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DOI: 10.22409/1981-4062/v23i/270

Profunda é sua dor,
O gozo – mais profundo ainda que o sofrimento –
Disse à dor: passa!
Todo prazer quer eternidade,
Quer profunda, profunda eternidade.
NIETZSCHE. Canção bêbada1

No intenso agora, de João Moreira Sales, é um filme caleidoscópico. Lançado em 2018, é uma montagem de fragmentos de filmes encontrados em arquivos, vindos de distintos tempos e espaços. Como em um caleidoscópio, onde cada movimento cria novas imagens, a partir de elementos dados, o filme parte de registros existentes montados de modo novo e, com isso, cria uma nova narrativa e novos modos de ver.

Encaixado no gênero “documentário”, girando em torno de maio de 1968, o fio condutor de No intenso agora parece ser a ideia de que as imagens podem mostrar muito mais do que intencionava quem as registrava, de que a amplitude reveladora do campo filmado é maior, transborda e ultrapassa a intenção de quem filma. Assim, registros prosaicos da vida familiar desvelam a estrutura social existente no momento de sua realização, sentimentos lidos nas faces de participantes de um evento são esclarecedores na análise do mesmo, a linguagem corporal – presente nos gestos e também nas roupas – conduz a narrativa para além do narrado, a posição da câmara no momento da filmagem tem a potência de dar a ver a postura histórica e política adotada para o registro dos fatos. Em suma, o filme traz à tona o que já foi chamado de “inconsciente ótico”.2

Neste espaço de todo mundo e de ninguém, comum ao inconsciente e à arte, ambiguidades encontram solo fértil. É, no mínimo, ambíguo que um filme que traz no nome o intenso agora venha sendo considerado melancólico, quando a intensidade presente no título diz respeito à alegria. A melancolia aparece como o sentimento que, como uma ressaca, vem depois dos agoras intensos. O movimento entre alegria e melancolia em No intenso agora é a base deste comentário, voltado sobretudo para as paixões alegres.3

A primeira vez que assisti a No intenso agora foi anterior ao convite para comentá-lo. Amigos que foram comigo ao cinema acharam o filme melancólico, eu achei que era sobre a alegria. Como o acordo nos interessava mais do que marcar posições, o ponto de vista compartilhado foi considerá-lo um filme melancólico sobre a alegria.

Dentre as diversas sequências de histórias apresentadas no filme, apenas em uma a intensidade do agora pareceu-me dizer respeito imediatamente à melancolia. Trata-se da sequência que mostra a invasão militar da Tchecoslováquia depois da “Primavera de Praga”. Tanques circulam em avenidas vazias e alguém filma oculta ou oculto atrás das cortinas da janela de um apartamento. É uma filmagem anônima e escondida. Não há ninguém nas ruas nem nos prédios, o triste acontecimento parece não estar sendo visto. E mesmo assim é registrado em imagens carregadas de história e com a intensidade do ato proibido.

Por outro lado, a cena que mais me impressiona é a da estudante que, na Sorbonne ocupada, atende ao telefone de uma mãe desesperada em busca de informações sobre o filho sumido de casa desde a noite anterior. A garota diz à senhora para ficar tranquila, o filho ausente com certeza está a salvo, ainda que ela (a garota) não saiba onde ele está (risos disfarçados) e, para acalmar a mulher ansiosa, promete-lhe que, caso alguma coisa aconteça com o filho desaparecido, ela irá pessoalmente consolá-la. A garota faz a promessa de consolo com um sorriso quase gargalhada. A mãe parece ter se acalmado com a garantia de que será consolada e a tela fica impregnada com a alegria de quem, no auge do entusiasmo, sente-se capaz de consolar o desespero de uma mãe à procura do filho.

O fotograma desta risada reaparece compondo o gran finale de No intenso agora. Segundo o diretor, era sua intenção usar esta imagem no cartaz do filme, o que não foi possível devido a direitos autorais.

O entusiasmo da garota participa, é mesmo um reflexo, daquele do movimento iniciado por jovens estudantes – depois estendido a intelectuais e trabalhadores de fábricas – em maio de 68.

Entusiasmo é uma espécie de alegria que transborda. Uma breve busca nos dicionários mostra a origem grega de enthousiasmós, ter um deus interior, estar possuída por divindades, por um ímpeto incondicional que desconsidera as próprias necessidades do corpo. Como se um fenômeno fosse elevado à dignidade do sublime, como pulsão pelo ainda não representável. O abismo entre os limites do corpo físico e o ritmo arrebatador dessa pulsão pode fazê-la merecer a qualidade de metafísica, menos por ser espiritual e mais por pulsar por outras sublimes (porque ainda infiguráveis) materialidades, por um território meio espectral, por uma dimensão material indefinida e para além da mera referência ao sentido. Talvez pelo que Schelling chamou de corporeidade espiritualizada [geistige Korperlichkeit]. Talvez por uma abertura de espaço para algo que ainda não tem lugar na realidade. Nem pode encontrar figuração (ainda).

O que aconteceu em Paris, em maio de 68 já foi apresentado em livros como A brecha, O começo do fim, Quando a poesia dá a regra às ruas, A imaginação no poder, entre outros.4 Sem configurar uma revolução, maio de 68 foi expressão de revolta, de recusa. Para explicitar a diferença, “a revolta exclui uma estratégia de longo termo”, escreve Jesi, “a revolta é incompatível com a estratégia revolucionária, uma vez que não é a preparação do amanhã, mas parto do depois de amanhã”.5 A revolta vale por si, independentemente do sucesso ou do fracasso, como expressão de uma Grande Recusa.6 Continuando com Jesi:

A revolta é um repentino foco insurrecional que pode ser inserido dentro de um desenho estratégico, mas que por si só não implica uma estratégia de longo prazo, a revolução é, por sua vez, um complexo histórico de movimentos insurrecionais coordenados e orientados relativamente a longo prazo em direção a objetivos finais, seria possível dizer que a revolta suspende o tempo histórico e instaura repentinamente um tempo em que tudo que se realiza vale por si só, independentemente de suas consequências e de suas relações com o complexo de transitoriedade e de perenidade no qual consiste a história.7

Kant já tinha plena consciência desse momento paradoxal ao escrever O conflito das faculdades (1795). Neste texto, em passagem relativa à então recente Revolução Francesa, o filósofo de Königsberg julga que o verdadeiro significado desta não se encontra no que realmente aconteceu em Paris e sim na reação entusiasmada que os fatos ali acontecidos provocaram em outros povos – entusiasmo que, do ponto de vista kantiano, sinaliza a existência de uma espécie de prazer ligado à eticidade. Nas palavras de Kant,

a Revolução recente de um povo que é rico em espírito pode fracassar ou ter sucesso, pode acumular misérias e atrocidades, mas ainda assim desperta no coração de todos os espectadores (que nela não estejam pessoalmente envolvidos) uma tomada de posição de acordo com os desejos [eine Teilnehmung dem Wunsche nach] que beira o entusiasmo e, como sua própria expressão não estava livre de perigo, só pode ter sido causada por alguma disposição moral da raça humana.8

Na perspectiva kantiana, a dimensão real do acontecimento não se encontra apenas na violenta realidade imediata dos eventos franceses, e sim no modo como essa mesma realidade aparecia aos olhos observadores e no entusiasmo por ela despertado: enquanto a realidade imediata pertence à temporalidade da história empírica, a imagem sublime capaz de despertar o entusiasmo pertence à eternidade – à herança imagética das fantasias. Justamente no momento em que assassinatos passionais ocorrem em Paris, quando o chamado “Terror” seguiu a Revolução Francesa, desconsiderando as atrocidades, Kant encontra sinais da “disposição moral da raça humana” ao voltar o olhar para o entusiasmo despertado pela “tomada de posição de acordo com os desejos”. Entusiasmo que é considerado como índice da existência a priori de um impulso à moralidade.

Também os habitantes de Paris, na área ocupada pelo movimento de maio de 68, ficaram entusiasmados, segundo a descrição de Andrew Feenberg, presente no evento:

Por trás das barricadas, aconteceu uma coisa curiosa. Quem residia nessas ruas, fechadas por fortalezas de paralelepípedos, começaram a ajudar os estudantes de diversas maneiras, com grande entusiasmo. Senhores idosos ofereciam informações relativas às construções na vizinhança, onde um exército de manifestantes se abasteciam com armas toscas. Comida e bebida, cobertores e até colchões foram atirados pelas janelas. Muitos moradores viram seus carros serem virados e usados nas barricadas sem fazer objeções.9

Perceptível no movimento francês, o entusiasmo parece ser um traço característico – e mesmo um fundamento – de toda revolta, um sinal de que esta é sempre movida pelo posicionamento de acordo com o desejo, com um desejo compartilhado, coletivo. Antes de voltar ao filme, voltamos à simbologia da revolta, de Jesi:

Toda revolta é uma batalha na qual se escolheu participar deliberadamente. O instante da revolta determina a fulminante auto realização de si como parte da coletividade. A batalha entre o bem e o mal, entre a sobrevivência e a morte, entre vitória e derrota, em que cada um está todos os dias comprometido como indivíduo, identifica-se com a batalha de toda a coletividade [...] Todos experimentam a epifania dos mesmos símbolos: o espaço individual de cada um dominado por seus símbolos pessoais, o refúgio do tempo histórico, que cada um encontra na própria simbologia e na própria mitologia individual, amplia-se e se torna o próprio espaço simbólico comum para toda uma coletividade [...] Apropriamo-nos de uma cidade fugindo e avançando no alternar-se dos ataques, muito mais do que brincando como crianças por suas ruas, ou por elas passeando mais tarde com uma moça. Na hora da revolta não se está mais só na cidade.10

Na hora da revolta, o eu se torna nós. Esta experiência está na base de toda experiência erótica, como já foi percebido de Platão, no Fedro, a Bataille, no Erotismo. Em 68, movimentos de greve espontâneos surgiram na França, e as direções sindicais viram-se constrangidas a abandonar a posição inicial de hostilidade declarada aos estudantes. Quando as palavras tornaram-se ações, “então (e só então), outros se juntaram entusiasmados”, pode-se ler em um texto quase poesia escrito no calor da hora: “Os arcanjos estão gritando com vozes desesperadas que os trabalhadores e as trabalhadoras têm de juntar-se e então serão imbatíveis”.11 Nove milhões de trabalhadoras e trabalhadores permaneceram em greve por vinte dias.

Outra provocante personagem feminina de No intenso agora é a mulher que se recusa a voltar ao trabalho, depois do acordo com os patrões cujo resultado foi o aumento dos salários e a diminuição do tempo de trabalho. Isso lhe parece conquista pequena. Trabalhar na fábrica continua não sendo um modo satisfatório de passar boa parte do tempo de sua vida. Maio de 68 abre uma brecha (expressão de Cohn-Bendit), e “dissipa a crença cotidiana na inevitabilidade das regras que sustentam a organização da sociedade”, escreve Claude Lefort, voltadas a “aprisionar o ser humano nos limites de uma função tão rigorosamente circunscrita que a iniciativa [e a imaginação, acrescentamos] é rebaixada a seu grau mínimo”.12

Se a estudante encarna o entusiasmo da revolta, na trabalhadora toma corpo a Grande Recusa. Este ponto de vista fica acentuado na montagem do filme, quando, em seguida, vemos – na primeira (ou uma das primeiras, há controvérsias) cena filmada pelos irmãos Lumière – a alegria de trabalhadores e trabalhadoras na cena conhecida como Saída da fábrica.

E a terceira personagem feminina a destacar, não nesta ordem pois é ela quem está na origem do documentário, a mãe do cineasta, Elizinha Moreira Sales, registra a alegria de ver. Espectadora dos primeiros momentos da (depois fracassada) revolução cultural chinesa, a elegante embaixatriz registra o que vê com alegria. Foram esses registros, diz o diretor, que o levaram à construção do filme.

No intenso agora pode ser considerado um filme revolucionário marxista, na linha Harpo, pois, em termos de alegria, subverte a hierarquia da família tradicional e a garota ganha da mãe, pela diferença entre o que é produzido a partir da própria experiência em distinção do que advém da experiência de algo que vem de fora.

Maio de 68 merece talvez um luto, não a melancolia. Se, por um lado, não foi uma revolução, por outro lado foi uma grande revolta. E revoltas são, no curso da história, momentos transformadores nas relações de poder. Nas palavras de Castoriadis sobre o evento, “a política enquanto atividade coletiva (e não profissão especializada) não pode até agora estar presente a não ser como espasmo e paroxismo, acessos de febre, de entusiasmo e de raiva”.13 Tendo em perspectiva uma corrida de longa distância, começando por exemplo com a revolta servil iniciada por Spartacus, em 73a.C., é bom notar quem – através de expressões entusiasmadas e depois dominadas – está ganhando historicamente. Em No intenso agora, a narrativa na voz de João Moreira Sales, em tom e ritmo melancólicos, não abafa o entusiasmo presente em algumas cenas. As imagens mostram mesmo mais do que a intenção de quem as registra. É notável o que o diretor faz a partir do que permanece insubmisso.

* Imaculada Kangussu é professora do Departamento de Filosofia da UFOP.
 
1 No original: Tief ist ihr Weh ] Lust – tiefer noch als Herzeleid ] Weh spricht: Vergeh! ] Doch alle Lust will Ewigkeit ] Will tiefe, tiefe Ewigkeit!
2 BENJAMIN, W. “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”. In: Obras escolhidas I. Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. No original, “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit”. In: Gesammelte Schriften. Band I. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1982.
3 Cf. SPINOZA. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, especialmente Proposições 15 a 32 e 53 a 59, da terceira parte, “A origem e a natureza dos afetos”.
4 Cf. MORIN, E; LEFORT, C.; CASTORIADIS, C. Mai 68: La breche, suivi de Vingt ans apres. Paris: Editions Complexe, 1988. A primeira parte desta obra, composta pelos textos escritos em 1968, foi publicada como Mai 68: La breche. Paris: Fayard, 1968. NAIRN, T.; QUATTROCCHI, A. O começo do fim. Tradução de Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro: Record, 1998. No original, The Beginning of the End. London: Panther Books, 1968. Republicada pela Verso, em 1998, com Prefácio de Tariq Ali. FEENBERG, A.; FREEDMAN, J. When Poetry Ruled the Streets. The French May Events of 1968. New York: SUNY Press, 2001. PELLEGRINI, M. (org.) COHN-BENDIT, D.; SARTRE, J.-P.; MARCUSE, H. La imaginacion al poder. Barcelona: Editorial Argonauta, 1978. A primeira edição foi lançada por Ediciones Insurrexit, em Buenos Aires, em julho de 1968. TECGLEN, E. H. “El mayo francês. Una nueva revolución espontánea”. In: El 68: Las revoluciones imaginarias. Madrid: El Pais, Aguilar, 1988.
5 JESI, F. Spartakus. Simbologia da revolta. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko. São Paulo: N-1 edições, 2018, p.178. Furio Jesi começa a escrever Spartakus em 1968, depois de voltar de Paris, e termina em dezembro de 1969. O livro foi publicado postumamente, em 2000, 20 anos após a morte do autor.
6 Grande recusa é uma expressão usada por Whitehead: “A verdade de que uma proposição, relativa a uma situação existente, seja não verdadeira é a verdade vital da realização estética. Ela expressa a grande recusa que é sua característica primária”. WHITEHEAD, A. N. Science and the Modern World. New York: Macmillan, 1926, p. 228. Transformada em conceito chave por Herbert Marcuse, desde Eros and Civilization (1955. No Brasil, Eros e civilização), a Grande Recusa, com maiúsculas alegorizantes, passa a nomear não apenas a grande recusa considerada por Whitehead como a verdade vital da arte, como também é utilizada em outros contextos, inclusive para falar de maio de 1968. “A Grande Recusa toma uma variedade de formas”, escreve referindo-se a ações dos militantes franceses, “a eles eu dedico este ensaio”. MARCUSE, H. An Essay on Liberation. Boston: Beacon Press, 1969, pp. vii e x. Em suma, a Grande Recusa é configurada pela expressão do desejo verdadeiro considerado falso na situação dada.
7 JESI, F. Op. cit., p. 63.
8 KANT,. “The Conflict of Faculties”. In: Political Writings. Cambridge: Cambridge University Press, 1991, p. 182. Citado em ZIZEK, S. Violence. New York: Picador, 2008, p. 52.
9 FEENBERG, A; FREEDMAN, J. Op. cit. pp. 23-24. Grifo meu.
10 JESI, F. Op. cit., pp.70, 71, 72, respectivamente.
11 QUATTROCCHI, A. “What Happened”. In: NAIRN, T; QUATTROCCHI, A. The Beginning of the End. London: Verso, 1998, pp. 21 e 27. Grifo meu.
12 LEFORT, C. “Le désordre nouveau”. In: Mai 68: La breche. Op. cit, pp. 40-41.
13 CASTORIADIS , C. “Les mouvements des années soixante”. In: Mai 68: La breche. Op. cit., p. 195. Grifo meu.

 

Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)
Ouro Preto, Brasil

Aprovado: 21.10.2018. Publicado: 27.12.2018.

 
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