A obra de arte na época da técnica cibernética
Leidiane Coimbra
Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Salvador (BA)
COIMBRA, Leidiane. “A obra de arte na época da técnica cibernética”. Viso: Cadernos de estética aplicada, v. 19, n° 36 (jan-jun/2025), p. 254-270.
Aprovado: 12/05/2025 · Publicado: 30/06/2025
A obra de arte na época da técnica cibernética

Olhar a época em que vivemos numa perspectiva fenomenológica significa olhar para o modo em que o ser se mostra e tentar capturar um sentido para sua manifestação. A especificidade da época em que vivemos corresponde ao que Heidegger chamou de época do “acabamento da metafísica”, isto é, a época da técnica, que atualmente se apresenta como cibernética. A palavra “acabamento” aqui empregada, longe de significar fim ou extinção significa o momento do ápice. Tal como uma obra de arte que só se torna ela mesma com o acabamento da peça, a época da técnica ganhou os contornos para se revelar naquilo que ela é, ou seja, ge-stell, com-posição, armação. Amplamente traduzida, ge-stell é uma espécie de estrutura como um esqueleto ou uma estante. Como tal, sustenta e expõe aquilo que se revela em seu contexto. Na perspectiva da ge-stell, o modo como ser se revela em nossa época é o modo da disponibilidade, da armação como uma estante que guarda objetos que ficam ali disponíveis. Estrutura que se reproduz na linguagem cibernética e que é garantida pelo algoritmo. Quando a existência acontece em correspondência com esse modo de ser abre-se para ela uma nova “categoria”, qual seja, a do disponível. A arte, no entanto, é um acontecimento que, segundo Heidegger, aproxima-se da verdade, alétheia, isto é, um desencobrimento que não atende demandas, que não assimila a disponibilidade. Portanto, é importante questionar, qual o lugar da arte na época da técnica? Qual o lugar da arte numa época em que existência acontece como disponibilidade?

Palavras-chave:
técnica; arte; cibernética; espaço; carranca
The Place of the Work of Art in the Age of Technology

To observe our current times from a phenomenological perspective is to examine the manner in which Being reveals itself and to seek the meaning behind its manifestation. The specificity of our age corresponds to what Heidegger referred to as the “completion of metaphysics,” the age of technique, now unfolding as cybernetics. The term “completion” here does not suggest an end or extinction, but rather a culmination. Much like a work of art that becomes fully itself only upon completion, the epoch of technique has acquired distinct contours, allowing it to reveal itself for what it is: Ge-stell, a “com-position” or framework. Broadly understood, Ge-stell is a structural arrangement, like a skeleton or a shelf. As such, it supports and displays that which is revealed within it. From the perspective of Ge-stell, Being is now disclosed through the mode of availability, the framework as a shelf that holds objects as resources. This logic is mirrored in cybernetic language and sustained by algorithms. When existence aligns with this mode of Being, a new category emerges: that of availability. Art, however, is an event which, according to Heidegger, approaches truth, alétheia, an unveiling that does not conform to demands nor assimilate into availability. It is therefore crucial to ask: What is the role of art in the age of technique? What is the place of art in a time when existence is structured by availability?

Keywords:
technique; art; cybernetics; space; carranca