomitantemente, Lara Carvalho Cipriano investiga duas formas de mobilização estética da fome no Brasil: a “estética da fome” do Cinema Novo, como afirmação cultural e resistência, e a “cosmética da fome”, como exploração espetacular do sofrimento. Apoiando-se em Rancière, a autora argumenta que esta segunda modalidade se aproxima do irrepresentável como excesso de presença que trai a singularidade do horror, transformando a vítima em elemento de uma segunda violência.

Referências bibliográficas

DUARTE, Rodrigo. “Do irrepresentável à perpresentação: revisitando os modos de presença nos fenômenos estéticos”. In: FENERICK, José Adriano et al. (orgs.). A história nas artes. Curitiba: Appris, 2023a.

_____. “Modos de presença nas manifestações estéticas contemporâneas”. In: HERMANN, Nadja; RAJOBAC, Raimundo (orgs.). A questão do estético: ensaios. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2019.

_____. “Modos de presença revisitados (à guisa de um posfácio)”. In: DUARTE, Rodrigo; ROCHA. Rízzia (orgs.). Modos de presença nos fenômenos estéticos. Belo Horizonte: Relicário, 2023b.

2 DUARTE, 2019, p. 117 et seq.
3 DUARTE, 2023a, p. 167 et seq.
4 DUARTE, 2023b, p. 151 et seq.
5 DUARTE; ROCHA, 2023b.
6 DUARTE; ROCHA, 2023b, p. 9 et seq.

 

A capa desta edição é baseada no filme
A bruxa de Blair, de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez