Desde sua fundação como disciplina filosófica propriamente dita, no século XVIII, a estética caracterizou-se como um campo em que podiam emergir questões que escapavam à filosofia dominante. Talvez tenha sido isso - e menos as perguntas canônicas sobre o que seria a arte ou quais seriam as condições de possibilidade do juízo estético - que garantiu a sobrevivência desta que Herder chamou de “a mais frutífera, a mais bela e em muitos casos a mais nova entre as ciências abstratas”. A possibilidade da experiência estética de reorganizar nossa relação com o mundo e sua inesgotável vocação mediadora continuam sendo um dos núcleos de sua potência filosófica. Sem compartilhar um programa comum ou uma orientação teórica única, os textos reunidos neste número da Revista Viso testemunham, cada um à sua maneira, a persistência dessa fecundidade. Com um tamanho adequado a um fim de primeiro semestre espremido entre a Copa de 2026 e as decisivas eleições brasileiras, esta edição não renuncia, todavia, à reconhecida variedade da revista, com sete artigos e uma tradução que vão da literatura ao cinema, de Brasília a Edo.
A tradução do artigo de Rodrigo Duarte originalmente publicado na Art and Design Review oferece um ponto de partida privilegiado para essa constelação, ao recolocar uma questão clássica da estética moderna: a relação entre autonomia da arte e sociedade. Confrontando, mas também mediando, as posições de Rancière e Shusterman, Duarte propõe, a partir de Adorno, sua própria noção de “construtos estético-sociais” — conceito conhecido de nossos/as leitores/as — buscando escapar tanto da separação absoluta entre arte e vida quanto da dissolução da especificidade estética nas práticas sociais.
É também por meio de um recuo crítico diante de algumas polarizações contemporâneas que o ensaio de Benjamim Picado interroga as formas correntes de compreender a experiência e o lugar atribuído ao corpo na pesquisa em comunicação. Recuperando a fenomenologia da percepção e teorias ecológicas da visão, o autor procura assim deslocar leituras redutoras da corporeidade.
A relação entre criação artística e transformação da experiência também está presente no interessantíssimo estudo sobre a noção de vidência em Gilles Deleuze, de Christian Vinci. Ao aproximar o estudo deleuziano da leitura do romantismo de Paul Rozenberg e da poesia de Arthur Rimbaud, o autor oferece uma perspectiva ainda pouco estudada sobre a relação entre estética e política no filósofo francês.
Fazendo jus à matéria nacional, Henry Burnett percorre o conto “As margens da alegria”, de Guimarães Rosa, para nele encontrar uma condensação simbólica das promessas e impasses do projeto moderno, em suas tonalidades especificamente brasileiras. Encontramos aí uma Brasília ao mesmo tempo distante e próxima, revelando como a literatura elabora experiências históricas que ultrapassam seus contextos imediatos.
Num salto histórico-filosófico no qual sobrevive, contudo, o caráter mediador e crítico da estética, o artigo seguinte de José Feres Sabino sobre Moritz retorna a esse ilustre desconhecido da história do surgimento da disciplina para discutir um conceito aparentemente lateral: aquele de ornamento. Lateral e no entanto central para definir a autonomia da arte, o conceito é experimentado em sua aplicação à psicologia, outra seara do pensamento de Moritz, revelando os intrincados diálogos da disciplina no século XVIII.
Em mais um texto que dialoga com Deleuze, agora em sua crítica à tradição psicanalítica, Lucas Nassif retoma o já clássico Elephant, de Gus Van Sant, para pensá-lo para além do regime da representação. Interpretando o Fort-Da numa chave positiva de produção de imagens e conceitos, o artigo reimagina relações entre violência, desejo e corpo na constituição de um outro regime de pensamento.
O trabalho seguinte desloca radicalmente nossos horizontes históricos e geográficos, sem contudo abandonar a produtividade do desejo mediado pela estética. Lançando-nos num campo relativamente inexplorado pela Revista Viso, o artigo de Rodney Ferreira nos apresenta a poética do escritor japonês Jun'ichirō Tanizaki, explorando as relações entre arte, sadismo e idealidade. A partir do conto “Tatuagem”, encontramos uma verdadeira incursão na estética japonesa ao longo de sua modernização.
Fechando este número, o artigo de Rodrigo Araújo relembra, antes de tudo, que Benjamin não foi esquecido, apesar da recente frequentação deleuziana da revista. Ao investigar as relações entre experimentação formal, engajamento político e atividade intelectual, o texto mostra que, para esse autor, a eficácia crítica da escrita não depende apenas do conteúdo que ela comunica, mas das formas pelas quais transforma suas próprias condições de produção e circulação.
Por trás da aparente justaposição de assuntos particulares, a diversidade dos objetos reunidos neste número testemunha a riqueza da pesquisa contemporânea em estética no Brasil. Mais do que isso, os trabalhos aqui publicados compartilham uma disposição comum: fazer da reflexão estética um exercício de mediação. Em vez de reafirmar dicotomias rígidas e fáceis, eles mostram que é precisamente no trabalho paciente das passagens e dos deslocamentos que a estética mantém a vivacidade daquele enunciado herderiano.
Elefante, de Gus van Sant.