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Viso · Cadernos de estética aplicada
V. XII, N° 22 (jan-jun/2018)

Neste novo número da Revista Viso, ocorreu um curioso fenômeno de magnetismo. Apesar de não se tratar de um número temático, e de recebermos submissões em fluxo contínuo, os artigos aprovados por nossos pareceristas teimaram em se atrair e acabaram por se organizar em duplas (com a exceção de um único trio). Dentre os onze artigos que compõem esse número, dois partem de uma interpretação da Poética de Aristóteles para pensar os desdobramentos modernos e contemporâneos das narrativas de ficção; dois são análises comparativas de obras de Samuel Beckett (um comparando Beckett e Heiner Müller; outro Beckett e Primo Levi); outro dois tratam de giros éticos, seja na obra de Rancière, seja em Camus; três são análises de filmes; e mesmo o texto que compõe a sessão especial Tradução não se encontra sozinho: a reflexão de Hilde Hein sobre o que é a arte pública encontra a sua dupla em um texto da sessão principal, sobre a ideia de performance ou performativo, que se debruça especialmente sobre uma série de performances realizadas em espaços públicos.

O “trio cinematográfico” é composto por ensaios de Lethicia Oliveira, Alexandre Costa e Eric Silva Macedo. Lethicia Oliveira parte de alusões ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche presentes em algumas falas de seus personagens para propor uma interpretação nietzschiana do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, de Michel Gondry. Alexandre Costa faz uma análise detalhada do filme Medeia, de Pier Paolo Pasolini, com o fito de mostrar a operação da “dialética do esclarecimento”, como teorizada por Adorno e Horkheimer, no âmbito desse filme. Em sua leitura, Medeia e Jasão aparecem como corporificações dos dois polos extremos da dialética do esclarecimento: o polo mítico-mágico-religioso, isto é, poético, e o polo calculador-controlador-explorador, isto é, lógico. Já Eric Silva Macedo propõe uma análise comparativa de diversos filmes de Werner Herzog tendo como fio condutor uma certa ideia antropológica de “meio”. Sua hipótese central é a de que “o filme é um meio, num aspecto diverso daquele que nos faria ver o filme como meio de uma mensagem (ou mesmo do meio como mensagem, na célebre formulação de McLuhan)”.

A “dupla aristotélica” é composta por ensaios de Marcelo Araújo e Renan Ferreira da Silva. O texto de Marcelo é uma das melhores análises que já publicamos da influência da Poética de Aristóteles nos mais distintos tipos de narrativas contemporâneas. Sua questão central é a seguinte: se o enredo é a alma de qualquer narrativa bem estruturada, e o número de enredos é limitado (mas não o número de obras escritas e publicadas na contemporaneidade), e se já há algoritmos capazes de identificar os modelos de enredo presentes no caudal de novas obras, será inevitável terceirizarmos a nossa faculdade de acompanhar a produção artística presente, transferindo-a para os computadores? Ou, numa formulação mais sintética: os algoritmos serão os leitores do futuro? Já Renan Ferreira apresenta uma análise, inspirada por Rancière, da crise instaurada no sistema representativo (de matriz aristotélica) pelo romance realista a partir da análise detalhada de um fragmento de Flaubert. A hipótese central do artigo é a de que “o princípio da ficção [como estrutura em que todas as partes devem ser significativas, isto é, subordinadas ao todo] é destronado na ficção realista, sendo coroada a primazia da linguagem. A hierarquia dos gêneros, própria da representação, é revolucionada pelo princípio anti-genérico por excelência, o princípio da igualdade dos temas”.

A “dupla beckettiana” desta edição é composta por ensaios de Danilo Riva e Gleydson Ferreira. No texto de Danilo, enfatiza-se a ideia de palimpsesto, assumidamente presente em Descrição da imagem, de Heiner Müller, para se iluminar o modo de composição da escrita presente no texto L’image, de Samuel Beckett. Já Gleydson constrói paralelos entre a peça Dias felizes, de Beckett, que analista minuciosamente, e fragmentos de Cândido ou o otimismo, de Voltaire, ou É isto um homem?, de Primo Levi, para pensar no paradoxal alcance do “otimismo” de Winnie, protagonista de Dias felizes. Mesmo enterrados até o pescoço, é possível ainda assim continuar?

Os dois Vinicius com textos nesta edição, Vicenzi e Hoste, tratam ambos de aspectos diferentes do parentesco entre ética e estética. Em artigo de cunho mais teórico, Vinicius Vicenzi discute o texto Malaise dans l’esthétique, de Jacques Rancière, no qual o filósofo francês pretende mostrar como a palavra “estética” suscita já há algum tempo um certo incômodo, o qual teria levado uma série de filósofos, de Heidegger a Badiou, a quererem superá-la. Segundo a hipótese central do autor, essa tentativa de superação (ou conserto) da estética tenderia a produzir uma eticização da estética e, com ela, da política. Já Vinicius Hoste parte de uma análise da definição camusiana de absurdo como discutida em seu O mito de Sísifo para propor uma análise detalhada do disco Sambas do absurdo, lançado por Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis em 2017.

A outra dupla que integra esta edição é formada por Hilde Hein (em texto traduzido por Tiago Mendes) e Mariana Lage. Hilde parte de um problema até certo ponto estético-ontológico. Segundo ela, “a mera presença de arte em espaços externos ou em um terminal rodoviário ou em uma recepção de hotel não a faz automaticamente ser pública – da mesma maneira que colocar um tigre em um celeiro não faz dele um animal doméstico. O objeto, a obra de arte ou o animal, não deriva sua identidade da característica do local onde é encontrado.” Postulado o problema, o seu ensaio investiga quais seriam o tempo, o lugar e o significado de uma arte pública. Já Mariana Lage apresenta em seu texto uma reconstrução até certo ponto didática das características que definiriam uma “performance”, à diferença de outras manifestações artísticas. Com base na discussão de oito dessas características, Mariana analisa diferentes apresentações da performance Melindrosa, de Ana Luisa Santos, e termina o seu ensaio formulando questões muito pertinentes sobre a especificidade de uma crítica voltada para manifestações artísticas ditas performáticas. Escreve a autora: “Uma crítica de uma linguagem artística movente poderia se encontrar então não num texto reflexivo e argumentativo, mas num essencialmente poético, sem pretensão de interpretação universalizável e globalizante? Como abordar criticamente algo que não se apreende como categoria, como sentido ou forma fixa?”

Que os 11 textos que compõem esta edição possam ser inspiradores para os leitores que acompanham a Viso em seus 11 anos de existência. Boa leitura!

A imagem da capa desta edição é baseada
em um still do filme Medeia, de Pier Paolo Pasolini

 
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