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DIAS, Rosa. Páginas da vida, páginas da arte. Rio de Janeiro: MAUAD, 2016, 132p.

Rosa Dias é uma filósofa que construiu sua trajetória intelectual em especial a partir das questões estéticas, encontrando em Nietzsche seu mais intenso interlocutor. Contudo, ao contrário de uma tendência tecnocrática de especialização em voga na formação acadêmica dos professores de Filosofia do Brasil, Rosa Dias apresenta um viés muito distinto desse padrão engessado de atuação profissional. Não são apenas os filósofos hoje chancelados pelo sistema acadêmico que fazem parte da dimensão criativa de Rosa Dias, mas também o cinema, os artistas populares, os marginais da arte, uma miríade de estilos e tendências que não são convenientemente catalogados nos manuais, sempre limitados epistemologicamente. Quem consegue enquadrar a experiência estética em algum quadro específico?

No novo livro de Rosa Dias, Páginas da vida, páginas da arte, encontramos um pouco desse caleidoscópio criativo que perpassa sua atividade filosófica, um registro tanto de suas impressões pessoais como de temas fundamentais para a construção do que hoje é ela própria, Rosa Dias, uma intérprete da obra de Nietzsche e de autores axiologicamente divergentes e/ou convergentes, pensadora da arte como afirmação da vida que soube registrar o seu nome de maneira singular perante seus interlocutores. Platão, Aristóteles, Schopenhauer, Nietzsche, Machado de Assis, Proust, Gerd Bornheim, Cartola, nomes de gênio em uma ordem de mundo avessa ao ser criativo. Muito mais do que uma coletânea de escritos esparsos sobre pensadores da arte que fizeram das suas vidas um exercício contínuo de afirmação da existência e autossuperação das suas próprias limitações, Páginas da vida, páginas da arte é uma obra orgânica, dotada de uma lógica interna não apenas pela junção de textos axiologicamente afins no decorrer do livro, mas pelo encadeamento das questões estéticas.

No primeiro texto, “Homenagem ao professor Gerd Bornheim”, Rosa Dias evidencia o quanto sua própria formação deve a tal grande mestre da filosofia brasileira, cujo percurso intelectual não se ateve apenas às salas de aula das universidades, mas também aos escritos jornalísticos, às atividades teatrais, às galerias de arte. Em seu testemunho de sua relação pessoal com Gerd Bornheim, Rosa Dias não esqueceu a angústia que tal pensador manifestara quando, ciente de seu pouco tempo de vida em decorrência da terrível doença que lhe acometia, muito ainda haveria a ser dito. Com efeito, o intelectual comprometido com a potência do pensamento não morre satisfeito, tranquilo pelo pretenso dever cumprido. Fica sempre algo inconcluso. Não é por acaso que Rosa Dias escolheu esse texto para iniciar o livro, pois Gerd Bornheim foi justamente o filósofo que, mesmo na dimensão acadêmica, conseguiu pensar além dos seus muros estreitos e fez da vida filosófica um exercício de amor, de alegria, de intensidade, de desejo, de afeto, as verdadeiras bases da ação intelectual, pois um pensador autêntico não pode separar razão e instinto.

O texto seguinte é “Uma filosofia do amor em Cartola”, uma análise primorosa da obra do célebre sambista, cuja obra se constitui como uma ontologia estética do amor, suas dores, seus sofrimentos, mas também suas superações. O texto de Rosa Dias ratifica a dignidade filosófica do samba, expressão da cultura popular, cultura orgânica do povo brasileiro. Rosa Dias demonstra que não é apenas a poesia clássica que é digna de análise filosófica, ou ainda as narrativas teatrais ou operísticas, mas também o samba, que revela aspectos daquela que seria a identidade do carioca e, por conseguinte, a própria alma do brasileiro.

Em seguida, temos dois textos sobre a concepção da tragédia e da musicalidade em dois pensadores fundamentais da filosofia grega: Platão e Aristóteles. Em “Música e tragédia no pensamento de Platão”, Rosa Dias esclarece as críticas do filósofo ao processo de criação artística, imputado como a expressão do falso, portanto, inconveniente para a verdade filosófica, transcendente, acima das contingências materiais, tal como largamente apresentado na República. Já em “A música no pensamento de Aristóteles”, Rosa Dias aborda uma questão muitas vezes descurada pelos estudiosos, a relação entre musicalidade, educação e ética conforme a filosofia aristotélica, conexão fundamental para a formação de um modelo de homem virtuoso comprometido com a conservação de sua cidade, defendendo-a das ameaças externas e tornando-a internamente regida pela virtude.

Dando um salto para a Modernidade, Rosa Dias lega-nos o texto “O autor de si mesmo: Machado de Assis leitor de Schopenhauer”, abordando uma crônica jornalística do escritor brasileiro sobre um trágico caso de homicídio compreendido à luz da metafísica do amor schopenhaueriana. A perspicácia machadiana faz de um tema escabroso, o assassinato de uma criança, uma pequena especulação metafísica sobre a essência da Vontade que busca todos os meios para se autoafirmar na dimensão fenomênica. A crueza da vida suprime qualquer complacência ou piedade para com as dores do mundo. Perante as misérias da existência, a mordacidade atenua seus efeitos mais tenebrosos.

Estabelecendo outra conexão filosófico-literária, Rosa Dias, em “Proust: um leitor de Schopenhauer”, apresenta a influência da “Metafísica do belo” na composição de Em busca do tempo perdido, e de que modo nessa saga literária ocorre a guinada da vontade de vida como afirmação da existência, em suas contradições e suas dores. Rosa Dias apresenta, a partir de sua análise da obra proustiana, como ocorre a ampliação da consciência de mundo mediante a compreensão da ideia de beleza atrelada ao conhecimento da essência da realidade.

Os três textos seguintes de Páginas da vida, páginas da arte abordam questões nietzschianas, delineando um quadro amplo e elucidativo da importância da arte e da cultura como processo formativo de criação na obra de Nietzsche.

Em “Metafísica do gênio nas extemporâneas de Nietzsche”, encontramos a leitura de Rosa Dias sobre esses polêmicos ensaios nietzschianos e suas diatribes contra a decadência da cultura alemã perante a consolidação da figura do filisteu, tipo humano que compreende as atividades superiores do espírito através de critérios pragmáticos, comerciais, vivendo sob a égide do cálculo e do conformismo, não obstante acreditar-se dotado de cultura e senso estético. Em contraponto ao barbarismo cultural em voga na sociedade oitocentista, desprovida da capacidade de compreender a essência do espírito artístico, Nietzsche revitaliza a persona do gênio, em configuração distinta da apresentada por Schopenhauer em O mundo como vontade e representação, como a manifestação excepcional do sujeito capaz de conhecer e contemplar as Ideias para além do princípio de razão. Nietzsche retira a conotação metafísica da concepção acerca do gênio, plasmando-a como a ação do sujeito que empreende seus esforços plenos para realizar a obra cultural, como cultivo de suas próprias forças vitais em expansão por mais criatividade e mais potência, seja na filosofia, seja na arte, decorrendo daí o elogio de Schopenhauer e de Richard Wagner como gênios criadores que se construíram a si mesmos, herdando obviamente o legado intelectual da cultura alemã, mas se posicionando para além das suas determinações políticas e contingências históricas.

Em “Do imaculado conhecimento: olhos ébrios de Lua”, Rosa Dias analisa Assim falava Zaratustra e a crítica nietzschiana ao pretenso caráter desinteressado e etéreo do conhecimento, preconceito epistemológico e metafísico que se origina desde as priscas eras gregas, de Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles, passando pela teologia cristã e chegando às raias da filosofia moderna, ao pressupor o pensamento como o fundamento da existência, assim como a separação entre fenômeno e essência, e outros paradigmas dicotômicos que promovem a falsa predominância do abstrato sobre o concreto.

Em “Arte e vida no pensamento de Nietzsche”, Rosa Dias apresenta uma visão global da relação entre estética e ética trágica na filosofia nietzschiana, empreendendo estudo de obras fundamentais para a compreensão da polaridade apolíneo-dionisíaca, antagonismo crucial estabelecido por Nietzsche mediante a relação entre sonho e embriaguez. Tal como apresentado em O nascimento da tragédia, a experiência apolínea da visão contemplativa do belo promove a placidez do ânimo, enquanto na experiência dionisíaca o estado extático toma posse do sujeito, suprimindo sua identidade individualizada. Contudo, essa dicotomia é retrabalhada por Nietzsche em Crepúsculo dos ídolos, quando a tensão entre o apolíneo e o dionisíaco é compreendida como entre dois estados fisiológicos de embriaguez, a apolínea, do olhar, a dionisíaca, de todo o organismo, em suas funções metabólicas, sensórias. Rosa Dias apresenta convenientemente a tese nietzschiana de que a estética no fundo é uma fisiologia aplicada, contrapondo-se assim ao idealismo clássico e romântico, que fazia da experiência estética a separação radical entre sensibilidade e racionalidade.

Encerrando a obra, Rosa Dias, em “A questão da criação em Nietzsche e em Bergson”, apresenta os pontos convergentes e divergentes entre ambos os pensadores, possíveis conexões entre a vontade de potência nietzschiana e o elã vital bergsoniano, e seus respectivos papéis nos atos criativos dos indivíduos em suas experiências no mundo. Tal texto é um estímulo intelectual para que os pesquisadores dessas plagas façam novas investigações sobre as possíveis interconexões entre Nietzsche e Bergson.

.Páginas da vida, páginas da arte, é um livro que pode ser lido sem qualquer encadeamento linear, o que fortalece ainda mais o poder de interação do leitor com a obra. Ao folhear o sumário, o leitor pode escolher por qual texto iniciar sua imersão literária, e tal disposição torna Páginas da vida, páginas da arte, ainda mais sedutor.

* Renato Nunes Bittencourt é professor do IPPUR/UFRJ.
 

 

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Rio de Janeiro, Brazil

Accepted: 13.11.2016. Published: 30.12.2017.

 
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