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Pequena catequese para a classe dominada1

PRIMEIRA PARTE

A SOCIEDADE

O que é a sociedade?

Uma forma de convivência desenvolvida sob o impacto exercido pelo propósito da classe dominante de manter a classe dominada sob o seu jugo.

Este é o segredo revelado da sociedade. Daí esses gritos terríveis cada vez que o segredo se pronuncia e essas longíssimas assim chamadas refutações que por fim não passam de objeções simplistas.

Mas a classe dominante, que nos educou e escreveu os livros, tem naturalmente todos os argumentos à sua disposição.

A classe dominante objeta que toda classe dominada é livre para, “através do trabalho”, colocar-se à altura da classe dominante.

Isto é mentira! O modo mais comum de se tornar classe dominante é o roubo mais ou menos legal. Quem tem a maior facilidade para “subir” é o comerciante. Mas em vez de então reconhecê-lo como quem “subiu” através do trabalho, ele se torna objeto de troça.

É com desdém que se chama uma classe dominada que subiu à dominante de: parvenu.

Pode-se também ainda chamar as classes de benéficas e maléficas.2

Será que assim se pode entender por que as benéficas são tão desprezadas (=os escravos da crua utilidade) e as maléficas (= as belas artes e similares) tão veneradas? Naturalmente as maléficas veneram a si próprias e aos seus malefícios.

Também já se objetou que o estado é um organismo e não uma invenção. A bactéria da cólera também é um organismo, mas nem por isso ela é algo especial. Um corpo apodrecendo também gera organismos!

O que é a classe dominante?

Os despedaçadores, os governantes.

Governar não é um trabalho. É somente uma ocupação, nem isso. Compare as incessantes caçadas, os bailes, as viagens e outros divertimentos secretos das realezas.

O que é a classe dominada?

Os alimentadores, os governados.

Os que produzem com as suas mãos comida, roupas, moradias e combustíveis são os operantes, os alimentadores.

Quais os meios que a classe dominante emprega para manter a classe dominada sob seu jugo?

Religião, Política, Leis, Ciências, Artes e Moral.

Todas essas coisas se desenvolveram a partir de necessidades mais ou menos artificiais, mas, no todo, sob o controle da classe dominante e com o propósito de beneficiar e consolidar o seu poder.

SEGUNDA PARTE

AS MENTIRAS DA CLASSE DOMINANTE.

Primeiro artigo: A RELIGIÃO

O que é religião?

Uma necessidade, surgida em etapas de desenvolvimento inferior, que a classe dominante aproveita para manter a classe dominada sob seu jugo.

A classe dominante ri secretamente da religião, mas acha que “é necessário ter uma religião para o povo”. Um ateísta honesto declarou recentemente que seria pena gerar a infelicidade da classe dominada ao privá-la de sua religião.

O significado profundo da religião pode ser encontrado no fato de ateístas agirem em defesa da superstição da comunhão. A superstição é útil para a classe dominante.

Para isso, de que meios se vale a religião?

Temor e consolo.

Frederico II3, chamado o Grande, fez a seguinte confissão:

“Todos os legisladores inventaram deuses e conversas com deuses para manter os povos unidos. Creia-me, como somos medrosos, inventamos diabos e infernos. O medo criou os deuses. A força criou os reis.”

Com o que a religião atemoriza?

Infelicidade ou castigos eternos para os que não obedecem a Classe Dominante.

Por isso o Juízo Final de Michelangelo é considerado a maior de todas as obras de arte.

É a que mais atemoriza!

Com o que a religião consola?

Com a esperança de felicidade numa vida futura para aqueles que nesta vida trabalham e sofrem para a Classe Dominante.

O que sabemos de Deus?

Nada!

Existe alguma vida a mais?

Isto não se sabe e isto não nos importa. Por isso temos que viver para esta vida!

A classe dominante sempre se aproveita dessa vida e convida a classe dominada para o céu.

Quem era Cristo?

Uma pessoa rara, que queria iluminar e salvar a classe dominada à sua maneira.

Infelizmente ele também acreditava num céu e, em vez de mostrar aos operantes e sobrecarregados como se colocar bem na terra, ele apontava para o desconhecido.

Por isso Cristo envelheceu e agora só serve para ser aproveitado pela classe dominante como consolador da classe dominada, quando esta é explorada demais.

Como poderíamos saber que ele não era Deus?

Porque ele era um homem.

É preciso perder tempo provando a implausibilidade do implausível?

Não por causa de outra coisa?

Sim, também porque ele não deixou provas da sua divindade, o que seria tanto fácil como sábio.

Na Place de la Concorde há um obelisco, 1400 anos mais velho do que Cristo e cuja inscrição prova a existência de Ramsés II.

Por que não temos um desse sobre a vida de Cristo e não um registro contemporâneo?

O que é então a emoção religiosa interior?

O hábito de render-se desde a infância a essas emoções.

A emoção religiosa do maometano o convida a se casar com várias mulheres.

O córsico anda com emoções infelizes até cumprir o seu dever religioso de matar o seu inimigo.

O que é consciência?

O sentimento de não ter cumprido uma prescrição.

Julgando as ações da classe dominante vê-se que a esta também falta toda consciência. Isto é inteiramente natural, uma vez que essas prescrições se destinam apenas à classe dominada. Para si mesmos eles só tem uma lei: O que faço é certo!

Quem faz as prescrições?

A classe dominante!

A classe dominante regula assim a nossa consciência através de suas prescrições.

Os quacres, que recusam fazer serviço militar, obedecem ao seu senso e têm má consciência por terem rompido a prescrição da classe dominante.

Mas, pelo poder do hábito, as prescrições da classe dominante ficaram tão enraizadas que às vezes essas agem como consciência. Então, quando a classe dominante apela à nossa consciência, esta revela somente a memória dessa prescrição.

O homem pode viver sem religião?

Sim, para a classe dominante, que tem os meios de existência, isto é fácil, mas para a classe dominada, que vive numa constante angústia na sua existência, isto é mais difícil.

Porque ninguém deixava em paz os cabelos de Numa Pompílio4, ele os declarou sagrados e os chamou de Vestais.

Porque ninguém deixava em paz os papeis de Voltaire num certo lugar, ele ali colocou um livro de salmos.

Faria sentido dar à classe dominada o ateísmo como religião porque ela tem que ter uma.

Não é melhor conseguir meios de existência para a classe dominada em vez de religião?

Sim, é muito melhor.

A classe dominante saciada acusa a classe dominada de só pensar em comer!

E a classe dominada acolhe esta acusação.

Segundo artigo: POLÍTICA

O que é política?

Arte do Estado ou a arte da classe dominante de manter a classe dominada sob o seu jugo. Por política entende-se também um procedimento enganoso.

O que é política externa?

A cooperação das classes dominantes com diferentes nacionalidades.

Por isso a classe dominante foi tão sábia em manter os postos de ministro do exterior para si mesma e de guardar em segredo as suas negociações. O parlamento podia então nomear esses postos e sozinho decidir sobre as relações com poderes estrangeiros.

As embaixadas e os consulados são agentes policiais da classe dominante.

Se alguém num país estranho estabelece relações com o povo, pergunte sempre na embaixada ou consulado quem é esse alguém. Dependendo da resposta, esse alguém passa a ser deus ou diabo. Se você for amigo da classe dominada, você é delatado como “pessoa suspeita”.

O que é política interna?

A proteção dos interesses da classe dominante contra a classe dominada.

O parlamento somente age como concessor de impostos. Os impostos são usados para ocupações e salários da classe dominante.

Todo trabalho parlamentar resume-se em encontrar de quem arrancar o imposto.

O que é soberano?

O conselho da classe dominante, que protege seus interesses. Os soberanos podem ser destituídos de várias maneiras.

Eles podem ser despejados através de uma revolução. Mas revolução só pode ser feita pelo exército. Daí essas eternas propostas de organização militar.

Eles podem ser perseguidos, retirando-lhes o apanágio. Pois, mesmo dizendo acreditar no céu, eles não regem de graça.

O maior obstáculo é, porém, o medo da classe dominada de não ser considerada “um povo melhor”.

Por que a classe dominante ama os soberanos herdeiros?

Para os interesses serem perturbados o mínimo possível e para que, através da herança, a classe dominada adquira a impressão de que o soberano tem origem divina.

Bernadotte5, que foi enganado por alguns oficiais depois da revolução de 1809, também se convocou com a Graça de Deus.

Em que poder o soberano se apoia?

No capital, na superstição e na força bruta.

O soberano em países constitucionais tem mais poder do que se imagina. Ele tem todas as tarefas, todos os prêmios, todas as bolsas, todos os fundos répteis6, todos os répteis (que ele mantém sem castigo) à sua disposição.

Que meios a classe dominada possui para proteger os seus interesses contra a classe dominante?

Direito a voto, onde isso existe.

Não há outros meios?

Revolução.

Quando a revolução é legítima?

Quando tem êxito.

Como ela pode então se legalizar?

Os revolucionários passam uma lei, que declara a revolução legal.

Assim fizeram os anarquistas de 1809.7 E a casa real que agora rege provavelmente considera a sua posição legítima.

A revolução é para ser aconselhada?

Depende das suas visões de êxito.

Engelbrekt8, Gustavo I, Carlos XI e Gustavo III fizeram revoluções que tiveram êxito, por isso eles são celebrados como heróis, mesmo sem considerar que quebraram juramento e lei.

Terceiro artigo: LEIS

O que são leis?

Uma invenção da classe dominante que por um assim chamado caminho legal mantém a classe dominada sob seu jugo.

A classe dominante escreveu as leis?

Isso!

No seu interesse contra a classe dominada?

É, naturalmente!

Qual é a primeira coisa que a classe dominante exige da classe dominada com relação às leis?

Respeito às leis.

Daí a infalibilidade dos juízes (contra a classe dominada).

Deve-se portanto respeitar as leis?

Sim, quando elas merecem respeito.

Se houvesse respeito absoluto a todas as leis, não poderia haver outras melhores.

Como o comitê jurídico pode trabalhar no melhoramento das leis, se ele não desrespeita as leis existentes?

Nesse momento, todos os católicos, judeus, batistas e outros que negam o “ensinamento puramente evangélico” podem ser postos na prisão.

E mesmo assim, respeitamos essa lei e isso sem observar que o ministro da justiça confessou até mesmo publicamente seu desrespeito a ela.

O parlamento não é uma congregação legisladora?

Sim, às vezes, mas o parlamento não é a classe dominada.

O parlamento não devia então ser uma expressão dos desejos tanto da classe dominante como da dominada?

Não, somente da classe dominada.

Isto não é injusto?

Não, pois a classe dominante só pode pretender uma justiça: que ela seja exterminada.

Por que é vingador quem domina?

Porque ele se vinga!

De que ele se vinga?

O ataque justificado da classe dominada à classe dominante.

Todos os ataques da classe dominada à classe dominante são chamados de vingança (vingança simples, vingança baixa, etc.), mas todos os ataques da classe dominante à classe dominada são chamados de castigo.

Quando alguém da classe dominada mata alguém da classe dominante, isso é chamado de assassinato, bote, etc., mas quando alguém da classe dominante mata alguém da classe dominada, isso é chamado de execução, morticínio etc.

A classe dominante, que tem o poder das armas, não precisa matar em segredo, não se envergonha de matar abertamente e disso se vangloria.

O que é o castigo julgado por lei?

A vingança da classe dominante ao ataque da classe dominada às leis que são legisladas pela classe dominante.

A classe dominada deve considerar como seu dever vingar todas as injustiças, pois, ao se calar e sofrer, comete-se uma injustiça com os seus companheiros.

A vingança por si mesma foi eliminada pela classe dominante. Isto foi para tirar a arma das mãos da classe dominada. Mas ao legalizar a vingança por si própria a classe dominante a manteve para si mesma.

Quarto artigo: CIÊNCIAS E ARTES

Economia

O que é economia?

Uma ciência inventada pela classe dominante para obter o fruto do trabalho da classe dominada.

Como se chama o fruto do trabalho da classe dominada?

Capital.

O capital pode existir sem trabalho?

Não!

Assim o capital seria o escravo do trabalho e não o contrário.

O árabe no deserto que acha um saco de ouro morre de fome.

Os proprietários de terra em Frioul são pobres porque todos os agricultores e granjeiros emigraram e não conseguiram assalariar os trabalhadores.

Na greve dos alfaiates em Paris grandes empresas caíram e faliram.

Os economistas da classe dominante provavelmente dizem que capital é trabalho acumulado, mas eles tomam bastante cuidado para dizer quem acumula o trabalho. Eles dão a entender que é o do capitalista.

Como pode então o capital ter domínio sobre o trabalho?

Quando o capitalista segura as poupanças do trabalhador, que é justamente o capital, ele o impede de ter domínio sobre o capital.

O capital tem domínio sobre o trabalho pelo poder das armas e pela sonegação dos meios de existência e produção. O riquinho tem sempre um guarda atrás dele.

Grandes greves são por isso subjugadas com o poder das armas!

Que meios tem o trabalhador para impedir a opressão do capital?

Muito poucos, por enquanto, enquanto greves legais forem oprimidas pelo poder ilegal das armas.

Mas não há mesmo alguns meios?

Há sim, greve; mas aqui o capital é necessário.

Como o trabalhador consegue capital para a greve?

Através de uniões de consumo, que diminuem os seus custos, e através de bancos de trabalhadores, que estendem empréstimos por ocasião das greves.

Com isso se ajuda a causa?

Não, é preciso expropriar a terra.

Isto não é uma intervenção no direito de propiedade?

Nada pior do que outras expropriações, por exemplo, quando a terra do Estado é expropriada na construção de estradas de ferro privadas.

Aqui a única coisa que se requer é a expropriação do individuo para o bem comum.

Por que sobe o preço quando falta um produto?

Porque o comerciante usa a necessidade dos outros para tirar proveito.

Na economia da classe dominante, como isto se chama?

Chama-se a lei da oferta e procura.

Filosofia

O que é filosofia?

Uma busca da verdade.

Então como a filosofia pode ser amiga da classe dominante?

É que a classe dominante paga os filósofos para que descubram somente verdades agradáveis.

E se algumas desagradáveis são descobertas?

Essas são chamadas de mentiras, e o filósofo não é pago.

História

O que é história?

O conto do passado, somente enquanto este é apresentado sob uma luz de clemência para com a classe dominante.

E se essa luz vira inclemente?

Aí é chamada um escândalo.

O que é um escândalo?

Tudo que se opõe à classe dominante.

O que é amor à pátria?

Uma forma desenvolvida do sentimento de propriedade. É o meu país e por isso é o melhor. Assim dizem todas as nações sem ver a estupidez subjetiva que elas pronunciam, pois somente um país pode ser o melhor. O que não impede que todos sejam igualmente bons.

O que se deve à sua pátria?

Nada!

Os pais pagaram educação, alojamento e comida também, e quando alguém arranja uma ocupação então se paga com o trabalho. Proteção se paga com imposto.

Isto a pátria também entende, pois faz sem parar novos amigos da pátria vindos de qualquer nação, basta que estes habitem três anos no país e paguem o resgate.

Estética

O que é estética?

A doutrina de elogiar ou enfraquecer obras de arte.

Quais as obras de arte que devem ser elogiadas?

Aquelas que glorificam a classe dominante.

Por isso Rafael e Michelangelo são os mais famosos por terem glorificado as mentiras religiosas da classe dominante.

Shakespeare também glorificou os reis e Goethe glorificou a si mesmo como autor da classe dominante.

E as outras obras de arte?

“Não pode haver outras”.

Zola descreveu os sofrimentos da classe dominada e os crimes da classe dominante, por isso ele é chamado um autor sujo. Sujeira é o nome que a classe dominante dá a tudo que tem alguma conexão com a classe dominada.

As ciências naturais

Por que as ciências naturais tem má reputação na classe dominante?

Porque mostram que a sociedade é contra a natureza saudável.

Tem natureza não saudável também?

Tem!

Dá um exemplo!

O estado atual da sociedade.

Quinto artigo: A MORAL

O que é moral?

Um sentimento de justiça disciplinado pela classe dominante com vistas a enganar a classe dominada para um modo calmo de viver.

A moral é colocada desde o começo dentro da natureza do homem?

Claro que não! Ela muda dependendo do clima, do solo e do bem-estar da classe dominante.

Nos países do sul uma mulher “do mundo” exibe seu peito para a sociedade quando ela amamenta o seu filho. Na Suécia ela o exibe somente para os cavalheiros num baile.

Em que caso a moral é mais rígida?

Na relação entre os sexos.

E por que?

Porque disso dependeria o crescimento da classe dominada, e se ela fosse entregue à liberdade, isto seria danoso à classe dominante.

Quem fundou o matrimônio?

A mulher, que assim criou uma nova classe dominante, ao ter-se retirado do trabalho.

A mulher inventou a prostituição ou uma maneira de ser paga pelos seus favores.

O homem não cobra. Ele paga.

A mulher criou a sífilis pela putaria. O homem não. Se um filho é gerado fora do casamento, ele sozinho tem o dever de colocar a criança no orfanato. A mulher não!

E a mulher não é protegida?

Na França a paternidade não pode ser solicitada. Pois a paternidade não pode ser provada! É certo! Um marido enganado é ridículo, uma esposa enganada é trágica.

Existem portanto duas morais?

Uma mais suave para a mulher e uma mais rígida para o homem?

Um marido, que é infiel à sua mulher, não faz nada errado, mas uma mulher faz, 1. Quando ela recebe pela fidelidade ao homem, 2. E quando ela obriga o homem a sustentar a criança da qual ele não é o pai. Isto se deve a uma simples lei da natureza (a saber que a mulher fica grávida, mas o homem não) e isto não tem nada a ver com a moral.

O que é o matrimônio?

Uma instituição econômica na qual o homem é obrigado a trabalhar para a mulher, de quem ele virou escravo.

Nas classes mais baixas, o homem e a esposa trabalham com o corpo, mas principalmente o homem; na classe média, o homem trabalha e a mulher administra; nas mais altas, o homem tem um trabalho e a mulher se diverte.

Os emancipados dizem que a mulher não nasceu para parir filhos?

Então quem vai?

Os emancipados dizem querer ser benéficos. Isto é mentira. Eles abandonam casa e crianças para fazer pinturas a óleo e trincar o piano. Isto é benéfico! Não é mais benéfico cuidar das crianças, em vez de deixá-las com as escravas (as empregadas)?

Qual a tarefa do matrimônio: parir filhos e os educar. Todo esse papo de diversão de cônjuges é furado.

Qual a consequência?

Que os homens não querem se casar?

O sexo masculino está esgotado por causa da sobrecarga de proporcionar à mulher luxo e diversões. Por isso o seu número está diminuindo. As guerras, nas quais as mulheres cuidaram de não participar, também dizimaram o sexo masculino.

Daí a superioridade em número das mulheres e os gritos das solteironas.

E a consequência disso?

Prostituição. No Oriente, poligamia, no Ocidente, assexualidade.

Os mórmons tentaram resolver essa questão com poligamia.

São os assexuados que agem em nome das mães e querem exterminar a diferença sexual, como a natureza estabeleceu.

Por isso, se vestem como homens e querem ser homens. Esse é o segredo da emancipação. Daí os gritos dos assexuados, quando se quer falar de machos e fêmeas. Estes não são nenhum deles!

Houve outras consequências?

A posição oprimida da mulher solteira e a reivindicação de trabalho.

Esta reivindicação pode ser satisfeita?

Agora não, já que o mercado de trabalho está saturado.

Se um quarto está saturado de maneira que tem uma fila lá fora, pode-se então deixar outros entrar?

Que mercado de trabalho não está saturado mas vazio?

A cozinha e o quarto de criança.

Mas as damas exigem que os homens sejam expulsos para poderem entrar. Isso aconteceu na Inglaterra, onde as esposas passaram por cima dos homens na tecelagem, para que elas assumissem as tarefas e os homens ficassem em casa com as crianças. O homem teve que comer pão de esmola, pois a esposa não precisava por lei sustentar o homem, só o homem a mulher.

A mulher já foi mais oprimida do que o homem?

Não, menos!

Ela sempre foi poupada do serviço militar, dos deveres políticos, etc.

Mas ela não participou da legislação?

Ela não quis, pois achou melhor ficar acima da lei!

A mulher escolheu a sua posição. Agora ela se arrepende e através de fraude busca subir.

Quando a mulher vai ter direito a voto?

Quando cumprir seus deveres de cidadão (fizer serviço militar) e trabalhar.

Do serviço militar elas são isentas porque parem filhos. Para manter a raça viva exigem-se quatro filhos. Dois filhos para substituir pai e mãe, quando estes morrerem. O terceiro vai para a porcentagem de morte e a substituição dos solteiros.

Quando a mulher vai ter direito à propriedade?

Quando o matrimônio for dissolvido. Quando o homem tiver sido liberado de ser o único sustento da família e quando a mulher por lei tiver que contribuir para o sustento dos seus filhos e de si mesma.

Ou então, sob as condições atuais, o homem tem que sustentar uma esposa rica que economiza a sua renda das despesas da família.

Todo o capital, toda propriedade é criada pelo homem, e desse modo lhe pertence por ter sido condenado a sozinho assumir todas as obrigações de ser o sustentador de familia.

Daí ser correto que a assim chamada propriedade da mulher se estabeleça sob a sua gestão e que as migalhas com que ela pode contribuir no dote paguem as dívidas de solteiro dele, contraídas para que ele aprendesse uma profissão para sustentar a família.

O que a classe dominante tem como lei moral?

A arbitrariedade!

O que quer dizer imoral?

O que vai contra a temporária lei moral da classe dominante.

É imoral mostrar o seu corpo?

Não em países quentes, somente nos frios, e lá nem sempre?

É imoral mostrar o escondido?

Não em obras de arte reconhecidas!

Que obras de arte são reconhecidas?

As que agradam à classe dominante!

TERCEIRA PARTE

O JEITO DE FALAR DA CLASSE DOMINANTE PARA RIDICULARIZAR A CLASSE DOMINADA.

1:0 Reforme-te a ti mesmo antes de reformar os outros!

Resposta: Se nos reformássemos, a Vossa sociedade cairia, pois ela está construída sobre mentiras e imoralidades. Pois se quiséssemos ser morais, iríamos demitir a crença e a obediência à casa real, porque é imoral confiar em príncipes.

Recusar fazer serviço militar, pois é imoral tomar a espada.

Sair da igreja do Estado, que força a consciência dos menores.

Nunca tomar bebida forte, para que o estado perca 14 milhões só em imposto de aguardente.

Parar com luxo na comida, bebida e roupas, para que o estado perca 27 milhões em imposto alfândegário e a indústria se abale.

Recusar pagar impostos para luxo estatal e funcionários públicos.

Não pôr as crianças nas escolas públicas, onde elas aprendem mentiras estatais e superstição religiosa.

Temos então que não nos reformar se a sociedade atual tiver que permanecer.

Em vez disso, deveríamos reformar a sociedade riscando a classe dominante e as suas mentiras.

Assim ficaremos todos reformados alguma vez.

2:0 Vocês querem derrubar o poder para chegar ao poder vocês mesmos.

Sim: pois temos o direito e assim o poder de derrubar o injusto é nosso.

Não: pois queremos distribuir o poder por toda a classe dominada e não sermos sobrecarregados inteiramente apenas com ela.

3:0 Vocês são conduzidos somente por interesses egoístas.

Todos os interesses são conduzidos por egoísmo ou autopreservação. Mas há um egoísmo justificado: o da Classe Dominada; e um injustificado: o da Classe Dominante.

4:0 Vocês só procuram ganhar dinheiro.

Não só, mas também! Pois, nas condições atuais, o dinheiro é um poder. E sem este poder não se pode derrubar a classe dominante.

A classe dominante não precisa procurar ganhar dinheiro, pois ela já pegou tudo para ela!

5:0 Vocês arrastam o sagrado na sujeira!

O sagrado é tudo que a classe dominante subjugou.

Foi isso que tornou sagrado o rei, a propriedade, a família, a instituição da comida e a violência.

Vamos então deixar o sagrado ser arrastado na “sujeira”.

Com sujeira a classe dominante quer dizer todo o lixo. Mas esquece que seus pratos mais deliciosos foram extraídos da terra, bem misturados com lixo ou sujeira.

6:0 Vocês só querem derrubar e não construir! O que vocês nos vão dar de volta?

Tem muito que só precisa ser derrubado. Se você derruba superstição e mentira, você não precisa construir novas superstições e mentiras.

Aliás, todas as tentativas de novas construções são tratadas com desdém e resistência.

Assim: desprezam-se as propostas de construir tribunais de paz em lugar de guerras perdidas.

Assim: desprezam-se as igrejas independentes, que queremos construir em lugar da igreja arruinada do Estado.

Assim: despreza-se a república, que queremos construir em lugar da ridícula monarquia.

Assim: despreza-se a educação igualitária e comunitária, que queremos pôr em lugar de uma educação de classe privilegiada.

Assim: despreza-se o matrimônio civil, que queremos em lugar de concubinato bíblico.

Assim: despreza-se a tributação progressiva, que queremos em lugar da atual.

Assim: despreza-se o voto universal, que queremos em lugar do individual.

Assim: despreza-se a igualdade, que queremos em lugar da diferença de classe.

Assim: despreza-se a classe dominada, que queremos em lugar da classe dominante.

7:0 Vocês são blasés e não sabem o que querem.

A classe dominante chama de blasé aquele que não mais se entretém com as suas brincadeiras na literatura, arte cuja pretensão é desviar a atenção de questões sérias.

Já enxergamos o hocus pocus da classe dominante e não somos mais admiradores dela, por isso somos chamados de blasés.

Sabemos bem o que queremos. Mas a classe dominante confundiu os nossos conceitos com a sua educação, de modo que muitas vezes caímos em contradições nos detalhes. Isso é culpa da classe dominante, mas deve-se unicamente a nós saber o que queremos no substancial.

A juventude deve por isso tomar cuidado com os sofismas da classe dominante, deixando de ler os seus livros e jornais, e também evitando relações com a classe dominante.

As nossas cabeças são demasiadamente feitas pela classe dominante para que não ecoem o tom dado pela classe dominante.

Quando você já há um bom tempo se desvencilhou dos fios, dá para ler com um certo agrado o jeito de eles falarem. Assim você ganha as suas melhores armas do arsenal deles.

Em certas questões, quantas vezes não dá para achar liberais que são sólidos conservadores.

Björnson9 é ateísta na religião, socialista na política, mas cristão bíblico na moral.

Georg Brandes10 é liberal em tudo menos em estética e na questão das mulheres.

O jornal O tempo11 é democrata em tudo menos na questão das damas, onde é assexuado.

8:0 Todas as suas tentativas de reforma já naufragaram antes

Sim, pois a resistência da classe dominante era forte demais; mas agora ela começa a enfraquecer e por isso conseguiremos – com certeza!

Almqvist12 tentou virar fazendeiro, mas fracassou. Ele estava muito velho para se reformar e a cultura o havia destruído.

Ele também se isolou no campo. Se ele tivesse criado uma associação agrícola, talvez tivesse conseguido. Mas como fracassou, outros não precisam fazer isso em novas condições.

9:0 Nós velhos temos sido fiéis aos ideais da nossa juventude.

Foi burrice de Vocês, pois os Seus ideais de juventude foram ditados pela reação comum da época. Nossa fama é de que fomos infiéis aos ideais reacionários da nossa juventude.

10:0 Nós não abandonamos a nossa crença de infância.

Isto é justamente a Sua infelicidade. Acreditávamos em fantasmas quando éramos crianças, mas para nossa honra abandonamos essa crença de infância.

E Vocês mandam missionários para roubarem dos negros a sua crença de infância. Assim vocês acreditam somente na Sua crença de infância, porque ela é benéfica para a classe dominante.

11:0 Não há pessoas com reputação que atacam a sociedade.

Não, não é nada para considerar, pois a classe dominante, que dá reputação, concede isso somente para as pessoas que defendem a sociedade (= a classe dominante ). E se alguém com reputação atacar a classe dominante, a sua reputação lhe será roubada, pois assim a classe dominante tem razão.

A classe dominada é tão ridicularizada por essas frases da classe dominante que sempre se começa a reivindicar reputação, moralidade, boa economia e coisas semelhantes tão logo alguém aja em sua defesa.

Para que reivindicar essas coisas do amigo da classe dominada?

Reivindica-se a moralidade ou honra de um rei ou da sua criatura? E quantas vezes essas coisas podem ser neles encontradas?

Uma pessoa com motivo baixo para se corromper não pode revelar uma fraude?

O espião de polícia descobre crimes contra pagamento em dinheiro, o que é um motivo baixo para se corromper, mas os seus serviços são recebidos mesmo assim com gratidão, e ele é tratado como um amigo da ordem social.

O rei rege por pagamento e o padre prega o Cristo crucificado por pagamento; o juiz julga por pagamento. Por que eles não são desqualificados por causa do motivo baixo para sua corrupção?

Mas então se responde: eles têm que viver!

E o amigo da classe dominada?

- Ele não pode viver!

É incrível como neste caso a mente da classe dominada foi escravizada.

Assim que alguém quer falar em seu favor, eles criticam este alguém!

Mas quando a classe dominante fala contra eles, estes pegam qualquer coisa sem perguntar o informante.

Os amigos ridicularizados da classe dominada têm uma frase com que eles tentam motivar isso:

Eles dizem: temos que fazer reivindicações mais altas para nós!

Por que? Somos melhores?

Isto é orgulho, né!

Não se deve fazer reivindicações mais altas para aqueles que se dizem ser mais pela Graça de Deus do que aqueles que devem viver a qualquer preço.

Que o rico não rouba, isso não é uma virtude. Pois sua riqueza já foi roubada e legalizada, de maneira que ele não precisa roubar mais. Não precisar roubar, esta é a virtude.

O pobre, que rouba por necessidade, somente cumpre o mais simples dever para com a sua vida e segue o seu ímpeto de autopreservação. O rico, que roubou por volúpia de prazer, comete o crime, mas continua impune, sim, e é recompensado. Um comerciante, que juntou dinheiro à custa das necessidades de outras pessoas, ganha, por fim, uma medalha por ter sido “um dedicado cidadão”.

Os direitos do homem numa sociedade civilizada e cristã13

Quando nasce uma criança numa sociedade civilizada, ela nasce com direitos, ao passo que a sociedade deve esperar para poder exigir, na hora devida, obrigações do recém-nascido.

A criança tem direito a comida e educação elementar e a sociedade deve nutrir e educar as crianças quando os pais não o fazem, seja por descuido ou por algum impedimento, pois, mesmo quando os pais são negligentes, a criança não deve ser punida por isto.

Mas como a vida é um estádio, onde há competição, todos devem estar igualmente equipados desde o começo. Isto acontece melhor na escola fundamental, obrigatória e uma só para todos, onde os elementos são transmitidos gratuitamente. Ler, escrever e contar são as chaves para todo saber, pois com esses cada um pode depois por si só aprender tudo o mais que se pode comprar nas vendas de livro.

Quem tem grana e vontade para buscar mais pode fazê-lo, mas daí não deve seguir nenhum elitismo ou quaisquer outros privilégios a não ser aquele de cada pessoa ter o seu lugar.

E quem quiser seguir o caminho da leitura não deve reivindicar que o estado lhe ofereça um lugar onde não há lugar, mas deve considerar como uma condição favorável que ele, numa área ou noutra, saiba mais do que os menos favorecidos.

Quando cada um, seguindo seu talento natural, sua aptidão e desejo, escolhe seu rumo, deve-se-lhe abrir a possibilidade de se promover irrestritamente, pelo seu próprio esforço, e chegar tão longe quanto alcance a sua habilidade profissional.

As restrições no antiquado sistema de castas da sociedade atual são as seguintes: 1: o) o exame para concluir o segundo grau é em si descabido, pois ningúem pode, durante um meio dia, mostrar o que sabe, já que pode falhar em alguns detalhes que esqueceu no meio de toda essa confusão de saber o que pertence ao léxico das conversações. O exame para concluir o segundo grau, que rouba toda a juventude de alguém, tampouco alimenta, sendo apenas uma introdução para a formação especializada. O exame é uma cancela no caminho, algo que cria a posição privilegiada, elitista, e por isso deve acabar. A experiência mostrou que um homem sem nenhuma formação pode governar o Estado (o presidente dos Estados Unidos), e que o conselho do rei numa monarquia pode cuidar dos departamentos de Estado sem formação e conhecimento dos detalhes. Isso é uma prova iluminadora para a dispensa desses exames.

Numa confederação (como a Suíça), o conselho administrativo é muito simples e o trabalho do Estado muitas vezes se faz sem salário, por ser considerado um posto de honra, uma confiança, que também não é paga nem mesmo indiretamente com trajes ou ordens mais refinadas.

Dentro das nossas obras civis, como correios, telégrafos, ferrovias, a promoção deveria ser irrestrita. Assim o carteiro, que sabe escrever e contar e a quem é confiado o cuidado de grandes somas de dinheiro, pode muito bem ser colocado no púlpito, ao menos num posto doméstico, se ele não tiver conhecimento de línguas estrangeiras.

O ferroviário deveria poder virar inspetor da estação em vez de se colocarem como inspetores pessoas estranhas, sem a menor ideia da volumosa organização do tráfico ferroviário e onde os empregados especializados acabam cuidando do seu trabalho.

Em geral, nos graus mais altos, há tanta falta de conhecimento profissional que diariamente se veem as promoções mais incompreensíveis. Agora este homem é geólogo; logo depois ele vira conselheiro de comércio; depois ele aparece como diretor do tráfico ferroviário, e por fim ele está controlando uma comuna, que não tem nada a ver com geologia, comércio ou ferrovias. Aqui parece claramente que habilidade profissional não é nenhuma base para uma promoção; e que o mundo inteiro sabe que é o secretário de Estado (e o tesoureiro) quem cuida da comuna – e que a incumbência do governador só vale para ele mesmo.

A outra cancela no estádio é a estrela do tenente. Quando antigamente, em virtude dos seus conhecimentos, o estudante podia tornar discutível a promoção do tenente, este controlava a nota do estudante para assim manter indiscutida a sua posição. Naturalmente os conhecimentos dos livros não eram necessários para os serviços de guerra, mas essa leitura de luxo, intrusa na educação militar, tornava o suboficial mais guerreiro do que oficial letrado. Já se disse que a guerra se tornou uma ciência. Isto é completamente falso. Pó, canhões, navios de batalha não são feitos por oficiais mas por engenheiros e trabalhadores braçais. Conduzir uma tropa é mais fácil agora do que antes, e quem mais ganha aprendendo a atirar é o suboficial que é criado nos rifles, coisa que o oficial não é. Toda a vida e a escritura nos quarteis está sob os cuidados do suboficial, que conhece cada homem na fila, com as suas proficiências e vícios. Então se pergunta: por que ele não ganha uma promoção e a sua carreira se vê bloqueada no meio do caminho? Porque, numa monarquia, há classes e diferenças de classe, ou seja, quando o centro do poder distribui poder para os seus escolhidos de confiança a fim de manter uma certa reserva de obediência na obediência. Ademais não é nem a ideia nem a tarefa do Estado que é para o bem de todos, e tampouco a atribuição de direitos para todos; além disso, o Estado civilizado mais recente não fala de castas nem de classes. É uma fábula este retorno irregular para um estado primordial que somente existiu nos despotismos mais antigos como aqueles bem longe na Índia.

Há, no entanto, um Estado Europeu onde o intervalo que separa até os oficiais foi revogado, onde a promoção do suboficial é possível. Trata-se do exército italiano, onde uma certa porcentagem de suboficiais é promovida. (Era assim por volta de 1890; se isto já mudou eu não sei.)

Mas onde melhor se nota este intervalo é na repartição pública e nos bancos, onde existe o ofício de zelador. O zelador é um funcionário a quem se chama pelo nome sem título de senhor, com o qual o funcionário público normalmente é tratado. Agora é assim, os antigos zeladores em algumas repartições públicas são tão bem informados nos afazeres que podem ensinar aos funcionários públicos que acabam de ser empregados; e eu já vi repartições públicas onde o zelador-mór virava o ajudante mais próximo do chefe, quase o seu segundo homem. Nas estações alfandegárias quase todo o serviço ficava entregue ao velho zelador quando o chefe ia caçar ou estava (pegava) de licença, sem que o zelador fosse promovido ou ganhasse algum tipo de salário extra. Zelador não é uma designação simpática e, quando o funcionário serve ao público, ele trata o zelador como o seu servo, o que não é direito. Já está mais do que na hora de trocar a designação chata e incorreta para p. ex. assistente ou algo parecido.

Em bancos privados sei de boys e zeladores que foram promovidos a funcionários por causa de seu mérito real.

Aqui também se encontra a diferença mais rigorosa entre senhor e não senhor. Na Noruega e na Dinamarca (?) não se usa o título de senhor: Escutai, Asbjörnsen, se diz; e não senhor Asbjörnsen; isto seria algo para se imitar, como uma vez pegamos o título de Senhorita da Dinamarca e apagamos o intervalo entre rapariga e senhorita (nobre).

E temos os servos! Quando finalmente reconhecemos a livre troca entre trabalho e salário, quando faxina, servidão e direito de punição acabam, a posição do empregado numa casa deve se basear em algo diferente do que o poder do proprietário e a faxina. O empregado dá o seu trabalho em troca de salário e comida, e o acordo é livre. Por que então tratar o empregado da casa como subordinado, quando o dono da casa é igualmente dependente do empregado estando assim na sua dependência? Por que ele deve ser chamado de tu só por ter feito um acordo de trabalho e assim perder o seu sobrenome de cidadão; e com que direito alguém se mete na sua vida privada? – Basta que o empregado deixe o emprego para se notar o próprio desamparo, quando a casa fica de cabeça para baixo; não se sabe de nada, não se sabe como acender uma brasa ou uma lâmpada, como fazer a cama, lavar a louça, e ainda menos cozinhar, o que é uma grande arte. É assim que se percebe como é grande a dívida de gratidão para com esse servidor insubstituível sem o qual a vida se torna impossível de se viver – para os de cima.

Da mesma forma: o trabalhador! Deixe algo quebrar na casa, só uma fechadura, por exemplo. Não dá para consertar sozinho, um engenheiro ou professor de mecânica não é capaz de consertá-la, ningúem pode, aliás, além do ferreiro; ele é portanto indispensável, e podia cobrar o quanto quisesse, o que ele não faz, pedindo um preço baixo demais; sozinho com os seus irmãos de profissão, ele forma um monopólio ou um trust sem o saber. Nós, que moramos em modernas máquinas habitacionais, sentimos a dependência do trabalhador; quando falta eletricidade justamente quando estamos esperando os nossos convidados, a única salvação está nele; e quando a calefação central pifa, a única saída é ir para a rua e implorar a ajuda do trabalhador. Hoje em dia ele nos deixa esperando para que possamos aprender o seu valor; mas muitas vezes é somente por falta de reflexão e preguiça que tratamos aquele de quem dependemos como se fosse o nosso vassalo.

Mas fiz uma promessa condicionada para esse jornal de em algum momento escrever as minhas memórias sobre duas greves gerais, nas quais descobri como nós, os não trabalhadores, somos artigos de luxo vulneráveis e superficiais e também como toda a sociedade, com a sua cultura, flores, arte, poesia e erudição estéril, somente existe graças a eles, que são as suas fundações e os seus pilares.

“Se o trabalho fosse pago pelos serviços prestados, a indústria pararia de existir”, alguém disse. Que ela caia então, já que ela está construída sobre uma base tão injusta e revoltante, sobre o abuso de uma situação de impasse na vida de um companheiro de humanidade.

E que aqueles que pregam contra a luta de classe consigam pensar mais em tirar as classes e as cancelas entre as classes; em liberar o acesso para o estádio e cuidar para que o começo de todos aconteça sob condições iguais e igualitárias, sem nenhum truque. Isto haveria de acalmar o ódio, de tornar a vida decente e cheia de esperança para os que, lá em baixo, trabalham sem esperança de algum dia conseguir subir para o lado dos seus companheiros que parecem estar acima pretendendo ser melhores do que são, embora por fim acabem se descobrindo como sendo os últimos.

S.-D. 22. 1. 1912.

O democratismo de Tolstói14

- Como este conde e oficial, este rico dono de terras e famoso escritor, podia ser democrata ou sentir amizade pelas classes trabalhadoras?

- É que ele nasceu com modéstia e sentido de justiça, embora esta sua melhor parte tenha sido reprimida nos meios ruins em que convivia e pela família que o educou. Primeiro se tornou parecido com os outros. Durante as guerras, como oficial, ele vivia em festas, enquanto os soldados se feriam; e como dono de terra com 700 subalternos, dissipava na capital e no exterior o que os seus camponeses haviam juntado com o seu trabalho. Mas um dia ele acordou e começou a refletir sobre a finalidade da existência e a natureza da sociedade. Ele não pôde aceitar que a finalidade da sua existência fosse somente festejar; ele comparou o povo inútil dos Salões com os indispensáveis lá de baixo, os trabalhadores – que como pagamento ganhavam semi-fome e desprezo. Esse desprezo para com os benéficos foi o que mais o consternou e foi assim que ele começou a se aproximar dos seus subalternos. De início, ele os achou repulsivos, por terem hábitos diferentes dos dele; a suspeita deles contra ele o magoava, pois eles achavam que ele fosse um demagogo em busca de popularidade para conseguir poder. Em retorno eles buscavam ganhar alguma coisa dele, fazendo-se de ainda mais pobres para conseguir uma cachacinha, enganando-o com o arrendamento e mordendo a mão que lhes presenteava. Só que todas essas características feias ele tinha encontrado, num grau ainda maior, nos patifes lá de cima e especialmente a roubalheira era bem mais desenvolvida na gentinha da corte e na massa dos funcionários públicos; além disso, a linhagem de oficiais era feita só de bandidos. Ao aproximar-se dos seus subalternos, ele encontrou neles qualidades valiosas que faltavam inteiramente nos superiores. Para começar, a sociedade não podia se sustentar sem as classes trabalhadoras, e ademais a sociedade iria se sentir muito melhor sem os vermes lá de cima que não apenas são prescindíveis como totalmente perniciosos. O que havia na classe dominada, além do ar saudável que acompanha o trabalho e os deveres cumpridos, era uma legitimidade sagrada, um sentimento genuíno do direito, uma entrega calma à vontade da Providência; como crianças, podiam se alegrar com coisas pequenas, um momento de descanso, uma dança, um cálice.

Foi então que ele começou a trabalhar com o corpo, tanto para honrar o trabalho deles como para cumprir um dos primeiros deveres do homem e manter a saúde. Ele tinha conhecido bem cedo a vida dos salões, com o seu vazio, suas artimanhas e maldades. Ele se tornou um professor de escola pública, escreveu livros de alfabetização e ensinou a contar, ler e escrever. Isso funcionou bem durante um tempo, mas quando descobriu que a história era só uma grande falsificação, escrita pela classe dominante e censurada pelas cortes para manter o respeito por parte da classe dominada, ele pegou os livros do Rei e começou a lê-los à sua maneira. Mas quando tocou na sagrada História Russa, os policiais chegaram. A história e os policiais andam sempre juntos!

A crise religiosa que segue paralela à primeira fase democrática de Tolstói foi puramente ortodoxa (grega); ele a tomou como era, mas foi também direto para os Evangelhos. Lá ele aprendeu que os homens não tinham o direito de desprezar ninguém, seja por estar mal vestido, por ter mãos grossas, ou falar língua caipira. Já aquele que despreza era um riquinho que herdou, se apropriou ou enganou para, sem trabalhar, conseguir salário, posição ou recompensa.

Ele também tinha lido sobre a paz na terra; e como já tinha visto a guerra de perto, começou a se perguntar se era bom fazer a guerra.

Se dois indivíduos entram em disputa, eles não deveriam lutar, mas buscar o juiz de paz. Se duas comunas se separam, elas não deveriam entrar em litígio mas buscar um tribunal. Se os interesses de duas províncias entram em conflito, elas não deveriam declarar guerra, mas ir ao ministério e pedir separação.

Mas – se duas nações começam a brigar, aí elas podem lutar, mesmo mantendo relações diplomáticas, consulados e ministros do exterior.

Em Guerra e paz, Tolstói revela completamente o segredo da guerra. Todas as guerras são desculpas. Quando começa a ficar muito tenso embaixo, de maneira que a classe dominante se sente ameaçada, uma guerra vira a salvação. O patriotismo buzina então: a pátria está em perigo, a honra nacional está em jogo etc. Chega então um tempo de ouro para os de cima, especialmente os militares e sobretudo os oficiais. Dívidas de jogo são cobertas pelo saque, o rombo das contas do Estado desaparece num passe de mágica no meio das despesas de guerra, os fornecedores ficam ricos e os oficiais ganham promoções e ordens de mérito – o que parece ser a principal finalidade da guerra. Ao mesmo tempo, a classe dominada sofre ainda mais do que normalmente. Cada expressão de descontentamento é sufocada pelo poder do exército e punida como traição contra a pátria. Comércio e profissões são destruídos, os campos pisados, internações e chantagem de dinheiro se tornam legais – a população masculina é dizimada e sobram somente os fracos e os aleijados.

Assim a guerra é também uma instituição da classe dominante!

Do evangelho cristão, Tolstói extrai mais um aprendizado – o da punição e do perdão.

Quando li pela primeira vez que Tolstói queria acabar com os tribunais e as prisões, tive medo e tranquei as minhas gavetas, que do contrário estão sempre abertas. Mas quando li o Slutlikvid de Nils Quiding15, onde ele, na Sociedade nova, não considerou que a vergonha de ser pego em flagrante era suficiente para ajustar um perdido e que somente a opinião já era uma punição, começei a me perguntar se era tão ruim assim não haver punição. Pena condicional é o nome do primeiro passo, algo necessário uma vez que há pressa e existe um momento em que a mente vacila, sempre com boas razões. Mas daí deveria seguir: que a punição se aplica de maneira puramente abstrata. O culpado, julgado, ficaria sob a proteção da lei; a sua pessoa não seria degradada pelo desprezo mostrado pelos funcionários da lei. Aquele que é punido se corrige com o sofrimento e, quando sai da prisão, deveria ser mais bem tratado do que os que andam soltos por aí, os não punidos.

Esse talvez seja o sentido mais profundo no paradoxo de Tolstói sobre a extinção dos tribunais. Antigamente costumávamos formular essa contradição na justiça da sociedade cristã com o dito: “Não julgeis e não sereis julgados”16 – enquanto vós não recebeis o exame de Jurista, podereis condenar – até mesmo à morte!

*

Tolstói não era um demagogo. Ele não adulava o “povo” para conseguir alguma coisa; ao contrário, denunciava para eles os seus erros; não era bem assim que ele os “amava”; foi só o seu sentimento de justiça que despertou; o excesso o torturava como uma má consciência e a sua última vontade foi que os latifúndios fossem devolvidos para os seus justos donos, ao mesmo tempo em que a terra só receberia o seu valor do camponês. Tolstói era um democrata radical, como Nils Quiding, “a organização atual da sociedade nada mais é do que uma reserva de corrupção e mentira”.

“Todos são conscientes da aberração nessa condição e mesmo que quiséssemos escondê-la e encobri-la, não poderíamos”.

“A hipocrisia geral permeou todas as classes da sociedade a tal ponto que nada parece agora poder injuriar alguém”.

S.D. 24. 12. 1910

Tolstói e a classe dominante letrada17

Depois de passar toda a sua juventude e idade adulta se preocupando com a finalidade da sua existência, Tolstói por fim começou a questionar a natureza da sociedade. Com seu sentimento de justiça, ele sempre achou que tudo era meio enlouquecido, mas a sua inata cordialidade humana tornou difícil para ele acreditar que as injustiças sociais surgiram da maldade, mesmo quando pareciam bastate malvadas. Ele leu os livros mais recentes e imaginou a sociedade como um organismo, uma espécie de planta ou animal que se desenvolvia com necessidade natural, seguindo certas leis da luta pela existência, do direito do mais forte e mais esperto, etc. Numa palavra: aquilo que agora acontecia surgiu com base em leis e não podia ser de outra maneira, sendo portanto legítimo. Essas consequências da teoria evolucionista conduziram, estranhamente, para o conservativo e reacionário: “está bom como está”, porque se desenvolveu para chegar a isso. Tolstói começou a se desesperar quando a ciência moderna o levou direto para a direita e ele passou então a lutar contra os niilistas da década de 1870, que queriam estragar a sociedade tão altamente “desenvolvida” na sua renomada cultura.

Mas depois de atravessar a sua primeira crise religiosa, ele adquiriu uma nova visão da questão. Ao descobrir agora que a sociedade cristã era na prática totalmente anti-cristã, ele ensandeceu. “A sociedade não é um organismo do qual os indivíduos participam como partes de uma totalidade orgânica... essa teoria serve para a atual diferença de classe, divisão de trabalho, em suma, para a condição da sociedade moderna. Vendo-se como membro do organismo social, o indivíduo entende as suas ações que ele, como membro da sociedade, realiza e considera corretas por mais imorais e ilegítimas que possam ser”. E “para ofuscar a maioria (a classe dominada) a minoria (a classe dominante) inventou a fábula”.

Não. “A sociedade está fundada no egoísmo, no mal, na violência e por isso carrega dentro de si a semente de sua destruição” (Segundo J. Stadling18).

Até o programa niiilista, Tolstói foi guiado pelo Cristianismo e a teoria evolucionista o arrastou para a direita abastada. Nem sequer as leis do país conseguiram ganhar o seu respeito, mesmo a sociedade estando fundada sobre elas. “Ninguém acredita na justiça das leis; as pessoas as desprezam mas a elas se submetem. Os velhos, que acreditavam que as leis haviam sido criadas pelos deuses, as obedeciam voluntariamente, mas nós que sabemos que as leis são resultado do desejo de dominação, do desejo de lucro e de intrigas de partidos, não podemos acreditar na sua justiça...”.

Quer dizer: tudo é uma fábula e uma invenção. A sociedade é uma “invenção” da classe dominante para manter a classe dominada sob seu jugo; ou seja: uma invenção para deixar de lado o trabalho, a saber, o corporal, que é pessimamente remunerado e pouco respeitado.

Recordo-me de ter escrito em algum lugar sobre alguém que deu uma palestra sobre “A honra do trabalho” e que começava mais ou menos assim: “Como se sabe, o trabalho tem sido em todos os tempos desprezado; não é nenhuma honra trabalhar (com o corpo)”.

É avassalador para o homem pensar que vive numa situação onde só há ladrões, um enganando o outro para poder rastejar por cima e pisar nos outros, mas para Tolstói o estado das coisas é bem claro. Já na universidade ele percebe essa falha, que se chama fina educação; ou na sua língua: O Templo da Sabedoria. Os funcionários da ciência, esses alegados salvadores da humanidade, são também os vassalos e parasitas da classe dominante. Por exemplo os que escrevem a história! “História não é nada mais do que uma coleção de fábulas e notícias sem valor... todos os dados e fatos são elencados e concatenados de acordo de um certo plano pensado pelo historiógrafo”.

Quando mais adiante na vida ele começa a ensinar o povo, ele também começa a suspeitar da classe dominante letrada, que só faz lançar as suas charadas e reivindicar a declaração de infalibilidade. “Professe os meus ensinamentos! Ou então não obterás o diploma!” Por isso Tolstói diz nas suas “Prescrições gerais para o professor”: “Vocês devem evitar todas os tipos de definição, classificação e regras gerais. São elas que compõem todos os nossos manuais de ensino, sendo por isso completamente inúteis como meios de ensino”.

“Nas aulas de ciências naturais devem-se evitar classificações, hipóteses sobre a evolução dos organismos... o que se deve é dar ao estudante a maior visão mais atenta possível às diferentes vidas dos animais e das plantas”.

“Na cosmografia devem ser evitadas essas explicações grosseiras do sistema solar e da rotação da terra dadas pelos pedagogos de hoje... Evite-se nomear os festejados resultados obtidos pela ciência, p. ex. quanto pesa a terra, de que substâncias é feito o sol, como a planta e o homem são criados a partir da célula ou que máquinas curiosas o cérebro humano inventou. Pois não apenas o professor impregna dessa maneira no estudante a crença de que a ciência pode revelar para o homem uma grande quantidade de segredos, mas esses fatos nus podem parecer deletérios porque habituam a criança a acreditar cegamente naquilo que elas não podem entender”.

Esta foi a reação do Tolstói contra a cultura dominante, o esnobismo letrado e também literário. “Só tenho apreço por uma língua falada pelo povo e que dá expressão para cada pensamento... Vamos caminhar para baixo... mas esse ‘para baixo’ é justamente para o povo, para o nacional. Tente dizer algo insalubre, cafona e excessivo e a linguagem vai se elevar. À nossa lingua literária falta espinha dorsal e ela deixa vocês falarem qualquer merda... Mas eu amo o claro, o belo e o moderado”.

Tolstói se aproxima assim da posição de Rousseau, quando este escreveu o seu tratado sobre as Ciências e as Artes19, que versava sobre a influência deletéria da cultura dominante (e não da cultura). Mas ali o nosso Swedenborg20 também tinha chegado, ainda antes, depois de 1745, ao abandonar as ciências Naturais.

“As ciências são nuvens, que escondem a luz”, pensou Swedenborg. “Nossos livros são falsos, são apenas fragmentos... Filósofos são víboras, cobras, lagartos, hemorroides e serpentes voadoras; homens eruditos são mestres de bruxaria e charlatães” (Emerson21).

Tolstói foi tão longe que considerou a sua escrita ficcional como pecadora, e quando os seus mais próximos se lamentavam que ele havia falhado na sua tarefa de vida, a arte, ele respondeu: “Acho que é o dever de todo homem trabalhar para os outros que precisam de ajuda e pelo menos uma parte do dia trabalhar com as suas mãos. É melhor trabalhar para e com o pobre na sua própria ocupação do que fazer algo mais elevado e talvez um trabalho mais reconhecido, como p. ex. o trabalho intelectual... E mesmo se vocês, ocupados com o seu trabalho intelectual mais elevado, dessem ao pobre um salário, como se dá esmola para um mendigo, vocês estariam contribuindo somente para... manter e fortalecer a diferença de classe entre vocês e, naqueles que recebessem essa esmola, vocês haveriam de danificar o seu auto-respeito e auto-confiança”.

A diferença de classe! – admitindo-se que a sociedade não surgiu de uma linhagem de safados conscientes e cheios de má-intenção, há de todo modo um anseio inato e inconsciente na malvada natureza humana para escapar do aviltante trabalho corporal, sentar numa cadeira de escritor e mergulhar a caneta na tinta. Daí resulta o fato lamentável de toda classe dominada ser educada para se tornar um aspirante da classe dominante, dos pais e dos professores. Não se estuda na escola para aprender coisas úteis, mas para se tornar mandarim. E na universidade impera o contrato da graça. Na verdade, também não é a ciência que dá o diploma mas a crença correta Neles. A crença de que os Melhores, Os que pensam Certo estão sentados lá em cima e trabalham para o bem do povo (com tinta e caneta); e que os Indispensáveis lá em baixo são um Povo Pior. Como estudante, Tolstói não acreditava nisso e por isso foi “jubilado” da universidade, apesar das suas boas notas. Ele tinha visto o estudante proletário, que vivia como parasita e através da busca de boas relações tentava obter sem trabalhar um salário no Grande Lago da Tinta.

E da mesma forma “os representantes, que distribuiam diplomas universitários, significavam menos que nada diante dos representantes, esses que levavam consigo berço, riqueza e conexões. A não necessidade da Ciência e da cientificidade (escuta bem!), tão compreensível para professores e estudantes, enchia com a sua atmosfera tanto as salas de aula como os quartos de estudo. Nunca se ouviu uma palavra viva...!

Por que estudavam então? pode-se perguntar. Para se livrar do trabalho e para virar classe dominante! Um povo melhor!”

“A sociedade é somente uma parte do mundo. Mas a razão tem que estar em harmonia com todo o mundo, com o universo. No estudo das leis da sociedade pode portanto acontecer de alguém se levantar contra a Sociedade”.

S.D. 29. 12. 1910.

* Cecília Sá Cavalcante Schuback é mestranda em letras pela UFRJ.
 
1 “Liten katekes för underklassen”. In: Samlade skrifter, band 16: “Likt och Olikt. Sociala och kulturkritiska uppsatser från 1880-talet”. Stockholm: Bonniers, pp. 175-198.
2 A palavra sueca nyttig (como o seu contrário onyttig) significa útil (e inútil) mas também benéfico e, respectivamente, maléfico. Muitas vezes essa palavra também é usada no contexto de uma discussão sobre a saúde tanto física como moral.
3 Frederico II da Prússia, ”Friedrich der Große”, rei da Prússia e príncipe-eleitor de Brandenburgo entre 1740 e 1786.
4 Numa Pompílio (753 a. C – 673 a. C) foi o segundo rei de Roma. Foi considerado um rei sábio, pacífico, religioso e autor das primeiras leis de Roma. (N. da T. )
5 Jean Baptiste Bernadotte, militar francês que virou o rei da Suécia, conhecido como Carlos João XIV da Suécia.
6 “Fundos répteis”: no século 19, havia uma familia alemã de príncipes chamada Welfer, que instituiu um fundo para que o governo da Prússia pudesse usar esses meios com fins políticos. Esse fundo Welfer também foi chamado por vezes de “fundo réptil” (N. da T.).
7 Golpe de estado de 1809. A Constituição de 1809 foi adotada após este levante contra o rei Gustavo Adolfo IV. O golpe resultou na abolição da autocracia gustaviana e no longo período até a família Bernadotte subir no trono.
8 Engelbrekt Engelbrektsson foi um líder revolucionário sueco no século XV.
9 Björnstjerne Björnson (1832-1910). Escritor norueguês.
10 Georg Brandes (1842-1927). Acadêmico e crítico dinamarquês.
11 Jornal Tiden.
12 Carl Jonas Love Almqvist (1793-1866). Escritor sueco.
13 “Människans rättigheter i ett civiliserat och kristet samhälle”. In: Samlade skrifter, band 53: Tal till svenska nationen samt andra tidningsartiklar 1910-1912. Stockholm: Bonniers, pp. 539-545.
14 “Människans rättigheter i ett civiliserat och kristet samhälle”. In: Samlade skrifter, band 53: Tal till svenska nationen samt andra tidningsartiklar 1910-1912. Stockholm: Bonniers, pp. 482-486.
15 Nils Herman Quiding (1808-1886). Escritor e jurista sueco. Escreveu Slutlikvid med Sveriges Lag [A liquidação final da Lei Sueca]. As suas obras exerceram enorme influência sobre Strindberg.
16 Lucas (6: 37)
17 “Människans rättigheter i ett civiliserat och kristet samhälle”. In: Samlade skrifter, band 53: Tal till svenska nationen samt andra tidningsartiklar 1910-1912. Stockholm: Bonniers, pp. 487-492.
18 Jonas Jonsson Stadling (1847-1935). Jornalista sueco e pregador batista.
19 Discurso sobre as ciâncias e as artes, primeiro livro publicado por Rousseau que venceu, em 1750, concurso promovido pela Academia de Dijon (N. do E.),
20 Emanuel Swedenborg (1688-1772), teólogo e místico sueco que se tornou o principal alvo do opúsculo kantiano Sonhos de um visionário explicados por sonhos da metafísica (1766) (N. do E.).
21 Ralph Waldo Emerson (1803-1882). Filósofo americano.

 

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Rio de Janeiro, Brazil

Accepted: 08.08.2018. Published: 30.06.2019.

 
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