Embora o nominalismo seja conhecido fundamentalmente como uma posição sobre o estatuto ontológico dos universais desde sua respectiva querela no pensamento medieval, seu uso na estética remete a problemas que se não emergiram, ao menos tornaram-se proeminentes apenas com o advento do modernismo. Trata-se da tendência supostamente imanente à arte modernista à radical individualização das obras. Theodor W. Adorno, em sua Teoria estética (1970), foi provavelmente o primeiro teórico a conceituar o fenômeno enquanto uma tendência real da arte de seu tempo. O filósofo tinha em mente sobretudo a própria autocompreensão do modernismo como uma “tradição do novo” em cujo conceito se encontrava a proibição a formas e esquemas de inteligibilidade pré-definidos, herdados de determinada tradição. Essa autocompreensão teria a tendência a forçar as obras a uma tal singularização até que elas implodissem os próprios limites entre formas, gêneros e mídias, tornando-se tendencialmente incomensuráveis em relação a qualquer princípio de discursividade que transcendesse a radical facticidade das obras singulares. Na visão de Adorno, essa tendência parecia conduzir a uma espécie de aporia histórica do próprio modernismo, particularmente do assim chamado “modernismo tardio”. Desde então, esse teorema tem sido ocasionalmente resgatado por teóricos da arte moderna e contemporânea. Esse é o caso, por exemplo, de Noël Carroll e Peter Osborne, que recentemente evocaram o teorema com propósitos antagônicos, seja para negar a sua validade como um exagero despropositado (Carroll), seja para afirmá-lo como um traço distintivo e incontornável da arte contemporânea ou pós-conceitual (Osborne). Partindo de uma reconstrução da constelação conceitual esboçada acima, o presente artigo tem como objetivo verificar a consistência e produtividade do conceito para a reflexão crítica e filosófica sobre a arte contemporânea. Particularmente, pretende-se interrogar as condições de criticalidade de construtos estéticos a respeito dos quais se possa dizer que eles seguem a mencionada tendência nominalista, para então refletir sobre o destino, a função e o método da crítica de arte contemporânea.
Although nominalism is fundamentally known as a position on the ontological status of universals since its respective quarrel in medieval thought, its use in aesthetics refers to problems that, if not emerged, at least became prominent only with the advent of modernism. These are the supposedly immanent tendency of modernist art towards the radical individualization of works. Theodor W. Adorno, in his Aesthetic Theory (1970), was probably the first theorist to conceptualize the phenomenon as a real tendency in the art of his time. The philosopher had in mind, above all, modernism's own self-understanding as a “tradition of the new”, the concept of which included the prohibition of pre-defined forms and schemes of intelligibility, inherited from a certain tradition. This self-understanding tended to force works into such a singularization until they imploded the very limits between forms, genres and media, becoming tendentially incommensurable in relation to any principle of discursivity that transcended the radical facticity of singular works. In Adorno's view, this tendency seemed to lead to a kind of historical aporia of modernism itself, particularly so-called “late modernism”. Since then, this theorem has occasionally been revived by theorists of modern and contemporary art. This is the case, for example, of Noël Carroll and Peter Osborne, who have recently evoked the theorem for antagonistic purposes, either to deny its validity as an unreasonable exaggeration (Carroll), or to affirm it as a distinctive and unavoidable feature of contemporary or post-conceptual art (Osborne). Starting from a reconstruction of the conceptual constellation outlined above, this text aims to verify the consistency and productivity of the concept for critical and philosophical reflection on contemporary art. In particular, it aims to interrogate the conditions of criticality of aesthetic constructs which can be said to follow the aforementioned nominalist tendency, in order to then reflect on the fate, function and method of contemporary art criticism.