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DOI: 10.22409/1981-4062/v23i/259

Aprendi com Husserl que viver não é descobrir, mas dar significado1

Vilém Flusser é um filósofo estranho. Esse adjetivo lhe cabe por dois motivos distintos: entre os significados possíveis ao uso da palavra, estranho é aquele que é estrangeiro; ou aquele ou aquilo que se define pelo caráter extraordinário, excêntrico. Etimologicamente o termo se refere à condição sócio-política daqueles que não têm cidadania, que não falam a minha língua. Essa condição acompanhou o filósofo desde seus vinte anos de idade, quando a perseguição nazista fez com que desejasse tornar-se estrangeiro. Porém, Flusser explorou tal condição para além dos limites da cidadania e tornou-se estrangeiro no mundo, por considerar o hábito como principal armadilha do pensamento. No que se refere ao sentido de estrangeiro relativo ao desconhecimento da língua, o filósofo manteve sua condição de barbaros por pouco tempo nos lugares onde habitou. Considerava o trabalho com a pluralidade linguística sua principal ferramenta para evitar o referido hábito. Nesse caso, o hábito de compreender as coisas de uma determinada maneira, a maneira circunscrita por uma língua específica. Por isso traduzia. Utilizava a tradução para buscar o núcleo duro, aquele aspecto intersubjetivo que, muitas vezes, ultrapassa os limites de uma língua. Levava a sério a ideia de que a tradução constrói, em outro tecido linguístico, um modo aproximado de compreender o que foi dito na língua de origem, sendo essa construção uma das possibilidades criativas do exercício do pensamento.

Já no que se refere ao sentido de estranho como extraordinário ou excêntrico2, esses podem ser atribuídos tanto aos textos de Flusser quanto à sua personalidade.3 O filósofo faz parte de um grupo seleto de pensadores que não se contentam em virar o jogo, pois desejam mudar suas regras, trocar de jogo.4 Aí encontra-se a sensação de estranha familiaridade gerada pela leitura de seus textos, construídos com a intenção de utilizar-se do jogo para, então, reformulá-lo. É um movimento que parte de dentro e que não implode o sistema, mas o reconstrói. A excentricidade e a sensação de não-pertencimento irrompem o âmbito do indivíduo e passam a ser características do modo como ele percebe e se relaciona com o universo simbólico que o circunda, o qual o filósofo associa à construção ficcional da realidade. É dentro desse contexto que se torna necessário esclarecer as nuances da fenomenologia flusseriana, visto que ela é, como seu criador, estranha. É derivada dessa condição que fundamenta o seu pensamento, então, ao mesmo tempo em que merece ser chamada de fenomenologia, coloca em xeque os aspectos estruturantes da filosofia husserliana. Portanto, a intenção deste texto é mostrar como Flusser transforma a fenomenologia em uma espécie de fenomenologia especulativa5, a qual tem como objetivo propiciar a construção ficcional da realidade.

A fenomenologia em termos flusserianos

A fenomenologia é um instrumento de luta na construção do pensamento de Vilém Flusser. Isso se deve ao fato de que, para pensar o estranho, o exótico, é necessário brigar com a tendência do pensamento de tirar conclusões que têm como base teorias que já degringolaram, ou crenças socioculturais tratadas como dadas. A fenomenologia é o modo encontrado por Flusser para levar a cabo a tentativa árdua de se desfazer das crenças, daquilo em que acreditamos e em que confiamos, pois, ao se desfazer desse solo construtor de realidade, o filósofo se transforma em estrangeiro em sua própria terra. Bodenlos é o termo flusseriano para tal sensação:

Todos conhecemos o clima da falta de fundamento de experiência própria, e, se o negarmos, é que conseguimos reprimi-lo (vitória duvidosa). Mas há os que se encontram na falta de fundamento, por assim dizer, objetivamente, seja porque foram arrancados da realidade por forças externas, seja porque abandonaram espontaneamente uma situação aparentemente real, mas por eles diagnosticada como fantasmagoria. Os que caíram, portanto, na falta de fundamento ou a escolheram. São os tais que podem servir de laboratório para os outros. Existem mais intensamente, se “existir” for interpretado como “viver por fora”.6

A filosofia flusseriana é uma tentativa de expressar esse “viver por fora” e a fenomenologia o modo como se digladia com a substância que constitui o dentro. Logo, ela é a técnica adotada para virar o pensamento contra si mesmo.7 Fazendo jus a esse objetivo, o filósofo vira a fenomenologia contra si mesma, aplicando-a de modo a garantir a permanência do humano no método, o que assegura o distanciamento do idealismo que caracteriza a filosofia de Edmund Husserl. A fenomenologia torna-se, assim, uma espécie de artifício para permitir a reflexão, para buscar um olhar outro, para passar por, mas não permanecer, na falta de fundamento. O Bodenlos deve funcionar como uma espécie de potência para a construção de um ou mais chãos, visto que a vida suspensa no abismo não é possível.

É por isso que Flusser compara a fenomenologia à yoga e à meditação.8 Todas exigem o esforço de lutar contra o pensamento. Esse é o mote do primeiro capítulo do livro “A dúvida”. Nele, Flusser escrutina o método meditativo, realçando a dificuldade de alcançar a “[...] eliminação de todos os pensamentos salvo um único arbitrariamente escolhido”.9 O filósofo argumenta que a meditação é uma atividade aparentemente fácil. A ideia de parar o pensamento soa como necessária em um mundo onde suas várias camadas parecem mover-se na velocidade da luz. No entanto, é tarefa dificilmente exequível, pois o controle das várias camadas de pensamento nos escapa por entre os dedos.

Esse paralelo permite que o filósofo se aproxime de uma busca, de certa forma passiva, que permite a revelação daquilo ou daquele que é observado. Passiva, pois não parte do pressuposto da intervenção, mas da paciência, da espera, do deixar aparecer. Claro que quem espera sabe o que espera e, nesse sentido, há uma atividade. A revelação ocorre sem pré-julgamentos, pois, como na meditação o pensamento está parado, ele busca unir-se à coisa. Para Flusser, a fenomenologia é a tentativa de atingir, no que concerne ao conhecimento, situação semelhante, de deixar o Bodenlos existir, tomar consciência dele e construir a partir dele. Assim, a fenomenologia é a reconquista do espanto, o estabelecimento de uma espécie de segunda ingenuidade10 que permita à coisa ser coisa. Requer a redução eidética, pois não há como deixar a coisa ser coisa sem suprimir todos os aspectos instrumentais relacionados a ela.

Olhar para as coisas como se as víssemos pela primeira vez é um método que permite descobrir nelas aspectos, até então, despercebidos. É um método poderoso e fecundo, mas que exige uma disciplina rigorosa, e que, por isso, pode facilmente fracassar. No fundo essa disciplina consiste em esquecer, em colocar entre parêntesis os hábitos adquiridos da coisa que olhamos e portanto, de toda a experiência e todo o conhecimento em relação a ela.11

Focar no fenômeno, despindo-o de todas as camadas conceituais previamente atribuídas, é uma atividade tão complexa que Flusser a considera impossível de ser realizada. É nesse sentido que ele afirma a impossibilidade do retorno à ingenuidade. Da mesma forma que o duvidar de algo modifica a crença reestabelecida, a ingenuidade perdida é terreno abalado, tanto que Husserl não conseguiu mostrar como realizar a redução eidética.12 Nesse sentido, a fenomenologia é uma espécie de ideal inatingível. Então, Flusser advoga a favor da catarse, usando a supressão da linguagem como caminho para suspensão do julgamento. O uso da língua deve ser pausado para possibilitar a busca pelo silêncio. Por meio do silêncio, a atitude fenomenológica se aproxima mais uma vez do yoga. Ela vem da compreensão da incapacidade de gerar significado no momento em que todas as camadas de significado são suspensas. O silêncio é situação final, o mais próximo que se pode chegar da vivência da falta de fundamento, do Bodenlos.

Porque a ausência de ponto de vista parece-me, de repente, como falta de chão, e eu sinto o chão desaparecer sob meus pés só devido à minha tentativa. É curioso que eu não desenvolvo isso teoricamente, mas o sinto concretamente. Pode-se qualificar essa experiência de vertigem ontológica concreta.13

A atitude fenomenológica é vivência da falta de fundamento por ausência de possibilidade de desenvolvimento simbólico. Após a eliminação das camadas não resta nada, não há nada por trás do significado que atribuímos à coisa, apenas a vivência da compreensão da ausência de fundamento último. Portanto, a filosofia flusseriana faz uma espécie de atualização pós-estruturalista da fenomenologia de Husserl.

A fenomenologia na filosofia flusseriana

Pensar, para Flusser, é duvidar. Isso significa que o filósofo utiliza a dúvida como instrumento de seu método epistemológico, ou seja, da fenomenologia. No entanto, a dúvida não funciona, como pressupunha Descartes, como fato indubitável do conhecimento. Pelo contrário, a dúvida é apenas a ferramenta que me permite sair do universo habitual que configura a construção do mundo que nos cerca. De certa forma, o uso flusseriano da dúvida se aproxima do uso cartesiano, no entanto, ela não se estabelece como fundamento último do modelo epistemológico. Ela também está sob judice, visto que a dúvida da dúvida não é somente possível, mas factível. Ela é fruto do processo de questionamento que configura o mundo contemporâneo. Tendo em vista que as crenças articuladoras da estrutura da realidade (religião, arte, epistemologia, ética, política e etc.) foram questionadas desde o ocaso do projeto moderno, então o que impede de a dúvida ser, ela também, duvidada? Flusser afirma ser esse o motivo pelo qual o sentimento de Bodenlos impera na sociedade contemporânea. No entanto, apesar do Bodenlos ter sabor de niilismo nietzschiano, ele não é apenas negativo, muito pelo contrário, é uma das ferramentas da epistemologia flusseriana, na medida em que sua vivência leva à atitude fenomenológica. Enquanto o espanto é condição existencial para o Bodenlos, a dúvida é tanto aquilo que leva o ser humano a, como aquilo que o retira da falta de fundamento, e ela o faz por meio da fenomenologia.

Por ser aquilo que retira o ser humano do hábito, a dúvida abre espaços para construção de significado, os quais não funcionam de modo cronológico, ou seja, não é apenas a modificação de um hábito por outro, mas a transformação do espaço do hábito em um cenário de possibilidades a serem avaliadas. O método fenomenológico flusseriano é perspectivador, por isso a cronologia, enquanto modo de organização do pensamento, é falsa, já que o transforma em uma sucessão organizada pela causalidade, a qual é sustentada pelo determinismo das relações. Determinismo esse que espelha o idealismo que Flusser pretende combater.

É dentro desse contexto que o filósofo afirma ser a fenomenologia um modelo de sabor judaico.14 Segundo ele, o modelo judaico é contrário ao pensamento filosófico tradicional, o qual está calcado na ideia de verdade dos gregos, que para o filósofo significa verdade enquanto descoberta. Toda a epistemologia dela derivada constitui um esforço para descobrir o que está por trás das aparências, aquilo que é eterno, essencial. O próprio verbo descobrir remete à imagem do desvelamento, da retirada de camadas que funcionam como biombos entre aquilo que realmente importa e a percepção. No escopo da verdade dos gregos, não há falta de fundamento, ele apenas não foi descoberto, ou seja, as tentativas realizadas até o momento não foram bem-sucedidas no processo do desvelar. O erro está na pressuposição de um fundamento falacioso. Já no escopo da verdade judaica o cenário se modifica.

A verdade é a relação entre conhecedor e conhecido. No judaísmo, essa relação parte do conhecido e visa o conhecedor, ou, em outras palavras, o conhecido, (a “realidade”), se revela. A verdade judaica, (“emet”) é a revelação da realidade, uma revelação que o homem recebe, inicialmente de maneira passiva.15

Flusser a aproxima da fenomenologia, pois nela a verdade é aquela da revelação, ou seja, da submissão paciente à coisa revelada. Tal situação é próxima tanto da meditação, quanto da redução eidética, visto que o objetivo de ambas é também deixar a coisa ser coisa. Logo, a fenomenologia é o método de estabelecer essa relação e permitir a revelação. No entanto, ao contrário do judaísmo, a verdade não é comentário aos textos sagrados, não é fruto de uma revelação transcendente. Ela é o estabelecimento de um espectro comum, permitido pela relação entre sujeitos.

A fenomenologia dá condições para Flusser estabelecer uma ontologia não substancialista, com intuito de lidar com a crença absoluta que caracteriza grande parte da filosofia. Sua ontologia tem como base a capacidade de intersubjetividade, ou seja, parte do modo como o ser humano cria cultura para sair do solipsismo. A criação de cultura se dá pelo estabelecimento de sistemas simbólicos, que permitem o relacionamento entre os seres humanos, como a língua e a imagem. Em seu primeiro livro publicado, Língua e realidade, Flusser constrói uma ontologia que tem como referência a língua e o modo como nos relacionamos com ela. Por meio do estabelecimento da realidade na relação intersubjetiva, Flusser consegue pressupor a pluralidade das línguas sem necessidade de um referencial único. A realidade é fruto da criação simbólica do espaço intersubjetivo e muda de língua para língua. No entanto, a vivência dentro da língua materna, construtora do senso de realidade do sujeito, garante a sensação de chão debaixo dos pés. Isso significa que poderíamos afirmar que o ser humano, após a saída do solipsismo, cria cultura para não permanecer no Bodenlos. A vivência da falta de fundamento é tão importante quanto a construção de cultura dela derivada. Todavia, Flusser, enquanto filósofo que é, deseja a vivência sistemática da falta de fundamento. Para tanto, utiliza a tradução como mecanismo para manter essa vivência, transformando o que deveria ser um chão em uma fina camada da teia de significados, a qual é constantemente substituída no processo de transição de uma língua para outra. Logo, traduzir é aplicar o método fenomenológico.

Isso significa que não é possível falar em termos de uma verdade única e imutável, mas sim a partir de um tecido simbólico perspectivo que modificamos e que nos modifica. É nesse sentido que o próprio filósofo considera a compreensão dos símbolos como o problema central de seu pensamento16, visto que o símbolo é um fenômeno que representa outro fenômeno, conferindo-lhe significado. A produção consciente de símbolos é atividade de dar significado ao mundo, de utilizar o Bodenlosigkeit como potência. Essa é a atitude fenomenológica flusseriana, ferramenta para lidar com a ambiguidade gerada pela consciência da necessidade de simbolização: ela permite a superação da alienação e é um mecanismo para dar sentido humano a um mundo absurdo, pois sem fundamento. Assim, a dialética da mediação simbólica constitui o problema central do conhecimento em Flusser.

O filósofo aponta a necessidade de reformulação do vocabulário que utilizamos, pois sua manutenção dificulta a compreensão dos novos universos significativos. Justamente por isso, ele adota, após a década de 1980, a nomenclatura da Ciência da Informação. Segundo ele, ela permite uma maior precisão conceitual em um universo de significados pautado na metafísica da verdade enquanto descoberta, ou seja, em conceitos que se referem a teorias já questionadas. Assim, decodificar é a atividade relativa à atitude fenomenológica, isto é, se o uso da fenomenologia enquanto método epistemológico for bem-sucedido, seu resultado será a decodificação de símbolos. Então, decodificar é dar palavra ao significado no sentido husserliano. É uma atividade desalienadora, pois a decodificação elimina o caráter sacro do objeto, sua condição de microcosmo, que espelha um cosmos transcendente. Transfere a importância do significado em si para o ato de conhecer esse significado. “Em suma: para a gente, ‘símbolo’ é mediação entre o sujeito e o objeto concreto, e ‘decodificar’ é desalienar o sujeito”.17

Flusser muda o foco da dinâmica do conhecimento, atribuindo valor social à parte ativa do mesmo e eliminando a absolutização das conclusões. Isso significa que conhecimento é configuração, ou seja, é delimitação de um escopo para a relação entre sujeito e objeto, ou para a relação entre sujeitos. Logo, para o filósofo, conhecimento é construção de intersubjetividade. Flusser coloca o ser humano no centro do mundo, visto que ele é o ponto do qual todas as relações partem. Todavia, cada um é o centro de um mundo diferente. Como ele não está sozinho no mundo, os diferentes mundos individuais se sobrepõem, colocando os seres humanos em relação entre si. Então, reconheço o ponto de vista do outro, pois me reconheço. Tal reconhecimento não é conhecimento, mas intersubjetividade. A intersubjetividade amplia e complexifica o mundo, pois ele se torna mais real ao ser compartilhado. “O que descubro quando vejo as coisas é o outro como seu inventor e, eventualmente, seu produtor; e o fato de que eu o descubro representa para mim mesmo e para os outros a experiência do novo”.18

Essa intersubjetividade é construída pelo estabelecimento de pontes para geração de sentido. Se o mundo é um campo de relações simbólicas19, então a realidade é um tecido de relações composto por abstrações que se conectam. Essa conexão ocorre tanto no que se refere ao sentido do que está sendo simbolizado, quanto em relação aos polos de referência dessa simbolização, ou seja, do que é tradicionalmente chamado de sujeito e objeto. A construção de pontes exige que haja duas extremidades, por meio das quais a ponte se mantém de pé. Essas são cristalizações, que se referem à posição determinada pela relação. Isso significa que os tradicionais “sujeito” e “objeto” não são entidades, totalidades absolutas, mas se configuram no processo de construção simbólica e mudam de posição dependendo do enfoque dado. A estabilidade da ponte construída é conseguida pela articulação intersubjetiva que a configura, ou seja, pela capacidade de construção de pensamento com validade coletiva e não apenas referida ao universo particular do indivíduo.

Ao compreender a atitude fenomenológica como produtora de significados, Flusser constrói uma teoria do conhecimento baseada na criação de ficções, como forma de constituição da teia que configura o que chamamos de realidade. É a pressuposição de uma epistemologia fabulatória, na qual a veracidade da fábula é relativa ao nível de intersubjetividade por ela conquistado. “Não é que tais fábulas devam ser ‘ficções científicas’, isto é: científicas a serviço de pesadelos e sonhos. Devem ser ‘ciências fictícias’, isto é: superação da objetividade científica a serviço de um conhecimento concretamente humano”.20 A associação entre conhecimento e ficção é expressão da estranheza que atribuí ao filósofo no início do texto. Flusser é estranho porque muda de jogo, estabelecendo como objetivo da filosofia aquilo que tradicionalmente deve ser evitado. Coloca na construção poética do mundo seu fundamento ontológico. Assim, o caráter ficcional da filosofia flusseriana, ao ser entendido como atributo positivo, constitui o fundamento de uma fenomenologia não idealista. Isso fica ainda mais claro em uma carta do filósofo:

Quanto ao título “ficção filosófica”: há muito tempo estou com a ideia de que o tratado filosófico (texto alfanumérico sobre) não mais se adequa à situação da cultura, de que os filósofos acadêmicos são gente morta, e que a verdadeira filosofia atual é feita por gente como Fellini, os criadores de clips, ou os que sintetizam imagens. Mas como eu próprio sou prisioneiro do alfabeto, e como sou presa da vertigem filosófica, devo contentar-me em fazer textos que sejam pré-textos para imagens. A maneira de fazê-lo é escrever fábulas, porque o fabuloso é o limite do imaginável. Escrevi e publiquei uma fábula animal, Vampyroteuthis Infernalis, sobre a qual Abraham Moles escreveu que inicia método futuro. Em suma, sempre tentei fazer ficção filosófica, e meus ensaios não aparentemente fabulosos na realidade se querem ficcionais.21

Portanto, o uso flusseriano do método fenomenológico visa a construir outros modos de compreender o conhecimento. Para Flusser, a fenomenologia é uma forma de epistemologia superior, mais desenvolvida, que permite ampliar os modos e tipos de acesso ao mundo, visto que “o conhecimento deve ser admitido como uma entre as formas da existência humana”.22 Essa afirmação mostra a importância da atitude fenomenológica, pois permite o uso positivo do Bodenlos enquanto instrumento para a atividade filosófica. É dentro desse contexto que o filósofo interpreta as categorias husserlianas de modo diferente. Visto que o alvo de seu método são os símbolos, não as coisas, seu esforço é na direção de dessubstancializar a palavra, mostrar que a concretude da coisa é relacional. Desse modo, Flusser transforma a ausência de fundamento em modelo para construção de fundamento.

bibliografia complementar
BERNARDO, G. A dúvida de Flusser: filosofia e literatura. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2002.
FLUSSER, V. Gesten: Versuch einer Phänomenologie. Frankfurt am Main : Fischer, 1994.
FLUSSER, V. Gestos. São Paulo: Annablume, 2014.
LEBRE, Ma. H. de C. A comunicação como paradigma instaurador da humanidade: Uma leitura de Vilém Flusser. Tese (Doutorado em Filosofia). Universidade de Évora, Évora, 2013. Orientação da Professora Doutora Irene Filomena Borges-Duarte.

* Rachel Cecília de Oliveira é professora de estética e filosofia da arte da UEMG.
 
1 FLUSSER, V. “Curriculum Vitae” In: LADUSÃNS, S. (org.). Rumos da filosofia atual no Brasil: em auto-retratos. São Paulo: Loyola, 1976, p. 501.
2 “De um lado a pessoalidade flusseriano: vitalmente complexa e fascinante, o caráter temperamental eivado de paradoxos, num equilíbrio irônico de simultaneidades: não ora ético, ora amoral, mas eticamente amoral; nem ora lúdico, ora engajado, mas ludicamente engajado. E de outro lado, o pensamento flusseriano: este universo de ideias extremamente originais e audaciosas, sempre expressas com o rigor inusitado da razão-e-da-paixão, par-de-opostos que Flusser, e muito raros, conseguiram amalgamar com tanta veracidade”. LEÃO, M. L. “Pessoa-pensamento no Brasil”. In: BERNARDO, G; MENDES, R. (orgs.) Vilém Flusser no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p. 13.
3 Sobre a excentricidade do filósofo ver: GULDIN, R.; BERNARDO, G. Vilém Flusser (1920–1991) Ein Leben in der Bodenlosigkeit. Biographie. Bielefeld: Transcript Verlag, 2017.
4 Felinto assim o caracteriza: “[p]ensadores ‘estranhos’ poderiam ser, assim, aqueles que acalentam propostas contra-intuitivas, que tendem à instabilidade e à ruptura com os modelos estabelecidos, que desconfiam de epistemologias fortes e se entregam aos voos imaginativos”. FELINTO, E. “Flusser e Warburg: Gesto, imagem, comunicação”. Disponível em: <http://www.compos.org.br/biblioteca/arquivocompleto_2776.pdf>. Acessado em: 16/06/2017
5 A importância de Husserl no pensamento de Vilém Flusser é enorme. Desde seus primeiros escritos, datados do final da década de 1950, até a sua última obra publicada em vida “Gestos” de 1991, a fenomenologia aparece como método de trabalho, às vezes explicita, às vezes implicitamente. Husserl é dos poucos filósofos a quem Flusser dedicou um artigo, contrariando o hábito comum de não citar nem nomes, nem teorias.
6 FLUSSER, V. Bodenlos. São Paulo: Annablume, 2007, p. 21.
7 Idem. Aula “Fenomenologia” do curso “Da língua e outras reflexões”. Disponível em: <http://flusserbrasil.com/aula60.pdf>. Acessado em: 16/02/2017.
8 “A epoché corresponde à concentração, o parêntesis corresponde ao yapa, a redução corresponde à meditação, o desvendar do eidos corresponde a samadhi. O subjetivo transcendental corresponde ao atman, o fenômeno ao maia, o eidos a Brahman, a dedução formal e rigorosa da matemática, lógica e ética corresponde ao karma”. Ibidem.
9 Idem. A dúvida. São Paulo: Annablume, 2011, p. 35.
10 Idem. Em louvor do espanto. Disponível em: <http://flusserbrasil.com/art482.pdf>. Acessado em: 16/02/2017.
11 Regarder les choses comme si on les voyait pour la première fois est une méthode permettant de découvrir en elles des aspects jusqu’alors inaperçus. C’est une méthode puissante et féconde, mais qui exige une discipline rigoureuse et qui peut donc facilement échouer. Au fond, cette discipline consiste à oublier, à mettre entre parenthèses l’habitude qu’on a acquise de la chose regardée, et donc toute expérience et toute connaissance de cette chose”. Idem. Choses et non-choses: esquisses phénoménologiques. Nîmes : Éditions Jacqueline Chambon, 1996, p. 64.
12 Idem. On Edmund Husserl. Disponível em: <http://flusserbrasil.com/arte106.pdf>. Acessado em: 16/06/2017.
13 “Car l’absence de point de vue m’apparaît soudainement comme une absence de sol, et je sens le sol se dérober sous me pieds du seul fait de ma tentative. Il curieux que je ne développe pas cela théoriquement, mais que je le ressente tout à fait concrètement. On pourrait qualifier cette expérience de vertige ontologique concret”. FLUSSER, V. Choses et non-choses: esquisses phénoménologiques. Op. cit., p. 67.
14 Idem. Bodenlos. Op. cit.
15 Idem. Ser judeu. São Paulo: Annablume, 2014, p. 92.
16 Idem. Bodenlos. Op. cit., pp. 154-155.
17 Ibidem, p. 155.
18 “Ce que je découvre lorsque je considère les choses, c’est l’autre en tant que leur inventeur et, les cas échéant, leur producteur; et le fait que je le découvre représente pour moi-même ainsi que pour les autres l’expérience vécue du nouveau”. Idem. Choses et non-choses: esquisses phénoménologiques. Op. cit,, p. 76.
19 Idem. Phenomenology: a Meeting of West and East. Disponível em: <http://flusserbrasil.com/arte130.pdf>. Acessado em: 16/02/2017.
20 FLUSSER, V. Vampyrotheuthis Infernalis. São Paulo: Annablume, 2011, p. 131.
21 Trecho de carta de Vilém Flusser a Maria Lília Leão. In: LEÃO, M. L. “Pessoa-pensamento no Brasil”. In: BERNARDO, G; MENDES, R. Vilém Flusser no Brasil. Op. cit., p. 20.
22 FLUSSER, V. Pós-História: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: Duas cidades, 1983, p. 55.

 

Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)
Belo Horizonte, Brasil

Aprovado: 26.07.2018. Publicado: 27.12.2018.

 
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