Introdução
Antes mesmo de as tecnologias digitais atingirem o status que possuem hoje, importantes escritores do século XX imaginaram alguns futuros distópicos que parecem descrever aspectos atuais que as concernem. No senso comum, George Orwell continua sendo frequentemente apontado como um profeta. A onipresença das câmeras de vigilância, a sensação estranha de receber um anúncio guiado que parece destinado especificamente àquele usuário, a crise das fake news que amplia o discurso de ódio ideológico… Para muitos, o Grande Irmão parece mais real que nunca.
Há, certamente, pontos na obra de Orwell que se prestam a descrever aspectos do mundo atual. Mas há alguns elementos de nossa realidade social que não foram contemplados em sua obra, dos quais destaco dois. Primeiramente, a tecnologia hoje não está monopolizada por um Grande Irmão com uma forte ideologia política, tanto em termos de posse, quanto em termos de conteúdo. Mesmo que as promessas democráticas comumente atribuídas à internet sejam questionáveis em certa medida, é inegável que vivemos em uma realidade muito mais democrática que a de Winston Smith.1 Em segundo lugar, a vida de Winston era puro sofrimento e doutrinação. Em Oceânia, o país fictício de Orwell, buscava-se até mesmo uma maneira científica de eliminar o orgasmo, que era tido como uma inutilidade para o regime! A dominação dos indivíduos ou tornava-os fanáticos ideológicos, ou rebeldes sufocados, como Winston. Precisamente por isso, falta à distopia orwelliana um componente importante da nossa realidade social: o prazer constante na forma de entretenimento.
Celulares nas ruas, nas escolas e nos escritórios. Vídeos inesgotáveis e acelerados em todas as redes sociais, desde o TikTok até o Whatsapp. A gamificação como nova fórmula de trabalho para garantir maior produtividade. É de concordância da maioria das pessoas que a tecnologia se tornou um fator onipresente na sociedade e que, em suas múltiplas funcionalidades, ela nos oferece incontáveis formas de diversão. Hoje é possível tomar o café da manhã ouvindo um podcast divertido; tomar banho e se aprontar para o trabalho ouvindo música; seguir até o escritório no transporte público assistindo a vídeos de rápida duração; trabalhar com os olhos vidrados na tela e vendo alguns memes; voltar para casa conferindo todas as postagens e stories de seus amigos e também de desconhecidos, sempre distribuindo likes para todos; jantar assistindo Netflix, deitar na cama e, antes de dormir, ver mais algumas mensagens, postagens e ouvir mais alguma música, mesmo quando já estiver dormindo. Por mais que as grandes empresas por trás das redes e aplicativos que utilizamos detenham um poder e impacto grande sobre a cultura, nada disso que consumimos é coordenado por um partido supremo que escolhe o que você ouve, assiste e sente baseado em uma ideologia específica, como a superioridade ariana e o combate às raças inferiores, se pensarmos no regime nazista, uma inspiração para a distopia de Orwell. Ainda que, hoje, algumas pessoas se encontrem consumindo conteúdos ideológicos quase cem por cento do tempo, essa não é uma realidade que lhes foi infligida da mesma maneira que foi ao pobre Winston.
Além dos dispositivos tecnológicos em nossas mãos, a diversão e os estímulos de entretenimento estão em toda parte, o tempo todo. Podemos rir a qualquer momento. A felicidade está disponível para todos com acesso às telas. Da mesma maneira, com o acesso constante ao melhor do mundo digital, é possível saber tudo o que está acontecendo em qualquer lugar do mundo. É possível ouvir opiniões das mais variadas, bastando encontrar o endereço correto na vasta gama de links existentes. Informações sobre absolutamente tudo estão disponíveis a qualquer momento. Winston Smith nunca imaginaria isso!
É por tudo isso que precisamos fazer certos questionamentos: likes e diversão são o mesmo que felicidade? É possível morrer de rir? Somos capazes de compreender tanta informação em tão pouco tempo? O mero acesso a tanta coisa pode ser sinônimo de conhecimento e profundidade reflexiva?
Estas questões foram abordadas por diferentes pensadores, de diferentes maneiras, e refletem algumas das inquietações causadas por uma sociedade com tanta informação e tanta diversão presente nas telas. A proposta deste artigo é analisar dois efeitos dessa cultura do entretenimento na atualidade, partindo de distopias que os previram de diferentes formas. Começaremos por abordar como a onipresença do entretenimento causa uma trivialização do mundo, isto é, nos torna superficiais e incapazes de abordar seriamente assuntos de relevância política, social, educacional ou cultural. A obra Amusing Ourselves to Death, de Neil Postman, será uma referência importante nesta tarefa. Em um segundo momento, faremos uma análise das teses de Byung-Chul Han sobre a presença do entretenimento e do alto fluxo de informação na sociedade, apontando para como ambos contribuem para um regime de dominação em que, diante das telas, é impossível “fechar os olhos”.2
Distopias da dor x Distopias do prazer: a nova matrix huxleyana
Obras distópicas não se resumem aos grandes escritores do século passado. Diversas produções audiovisuais também embarcam em narrativas distópicas para passarem seus recados. E, tal como as obras literárias marcantes de outrora, muitas dessas produções captam o olhar do público, como a série Black Mirror, que atualmente conta com 6 temporadas disponíveis na Netflix.
Embora possamos descrever a distopia como um gênero literário-cinematográfico, os componentes de mundos distópicos podem variar demasiadamente. Contudo, a tecnologia como elemento essencial parece presente na grande maioria desses mundos imaginados. Uma obra marcante na virada para o segundo milênio instaurou uma visão que ainda hoje ronda o imaginário popular sobre o futuro das tecnologias inteligentes, talvez por sua proximidade com o mundo descrito por Orwell. Lançado em 1999, o filme Matrix começa por apresentar o espectador à vida do protagonista Neo dentro de um mundo virtual, do qual ele não está consciente de ser apenas uma simulação. Seu corpo físico está conectado com todo o aparato tecnológico que permite que ele viva dentro desse mundo imaterial.
Dentro da simulação virtual, a vida é um tanto orwelliana em certos aspectos: o protagonista vive em seu trabalho burocrático e com pouco espaço para o lazer. Isso é realçado pela escolha da direção de usar lentes verdes nas cenas em que se passam dentro da matrix, passando a ideia de que todos naquela simulação estão conformados e ajustados a um mesmo modelo de vida, com limitadas possibilidades e integrados em um regime que homogeniza as pessoas. Cada ser humano é como uma engrenagem na entediante rotina de trabalho que nos é apresentada pela perspectiva de Neo. Quando ele não se comporta como desejado pelas máquinas, representadas principalmente pelo antagonista Agente Smith, punições dolorosas lhe são aplicadas. É o que acontece na famosa cena do “besouro na barriga”.
Com o desenrolar da trama e a tomada de consciência do protagonista sobre o mundo virtual em que ele se encontra, vamos pouco a pouco entendendo como é a realidade por trás desse mundo orwelliano. Na matrix original, os humanos são escravos das máquinas e não há muito o que se possa fazer dentro da simulação a não ser trabalhar. Nessa incessante e cansativa rotina de trabalho, as pessoas que vivem na matrix não pensam no que há de estranho nesse mundo, não sentem que há algo errado. Neo está sozinho com suas inquietações até encontrar os outros personagens-chave.
Em 2021, um novo filme da franquia foi lançado: The Matrix: Resurrections. Aqui vemos uma nova distopia, com diferenças cruciais em relação ao primeiro filme. Somos apresentados novamente ao mundo dentro da matrix através de Neo, o protagonista que vive sem memória dos acontecimentos que se passaram na trilogia original. Na verdade, na nova simulação, Neo trabalha como um desenvolvedor de jogos, responsável por criar o famoso jogo chamado The Matrix. Todos os acontecimentos da trilogia original são reduzidos a uma história fictícia que se passa em um videogame que, por sua vez, é apenas um elemento de diversão dentro do novo mundo simulado. Dentro da nova matrix, as inquietações originais de Neo se tornaram pura diversão e entretenimento. Neo não possui mais uma rotina burocrática de trabalho em um escritório. Ele agora trabalha para a indústria do entretenimento. Se, no filme original, as lentes usadas nas cenas dentro do mundo virtual realçavam os tons esverdeados, no filme de 2021 a direção optou por lentes que realçam as cores. A nova matrix é colorida, reflete a abundância de estímulos tão comum aos jogos de computador, como o desenvolvido pelo protagonista. A verdadeira realidade por trás da simulação, o controle dominante das máquinas que mantém Neo naquele mundo, é tratada como uma hipótese engraçada, tão trivial quanto a história de um jogo de videogame. Em suma, o que impede Neo de perceber o que constitui sua realidade é o fato de que tudo à sua volta o leva ao puro entretenimento e trivialidade. Questionar o real é motivo de risada, é a loucura de um gamer que está levando seus jogos a sério demais.
A nova matrix ainda é orwelliana em muitos aspectos, afinal, ela se passa no mesmo mundo cinematográfico que a trilogia original. No entanto, o filme de 2021 traz elementos de uma outra distopia: a de Aldous Huxley. Neste sentido, o filme reforça uma hipótese que havia sido levantada muito mais diretamente no século passado, a saber, a hipótese de que Admirável mundo novo, de Huxley, é mais adequado para descrever o mundo ocidental do que 1984, de Orwell. Um dos responsáveis por analisar essa hipótese, exatamente nesses termos, foi Neil Postman (1931-2003), pensador e educador estadunidense. O título de seu livro sobre o assunto é bem direto quanto à sua posição: Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business.3 No prefácio, Postman diz:
Ao contrário do senso comum até entre os mais instruídos, Huxley e Orwell não profetizaram a mesma coisa. Orwell alerta que seremos dominados por uma opressão imposta externamente. Porém, na visão de Huxley nenhum Grande Irmão é necessário para privar as pessoas de sua autonomia, maturidade e história. Para ele, as pessoas passarão a amar sua opressão, a adorar as tecnologias que desabilitam suas capacidades de pensar.4
Postman escreve seu livro pensando na indústria do show business de sua época, movida principalmente pela televisão enquanto principal meio de transmissão de conteúdo voltado ao entretenimento. Em 2023, cabe a nós questionar: estamos ainda mais próximos da profecia de Huxley com a onipresença do mundo digital? Se a pergunta for endereçada às distopias de Matrix Resurrections e Black Mirror, certamente a resposta será afirmativa. A comparação de Postman vai além:
O que Orwell temia eram aqueles que iriam banir os livros. O que Huxley temia é que não houvesse mais motivo para banir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse ler um. Orwell temia aqueles que nos privariam de informação. Huxley temia aqueles que nos dariam tanta informação que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley temia que a verdade fosse afogada em um mar de irrelevância. Orwell temia que nos tornássemos uma cultura aprisionada. Huxley temia que nos tornássemos uma cultura trivial [...].5
Se a distopia de Orwell apresenta um mundo em que todas as informações são controladas e em acordo com o que diz o Grande Irmão, Postman aponta para o fato de que Huxley imagina um mundo cacofônico, com informação demais e sem um propósito ideológico. O que é relevante ou não é uma questão impossível de ser formulada em meio a tanta informação. Se na distopia de Orwell até mesmo o vocabulário era reduzido para que não se pudesse expor pensamentos complexos, Huxley imagina que ninguém perderia tempo com pensamentos complexos quando poderia estar se divertindo com “algum equivalente do cinema sensível, do orgião-espadão e da balatela centrífuga”.6
Talvez não tenhamos um cinema sensível como Huxley imaginou, mas o metaverso e a realidade virtual já estão disponíveis para uso e em constante desenvolvimento. Talvez não tenhamos as festas de orgias e a liberação sexual que o autor imaginou, mas a pornografia, em sentido amplo, nunca foi de tão fácil acesso como nas redes. Para Byung-Chul Han, vivemos mesmo em uma “sociedade pornográfica”.7 De forma geral, Postman está reforçando o que Huxley disse ao comparar sua obra com a de Orwell, a saber, que a dor não é a única forma de garantir o domínio sobre as pessoas, o prazer também é muito eficaz para isso:
A sociedade descrita em Admirável mundo novo é um estado mundial, em que a guerra foi eliminada e onde o primeiro objetivo dos governantes é evitar a todo custo que seus governados causem problemas. Eles conseguem isso (entre outros métodos) legalizando um certo grau de liberdade sexual (possibilitado pela abolição da família) que praticamente protege os habitantes do admirável mundo novo contra qualquer forma de tensão emocional destrutiva (ou criativa). Em 1984, o desejo de poder é satisfeito ao se infligir dor; em Admirável mundo novo, ao se infligir um prazer que não é muito menos humilhante.8
Huxley imaginou um mundo em que não haveria resistência ao poder por diversos motivos. A soma, a “droga da felicidade”, estava nas mãos de todos. A engenharia genética era responsável por gerar os cidadãos da forma mais adequada biologicamente àquela realidade. E, crucialmente, quem iria resistir com tanto sexo e diversão? A premissa huxleyana aqui é ainda mais profunda: não se trata de uma incapacidade de resistir, mas de uma incapacidade de sequer cogitar a oposição a um mundo tão prazeroso.
Postman, com toda a sua admiração a Huxley, faz um alerta para a sociedade estadunidense: o entretenimento está se tornando o fator dominante na cultura, sequestrando-a e trivializando-a. O autor estadunidense temia que a percepção da realidade das pessoas fosse moldada inteiramente pela televisão que, para ele, tinha como viés marcante na sociedade norte-americana o apelo ao entretenimento. Dito de outra forma, a televisão no Ocidente se tornou um meio voltado ao entretenimento e, assim, as coisas que são transmitidas por ela se adequam ao seu modelo de diversão rápida e dinâmica, por mais sérias que sejam. Alguém poderia se perguntar, qual é o problema em termos diversão através das televisões? Qual é o problema de assistir a programas como o “Big Brother”, que apesar do nome orwelliano tem uma premissa muito mais próxima do mundo de Huxley, e se divertir? Postman diria: “O problema não é que a televisão nos apresenta assuntos de entretenimento, mas que todos os assuntos são apresentados como assuntos de entretenimento [...]”.9
Don’t Look Up, filme de 2022 indicado ao Oscar, reflete essa afirmação na cena em que a personagem de Jennifer Lawrence grita, com ânimos exaltados, que “o planeta inteiro vai ser destruído” para os dois âncoras do programa televisivo, ao que a jornalista responde sorrindo, com a frase “é o que fazemos por aqui, deixamos as más notícias mais leves”. A cena foi comparada pelos brasileiros à situação real em que a bióloga Natalia Pasternak criticou ao vivo a cobertura do Jornal da Cultura acerca da pandemia e, mais especificamente, sobre como abordar “com leveza” uma pessoa que se recusava a usar máscara.10 Ambos os exemplos configuram ilustrações do que Postman estava apontando como trivialização da cultura e de assuntos exteriores ao entretenimento. Mas a preocupação do autor transcende os vieses da televisão, por isso sua referência à obra de Huxley. Entra em questão o exagero proposital característico de distopias: como seria uma sociedade em que tudo é trivial como na televisão? O próprio Huxley nos ajuda a responder, soando ainda mais distópico:
Uma sociedade cujos membros, em sua maioria, passam uma grande parte do tempo não no momento presente, não no aqui e agora nem no futuro próximo, mas em outro lugar, nos outros mundos irrelevantes dos esportes e das novelas, da mitologia e da fantasia metafísica, achará difícil resistir às invasões daqueles que querem manipulá-la e controlá-la.11
O escritor mostra todo o seu temor com a facilidade de manipular o ser humano quando tantas diversões estão disponíveis. Em suma, se as trivialidades do entretenimento captam tão facilmente a atenção das pessoas, é fácil fazer o que quiser quando elas estão vidradas nessas diversões. A preocupação que nos motiva a pensar a partir dessas distopias é o fato de que as telas que nos dão acesso ao mundo digital parecem estar em todo lugar, a viagem ao mundo virtual é cada vez mais fácil e pode ser feita a qualquer momento. A diversão está nas telas, e elas estão na palma da nossa mão. Nesse contexto, uma outra obra distópica se faz ainda mais relevante.
Ray Bradbury e as telas onipresentes
Em Fahrenheit 451, escrito por Ray Bradbury, vemos um mundo ainda mais rodeado de telas do que em Admirável mundo novo ou 1984. Huxley pensou em um mundo em que as diversões variavam desde o uso da droga soma, a liberdade sexual estimulada, o cinema sensível e outros brinquedos mais, além de todo o aparato científico que garantia o controle da população e do comportamento mediante o uso da engenharia genética. Bradbury, por outro lado, não foi tão futurista e não se aprofundou na ciência genética. Mas, mais do que Huxley, Bradbury deu ênfase à onipresença das telas e, junto delas, seu conteúdo trivial e alienante.
Na distopia de Bradbury, as casas possuem televisores em todas as paredes. É possível interagir com as famílias que aparecem nessas telas, tornando-as quase reais, como se estivessem de fato na sua frente. O conteúdo transmitido nesses televisores segue uma mesma fórmula em geral: breve, divertido e alienante. As pessoas passam horas interagindo com ele. Não há motivos para se preocupar com outra coisa nesse mundo. Exceto, é claro, com a praga do conhecimento.
É nesse ponto que entra em cena o protagonista do livro, o bombeiro Guy Montag. Mas, no mundo de Bradbury, os bombeiros possuem uma função muito diferente da que exercem em nossa sociedade. Eles queimam livros e, com eles, o conhecimento e as reflexões profundas. O autor imagina um mundo em que as pessoas são estimuladas a pensar apenas no que é mais superficial, naquilo que as telas transmitem com rapidez. Nesse mundo, os bombeiros são parte fundamental para garantir a paz. Em um dado momento do livro, o personagem Beatty, capitão do corpo de bombeiros e chefe de Montag, discursa sobre a importância de manter a paz às custas do conhecimento. Uma citação extensa de seu monólogo será de serventia para nossa discussão:
Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. [...] Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com “fatos” que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia e sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. [...] Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado.12
Representando os valores desse mundo distópico, Beatty deixa claro que acima de tudo se deve prezar pela felicidade, aqui entendida como o prazer de viver distraído por uma pluralidade de estímulos somado à superficialidade de não se aprofundar nas mais diversas nuances do real. Diferente do mundo de Orwell, em que a política contamina tudo com a ideologia do partido, aqui não há política para o cidadão comum. Os fatos que lhe interessam não são geopolíticos, mas triviais, como a safra do milho e outras perguntas características de jogos de quiz.13 O conhecimento que é valorizado neste mundo é reduzido a duas coisas. Primeiramente, é reduzido à capacidade de decorar aquilo que não muda, ou seja, a capacidade de recitar informações aleatórias e irrelevantes. Por isso, é importante fornecer informações e dados em fluxo constante e eliminar os livros, que não contém exatamente fatos, mas reflexões, questionamentos e narrativas complexas. Trata-se de eliminar o “terreno movediço”.
Por outro lado, um outro tipo de conhecimento também é estimulado nesse mundo: o conhecimento instrumental, a capacidade de montar e remontar uma televisão quantas vezes quiser. Em outras palavras, basta que o indivíduo seja capaz de manipular as tecnologias que o hipnotizam, mas nunca de questioná-las. Assim como Huxley, Bradbury imagina que detendo essa capacidade meramente instrumental as pessoas estarão prontas para se divertir, seja com os carros a jato, as drogas, as festas e, claro, com tudo aquilo que está nas telas. O modelo de excelência humana imaginado nessa distopia não é o leitor reflexivo e questionador, mas sim o usuário de tecnologias competente e alienado.
É precisamente a ênfase na onipresença das telas, em detrimento dos livros, que torna a distopia de Bradbury tão relevante. Há, na sua obra, uma espécie de caminho intermediário entre os mundos descritos por Orwell e Huxley. Em Fahrenheit 451, vemos um governo preocupado em limitar o conhecimento da população, tal como em 1984. Um governo que, como diria Postman, quer banir livros, literalmente queimando-os. Mas, ao mesmo tempo, vemos uma população que, em sua maioria, está em paz com isso, uma população alienada pelas diversões que a cercam, como imaginado em Admirável mundo novo. No caso das telas, a ideia de “cercar” as pessoas é mesmo literal, na medida em que as casas contêm paredes televisivas em todos os cômodos. Cabe a nós indagar: que aspectos da ficção de Bradbury ressoam com maior predominância hoje?
O declínio da literacia e a ampliação do uso de telas parece ter sido uma das grandes previsões do autor. Em um estudo realizado em 2021 pela Common Sense Media sobre pré-adolescentes e adolescentes estadunidenses, as conclusões apontam para um grande aumento no tempo de uso de telas:
Entre 2019 e 2021, a soma total de mídias de tela usadas a cada dia foi de 4h44min para 5h33min entre pré-adolescentes, e de 7h22min para 8h39min entre adolescentes. Este é um aumento muito mais rápido em apenas dois anos do que o que foi visto nos quatro anos anteriores.14
Esse aumento maior do que o esperado no período de dois anos é justificado pela pandemia de COVID-19, em que o uso de telas se tornou uma necessidade diária, seja para trabalho, estudos ou diversão. A pesquisa aponta os aumentos em diferentes tipos de uso das telas: assistindo vídeos, navegando por sites, usando redes sociais, jogando jogos de computador, uso de realidade virtual e outros. O que chama a atenção na pesquisa é que, em geral, todos esses tipos de uso apresentaram significativos aumentos no tempo que os jovens destinam a eles. Porém, houve uma atividade cujo tempo de tela não apresentou o mesmo aumento. Como Bradbury, Postman e Huxley imaginariam, essa atividade é a leitura:
Embora as crianças consumam mais mídias no geral depois da pandemia do que antes, uma forma de mídia não aumentou em uso: a leitura. [...] Em média, pré-adolescentes e adolescentes passam 34 minutos por dia lendo, incluindo livros, revistas, ebooks e artigos online (o que não é uma diferença estatisticamente significativa de 2019, quando a média era de 29 minutos por dia).15
As estatísticas apresentadas pela pesquisa deveriam, no mínimo, servir de alerta. A profecia de Bradbury parece tocar em um ponto importante que agora está sendo verificado. As telas nos prendem com mais facilidade do que livros e tomam progressivamente mais do nosso tempo. É claro, a pesquisa não está apontando o fim imediato da literacia, pois as estatísticas sobre o tempo de leitura de livros físicos não entram em questão aqui. Mas isso não deve amenizar o fato de que o tempo de telas está aumentando cada vez mais e, como a pesquisa sugere, esse tempo está sendo gasto com entretenimento na maioria dos casos.
O que essa e diversas pesquisas apontam é que está cada vez mais difícil desviar o olhar das telas. É preciso questionar para onde isso nos leva. Por exemplo, o que acontece com a educação quando os estudantes preferem estudar por vídeos do TikTok ao invés de livros didáticos? Não se trata de criticar professores e influenciadores que de fato produzem bons conteúdos educativos para as redes sociais, mas sim de indagar o que se perde quando a tela tem a primazia sobre todos os outros recursos. E o que vale para o âmbito educacional certamente pode ser questionado em outras áreas. Seja o trabalho, a diversão e o contato com pessoas próximas, tudo está cada vez mais dependente do uso de dispositivos digitais.
Não é coincidência que sempre que andamos nas ruas encontramos – ou esbarramos – no que Roberto Simanowski chama de Smartphone Zombies, ou smombies.16 Trata-se daquele indivíduo que está com o olhar tão preso à tela de seu smartphone que sua capacidade de se localizar no espaço e andar de forma atenta ficam altamente comprometidas. Andam esbarrando uns nos outros, frequentemente pisam em falso e, o que é pior, correm risco de atropelamento. Afinal, os smombies não estão apenas nas calçadas, mas também dirigem veículos. Em nota pessoal, admito que me refiro aos smombies sem preconceitos, pois, embora não dirija, eu me torno um deles com frequência pelas calçadas. Que tenhamos nos tornado uma figura que facilmente poderia ser fruto da imaginação de um escritor de distopias é uma consideração que deveria abrir nossos olhos, ou, nesse caso, fechá-los.
Byung-Chul Han: fechar os olhos na sociedade paliativa
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han tem se dedicado a refletir sobre e criticar aspectos da nossa sociedade, em geral sendo muito crítico aos aspectos vis do neoliberalismo e seu modelo psicopolítico de organização social. Por isso, o autor define nossa sociedade com vários nomes diferentes em suas variadas obras, cada uma voltada a discutir algum aspecto crucial dela. “Sociedade da transparência”, “Sociedade do cansaço”, “Sociedade de desempenho”, “Sociedade da aceleração” e muitos outros são apenas alguns exemplos de termos que o autor utiliza, alguns em títulos de livros, outros em títulos de capítulos.
Assim como Neil Postman, mas escrevendo no século XXI, Han também acredita que Admirável mundo novo seja mais adequado para descrever o presente do que 1984. Na sua visão, nosso mundo é, como era o imaginado por Huxley, uma sociedade paliativa. Trata-se de uma sociedade em que desejos e necessidades são satisfeitos imediatamente, em que as “pessoas ficam tontas pela curtição, consumo e divertimento”.17
Embora o trecho citado acima seja da obra Infocracia, Han escreveu um livro anterior a este, que leva o nome de Sociedade paliativa, onde encontramos importantes reflexões sobre o entretenimento constante e as telas onipresentes. A definição de “paliativo” geralmente se enquadra em variações das seguintes definições, apresentadas no dicionário Priberam da Língua Portuguesa, disponível de forma online:
adjetivo
1. Que serve para aliviar ou atenuar o sofrimento (ex.: cuidados paliativos).
2. Que não resolve, mas atenua ou adia um problema (ex.: medidas paliativas; solução paliativa).
substantivo masculino
3. Remédio, tratamento ou cuidado que não cura, mas mitiga a doença ou o sofrimento por ela causado.
4. Recurso para atenuar um mal ou adiar uma crise.
5. Disfarce.18
Trata-se de um medicamento ou tratamento que não cura uma doença, não resolve um problema e não dá fim definitivo ao sofrimento do enfermo. É, antes, um recurso para aliviar os sintomas temporariamente ou apenas adiar os problemas. Isso significa que o paciente não deve esperar que medicamentos paliativos resolvam a sua crise de saúde, apenas que lhe dêem uma sensação temporária de alívio.
De acordo com Han, vivemos em uma sociedade paliativa na medida em que negamos toda e qualquer função ou presença à dor. Por isso, podemos dizer não apenas que a sociedade é paliativa, mas também que vivemos em “uma sociedade da positividade, que busca se desonerar de toda forma de negatividade”.19 Tal como as distopias de Huxley e Bradbury apontavam, a negação da dor e do sofrimento não significam o mesmo que a ausência de dominação e sujeição política. Antes, o que as distopias analisadas nos mostram é que a negação da dor pode se tornar a maior fonte de dominação. É nesse sentido que Byung-Chul Han aponta para as características da dominação neoliberal e o uso que esse regime faz da positividade em amplos sentidos. Essa positividade se encontra nos muitos medicamentos paliativos que permitem ao sujeito se dedicar mais fielmente ao trabalho, eliminando as inconveniências que afetam os corpos e mentes humanos impedindo-os de trabalhar, como o sono, a ansiedade e alguns vírus. Há nesses medicamentos uma encarnação da famosa soma descrita por Huxley.
No entanto, não é somente a medicina, a farmacologia e os comprimidos que se enquadram na tendência paliativa de nossa sociedade. Para Han, as redes sociais configuram uma esfera em que um novo tipo de paliativo se desenvolve, espalhando suas características para todos os outros campos da vida comum:
A sociedade paliativa é, ademais, uma sociedade do curtir. Ela degenera em uma mania de curtição. Tudo é alisado até que provoque o bem-estar. O like é o signo, sim, o analgésico do presente. Ele domina não apenas as mídias sociais, mas todas as esferas da cultura. Nada deve provocar dor. Não apenas a arte, mas também a própria vida tem de ser instagramável, ou seja, livre de ângulos e cantos, de conflitos e contradições que poderiam provocar a dor.20
As redes sociais estimulam uma vivência em que somente o positivo pode ser visível, somente o agradável deve ser vivido e compartilhado. Não há espaço para o retrato e a experiência conjunta da dor. Sobretudo nas telas que cada vez mais mediam nossa relação com outras pessoas, devemos ter acesso apenas ao que é digno de um like, apenas ao que pode nos fazer rir momentaneamente ou que mobilize apenas afetos positivos.
Han parece perceber o mesmo problema que Postman denunciou a respeito da televisão, a saber, agora todas as esferas da cultura se submetem à lógica do like e à transmissão pelas redes. O que acontece com a política, a economia, a educação e tantas outras áreas que lidam diretamente com problemas sociais e questões pertencentes ao “terreno movediço” descrito por Bradbury? A comparação com a obra de Postman é feita pelo próprio Byung-Chul Han, dessa vez no livro Infocracia, quando o sul-coreano afirma que as mídias eletrônicas inviabilizam o discurso racional característico da cultura livresca, substituindo-o por uma “midiocracia”. Com esse termo, Han quer mostrar que algumas tendências que Postman identificou a partir da popularização da televisão se intensificaram, em especial, o fato de que “a política se submete à lógica das mídias de massa. O entretenimento determina a mediação de conteúdos políticos e deteriora a racionalidade”.21 Ao que parece, a trivialização do mundo se ampliou ainda mais. As telas continuam aumentando sua primazia como principais captadoras do olhar e, consequentemente, o conteúdo alienante feito para entretenimento espalha seu modo de ser para todas as outras áreas da cultura.
É com essa proliferação do entretenimento digital que o consumo se intensifica na sociedade. Imagens são feitas para serem consumidas, o conteúdo das redes é feito para prender o usuário, sem que seu olhar se desvie por um único segundo. É nesse sentido que não somos mais capazes de fechar os olhos, segundo Han.22 Contemplação, reflexão e compreensão, tarefas que demandam uma demora e quietude, tornam-se coisa do passado. Tal como os livros no mundo de Bradbury se tornam objetos proibidos para dar lugar às telas, essas tarefas se tornam obsoletas quando comparadas à proliferação de imagens e ao fluxo acelerado de informação.
Não é à toa que dessa trivialização emerge uma forma forte de dominação, a qual Byung-Chul Han se dedica impetuosamente a criticar. O regime neoliberal faz uso dessa positividade e superficialidade para produzir o “sujeito de desempenho”. Este não é como Winston Smith, que é forçado a trabalhar no ritmo do partido, sob os olhos do Grande Irmão através das teletelas e atravessado por uma série de proibições e repressões. Não é, também, como as pessoas em Admirável mundo novo, que podem gozar dos prazeres daquela sociedade o tempo todo, seja pela droga da felicidade, as orgias ou o cinema sensível. Ao invés de viver para a diversão, o sujeito do desempenho vive para o trabalho, de forma que a diversão é apenas mais um mecanismo para garantir sua produtividade:
Seja feliz é a nova fórmula da dominação. A positividade da felicidade reprime a negatividade da dor. [...] Automotivação e auto-otimização fazem o dispositivo de felicidade neoliberal muito eficiente, pois a dominação se exerce sem nenhum grande esforço. O submetido nem sequer tem consciência de sua submissão. Ele se supõe livre. Sem qualquer coação estranha, ele explora a si mesmo, crente de que, desse modo, ele se concretiza. A liberdade não é reprimida, mas explorada. Seja livre produz uma coação que é mais dominante do que seja obediente.23
Convencidos de que as mídias digitais e a possibilidade de compartilhar nossas vidas para o mundo são sinais de uma liberdade inédita na história, tornamo-nos cegos em relação ao tipo de dominação que essa suposta liberdade acarreta. O sujeito de desempenho neoliberal descrito por Han é um trabalhador compulsivo. Os medicamentos e comprimidos que usa para amenizar a dor e garantir maior produtividade são parte do mesmo fenômeno que o like, os analgésicos do presente. O sujeito de desempenho trabalha sem parar, ao passo que constantemente mantém-se distraído pelos paliativos do entretenimento. Quando se trata de colocar em questão o próprio regime que o mantém preso a essa rotina de trabalho e diversão constantes, esse sujeito é incapaz. Afinal, a dor que é necessária para ensejar uma crítica e uma reflexão sobre as relações sociais é expulsa de sua vida. Como Han explica: “A dor perde toda relação com o poder e com a dominação. Ela é despolitizada em uma circunstância médica”.24
Assim, a dor torna-se um problema individual, que deve ser resolvido o mais rápido possível para que o indivíduo retome a sua produtividade. Se é a dor do cansaço ou da ansiedade, algum comprimido pode resolver. Se é a dor do tédio ou da tristeza, nada como algumas horas perante as telas para distrair o sujeito desses incômodos. E quanto à participação política, tema que perpassa as distopias mais relevantes? O sujeito de desempenho se limita a descarregar o ódio, como os colegas de Winston, ou não quer participar de forma alguma, como os personagens de Fahrenheit 451? De certa forma, para Han, o sujeito do regime neoliberal se encontra no meio do caminho: descarrega afetos sem pudor, mas não se aprofunda nas nuances, deliberações e reflexões que deveriam compor a esfera política. Como a lógica das redes sociais se espalha para todas as searas da sociedade, a política passa a ser feita por meios bem representativos do mundo virtual, os memes: “A comunicação baseada em memes como contaminação viral dificulta o discurso racional ao mobilizar, mais do que nada, afetos. A guerra de memes indica que a comunicação digital privilegia cada vez mais o visual perante o textual”.25
Quando o entretenimento se torna a principal forma de comunicação, mesmo que de assuntos da mais alta ordem; quando a diversão se torna um mecanismo para garantir maior exploração; e quando a dor, o estímulo natural para a revolta e a mudança, se torna um mero inconveniente a ser resolvido, aí, então, deveríamos perceber que estamos localizados na interseção de várias distopias que nos alertam há muito tempo. E, em uma sociedade cada vez mais mediada digitalmente, é significativo que todo esse entretenimento, toda a comunicação, toda a diversão e distração cheguem até nós através de telas, através de imagens das quais não somos capazes de desviar o olhar. Ainda é possível fechar os olhos?
Conclusão
Carlos Orsi escreve no posfácio a Retorno ao Admirável mundo novo, obra em que Huxley comenta a sua grande distopia, um bom resumo dos problemas que tentei abordar nesse artigo. Vivemos em uma sociedade paliativa, pois a todo momento o regime de dominação busca “manter as pessoas felizes e dissolver eventuais episódios de angústia com a condição humana”, e para isso, “basta a hipnose dos cliques e likes, o tilintar dos caça-níqueis de atenção, a irmandade que nasce das narrativas compartilhadas e do ódio compartilhado, dirigido aos que vivem em outras versões da realidade”.26
Com esse artigo, quis apontar para a forma como essas diversões que nos mantêm supostamente felizes e na superfície da racionalidade são cada vez mais mediadas por telas e mídias digitais, de forma que o sequestro de nossa atenção se torna ainda mais frequente e recrudescido. O mundo digital é perfeito para transmitir conteúdo de entretenimento e alienante, tal como a televisão descrita por Postman. Assim, torna-se um problema o fato de que todos os assuntos que merecem maior profundidade de pensamento se reduzem a memes e discursos que descarregam afetos sem pudores.
Utilizando a referência a Byung-Chul Han, busquei também apontar para a forma como essa onipresença das diversões e distrações ajudam a fomentar um regime de dominação onde cada sujeito explora a si mesmo e se torna isolado dos demais. É nesse sentido que a sociedade paliativa, aquela que expulsa a dor, gera um regime de trabalho constante, impulsionado pela lógica dos medicamentos que eliminam os sintomas, mas não resolvem as crises. Assim, o entretenimento e a vida nas redes sociais são como um paliativo para a dor psíquica, distraindo o indivíduo da raiz dos problemas e deixando-o pronto para retomar o trabalho e a produtividade, para aprimorar o seu desempenho.
O que autores como Han e Postman nos mostram através de suas acertadas críticas sociais é que os temores para os quais algumas distopias marcantes nos alertaram estão se concretizando de certa forma. Nenhuma distopia busca ser um retrato certeiro e preciso da realidade, mas busca, a partir da hipérbole dos seus mundos imaginados, chamar a atenção para certos elementos da cultura corrente. Bradbury nos avisou sobre um mundo em que os livros representam um tipo de conhecimento, a capacidade de questionar, que se tornou obsoleto perante a invasão das telas e do entretenimento trivial. Huxley nos avisou sobre uma sociedade que busca a felicidade acima de qualquer coisa, de forma que tudo que quisermos pode nos ser dado imediatamente, desde que não queiramos nada além de prazer. A nova matrix mostra que a crítica da realidade se torna apenas mais um motivo de risada em um mundo em que tudo o que se faz é rir e se distrair.
Devemos lidar com o desafio de mergulhar mais fundo que a superfície, de fechar os olhos para reorientar nossos olhares em direção às questões que precisamos formular. Esse desafio torna-se cada vez mais difícil, na medida em que olhar para as telas e prender nossa atenção nas diversões é muito mais fácil e viciante. É difícil, também, pensar em quais caminhos podem nos levar à superação desse desafio. Mas acredito que as distopias aqui analisadas nos dão algumas pistas. É significativo que as menções ao terreno movediço da filosofia e da sociologia venham da boca do antagonista de Fahrenheit 451. Isso indica precisamente o que aquela sociedade distópica precisou combater para se instaurar da forma descrita por Bradbury. Talvez seja esse o nosso primeiro passo para superar o desafio: convidar as pessoas a sair momentaneamente da maré tranquila da superfície das telas para pisarmos juntos no terreno instável, perigoso e inquietante da reflexão filosófica.
Referências bibliográficas
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_____. Favor fechar os olhos: em busca de um outro tempo. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Editora Vozes, 2021a.
_____. Sociedade paliativa: a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Editora Vozes, 2021b.
_____. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Tradução de Gabriel Philipson. Petrópolis: Editora Vozes, 2022.
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Vidal de Oliveira. São Paulo: Globo, 2014.
_____. Retorno ao Admirável mundo novo. Tradução de Fábio Fernandes; Posfácio de Carlos Orsi. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2021.
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ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: A luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
Filmes e vídeos citados
BLACK MIRROR. Criação de Charlie Brooker. Reino Unido: Channel 4, 2011-2014. Internacional: Netflix, 2016-.
JORNALISMO TV CULTURA. “Natalia Pasternak demonstra irritação com pessoas que ainda não usam máscara: ‘Tem gente morrendo’”. YouTube, publicado em 27/12/2020. 54 segundos. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=0nZFVZnolD8>. Acesso em 04/06/2024.
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WACHOWSKI, Lana. The Matrix: Ressurrections. Warner Bros/Village Roadshow/Venus Castina: EUA, 2023.
WACHOWSKI, Lana; WACHOWSKI, Andy. The Matrix. Warner Bros/Village Roadshow: EUA/Austrália, 1999.