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Viso · Cadernos de estética aplicada
V. XI, N° 21 (jul-dez/2017)
DOI: 10.22409/1981-4062/v21i

Depois de dois números especiais publicados em sequência – o número 19, com os 22 textos apresentados no 8o Encontro do GT de Estética da ANPOF; e o número 20, com organização de Cíntia Vieira da Silva e temática determinada: a filosofia contemporânea francesa aplicada a obras de arte singulares –, a Revista Viso retoma neste número 21 a sua proposta e o seu propósito originais: publicar textos que, apoiados sobre uma base teórica filosófica (em sentido amplo), visem a “abrir”, isto é, a descobrir/inventar múltiplas camadas de sentido em objetos estéticos específicos.

Neste novo número, temos textos voltados a diferentes expressões artísticas: a música, o teatro, a poesia e o romance, assim como três sessões especiais: Atualidades, Novas escritas e Resenhas. Vale sublinhar que, dos doze artigos que os leitores ora têm em mãos, nada menos do que 8 são voltados para obras e temas brasileiros, o que mostra o quanto um momento político conturbado como o que vivemos coloca-nos diante do imperativo ético-político de tomar posição na disputa por narrativas ora vigente no país, fazendo com que o nosso pensamento sobre a arte realize a vocação máxima daquilo que, segundo Adorno, é “a única função daquilo que não tem função: resistir”.

O artigo de Rodrigo Duarte, “Does art have anything in particular to do with democracy?”, foi publicado na sessão de Atualidades deste número justamente porque, com o recrudescimento do conservadorismo no Brasil após o golpe de 2016, uma das expressões do pensamento emancipatório de esquerda que mais têm sido atacadas é justamente o “mundo da arte”, incluindo instituições como o Museu de Arte Moderna de São Paulo que, mesmo durante a nossa ditadura civil-militar, tinham permanecido relativamente imunes a formas mais diretas de censura. Embora seja evidente a tentativa de demonizar moralmente a arte e os artistas com o intuito de desviar a atenção do público dos ataques aos direitos dos trabalhadores e dos cidadãos em geral empreendidos pelo governo golpista, apoiado pelos mesmos moralistas que agora demonizam a arte, é fundamental pensar quais são as possíveis relações históricas entre arte e democracia e quais seriam, no presente, as formas artísticas mais capazes de resistir ao fascismo do judiciário, do executivo, do legislativo, e da grande imprensa, isto é, de todas as nossas “instituições democráticas”.

Já o artigo de Jean Soares, intitulado “Através dos espelhos”, foi publicado em uma nova seção da Viso, que os editores optaram por batizar de Novas escritas, porque, embora não se encaixe estritamente no perfil editorial da revista, assume um risco que consideramos válido e, talvez mais do que isso, necessário: o da construção de um pensamento em primeira pessoa, autobiográfico e narrativo, que aborde problemas filosóficos canônicos com um estilo diferente do estilo acadêmico usual, que há não pouco tempo vem mostrando sinais de obsolescência. Partindo de uma narrativa pessoal de sua “infância sem espelhos”, o autor se pergunta “como uma imagem outra seria possível”. Sua busca se articula em torno das seguintes perguntas: “Como tornar possível o olhar para uma imagem depois de estar rodeado por dispositivos dinâmicos de reprodução audiovisual? Como retomar, por exemplo, uma relação rústica e ótica com reflexos em espelhos d’água? Como enfim se surpreender com uma imagem outra de si próprio?” Apoiando-se em conceitos foucaultianos, o autor defende que “uma utopia é uma imagem de algo, que busca estabelecer-se pela identidade com algo que é sem lugar – um ideal; uma heterotopia é uma imagem que ‘desestabiliza’, faz pensar diferente, resiste aos ideais porque nos faz prestar atenção, obriga a olhar para aquilo que dissimulamos”.

Na Resenha intitulada “Caleidoscópio da vida e da arte”, Renato Nunes apresenta o novo livro da professora da UERJ Rosa Maria Dias, uma das grandes especialistas brasileiras no pensamento de Nietzsche, Páginas da vida, páginas da arte, publicado pela editora Mauad em 2016.

Na sessão fixa da Revista, Arthur Kon analisa uma montagem específica de uma peça teatral contemporânea. No texto intitulado “Antiteatrodocumentário: verdade e ficção em Conversas com meu pai, de Janaína Leite e Alexandre Dal Farra”, ele parte de uma questão que evoca a Eneida de Virgílio – “Algum dia, talvez, será uma alegria recordar mesmo essas coisas?” – e propõe, com base em uma crítica que potencializa a peça da qual parte sua reflexão, que “a resposta, é claro, está na superação da realidade-individualidade em direção ao Real-universal, ao ficcional como, sur- (sobre-, super-) -real. É justamente isso que constitui a felicidade da obra de arte”.

Em outro texto que propõe analogias provocativas entre teatro e filosofia, Ulisses Vaccari constrói um fecundo paralelo entre Platão e Brecht. Escreve o autor em seu ensaio “Benjamin e a obra de arte antiestética”: “Ao romper com o teatro clássico de orientação aristotélica, o teatro épico de Piscator e Brecht retoma a concepção platônica de poesia dramática, calcada na narrativa e na crítica à imitação e à aparência sensível. Assim como Platão buscou realizar uma reforma da cultura grega trazendo a arte do domínio divino dos adivinhos e vates para as proximidades da racionalidade filosófica e humana, também a reforma do teatro operada por Brecht tem como foco um teatro calcado na racionalidade e inserido nos limites da criação humana. Como em Platão, a arte no interior do teatro épico não está mais a serviço do deus – do rito, diria Benjamin –, mas da representação das relações humanas”.

Em texto exemplar do que se poderia chamar de uma estética aplicada em sentido pregnante, Henrique Estrada tece uma série de considerações altamente dialógicas – sempre em diálogo com as principais leituras de nosso maior poeta-tradutor, e também com algumas das principais referências de sua obra-pensamento (Bloch, Benjamin, Bakhtin, mas sobretudo Goethe, Dante e Homero) – para tornar visíveis as múltiplas camadas de significação dos poemas “Opúsculo goetheano” e “Opúsculo goetheano II”, que vêm citados integralmente no final do artigo. Articulando a vida “no arco voltaico dos cinquent’anos” de Haroldo de Campos com uma transformação no curso de sua obra, momento de passagem entre a utopia vanguardista do concretismo e a poesia pós-utópica do Haroldo maduro – pós-utópica, não anti-utópica! –, o autor discute os conceitos de utopia e enteléquia para melhor fazer ver e ouvir os poemas goetheanos de Haroldo que não nos deixam abrir mão desse mínimo que resta, o imprescindível não lugar de uma utopia que não se confunde com nenhuma forma de utopismo totalitarista.

Em “Terrível e agradável: sobre o paradoxo da experiência estética em três poéticas francesas”, Rafael Leite parte de uma formulação até certo ponto coloquial do paradoxo de Dubos – “por que alguém pagaria pelo bilhete de um filme de terror que pode, e esperamos mesmo que isso aconteça, causar medo ao mostrar cenas terríveis que, por vezes, fazem os telespectadores fecharem os olhos?” – para construir uma polêmica com Paisley Livingston, um dos principais comentadores contemporâneos do pensador francês. Embora concorde com Livingston que Dubos teria sido o primeiro a utilizar o conceito de “paradoxo” para pensar por que, na arte, o terrível muitas vezes aparece como agradável de contemplar – ideia que remete à Poética de Aristóteles –, ele fornece exemplos tirados das obras de Boileau e de Fontenelle para deixar claro o quanto o tema era recorrente nas poéticas francesas do século XVII.

Passando da seara do teatro e da poesia/poética para o âmbito do romance, temos neste número três contribuições bastante heterogêneas.

Marco Antonio Rodrigues, em “A luta contra o fetichismo em Angústia, de Graciliano Ramos”, atém-se a uma cena apenas do romance para dela extrair uma interpretação global da obra como peça de resistência contra o fetichismo das elites, tanto no que diz respeito à sua relação com a arte quanto à sua relação com outros fenômenos sociais. Escreve o autor, comentando a passagem na qual Luís da Silva prefere ir a um botequim em vez de ir a um concerto lírico que seria pretensamente mais adequado à sua classe social: “É preciso reconhecer que a busca de Luís da Silva, protagonista do romance, orienta-se, ainda que inconscientemente, pela negação de uma arte já totalmente fetichizada, oferecida como simples pano de fundo para a ostentação material daqueles que comparecem ao teatro, onde o espetáculo em si nada importa. Enquanto isso, na bodega de subúrbio, um ‘rapaz cabeludo’ interpreta marchas carnavalescas ao violão, as mulheres arrastam seus tamancos, os homens bebem e contam suas histórias. Não se trata de sustentar que este seja um mundo livre da fetichização, mas de ressaltar a diferença qualitativa existente entre os ritos sociais”.

No ensaio “Leituras de Kafka: escólios sobre a burocracia e o exercício da lei”, Bruno Barbosa dos Santos apresenta a exegese judaico-realística da obra de Kafka empreendida por seu amigo e (primeiro) biógrafo Max Brod para apontar as críticas que Brod veio a receber de intérpretes posteriores da obra kafkiana, como Walter Benjamin, Günther Anders e Giorgio Agamben. Supondo que “o verdadeiro inocente não é aquele que acaba por ser absolvido, mas sim aquele que passa pela vida sem julgamento”, o autor investiga quais seriam as estratégias de Kafka em seu combate contra os mecanismos desumanizadores da lei.

No terceiro ensaio desta edição voltado à arte do romance, Luis Fernando Catelan Encinas propõe uma leitura de Almoço nu, de William Burroughs. Na realidade, a obra de Burroughs aparece a um só tempo como pretexto e ilustração da definição de “narrativa contemporânea” proposta pelo autor. Escreve Encinas: “A narrativa contemporânea não levanta problemas de sentido, nem de conhecimento, mas problemas de funcionamento, ou seja, a questão da narrativa contemporânea não se liga, por exemplo, a questões do tipo ‘o que é que isto representa?’ ou ‘o que é que isto significa?’, mas sim à pergunta ‘como é que isto funciona?’. [...] Esta pergunta só se torna legítima se dispusermos de critérios conceituais, capazes de determinar a natureza ou essência deste funcionamento, em oposição às formas anteriores que remetem para um suposto conhecimento ou sentido”.

Em seu artigo, Henry Burnett dispõe-se a pensar uma série de aproximações (e distâncias) entre Mário de Andrade e a Alemanha. Seu ensaio apresenta com grande clareza uma contradição inerente à obra ensaística de Mario de Andrade em torno de um certo ideal de “música brasileira”. Burnett sintetiza o problema com as seguintes palavras: “A tensão é rica em possibilidades, mas inconciliável: por um lado, (1) a música brasileira precisa se integrar à fôrma alemã, mirar os ‘verdadeiros gênios’ (Bach, Mozart, Beethoven), na medida em que em suas obras o que é mais acentuado é o fato de que elas são ‘um patrimônio muito mais humano que exatamente nacional’, mas, por outro, (2) é fundamental reforçar as bases do repertório nacional, em nome do nacionalismo, ainda que ‘forçar a mão’ signifique ‘matar ou pelo menos deprimir grandemente a vida musical do país’. Como se pode ver, Mário persegue exatamente uma unidade de contrários, onde, por um lado, vislumbra o Brasil como o laboratório ideal para que uma nova música nasça, lastreada por seus mitos e por seu arcaísmo autênticos, mas sem descuidar da forma clássica, antes parecendo-lhe fundamental uma elevação de seu status, algo que, salvo engano, nunca ocorrerá como ele supôs. O que a história mostraria com o passar das décadas, no entanto, oferece hoje antes novas questões do que exatamente soluções aos entraves gerados pela crítica marioandradeana”.

Em outro texto que trata da música (e) do Brasil, Sidnei Oliveira parte da pergunta ‘qual a importância da essência cultural do caipira no campo, na universidade e no mercado cultural?’ para tecer uma série de considerações, de inspiração schopenhaueriana, sobre os distintos modos como “a essência cultural do caipira” tanto pode ser apropriada e fetichizada pela indústria cultural e pela Universidade, quanto pode servir de arma para a refuncionalização dessas instituições.

Na esperança de que 2018 seja um ano sensivelmente melhor do que este tenebroso 2017, os editores desejam que a leitura dos textos aqui enfeixados possa ensejar alguma forma de ação!

 
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