Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 19, n° 37 (jul-dez/2025)

A Revista Viso: Cadernos de Estética Aplicada começou a nascer nos idos de 2006 de um sonho compartilhado por dois amigos, Patrick Pessoa e Vladimir Vieira, então doutorandos em filosofia no IFCS da UFRJ – amigos que ainda não tinham como saber que poucos anos depois, em 2010, por força da sorte, do Reuni e do segundo governo Lula, se tornariam colegas do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFF, que ambos ajudaram a fundar. Gestado em incontáveis mesas de bar, o nosso sonho era ver os pesquisadores brasileiros dedicados à Estética e à Filosofia da Arte abrirem mão da pseudo-segurança de quem passa a vida apenas comentando de forma pretensamente objetiva, distanciada e imparcial os mesmos textos e autores da tradição estética europeia (especialmente Kant, Schiller, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger, Benjamin, Adorno, Deleuze e Rancière) e assumirem o risco e o prazer de lançarem-se em uma interpretação pessoal, filosófica e poética de objetos artísticos específicos, de preferência contemporâneos e, na melhor das hipóteses, também brasileiros. Depois de dezenove anos (2007-2025) fazendo e refazendo esse convite de forma ininterrupta – este convite constitui a principal originalidade do perfil editorial destes Cadernos de Estética Aplicada! – e de 37 números editados e lançados sem qualquer patrocínio, a Viso acabou por se tornar uma das principais referências nacionais na área de Estética, e alcançou a nota A2 no Qualis da CAPES após ter fomentado a publicação de centenas de ensaios dedicados a uma abordagem filosófica das mais distintas formas de arte: literatura, teatro, cinema, poesia, artes visuais, arquitetura, performance e outras.

Eu, Patrick Pessoa, tenho imenso orgulho deste trabalho que realizei por 19 anos em parceria com meu amigo Vladimir Vieira, a quem agradeço infinitamente por tudo que fizemos e vivemos juntos, assim como também agradeço a Pedro Franceschini e a Cintia Vieira, que se juntaram a nós no corpo editorial da Viso em 2022. Depois de quase duas décadas escrevendo os editoriais da Revista, já que o Vlad sempre foi o responsável pelo design de cada número, pela parte informática e por colocar a revista no ar, este é o meu editorial de despedida. Com um misto de saudade antecipada e de alegria por tudo que realizamos juntos nessa longa caminhada, desejo do fundo do coração vida longa à Viso: Cadernos de Estética Aplicada e espero que, nas novas aventuras que me esperam depois desta aposentadoria como editor de periódicos acadêmicos, eu possa realizar outras coisas tão importantes quanto esta Revista, cujo futuro continuarei acompanhando como tantos de nossos leitores assíduos.

Neste meu último número como editor, mais fino do que o habitual por conta do gigantismo do número anterior, que coligiu as mais de 500 páginas escritas pelos membros do GT de Estética da ANPOF, contamos com seis ensaios marcados por aquela boa e velha diversidade que caracteriza todos os números da Viso desde a sua fundação.

Caio Souto, professor da UFAM, propõe uma leitura filosófica do projeto Vídeo nas aldeias, que há mais de 25 anos vem formando diversos cineastas indígenas a partir de oficinas ministradas nas próprias aldeias. “Em diálogo com Pasolini (documentário como discurso indireto livre), Jean Rouch (fabulação performativa) e Glauber Rocha (cinema político), argumenta-se que o Vídeo nas aldeias elabora uma política da imagem em que o cinema se torna força de resistência, inscrição coletiva e invenção de povos que faltam”, afirma o próprio autor com relação à tese central de seu texto.

Daniela Cunha Blanco, por sua vez, aborda um dos textos mais lidos e comentados de Walter Benjamin, “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Só que, em vez de simplesmente reproduzir as principais teses benjaminianas sobre o modo como uma mudança nas formas contemporâneas de percepção transformou o modo como experimentamos e produzimos obras de arte, a autora se vale da obra de Jacques Rancière para mostrar os limites e problemas da abordagem materialista de Benjamin, contribuindo portanto para dessacralizar e desauratizar a obra benjaminiana – o que aliás tem tudo a ver com o próprio espírito de sua filosofia.

Ainda no campo de um pensamento sobre ou a partir do cinema, Ricardo Lessa Filho, professor da UFRGS, em estrita obediência ao perfil editorial da Viso e à noção de estética aplicada, faz uma densa análise de um objeto estético específico: o curta-metragem Solmatalua, de Rodrigo Ribeiro-Andrade. Articulando sua leitura do filme a partir dos conceitos de “fabulação crítica”, de Saidiya Hartman, e de “mapa da porta do não retorno”, de Dénetèm Bona, o autor revela o quanto este exemplar de um “cinema de poesia”, na expressão de Pasolini, pode ser lido como um “ato de criação” capaz de gerar um outro porvir para os povos afrodiaspóricos.

O quarto texto que integra esta edição, de autoria de Wudson Marcos Sena de Lima, realiza gesto similar ao realizado no ensaio de Daniela Cunha Blanco contrapondo Rancière a Benjamin. Em vez de simplesmente reproduzir as célebres teses de Peter Bürger sobre as vanguardas históricas como aparecem em sua Teoria da vanguarda, o autor se pergunta por que Bürger deixou de fora de suas análises seminais sobre as vanguardas uma investigação sobre o futurismo italiano. Embora o autor sublinhe que essa “lacuna” da Teoria da vanguarda tem claras motivações políticas, já que a proximidade entre Marinetti e Mussolini certamente terá afastado um pensador de esquerda como Bürger de um mergulho mais radical em uma vanguarda belicista e reacionária como o futurismo, seu ensaio tem a virtude de nos fazer repensar o modo como a superação da diferença entre vida e arte almejada pelas vanguardas históricas analisadas por Bürger (especialmente o dadaísmo e o surrealismo) não necessariamente redunda em progresso social.

O texto de Verlaine de Freitas, professor da UFMG, é uma análise bastante erudita e rica em referências de “O ensaio como forma”, texto seminal de Theodor Adorno sobre o ensaio como modo privilegiado de apresentação do pensamento filosófico na contemporaneidade. Segundo as próprias palavras de seu autor, seu texto é uma tentativa de mostrar “como a dialética negativa adorniana apoia-se no fragmento, no equívoco e no arbitrário para ultrapassar os dois polos de falsidade usualmente vistos no plano conceitual-filosófico, quais sejam: o particular em-si e por-si e a abstração generalizadora do pensamento classificatório.”

Finalmente, é uma alegria especial para mim me despedir da editoria da Viso com a publicação do texto “Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro: táticas performáticas para descolonizar a academia”, de Débora Pazzeto, professora da UDESC. Seu ensaio é o relato de uma palestra-performance realizada por ela e um grupo de artistas-pesquisadores que propõe um experimento radical: convidar um professor branco, ironicamente especializado em pensamento decolonial, a ficar calado durante o tempo regulamentar de sua palestra. O pano de fundo dessa “fala interrompida” é o interessantíssimo conceito de “performatividade da academia”, cunhado por Débora Pazzeto em analogia com o conceito de “performatividade de gênero” elaborado por Judith Butler. Como explica a própria Debora, “a performatividade da academia — que, assim como o gênero, é uma estilização do corpo e da linguagem prescrita por instituições coloniais — inclui um extenso conjunto de regras tácitas sobre como os corpos devem se comportar no ambiente acadêmico e quais são as linguagens escritas e orais aceitas na produção de conhecimento. Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro é um campo de experimentação de saberes que se constroem a partir da recusa de tais normas e hierarquias e por meio de sua teatralização paródica.”

Espero que, no futuro, a Viso continue aberta a todas as experimentações e siga fomentando, a seu próprio modo, uma problematização da “performatividade da academia”, já que foi justamente o nosso descontentamento com certos protocolos para a produção de conhecimento na área de Estética e Filosofia da Arte no Brasil que tornaram urgente para mim e para Vladimir Vieira e fundação da Viso.

Obrigado, meu amigo Vlad, por essa beleza de viagem!

Boa leitura para todes!

A capa desta edição é baseada no filme
Um homem com uma câmera, de Dziga Vertov.