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Viso · Cadernos de estética aplicada
V. XI, N° 20, jan-jun/2017

Quando Vladimir Vieira me propôs organizar um dossiê para a Revista Viso: Cadernos de estética aplicada, logo pensei em fazê-lo em torno do tema das estéticas da diferença. Essa expressão é usada em mais de um sentido, cabendo, portanto, precisar o entendimento que norteou a seleção dos textos aqui reunidos. Num sentido que talvez possamos pensar como mais restrito, a expressão estética da diferença designa investigações estéticas ligadas aos estudos de gênero, à teoria queer e ao movimento feminista. Nosso dossiê não recusa esse sentido, mas não se articula apenas segundo este eixo. A estética da diferença de que se trata aqui pode se irmanar aos modos de pensamento interessados na situação de problemas de grupos minoritários e nos ativismos conectados a tais análises, mas seu ponto de partida abrange a diferença mesma como princípio de inteligibilidade do real.

Chamamos de estéticas da diferença, as quais têm caráter inevitavelmente plural, as investigações do âmbito sensível, nas artes ou fora delas, que colocam a diferença e os processos de diferenciação como primeiras em relação à semelhança ou à identidade. Tudo o que existe está incessantemente em vias de diferir de si mesmo, de modo que não faz sentido supor uma realidade fundamentalmente verdadeira que o conhecimento e a arte visariam espelhar, num caso, e imitar, no outro. Para usar um termo que já esteve mais em voga há algumas décadas, tal pensamento move-se num mundo de simulacros, supõe que tudo é simulacro, e que não há original ou modelo cuja imagem deve servir de padrão normativo ou alvo a ser perseguido.

Em um pensamento da diferença entendido segundo esta perspectiva, as artes detêm um lugar privilegiado, qual seja: o de exprimirem do modo o mais visível e o mais perceptível a potência de produção de novas individuações, de novos modos de sentir e de ser. E, na medida em que são lugares privilegiados de produção do novo, as artes são vistas como exercendo um papel eminentemente político. Nosso dossiê não pretendeu ser exaustivo nem no que se refere aos pensadores que poderiam participar desse pensamento da diferença, nem às modalidades de objetos artísticos. Pretendemos compor um panorama significativo do que chamamos de estéticas da diferença, privilegiando a relevância da produção aqui reunida.

Em “A produção desejante na cultura afro-brasileira: uma leitura de Barravento”, Adriano Henrique de Souza Ferraz e Sandro Kobol Fornazari procuram ver as forças vitais de resistência que permeiam a visão veiculada em relação à cultura popular no filme de Glauber Rocha.

Daniel Silva Moraes e Alex Fabiano Correia Jardim escrevem “O que é uma linha de fuga? Consideração a partir do conto ‘A terceira margem do rio’, de Guimarães Rosa?”, buscando ver no conto de Guimarães Rosa os processos de devir e desterritorialização experimentados pelos personagens.

Em “Foto-grafia e desconstrução”, Alice Mara Serra, investiga a fotografia segundo a perspectiva de uma desconstrução do visível e da temporalidade do instantâneo.

André Duarte e Dayana Brunetto Carlin dos Santos utilizam elementos do pensamento foucaultianos, como o conceito de heterotopia, as análises dos procedimentos de resistência ao dispositivo da sexualidade e às injunções normalizadoras da educação como instrumentos para interpretar o filme Febre do rato. As formas de ativismo queer são aproximadas da arte de viver dos antigos cínicos explorando a potência do escândalo em sua força ética e política. Esses elementos também entram na composição de “Febre do rato como deseducação de corpos e discursos: uma interpretação foucaultiana”.

Em “Interpretar? Deslocar, multiplicar (Nietzsche, Foucault e o sentido em Deleuze)”, Annita Costa Malufe trata da renovação da concepção de sentido operada por Foucault e Deleuze, sob inspiração nietzschiana, e seu possível impacto sobre a crítica literária.

“‘Como no princípio’: O balbucio da linguagem poética” constitui o esforço de Eduardo Pellejero em explorar a linguagem poética como expressão criadora que leva a língua a ultrapassar seu limite, mas também ao risco de recair no silêncio.

Em “A imagem como potência de reflexão”, Jordi Carmona Hurtado parte de Deleuze e Rancière para encontrar uma “pensatividade” própria das imagens, conferindo-lhes um estatuto que descortina a possibilidade de uma vida não-idêntica no sensível.

Silvio Ferraz explora concepções intensivas de tempo e forma colocadas em jogo pela música e pela escuta musical, segundo uma apreensão da arte em sua virtude de contrapor-se à representação. O artigo “Entretempo, a escuta no ponto cego da música” pensa a música a partir de conceitos apresentados por Deleuze em Imagem-tempo, dedicado ao cinema.

Em “Pensar com a arte: a estética em Deleuze”, Veronica Damasceno investiga a concepção que Deleuze e Guattari constroem da arte como instância produtora de pensamento. O artigo detecta a intercessão arte-filosofia como lugar de produção de um campo intensivo de forças, de densidades, de virtualidades e de diferenças.

A imagem da capa desta edição é baseada
em um still do filme A febre do rato, de Cláudio Assis

 
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