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Viso · Cadernos de estética aplicada
V. IX, N° 16 (jan-jun/2015)

Depois de oito anos de ininterrupto funcionamento, mantendo sempre a periodicidade e publicando textos dos mais importantes pesquisadores em estética no Brasil, os editores da Revista Viso têm o prazer de comunicar a seus leitores que a excelência destes Cadernos de estética aplicada foi finalmente reconhecida pelas agências de fomento. É uma alegria que sejamos doravante considerados um periódico B1 no sistema Qualis da Capes, novo estímulo para continuarmos fomentando a pesquisa em estética e filosofia da arte no Brasil.

Em clima de comemoração, este número 16 da revista, que abre o seu volume IX, traz alguns ensaios altamente significativos (e provocativos!) sobre alguns dos pensadores que marcaram a história deste periódico.

Na seção fixa da revista, Débora Pazzeto apresenta uma crítica luminosa ao pensamento de Arthur Danto, mostrando com argumento muitos sólidos como é tendenciosa, americanocêntrica e teleológica a sua releitura apenas aparentemente libertária da tese hegeliana sobre o “fim da arte”. Em vez de debater o pensamento de Danto apenas em seus próprios termos, a autora vale-se de uma estratégia inovadora: apresenta uma série de exemplos concretos de manifestações artísticas que teriam sido negligenciadas pelo crítico norte-americano e que, ao serem trazidas à discussão, mostram a fragilidade (tanto estética quanto política) de uma “narrativa das narrativas” que toma a pop art como “marco zero”.

Ulysses Pinheiro, por sua vez, faz um exemplar ensaio de estética aplicada ao contrapor dois filmes, Janela indiscreta, de Alfred Hitchcock, e Estrada perdida, de David Lynch. Como explica o próprio autor, seu objetivo é “mostrar que eles ilustram duas maneiras distintas de caracterizar o olhar inumano da percepção cinematográfica, tal como ele foi descrito por Gilles Deleuze. Essas duas maneiras distintas não foram discriminadas pelo próprio Deleuze, mas convergem em direção a sua crítica à hermenêutica”, permitindo ler em nova chave (mais desconfiada!) abordagens já canônicas das obras desses dois cineastas, como aquela empreendida por Slavoj Zizek.

Em artigo que de algum modo dialoga com o de Ulysses Pinheiro, Tereza Calomeni apresenta as célebres análises de Foucault dos quadros As meninas, de Velasquez, e Un bar aux Folies-Bergère, de Manet, para discutir a diferença entre os regimes de representação em que se inscrevem esses dois pintores com base no modo como ambos projetam o “lugar do espectador”. Tendo em vista que este ensaio dialoga abertamente com o último ensaio publicado pela autora aqui na Viso (n. 13), “Notas sobre o escândalo e o cinismo de Manet”, recomendamos aos leitores interessados na relação entre Foucault e a arte que (re)leiam também o texto mais antigo.

Otavio Leonidio, outro autor que, coincidentemente, também publicou um ensaio no número 13 da Viso, reaparece em nossas páginas com uma análise inovadora da obra de Eduardo Coimbra. Como o leitor terá a oportunidade de ver – imagens das obras de Coimbra selecionadas pelo autor foram publicadas em meio ao seu texto –, sua hipótese central é a de que “os Fatos arquitetônicos de Eduardo Coimbra demonstram [...] a produtividade contemporânea (quer dizer, nem clássica/idealista nem moderna/mundana) de regimes estéticos nos quais a experiência da obra não pressupõe a presença do corpo sensível e demasiadamente humano de seus fruidores (como ocorre por exemplo no caso das elipses e trabalhos de terra de Richard Serra, mas também dos aconchegantes e sinestésicos penetráveis e ninhos de Hélio Oiticica), senão de um corpo dessensibilizado e desnaturalizado – o corpo que vertiginosamente percebe que é, ele também, representação, simulacro, ficção. Sendo assim, mais do que o espaço ‘real’, o que as operações arquitetônicas de Eduardo Coimbra pretendem afrontar, adulterar e sobretudo desumanizar é o corpo ‘real’”.

Rizzia Rocha, como Otavio Leonidio, também toma as artes plásticas como ponto de partida para estabelecer uma relação entre o conceito de crítica de Walter Benjamin, como apresentado em sua tese de doutorado O conceito de crítica de arte no romantismo alemão, e o modo como Arthur Danto, em vários aspectos mais interessante como crítico do que como filósofo da arte, construiu suas dezenas de análises de obras de arte específicas durante os seus anos de militância como crítico em um jornal de grande circulação. Para celebrar o encontro desses dois pensadores aparentemente tão distintos, a autora valeu-se da obra Untitled (Perfect Lovers), do artista cubano Félix Gonzalez-Torres, comentada pelo próprio Danto em seu livro O abuso da beleza.

Ainda na seção fixa da revista, Sofia Karam faz uma análise assumidamente impressionista do filme Holy Motors, de Leos Carax, tentando fazer justiça ao verdadeiro arrebatamento que essa obra lhe provocou com a ajuda de Deleuze e Bataille. Porque a crítica, afinal de contas, pode ser lida como o pagamento de uma dívida de gratidão!

Fechando a seção fixa da revista, William Teixeira e Sílvio Ferraz apresentam um ensaio extremamente erudito sobre a relação entre alguns dos princípios fundamentais da retórica, como formulados por Aristóteles e Quintiliano, e a evolução das formas musicais. Tomando como ponto de partida a análise de duas composições para violoncelo solo do italiano Luciano Berio (a Sequenza XIV, concluída em 2002 em homenagem ao violoncelista Rohan de Saram, e Les Mots Sont Allés..., encomendada em 1979 pela fundação Paul Sacher por ocasião do aniversário de 70 anos de seu mecenas), o autor mostra concretamente o quanto permanece insatisfatória a oposição tradicional entre forma e conteúdo na arte. Como Berio, ele defende um ponto de vista genético que nos permite ir além dessa dicotomia.

Na seção especial Homenagem, Ricardo Barbosa finalmente publica o belo texto que apresentou na ANPOF de 2002 em homenagem a Gerd Bornheim, então recentemente falecido. Além de reconstruir o percurso e principais influências desse importante intelectual brasileiro, o autor discute também algumas pretensas lacunas em sua obra, como o seu pouco apreço à filosofia da linguagem de corte anglo-saxão, e termina com uma importante convocação a seus colegas e alunos: que ajudemos a salvar Gerd Bornheim de uma segunda morte tornando disponíveis os seus escritos ainda não publicados.

Na seção Tradução, Ernani Chaves apresenta em língua portuguesa um breve ensaio de Wim Wenders sobre a obra de Ingmar Bergman, escrito em meio às comemorações de seu octagésimo aniversário. O cineasta alemão faz um curiosíssimo mea culpa, refutando algumas de suas próprias posições de juventude acerca da obra de Bergman, que teria injustamente acusado de “psicologista”.

Aos nossos caros e fiéis leitores, desejamos, como sempre, uma boa e divertida leitura!

A imagem da capa desta edição mostra
o célebre still de Mistery Man no filme
Estrada perdida de David Lynch

 
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