Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro: Táticas performáticas para descolonizar a academia
Debora Pazetto

13h25. O auditório está vazio. Chego com o videomaker e duas artistas da turma de Estética e Filosofia da Arte — abordagens descoloniais. Carregamos uma bandeja com 3 garrafas de café, copinhos, equipamentos de vídeo e som, dois microfones e um copo d’água chique para o palestrante. Na porta do auditório está o cartaz bonito feito pela Georgia: um pedaço da América invertida do Torres Garcia editado com texturas do Illustrator na parte superior e, na parte inferior, que imita um papel rasgado, as informações: conferência EXPERIÊNCIAS DECOLONIAIS / Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro / Mediação: Debora Pazetto / 12/05/2023 - TERÇA - 14H / Auditório BAM / as logos da UDESC e do Centro de Artes. Cópias coloridas desse cartaz foram espalhadas pelas universidades e centros culturais da cidade na semana anterior.

13h30. Sinto o corpo vibrar entre o nervosismo e a empolgação. A turma vai chegando aos poucos. É uma turma mista da pós-graduação em Artes Visuais. Olho breve e intensamente nos olhos de cada participante confirmando a mesma vibração. Compreendemos tacitamente que devemos entrar em estado de atenção, presença e sintonia. Somos 17 artistas-pesquisadores. Escrevemos nossas falas com cuidado ao longo do semestre. Elas destilam profundamente nossas experiências pessoais. Memorizamos nossas falas e a ordem. Estudamos a postura, a entonação, a disposição dos corpos no auditório, as possíveis linhas de fuga caso surja algum imprevisto.

13h43. Chega o professor Walter, ou melhor, o homem que aceitou passar-se pelo professor Walter. Não o conheço. Ele é ideal: masculino, branco, magro, barba e cabelo perfeitamente aparados, camisa preta de gola rolê sob um blazer grafite impecável, sapatos lustrados, óculos de aro quadrado e grosso. O protótipo perfeito do Prof. Dr. Conferencista da Academia. Eu me apresento e lhe agradeço por aceitar o papel. Comento que, ainda que seja performance, habitar o Walter pode ser um lugar desconfortável, e que admiro pessoas capazes de sustentar o desconforto. Ele se chama Paolo, arquiteto. Há um mês, este era nosso maior problema: encontrar um homem cis hétero branco que aceite ficar em silêncio durante 40 minutos. A Ruth encontrou.

13h55. O público começa a chegar e vai ocupando as cadeiras do auditório, misturando-se à turma que já está sentada, concentrada, passando-se por público. Eu, no papel de mediadora, ajusto o microfone, ofereço café, aviso que logo começaremos, sirvo água ao professor Walter já posicionado na mesa.

14h05. Sento-me à mesa. O auditório está quase cheio. Sorrio para o público e abro a voz:

Gostaria de começar agradecendo imensamente ao professor doutor Walter Boaventura de Castro, que teve a gentileza de aceitar o nosso convite. Muito obrigada, professor, em nome do Ceart e de toda a comunidade acadêmica.

Peço licença para ler um pequeno resumo do currículo do nosso convidado.

O doutor Walter Boaventura de Castro Weiss é professor titular da Universidade do Minho, em Portugal, também é Global Legal Scholar na Stanford University e professor visitante na Université de la Sorbonne. Especialista em Estudos Decoloniais, questões de gênero, raça e classe, interculturalidade, territórios fronteiriços, pós-antropocentrismo, epistemologias do Sul Global e etnologia indígena, com ênfase em estudos sobre xamanismo. Suas pesquisas e publicações exploram a descolonização do conhecimento e a reinvenção de paradigmas filosóficos a partir de olhares nativos e da experiência viva com as interseccionalidades em geral.

Ele é Diretor do Centro de Estudos Decoloniais Avançados, Coordenador do Observatório Permanente do Pensamento Latino-americano, vice-presidente da Internacional Association of Decolonial Academics e editor chefe da revista Contemporary Crisis. Ministrou palestras nas universidades mais renomadas da Europa e dos Estados Unidos. Publicou incontáveis artigos em periódicos científicos, que estão entre as principais referências teóricas da decolonialidade.

Entre seus livros mais importantes, destaca-se o Seven Steps to Decolonize Knowledge. Publicado originalmente em inglês e traduzido para o alemão, o francês e o italiano, o livro recebeu o prêmio Amazon Best Decolonial Book Awards em 2021.

É com muita gratidão que a UDESC recebe o excelentíssimo professor doutor, cujo vasto conhecimento sobre teorias decoloniais certamente tem muito a contribuir com o avanço do nosso pensamento.1

Quando estou prestes a entregar o microfone ao conferencista, a primeira interrupção acontece. Um dos pesquisadores da turma, Érico, uruguaio de Rio Branco, levanta a mão e, no mais primoroso portunhol, pede para trazer um apontamento antes de a palestra começar. Notando o uso do termo “latino-americano” no currículo do professor, questiona o uso dessas palavras, invocando debates conceituais históricos: Salazar Bondy e Leopoldo Zea nas décadas de 1960 e 70, o desenvolvimento da filosofia da Libertação com Enrique Dussel nos anos 1980 e, principalmente, a proposta mais recente de Julio Cabrera, que, em seu artigo intitulado “Esbozo de una introducción al pensamiento desde ‘America Latina’”, propõe um programa de “pasos efectivos para la escritura de un programa de introducción al pensamiento-acción desde la gran comarca invadida”, alterando os termos “filosofia” e “América Latina” por serem ambos carregados de pressupostos eurocêntricos.2

Érico habla por cinco minutos sobre o que seria essa suposta latinidade desde seu território de origem, fronteiriço, até que é interrompido por outro artista da turma misturado à plateia. Pandini concorda efusivamente com seu comentário, mas sublinha a dificuldade que o brasileiro tem de se reconhecer como latino. Conta que ele mesmo só entendeu que era latino quando foi trabalhar nos Estados Unidos, lavando pratos em um restaurante. Mesmo sendo branco, era apontado como latino junto a seus colegas venezuelanos e bolivianos. Pandini segue o argumento citando Silviano Santiago e Gloria Anzaldúa para comentar essa etapa de sua vida, até que é interrompido por Georgia.

A plateia olha desconcertada para mim. Eu olho para Walter. Walter olha para a mesa. A plateia olha para Walter. Eu olho para Georgia. A plateia olha para Georgia. Walter olha para a mesa. Georgia olha para a plateia e segue falando, um pouco indignada, sobre como é difícil trabalhar com arte nessa situação, equilibrando-se precariamente nesse entrelugar da América Latina, estudando teórico europeu na universidade enquanto se vive a realidade material do Brasil, e pior ainda sendo artista mulher nordestina morando em Santa Catarina, o Estado mais fascista do país. “A universidade tenta e tenta — diz que tenta — se descolonizar, mas até nessa tentativa é assim: tão colonizada”. Começa um burburinho na plateia. Duas pessoas retiram-se do auditório aborrecidas com a falta de decoro, de organização, de respeito ao evento acadêmico.

Depois de alguns minutos, Aline toma a palavra para tentar articular uma solução aos dilemas listados por Georgia. Ela é uma artista da dança e, a partir de sua experiência com preparação corporal, defende que a descolonização é um processo que precisa ser incorporado, para além dos textos acadêmicos. Arremata sua fala citando um texto em que Jota Mombaça escreve sobre reapropriação subalterna de técnicas e a necessidade de “saber reconhecer os modos como cada corpo elabora sua própria capacidade de autodefesa”.3 Juliana a interrompe e faz uma fala curta. E depois Matheus, uma fala mais longa.

Mais burburinhos na plateia. As pessoas giram suas cabeças sucessivamente, mirando ora para quem toma a palavra, ora para Walter, que mantém um robusto silêncio, ora para mim, a mediadora que não está movendo um único dedo para retomar o controle do auditório e dar prosseguimento à conferência. Percebo esse movimento dos corpos com interesse. Normalmente, o corpo que vai assistir a uma palestra, no mundo da universidade, se resume a uma frontalidade quase bidimensional, um par de olhos quase estáticos, um campo de vista e pensamento que o liga quase linearmente ao palestrante. Ali não: os corpos se torciam para todas as direções, esticavam, inclinavam, cochichavam, revelavam os desconfortos na testa, na boca, nas mãos, olhavam para trás e para os lados, eram volumes móveis e expressivos vendo e sendo vistos.

Vitória interrompe a digressão de Matheus sobre a importância de estudar mais Ailton Krenak e Kopenawa do que Deleuze de forma brusca: “gente, me desculpa, mas eu vim aqui pra ouvir o palestrante!” – toda a plateia olha para ela aliviada e imediatamente para mim. Pausa. Ela prossegue:

Mas agora que todo mundo tá falando, quero falar uma coisa também. Essa semana eu vi uma notícia em uma dessas redes sociais, não lembro qual, de artistas brasileiros que foram censurados em Portugal por causa de uma obra que denunciava a escravidão. Dori Nigro e Paulo Pinto, o nome deles, e a obra se chamava Adoçar a alma para o inferno III. O trabalho falava também das contradições da filantropia, que não deixa de ser um subproduto da exploração, né? E eles faziam alusões a um tal conde de Ferreira, que eu nunca tinha ouvido falar, mas parece que é um filantropo famoso, só que ele também tinha ligações com o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Não citaram o conde nominalmente, mas uma das áreas da instalação tinha espelhos com reflexões sobre a vida dele. Então: a obra foi censurada no dia em que foi inaugurada! Aí eu tô trazendo isso porque fiquei aqui pensando, com todo respeito, viu, senhor professor doutor, se isso de você vir aqui ajudar a gente a descolonizar o pensamento não é um tipo de filantropia nesse sentido, sabe?4

A Irma, que é atriz, migrante e mãe solo, com o filho de quatro anos no colo, dá uma risada e quase grita. “É, doutor! Vai fazer filantropia lá em casa, cuidar do meu filho, fazer uma feira, passar uma vassoura, pra eu poder ter um tempinho pra ler uns textos decoloniais”. Sustentando o tom provocador, ela emenda uma fala emocionante sobre a descolonização que ocorre no cotidiano, na forma de conversar com as pessoas, de limpar a casa, na forma de conhecer o próprio bairro, de alimentar-se, locomover-se, de dividir o cuidado das crianças e dos idosos.

As interrupções continuam. Gabriel, Jaci, Ariane, Ruth. Uma parte da plateia já deduziu: tudo isso foi combinado antes, é uma cena, é teatro. Percebo pelos sorrisos cúmplices em minha direção. Outra parte, menor, retirou-se indignada. A maioria apenas prossegue interessadíssima no bafão, que vai ficando cada vez mais intenso, às vezes com ataques diretos ao Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro. A Dalva, por fim, coloca mais lenha na fogueira criando uma ficção em que o professor teria publicado um artigo no qual fez uma crítica superficial a Djamila Ribeiro. Ela se levanta da cadeira, sacudindo o pequeno livro da Djamila, Lugar de fala, e critica a crítica fictícia enquanto ela própria, mulher negra e periférica, tece outro tipo de crítica à autora a partir de Lélia Gonzalez. A fala vai ficando cada vez mais inflamada até que Dalva arremessa o livro na direção do professor.

Pausa.

[o livro não o acerta]

Pausa.

Silêncio tenso.

Trago lentamente o microfone até minha boca. Todo o auditório me olha com expectativa.

Pausa.

E digo: “Gostaria de agradecer por esta conferência tão necessária, tão importante. Obrigada, professor, por essa oportunidade.”

14h56. Aplausos fervorosos. Aplausos risonhos. Aplausos erráticos. Aplausos perplexos.


Fotografias: Diórgenes Pandini. Registros de Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro, 12/05/2023.

Artistas que participaram da primeira edição da palestra-performance
Gabriel Villas
Irma Brown
Dalva França de Assis
Matheus Solar
Juliana Silva
Victoria Beatriz
Ariane Oliveira
Diórgenes Pandini
Érico Machado
Ruth Kipper
Aline Emídio

A disciplina Estética e Filosofia da Arte – abordagens descoloniais5, que ministro há 5 anos no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UDESC, é um laboratório onde tentamos experimentar o pensamento com conceitos filosóficos do nosso território: antropofagia, entrelugar, marginalidade, amefricanidade, perspectivismo indígena, contra-colonização, entre outros. Também tentamos usar esses conceitos como forma de situar — ou melhor, sitiar — os principais conceitos e discussões da Estética / Filosofia da Arte europeia para rastrear cadeias de influência e possibilidades de descolonização. Nossas aulas são conversas, em círculo, onde discutimos textos, trabalhos de arte e compartilhamos percepções. Com frequência, nas turmas, surge um comentário que considero profundamente estético: “o texto fundamenta um pensamento decolonial, mas o formato é bem colonial”. Em geral, esse comentário refere-se àquela linguagem acadêmica de sempre, inacessível para a imensa maioria da população, publicada nos mais renomados periódicos científicos dos Centre of Latin American Studies. É claro que essa percepção não se replica quando estudamos os textos de Lélia Gonzalez, Nêgo Bispo, Glória Anzaldúa, Hija de Perra, Racionais MC’s, Ailton Krenak e Davi Kopenawa. E isso diz muito sobre a academia. É preciso estar completamente fora dela ou ser quase alienígena dentro dela para conseguir romper com um padrão bastante específico de formatação do conhecimento.

Tenho chamado esse padrão específico de formatação do conhecimento de “performatividade da academia”, em analogia com o conceito de performatividade de gênero elaborado por Judith Butler. A performatividade de gênero é a estilização do corpo e da linguagem prescrita pelo sistema sexo-gênero cisheteronormativo colonial, o qual, embora seja relativamente recente e local, se globaliza e se apresenta como natural, normal, universal, eterno.6 Essa estilização é jurídica, documental, pedagógica, espacial, discursiva e totalmente estética. O gênero é marcado e identificado socialmente por meio de roupas, gestos, entonações, posições [para quem ainda duvida que gênero é uma questão para a área de Estética e Filosofia da Arte, fica esta nota: problemas de gênero são problemas de cores, formas, tamanhos, sons, palavras e coreografias corporais].

Analogamente, a performatividade da academia é uma estilização do corpo e da linguagem prescrita por uma instituição colonial. Ela inclui um extenso conjunto de regras tácitas sobre como devemos nos comportar no ambiente acadêmico e quais são as linguagens escritas e orais aceitas na produção de conhecimento. Assim como o gênero, a performatividade da academia envolve roupas, gestos, entonações e posições. Não é com qualquer tipo de roupa que uma pessoa pode dar aula, ir a um congresso ou ministrar uma conferência [vide o drama em torno do caso de Tertuliana Lustosa]. Da mesma forma, a gestualidade deve ser contida, elegante, refinada; deve-se caminhar em vez de correr e sentar-se corretamente nas cadeiras. Da pré-escola ao doutorado, o corpo acadêmico vai se tornando cada vez mais domesticado. A oralidade acadêmica também é muito específica: a entonação deve revelar a segurança de quem é sujeito, e não objeto, do saber; as frases devem ser complexas, cultas, eruditas; gírias e obscenidades devem ser evitadas; os sotaques e as marcas da oralidade espontânea devem ser camuflados. Na escrita, a performatividade acadêmica é ainda mais nítida. Está na imposição de uma linguagem objetiva e neutra, que evita o uso da primeira pessoa do singular — como se fosse possível ocultar o sujeito que está escrevendo o texto atrás de uma voz desincorporada — e investe em frases universalizantes e conceitos que parecem imparciais. Está na necessidade inflexível das citações, de preferência com bibliografia primária e secundária, o que torna boa parte dos nossos textos acadêmicos uma assemblagem de citações diretas, indiretas e paráfrases de autores europeus ou estadunidenses [aliás, como pretendo publicar este texto, vou inserir algumas citações nos próximos parágrafos]. Implicitamente, há toda uma política das citações na academia: quem se pode citar, como se deve citar, o que entra como referência bibliográfica e o que entra como mero relato de experiência etc. Há, ainda, assim como na performatividade de gênero, a profunda assimilação de um imenso conjunto de hierarquias regulatórias: graduando, mestre, doutor, notório saber, pesquisador nível 1 — A, B, C ou D, Qualis A1, A2, A3, índice h, Scielo, programa de pós-graduação nota 5, 6, 7, evento regional, nacional ou internacional, e assim por diante.

Todas essas regras, diretrizes, quantificações e modelos são ferramentas que legitimam certos saberes em detrimento de outros. Assim como o sistema sexo-gênero-desejo cisheteropatriarcal colonial aniquilou ou marginalizou outras formas de viver ou não viver gêneros e sexualidades, a linguagem performativa da academia funda-se sobre o epistemicídio, o apagamento, a deslegitimação ou a expropriação paternalista de outras formas de conhecimento e sabedoria, sobretudo as não brancas e não ocidentais.

Algumas citações:

Se a teoria emerge de uma conceituação baseada nas experiências e sensibilidades sócio-históricas concretas, assim como a concepção de mundo desses espaços e corpos sociais particulares, então as teorias científicas sociais ou qualquer outra teoria limitada à experiência e visão de mundo de somente cinco países no mundo são, para dizer o mínimo, provincianas. Mas esse provincianismo se disfarça debaixo de um discurso de “universalidade” [...]. Como resultado, nosso trabalho na universidade ocidentalizada é basicamente reduzido a aprender essas teorias oriundas da experiência e dos problemas de uma região particular do mundo, com suas dimensões espaciais/temporais muito particulares e “aplicá-las” em outras localizações geográficas, mesmo que as experiências espaciais/temporais destas sejam completamente diferentes daquelas citadas anteriormente.7

O espistemicídio ocorre pela produção da inferiorização intelectual; pelos diferentes mecanismos de deslegitimação do negro como portador e produtor de conhecimento e de rebaixamento da capacidade cognitiva pela carência material e/ou pelo comprometimento da auto-estima pelos processos de discriminação correntes no processo educativo. Isto porque não é possível desqualificar as formas de conhecimento dos povos dominados sem desqualificá-los também, individual e coletivamente, como sujeitos cognoscentes. E, ao fazê-lo, destitui-lhe a razão, a condição para alcançar o conhecimento ‘legítimo’ ou legitimado.8

Eu ainda não desaprendi as merdas esotéricas e pseudo-intelectualizadas da lavagem cerebral universitária em minha escrita.9

Insistindo na analogia entre a performatividade de gênero e a performatividade da academia, passei a refletir sobre a noção de paródia de gênero em Butler. Seu argumento parte da ideia de que há performances artísticas capazes de desestabilizar a performatividade de gênero normativa. O exemplo central é a performance drag — um tema controverso, tendo em vista que, até então, boa parte do feminismo entendia a arte drag como uma prática misógina, que reforçava estereótipos compulsórios de feminilidade. Butler, ao contrário, argumenta que “ao imitar o gênero, a drag revela implicitamente a estrutura imitativa do próprio gênero — assim como sua contingência”.10 Quase duas décadas depois, Preciado sintetiza e endossa o raciocínio da seguinte forma: “tornar-se drag king é ver através da matriz de gênero, observando que homens e mulheres são ficções performativas e somáticas convencidas de sua realidade natural”.11 Ou seja, ao imitar os gêneros de forma cênica, exagerada e paródica, a arte drag destaca a artificialidade da performatividade de gênero. A palestra-performance Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro realiza a mesma operação de deboche em relação aos artifícios, estilizações e normas da performatividade acadêmica. Por isso, ela faz parte da série Drag Conferências, a qual faz parte de uma pesquisa artístico-teórica cuir na qual desloco os procedimentos da montação drag para as estruturas acadêmicas — o plano de ensino, o periódico, o paper, o colóquio, a citação, a conferência. Aqui, não pretendo me deter na inscrição drag de toda essa pesquisa12, apenas sublinhar os aspectos pedagógicos, epistêmicos e corporais de Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro enquanto tática performática para descolonizar a academia.

A preparação para a palestra-performance aconteceu ao longo da disciplina Estética e Filosofia da Arte – abordagens descoloniais, na qual discutimos uma série de textos e trabalhos artísticos que se debruçam sobre os processos coloniais e descoloniais latino-americanos. A turma foi incentivada a refletir sobre o assunto a partir das experiências vivenciadas por cada estudante, em suas diversidades raciais, geográficas, etárias, de gênero e sexualidade. Essa é uma estratégia defendida, explícita ou implicitamente, em quase todos os textos-práticas pós-coloniais, decoloniais, contra-coloniais, feministas e cuir. Trata-se de um posicionamento contra o “universalismo descarnado”13 do pensamento dominante, que esconde seu lugar de enunciação — o qual Grosfoguel chamou de particularismo hegemônico ou mito do teórico que produz conhecimento imparcial14 — para consolidar o privilégio epistêmico que estrutura o conhecimento acadêmico, em seus currículos, práticas, metodologias e linguagens. Por mais que a universidade esteja se abrindo para componentes curriculares que foram sistematicamente suprimidos, o universalismo descarnado segue firme e forte, por exemplo, na forma de se nomear-apontar as particularidades subalternizadas enquanto as particularidades hegemônicas ficam ocultas: temos aulas de “feminismo negro”, “teoria cuir” e “filosofia decolonial”, mas não de “feminismo branco”, “teoria cishétero” e “filosofia colonial” [ao menos não com esses nomes].

Várias táticas têm sido propostas contra o universalismo descarnado, como a escrevivência de Conceição Evaristo, a biomitografia de Audre Lorde, os saberes localizados e a perspectiva parcial de Donna Haraway, o saber orgânico de Nêgo Bispo, a consciência mestiça de Anzaldúa, a respons-habilidade de Karen Barad. Nessa linha, lancei a proposta de que cada estudante elaborasse, ao longo do semestre, uma breve fala sobre descolonização a partir de sua própria experiência, se possível em articulação com alguns dos textos discutidos na disciplina. A ideia era evitar uma pedagogia fundada na simples assimilação teórica do conteúdo dos textos e buscar formas de envolvimento entre os textos e as múltiplas experiências de vida, corpo, posição social, racial, etária, territorial, religiosa, familiar, sexual, profissional, etc., presentes na turma. A palestra-performance foi composta pelo conjunto dessas falas que, juntas, totalizaram um tempo de 40 minutos: o tempo padrão de uma conferência acadêmica.

É possível que uma parte do público tenha ficado decepcionada com o caráter embusteiro da proposta, afinal, as pessoas reservaram tempo em suas agendas e se deslocaram até o auditório para escutar a conferência de um pesquisador doutor. Mas, no fim das contas, o público recebe uma conferência. Não daquela figura prototípica da autoridade acadêmica, o professor doutor homem cis branco europeu — que, dessa vez, excepcionalmente, fica em silêncio —, e sim de uma coletividade de artistas e pesquisadores que falam a partir de saberes situados e encarnados em suas diversas experiências [não foi por acaso que escolhemos EXPERIÊNCIAS DECOLONIAIS como título para a conferência]. Nem sempre a pessoa que tem um currículo de sessenta páginas e está no topo da hierarquia institucional é a que tem algo mais interessante a dizer. Sobretudo quando o assunto é descolonização. Provavelmente, isso tem a ver com o que Audre Lorde escreve sobre o poder do pensamento que nasce da “destilação da experiência”, que “cria o tipo de luz sob o qual baseamos nossas esperanças e nossos sonhos de sobrevivência e mudança, primeiro como linguagem, depois como ideia, e então como ação”.15 E com o que Glória Anzaldúa escreve sobre o pensamento que murcha nas torres de marfim das salas universitárias, recomendando às escritoras do terceiro mundo que joguem fora a abstração, as regras, o mapa e a bússola: “para tocar mais pessoas, as realidades pessoais e o social devem ser evocados”16, não pela retórica, mas pelo corpo.

15h36. Uma pessoa me para na saída do auditório para dizer que, embora tenha gostado da performance, acredita que ficar atacando a figura do homem branco não é uma boa estratégia política. Eu lhe respondo que o trabalho não é, de modo algum, sobre criticar esse sujeito, mas sobre desestabilizar uma ficção de poder estruturante na performatividade da academia. Jota Mombaça escreve sobre a necessidade de “liberar o poder das ficções do domínio totalizante das ficções de poder [...] o que requer um trabalho continuado de reimaginação do mundo e das formas de conhecê-lo”.17 A ficção de poder totalizante, em nosso caso, é aquela que estabelece que apenas certos corpos e certos modelos discursivos podem ocupar a posição de sujeito do conhecimento, enquanto outros serão submetidos a várias formas de extrativismo acadêmico. Gosto de pensar em Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro dessa forma, como um trabalho continuado de reimaginação do mundo e das formas de conhecê-lo. Como um dispositivo coletivo de ação. Como um campo de experimentação de saberes que se constroem a partir da recusa das normas e das hierarquias de conhecimento por meio da sua teatralização paródica. Como um laboratório pedagógico, político, corporal.

O foco da palestra-performance não está no sujeito que ela brinca de calar, mas na multiplicidade de vozes que constrange o público a ouvir.

Referências bibliográficas

Debora Pazetto, Gabriel Villas, Irma Brown, Dalva França de Assis, Matheus Solar, Juliana Silva, Victoria Beatriz, Ariane Oliveira, Diórgenes Pandini, Érico Machado, Ruth Kipper, Aline Emídio. Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro (palestra-performance). UDESC, Florianópolis, Santa Catarina, 12/05/2023.

ANZALDÚA, Gloria. A vulva é uma ferida aberta & outros ensaios. Tradução de Tatiana Nascimento. Rio de Janeiro: A Bolha Editora, 2021.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

_____. Bodies that matter. On the discursive limits of “sex”. New York: Routledge, 1993.

_____. Undoing gender. New York: Routledge, 2004.

CABRERA, Julio. “Esbozo de una introducción al pensamiento desde ‘America Latina’”. In: Alberto Vivar Flores; Williames Frank (Org.) Problemas do pensamento filosófico na América Latina. Goiânia: Editora Philos, 2018, p.12-56.

CARNEIRO, Aparecida Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. Acesso em: 22 mar. 2025.

CÉSAIRE Aimé. “Carta a Maurice Thorez”. In: CÉSAIRE Aimé. Discurso sobre el colonialismo. Akal Ediciones: Madrid, 2006, p. 77-84.

GROSFOGUEL, Ramón. “A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI”. Revista Sociedade e Estado, v. 31, n. 1 (Janeiro/Abril 2016), p. 25-49.

CUSICANQUI, Silvia Rivera. Ch’ixinakax utxiwa: uma reflexão sobre práticas e discursos descolonizadores. São Paulo: N-1 Edições, 2021.

LORDE, Audre. Irmã outsider. Tradução de Stephanie Borges. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2021.

MOMBAÇA, Jota. Não vão nos matar agora. Rio de janeiro: Cobogó, 2021.

PRECIADO, Paul. Testo Junkie – sexo, drogas e biopolítica da era farmacopornográfica. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

* Debora Pazetto é professora do Departamento de Artes Visuais da UDESC
1 Pazetto, 2023, s.p.
2 CABRERA, 2018, p. 49.
3 MOMBAÇA, 2021, p. 49.
4 Beatriz, 2023, s.p.
5 Os termos “decolonial”, “descolonial” e “contra-colonial” têm linhagens teórico-práticas diferentes, as quais não pretendo aprofundar aqui. Em minhas práticas docentes, opto pelo termo “descolonial”, em referência a Silvia Rivera Cusicanqui, ou “contra-colonial”, em referência a Antônio Bispo dos Santos. Por outro lado, associo ironicamente o personagem Walter Boaventura de Castro com a utilização do termo “decolonial” em consideração à crítica que Cusicanqui faz a esta palavra — importada do inglês — como marco de uma corrente acadêmica abstrata, anglicizada e desconectada das lutas indígenas concretas (CUSICANQUI, 2021).
6 BUTLER, 1993, 2003, 2004.
7 GROSFOGUEL, 2016, p. 27.
8 CARNEIRO, 2005, p. 97.
9 ANZALDÚA, 2021, p. 44.
10 BUTLER, 2003, p. 237.
11 PRECIADO, 2018, p. 391.
12 Uma discussão mais aprofundada sobre a inscrição drag de toda essa pesquisa, bem como o relato da segunda edição da palestra-performance Prof. Dr. Walter Boaventura de Castro podem ser encontrados em: https://www.youtube.com/watch?v=b_6P0lCwGig. A segunda edição foi realizada no primeiro semestre de 2024, em que atuei como professora visitante na disciplina Descolonizando a Pluralidade, do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFMG, a convite da professora Rachel Cecília de Oliveira. Nesse contexto, foram elaboradas outras falas, adicionadas outras ferramentas ao processo de design e divulgação e o evento contou com um público muito maior. Para mais informações e imagens sobre o projeto Drag Academia: https://www.deborapazetto.com
13 CÉSAIRE, 2006.
14 GROSFOGUEL, 2016.
15 LORDE, 2021, p. 47.
16 ANZALDÚA, 2021, p. 61.
17 MOMBAÇA, 2021, p. 67, 68.