A dor e o nada em Dias Perfeitos, de Wim Wenders
Imaculada Kangussu
Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)
Ouro Preto (MG)
KANGUSSU, Imaculada. “A dor e o nada em Dias Perfeitos, de Wim Wenders”. Viso: Cadernos de estética aplicada, v. 19, n° GT2024 (Especial: GT 2024), p. 372-389.
Aprovado: 19/09/2025 · Publicado: 31/10/2025
A dor e o nada em Dias Perfeitos, de Wim Wenders

No artigo veremos como, em Dias Perfeitos, Wim Wenders criou um filme para atender à proposta de apresentar cinematograficamente os recém-criados banheiros públicos de Tóquio. O diretor optou por apresentar esses espaços através do trabalhador responsável por mantê-los limpos. O trabalho de limpeza cria a rotina do protagonista, da qual fazem parte, como queremos destacar, a rotineira escuta de música durante o trajeto entre a casa simples e os sofisticados banheiros, e a leitura literária noturna – aqui consideradas como a transcendência estética responsável pela ‘animação’ da austeridade cotidiana.

Mereceu nossa atenção o contraste entre as canções ouvidas, os livros lidos e a vida modesta do faxineiro. Mais de uma vez, Wenders afirmou ter recorrido à música e à literatura como modo de expressar aquilo sobre o qual a história se cala.

Neste texto, interpretamos Dias Perfeitos como uma alegoria do ato de escolher. Wenders referiu-se à vida do personagem como tendo sido por ele escolhida, motivada por uma epifania, uma revelação fugidia provocada pelo fenômeno denominado no Japão como “komorebi”, o movimento das folhas ao vento, projetando jogos de sombras criadas pela luz do sol. Essa experiência levou Hirayama à escolha de ser “o homem da limpeza”, decisão voltada não a um trabalho ‘inferior’, e sim a uma forma de atitude espiritual, ‘um gesto de igualdade e modéstia’. As expressões entre aspas são atribuídas ao próprio Wenders, com base em reportagens encontradas na mídia sobre o filme. Embora seja difícil remontar às fontes, ainda assim, podemos então considerá-las, se não comprovadamente autênticas, de certo verossímeis.

Palavras-chave:
William Faulkner; Benjamin; alegoria; cultura pop
Grief and Nothing on Wim Wenders' Perfect Days

In this article, we explore how Wim Wenders, in Perfect Days, created a movie to fulfills the commission of presenting, cinematically, Tokio’s newly constructed public toilets. The director chose to portray these spaces through the perspective of the worker responsible for their cleanliness. The protagonist’s routine, centered around this work, includes listening to music during the commute between his modest home and the sophisticated toilets, as well as nighttime literary reading. These elements are highlighted as forms of aesthetic transcendence that “animate” the austerity of his everyday life.

The contrast between the songs listened to, the books read, and the janitor's modest life draws attention. Wenders has stated on multiple occasions that he used music and literature as means to express what the narrative leaves unspoken.
            In this article, we interpret Perfect Days as an allegory of the act of choosing. Wenders describes the character's life as a conscious choice, motivated by an epiphany triggered by the Japanese phenomenon called “komorebi” – the movement of leaves in the wind, creating plays of shadows under the sunlight. This experience led Hirayama to choose to be “the cleaning man”, a decision that does not represent an “inferior” job but rather a spiritual attitude, a “gesture of equality and modesty”. The expressions in quotation marks are attributed to Wenders based on media reports about the film. Although it is difficult to confirm their exact sources, nonetheless, we can consider them plausible, even if not verifiably authentic. 

Keywords:
William Faulkner; Benjamin; allegory; pop culture