Entre cartas de arquivo e imagens construídas. O cinema na beira da história: uma análise do filme Na ventania
Ivana Grehs
Universidade Federal Fluminense (UFF)
Niterói (RJ)
GREHS, Ivana. “Entre cartas de arquivo e imagens construídas. O cinema na beira da história: uma análise do filme Na ventania”. Viso: Cadernos de estética aplicada, v. 19, n° 36 (jan-jun/2025), p. 171-199.
Aprovado: 13/05/2025 · Publicado: 30/06/2025
Entre cartas de arquivo e imagens construídas. O cinema na beira da história: uma análise do filme Na ventania

Em um único dia, 14 de junho de 1941, cerca de dez mil estonianos foram deportados em trens de carga para campos de trabalhos forçados na Sibéria. Mais da metade morreu de fome, doença ou execução. Em 2014 um jovem cineasta decide contar em uma obra cinematográfica as histórias que ouvia de seu avô, um sobrevivente do período da ocupação soviética. O tema da barbárie produzida pelo Estado soviético contra seus opositores na Estônia, mantida oculta por 50 anos, só pôde ser descortinada a partir do declínio da União Soviética em 1991. Propomos neste artigo analisar as escolhas estéticas estabelecidas por esse jovem cineasta e sua equipe, a partir do conceito de fronteira sob quatro pontos de vista: primeiro o contexto histórico que delineia o conflito bélico entre as nações; depois, os limites muitas vezes borrados entre o que é inventado e o que é real em um filme de ficção histórica, além da desconcertante incerteza no confronto entre a rememoração das testemunhas e os documentos históricos - as cartas escritas em cativeiro e que serviram como estopim da obra; terceiro, o limiar entrecruzado pela imagem estática, a imagem em movimento no plano sequência, e uma narrativa em voz-over; e por fim, evocamos em nossa análise a alegoria do ‘anjo da história’ de Walter Benjamin – o anjo olha para o passado em direção às ruínas, aos restos da história, das cartas guardadas, das lembranças congeladas. O anjo arregala seus olhos de horror e escancara sua boca num grito mudo, ainda que tente resistir à ventania e salvar os mortos do esquecimento do tempo.

Palavras-chave:
Benjamin; cinema; história; narrativa; fronteira
Between Archive Letters and Constructed Images. Cinema on the Edge of History: An analysis of the Film In the Crosswind

In a single day, June 14, 1941, around ten thousand Estonians were deported by freight trains to labor camps in Siberia. More than half died of starvation, disease or execution. In 2014, a young filmmaker decided to tell in a film the stories he heard from his grandfather, a survivor of the Soviet occupation period. The theme of barbarity produced by the Soviet State against its opponents in Estonia, which was kept hidden for 50 years, could only be revealed after the decline of the Soviet Union in 1991. In this article, we propose to analyze the aesthetic choices for this young filmmaker and his team, based on the concept of border from four points of view: first, the historical context that outlines the war conflict between nations; then, the blurred boundaries between what is invented and what is real in a historical fiction film, in addition to the disconcerting uncertainty in the confrontation between the recollections of witnesses and historical documents - the letters written in captivity that served as inspiration for the film; third, the threshold crossed by the static image, the moving image in the sequence shot and a voice-over narrative; and finally, we evoke in our analysis the allegory of Walter Benjamin’s ‘angel of history’ – the angel looks into the past toward the ruins, the remains of history, the saved letters, the frozen memories. The angel opens his eyes in horror and screams silently, while trying to resist the wind to save the dead from the oblivion of time.

Keywords:
Benjamin; cinema; history; narrative; border