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Em certos momentos, torna-se impossível falar de um texto sem atrelá-lo ao que se passa fora dele, no mundo. Isso diz respeito não apenas ao mundo, mas também ao texto. No caso do romance o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe, a violência da barbárie, que faz especialmente as mulheres de vítimas, ganha especial atualidade quando, hoje, sabemos de um estupro de uma menina com menos de 18 anos por cerca de 30 homens no Rio de Janeiro. Não é possível ler hoje – e digo aqui “hoje” não como um mero sinônimo genérico da época em que estamos, mas literalmente hoje, dia 3 de junho de 2016 – as palavras do livro de hugo mãe sem que elas soem como o comentário forte e direto sobre o que se passa. São palavras que se fazem mundo, uma parte estranha do estranho mundo nosso de cada dia. Essa ficção tornou-se supreendentemente realista, na medida mesmo em que, de acordo com palavras de Verlaine Freitas, ela apresenta “uma poética da violência da regressão, do asco causado por uma barbárie inominável e da fraqueza irremediável de uma cultura”. Tais termos descrevem bem o que o romance narra, mas também poderiam apenas retratar nosso mundo hoje.

Na interpretação de Verlaine, aparece então, para descrever os estranhos personagens do romance, a qualificação de “pré-trágicos”. Explica-se: a tragédia seria nesse argumento uma etapa de passagem entre a barbárie e a civilização. O estágio pré-trágico diria respeito a esse momento regressivo e regredido no qual o sujeito enquanto instaurador de valores não se instaurou ele mesmo, quase em uma espécie de estado da natureza, submetido ao regime puramente místico da realidade, por isso mesmo amedrontadora. Verlaine fala de “luta irresolvida”, ao definir esse estado. Não está porém talvez muito distante do que, na tradição da filosofia política, Thomas Hobbes chamara de “guerra de todos contra todos”, ou seja, um momento em que, na ausência ainda de lei ou contrato social, os homens agem desprovidos de moralidade, não sendo bons nem maus, apenas submetidos às paixões da alma e da liberdade que os guiam. Tal barbárie “pré-trágica” assola todo o romance, o que torna sua leitura sombria e até sufocante às vezes.

Desde o começo, hugo mãe já nos coloca em contato com o cerne do que é a sua história – seja na linguagem, seja no tema; seja na forma, seja no conteúdo: “a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só diabo e gente a arder tinham destino. a voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo de mugido e atitude da nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos”. Reparem que não se fala apenas das mulheres, mas da voz das mulheres, ou seja, da sua língua, da sua linguagem. Essa voz estava sob a terra. O trecho opera uma determinação topológica, aliás: a voz das mulheres está “sob”, vem de caldeiras “fundas” e fica “abaixo”. No caso, abaixo não da voz dos homens, o que seria compará-la com um superior próximo. Está abaixo do mugido da vaca. Não se trata daquela tagarelice feminina tradicionalmente desqualificada frente à objetividade masculina, e sim de uma voz que fica abaixo do grunhido, digamos, pré-linguístico do animal. Diz um xingamento comum que a mulher é uma vaca – aqui ela é menos. O primeiro nome que aparece no romance, sintomaticamente, é o da vaca – sarga.

E a sina da família que acompanhamos é atrelada a esta vaca, uma vez que toda gente acredita – sim, é isso mesmo – que tal família originou-se da vaca. Não sem humor irônico, o romance explicita o simultâneo absurdo dessa crença e sua convicção social. Resta o sofrimento de uma família que fica sem humanidade em um mundo que, no fundo, é ele mesmo desumano. O sofrimento, entretanto, fica preso a si mesmo porque, seguindo novamente a sugestão de Verlaine, faltaria ali (não no sentido da qualidade literária do romance, mas do seu ser mesmo) uma guinada trágica, culpa e expiação, salto que atravesse a barbárie para dela sair a civilização, mesmo que com a marca da dor. Se Édipo rei é “elucidação trágica”, o remorso de baltazar serapião acompanha os seus personagens “se afundarem em uma areia movediça de forças demoníacas, sombrias e fatídicas”. Ressalte-se esse sintagma de Verlaine, nada óbvio: “elucidação trágica”. O trágico é elevado a um operador estético e conceitual quase iluminista, como se, ao passar por sua difícil prova, o homem fosse finalmente além de sua bárbara animalidade e alcançasse a cultura. Essa dualidade entre o trágico grego e o romance de hugo mãe aparece claramente, na leitura de Verlaine, quando ele opõe “o desenlace que aproxima o personagem de si mesmo”, no primeiro caso, e o “afogamento da consciência na literalidade pétrea”, no segundo caso. Faltaria enfim essa passagem pelo trágico para que os personagens de hugo mãe fossem da barbárie à cultura.

Não há sequer, como lembra Verlaine, um ethos familiar que se contraponha ao ethos público, uma tensão entre direito de família e direito de Estado, como na Antígona. Fica só “a batalha sanguínea com seus semelhantes”. Mais sufoco para o leitor. Não há saída desse universo terrível construído pelo romance. De acordo com Verlaine, a falta que decide o malfadado destino da família que queria deixar de ser “sarga” (bárbaro animal) para ser “serapião” (cultura humana) é a falta de razão. Resta um “totemismo aquém do discernimento racional”, nos seus termos. Nesse sentido, esquematicamente, o pré-trágico parece ligado ao irracional que é responsável pelo horror, pela violência, pela barbárie.

Desconfio, porém, que o problema em jogo no romance de hugo mãe, mas também para nós, é menos uma oposição entre civilização e barbárie, entre razão e irracionalidade, entre cultura e natureza; e mais o nó que enlaça cada uma das diferentes cordas aí maximamente tensionadas. Nesse sentido, parece-me que a ambientação do romance na Idade Média, embora significativa, o é não por uma especificação histórica ou cronológica. Pelo contrário. O que mais chama atenção é que essa Idade Média é vaga e indeterminada, como se hugo mãe sugerisse que ela está presente hoje, do mesmo modo que ontem e amanhã. Em suma, parece-me que este livro é mais pessimista do que a leitura de Verlaine, já por si mesma suficientemente sombria, anuncia. Não estou certo de que haja ali só a descrição de um estágio “pré-trágico”, que por sua vez permitiria então deduzir, ainda que na sua ausência, a existência de uma ultrapassagem trágica até a civilização. Em suma, talvez “a mediação suavizadora da racionalidade progressiva” – expressão de Verlaine – inexista completamente para os personagens de hugo mãe, mas ela também falta aos homens em geral, em todas as épocas. Será?

Não se trata, a meu ver, mesmo assim, de uma resignação, e nem de fazer a condenação sumária da cultura, mas apenas de reconhecer, como o fez Walter Benjamin, que “todo monumento de cultura é também monumento da barbárie”. O terrível retrato da família – sarga ou serapião – do romance parece falar antes do fundo terrível de uma humanidade para a qual não há superação completa da barbárie, nem pelo significado do trágico. O protagonista, no decorrer do enredo, depara com várias oportunidades de superação de seu infortúnio. Em vão. Nem o amor por ermesinda, que era tão bela; nem o talento artístico de aldegundes, seu irmão; tampouco os favores de El-Rei – nada adianta.

Seguimos o fluxo dessa escrita com pontuação sui generis, sem o emprego da letras maiúsculas, como já se deve ter percebido, numa linguagem assim cheia de artifícios modernos; e vamos ficando dentro das violências que invadem tudo. Há influência da escrita de José Saramago neste escritor português cuja origem é angolana quando ele relativiza as regras gramaticais. Ele que foi elogiado por tal influenciador, que o chamou de “tsunami” de uma língua que também é nossa – o português. Guimarães Rosa também o influencia. Só que, ao menos nesta obra, a família lembra mais é o clima perturbador e perturbado dos afetos dos livros de Raduan Nassar, como observou o crítico Sérgio Rodrigues, que vê ali um “magma violento de pulsões quase pré-humanas, no marco zero do humano”. Será porém que essas pulsões não são precisamente humanas? O “pré” dá a sensação de que o humano depois poderia as superar, abandonar. No entanto, talvez o marco zero do humano o acompanhe sempre depois: no um, no dois, no três e no 2016.

O marco zero do humano se dá pois “à alteridade é subtraído um mínimo de dignidade capaz de frear o uso torrencial e avassalador do poder”, segundo a precisa frase de Verlaine. Essa alteridade não é, porém, apenas abstrata. Por isso, ela se expressa no exercício do poder do senhor feudal sobre os homens (sim, há luta de classes também nisso) mas ainda no dos homens sobre as mulheres (sim, há um feminismo que não opõe ao marxismo, mas o torna mais complexo). Com a perda da alteridade, some a diferença ontologicamente. Mas empiricamente há o que ganha e o que perde, o vitorioso e o perdedor. Os homens brancos de terno preto dominam, dão soco na mesa e são reconhecidos como firmes e decididos. Já as mulheres de saia, quando gritam, são histéricas e desequilibradas. O exemplo é tênue, se for comparado às violências de o remorso de baltazar serapião. Porém, demonstra o quanto o seu problema está entre nós, autonomeados civilizados.

Mais ainda quando lembramos, de novo, do recente estupro coletivo e até das reações a ele: “se ela estivesse lavando louça, isso não ocorreria; se estivesse estudando, tampouco”. Frases como essas encheram os comentários de internet. Fora o absurdo óbvio, elas têm ainda dois problemas. Primeiro: muitos estupros de mulheres acontecem quando elas estão lavando louça e estudando. Segundo, e talvez mais relevante: por que não afirmar que, se eles, estupradores, estivessem lavando louça e estudando, nada teria ocorrido? Essa omissão é reveladora. Pois nela está implícita a ideia de que ainda somos, diria Verlaine, “pré-trágicos”.

Só nesse sentido se justifica que, se mulheres estão desse ou daquele jeito, homens se sintam no direito de as violentarem. Essa é a opinião corrente, como a confirmar tristemente a observação de Verlaine sobre uma “boca de mil dentes e de mil homens, boca que corrói a pseudo-dignidade de poder-ser só um objeto passivo ao desejo alheio”. Só que, voltando ao meu ponto, isso está incrustado na própria cultura, não sendo somente o seu oposto, a barbárie. Somos uma cultura bárbara, naquele sentido de Benjamin. Podemos nos ver na realidade pré-trágica do romance de hugo mãe, embora sejamos cronologicamente pós-trágicos. Tanto que, não fosse pela linguagem experimental, a passagem a seguir poderia ser lida em qualquer comentário machista da internet: “olha que ter mulher de dia a dia, para garantir pão para todos, corpo e espírito, não é fácil assim. importa que nos obedeça e nos corresponda nas necessidades”.

Nessa medida, falar da existência de uma “cultura do estupro” – como tem sido feito atualmente, a fim de caracterizar a dimensão particularmente violenta da misoginia de hoje – soaria um excesso retórico, se não tivesse grande precisão (mesmo que não esgote o problema). O estupro, se é bárbaro, pertence contudo à cultura e há mesmo uma cultura em torno dele. Seu cerne é essa objetivação do outro (que em geral é uma outra) que elimina sua alteridade subjetiva. Para usar as expressões do próprio baltazar, “a condenação do sexo fraco. as mulheres são frutos podres, como maçãs podres, raios hão de partir eternamente a eva por ter sido mal lavada nas intenções”. Vale dizer: desde Eva até Yoko Ono, é como se até o que dá errado com os homens fosse culpa delas. No entanto, vale, para concluir, voltar ao início: a voz das mulheres, embora baixa, embora burra, seria também perigosa, segundo o romance. É o perigo da minoria, da resistência, da diferença. Precisamos desse perigo. Pois “também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer”, diz Benjamin, “e esse inimigo não tem cessado de vencer”.

* Pedro Duarte é professor do Departamento de Filosofia da PUC-RIO.
 

 

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)
Rio de Janeiro, Brasil

Aprovado: 29.09.2016. Publicado: 28.12.2016.

 
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