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Viso · Cadernos de estética aplicada
V. VI, N° 11 (jan-jun/2012)

Comemorando o seu sexto ano de existência, a Revista Viso mostra que alcançou a maturidade neste número 11, em que contamos com o maior número de textos já publicados em uma única edição, todos escritos pelos professores doutores que integram o GT de Estética da ANPOF e são as principais referências nacionais na área de Estética e Filosofia da Arte.

Os vinte e três textos que compõem esta edição foram originalmente apresentados no VI Encontro do GT de Estética da ANPOF, realizado no Museu de Arte Contemporânea de Niterói entre os dias 23 e 25 de maio de 2012 e organizado pelo CEFA (Centro de Estudos em Estética e Filosofia da Arte da UFF), braço executivo da linha de pesquisa em Estética da Pós-Graduação em Filosofia da UFF, composto pelos professores Pedro Süssekind, Bernardo Oliveira, Patrick Pessoa e Vladimir Vieira (sendo os dois últimos os criadores e editores destes Cadernos de Estética Aplicada).

Com relação aos temas e métodos de abordagem, os textos que agora o leitor têm diante dos olhos são bastante diferentes entre si, mas, dada a estrutura do Encontro no qual foram originalmente apresentados, organizado em mesas contando com dois ou três pesquisadores, todos colaboram para a reflexão e o diálogo em torno de algumas das principais questões que orientam a pesquisa em Estética no Brasil.

Na mesa de abertura do Encontro, Rodrigo Duarte apresentou um texto que se propunha a discutir o problema da autonomia da obra de arte como formulado por Adorno, questionando até que ponto uma manifestação da cultura de massas como o hip-hop, embora incapaz de satisfazer as exigências adornianas para que uma obra de arte possa efetivamente ser considerada autônoma, ainda assim não preservaria um potencial politicamente revolucionário. Em seu comentário do texto de Rodrigo Duarte, Sara Pozzer opta por um desvio, a naálise do texto de Adorno sobre a peça Fim de partida, de Samuel Beckett, expondo a dificuldade da conciliação proposta por Rodrigo Duarte.

Na segunda mesa do dia, Ernani Chaves e Pedro Süssekind dialogaram sobre A coragem da verdade, de Michel Foucault, e mostraram como a leitura foucaultiana da poesia de Baudelaire passou por uma transformação profunda que talvez, assim especula Ernani Chaves, tenha relação com o fato de Foucault ter sido influenciado pela leitura benjaminiana do poeta francês nos últimos anos de sua vida.

Na terceira mesa do Encontro, Imaculada Kangussu e Fernando Barros discutiram a possibilidade de pensarmos uma “filosofia brasileira” a partir das contribuições dos nossos artistas, em cujas obras não raro encontra-se uma reflexão filosófica mais radical do que aquela presente nos livros de filosofia strictu sensu, pois que banhada no que Imaculada batizou de “excelência estética”.

Encerrando o primeiro dia de debates, Miguel Gally propôs uma interpretação de três projetos de Oscar Niemeyer à luz de conceitos hauridos da Crítica da faculdade de julgar, de Kant. Em seus comentários, Márcia Gonçalves e Vladimir Vieira problematizaram alguns dos caminhos trilhados pelo autor, sem no entanto deixar de reconhecer o quão provocativo foi o seu exercício de “estética aplicada”.

Abrindo o segundo dia do Encontro, Claudio Oliveira apresentou um texto que situava a reflexão do jovem Agamben em seu primeiro livro, Homem sem conteúdo, como uma apropriação a um só tempo fiel e subversiva das heranças de Nietzsche e Heidegger. Em um comentário cheio de interrogações, Gilson Iannini investiga até que ponto Lacan não seria também um autor importante para se compreender Agamben, concluindo sua fala com uma pergunta de efeito: “Até que ponto (o contato de Agamben com a obra de) Benjamin não seria um antídoto contra Heidegger?”

Na sequência, Pedro Duarte apresentou um vasto panorama das questões filosóficas levantadas pelos modernistas brasileiros, pensando até que ponto o seu projeto não seria um desdobramento das propostas estéticas dos primeiros românticos alemães, que pretendiam “tornar viva e sociável a poesia, e poéticas a vida e a sociedade”. Pedro Hussak, por sua vez, tomando como ponto de partida a reflexão de Mário Pedrosa sobre o legado modernista, problematiza algumas das linhas de fuga do ensaio de seu colega de mesa, salientando sobretudo as contradições inerentes ao modernismo brasileiro.

Na última mesa do segundo dia do Encontro, Luciano Gatti empreendeu uma naálise rigorosa da peça de aprendizagem A medida, de Brecht, desconstruindo a recepção usual dessa fase da obra do dramaturgo alemão e mostrando como o conceito de exercício teatral poderia servir de base à fundamentação da atualidade de diversas peças de outro modo consideradas obsoletas. Jeanne Marie Gagnebin, por sua vez, mostrou-se cética com relação à possibilidade descortinada pela leitura de Luciano, sobretudo no que diz respeito ao alcance político-revolucionário do teatro brechtiano, ao passo que Patrick Pessoa esforçou-se por mostrar inegáveis traços da produção teórica de Brecht na produção teatral mais contemporânea, notadamente aquela realizada pela Cia. Dos Atores, do Rio de Janeiro.

O último dia do Encontro foi aberto com a contribuição de Luis Camillo Osório, atual curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, acerca do conceito de altermodernidade, cunhado pelo pensador francês contemporâneo Nicolas Bourriaud. Virginia Figueiredo, comentando o texto de Camillo, mostrou os limites da utilização dessa ideia para se cunhar um conceito satisfatório de Modernidade. Tendo em vista que os dois já haviam começado um diálogo sobre o tema em fecunda correspondência iniciada alguns anos atrás, a Viso tem o prazer de publicar também essa correspondência inédita, em que uma série de problemas envolvendo a formulação de um conceito de Modernidade recebe instigante fundamentação filosófica, que passa por um largo espectro de filósofos situados entre Kant e Habermas.

Na sequência, Bernardo Oliveira partiu da naálise de Mongólia, livro de Bernardo Carvalho, para investigar até que ponto nos seria mesmo dado falar na “morte da narrativa tradicional” que uma certa leitura da obra de Walter Benjamin julga incontornável. Pedro Caldas, em sua contribuição, detém-se no “desejo de narrar” que animaria as palavras do narrador principal do romance para aprofundar o problema da autoconsciência atual da narrativa brasileira sobre seu processo criativo/construtivo. Finalmente, Cíntia Vieira elaborou um trabalho que se pode dizer mais metodológico, perguntando-se até que ponto o uso que os filósofos costumam fazer da literatura não acaba por rebaixá-la a uma mera ilustração de verdades filosóficas que existiriam independentemente de sua exemplificação literária.

Fechando o Encontro, Carla Damião apresentou um texto sobre as diferenças entre as concepções estéticas de Shaftesbury e Hutcheson para mostrar o quanto a formação da estética no século XVIII não distingue ainda com clareza o âmbito propriamente artístico do âmbito moral. Verlaine Freitas, por sua vez, propõe-se a discutir algumas implicações do que ele chama de “formalismo de viés naturalista”, que seria inerente ao pensamento de Hutcheson, para a elaboração de um conceito de gosto suficientemente fundamentado.

Findos os trabalhos do Encontro do GT de Estética no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, foi um enorme prazer para os editores destes Cadernos de Estética Aplicada a releitura dos textos ali originalmente apresentados, quase sempre modificados para esta publicação a partir do diálogo com os colegas. Esperamos que o mesmo prazer que tivemos possa ser compartilhado pelos leitores.

 
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