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Os ensaios que compõem o dossiê “Literatura Contemporânea” se esquivam da discussão conceitual sobre as categorias formadoras desse título. Um pouco por preguiça, certamente, mas pela preguiça entendida como gesto positivo em relação à teoria. A preguiça de saber de antemão que o debate sobre os conceitos de “literatura” e “contemporâneo” desviaria o foco do pathos motivador do dossiê: a atração pela obra de ficcionistas contemporâneos, de Tchekhov e das vanguardas do início do século XX, passando por Henry Miller, Kerouac, Bukowski e Saer, e chegando a Coetzee, Nooteboom e Amós Oz.

“A crítica literária deve brotar de uma dívida de amor”, afirma George Steiner em seu livro sobre Tolstoi e Dostoievski. A dívida de amor em relação aos autores lidos e comentados me parece ser o principal eixo articulador dos ensaios aqui reunidos. Isso porque os enfoques de cada autor são, naturalmente, muito diversos, como ficará evidente na rápida descrição que faço a seguir. A proposta foi exatamente a de não sugerir de antemão um fio condutor, para que cada ensaísta pudesse seguir seus próprios “pontos de partida”, para falar como Erich Auerbach. Com isso, evitou-se a construção de um retrato homogêneo da produção ficcional contemporânea. Essa diversidade de abordagens é, antes de tudo, uma forma de fazer justiça à própria diversidade da cena ficcional mais recente – o que passa por não tentar reduzi-la a querelas, quadros estáticos ou tendências gerais.

O texto de Gustavo Naves Franco, professor de Historiografia Literária na UNIRIO, propõe uma genealogia da poética do escritor israelense Amós Oz, partindo da leitura que este faz de Sherwood Anderson, no kibutz onde passou sua juventude, e do reconhecimento da matriz tchekhoviana como decisiva para a constituição de sua voz como ficcionista. Já Antonio Marcos Pereira, crítico literário e professor da UFBA, toma como ponto de partida um conto e um ensaio de Juan José Saer para examinar alguns impasses da crítica contemporânea, especialmente a acadêmica, que, com a armadura falsamente modesta do “falar como leitor”, esquiva-se dos combates e tomadas de posição que fizeram da crítica literária uma das instituições por excelência da modernidade.

Kelvin Falcão Klein, autor de Conversas Apócrifas com Enrique Vila-Matas e doutorando em Teoria Literária pela UFSC, analisa as apropriações vanguardistas da tópica da metamorfose, condição limite entre o humano e o animal. Em meu ensaio, procuro lançar algumas questões sobre a atualidade do conceito de realismo, a partir do exame de romances dos escritores J. M. Coetzee e Cees Nooteboom. Por fim, Lainister de Oliveira Esteves, doutorando em História Social no PPGHIS da UFRJ, analisa a ascensão e queda da imagem do “herói marginal” na prosa ficcional norte-americana do século XX, com destaque para três autores: Henry Miller, Jack Kerouac e Charles Bukowski.

Agradeço imensamente a Patrick Pessoa e Vladimir Vieira, editores de Viso – cadernos de estética aplicada, pelo imediato acolhimento à proposta do dossiê. Como organizador, só posso esperar que os ensaios instiguem seus leitores, e contribuam para o melhor mapeamento dos autores e questões neles trabalhados.

* Felipe Charbel Teixeira é professor adjunto do Departamento de História da UFRJ.
 

 

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Rio de Janeiro, Brasil

Aprovado: 21.07.2011. Publicado: 17.08.2011.

 
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