perfilexpedientepolíticas editoriaisética e boas práticasguiassubmissões
 

Gerd Bornheim se foi, mas corremos o risco de perdê-lo de novo. Seus livros ainda podem ser encontrados com relativa facilidade, mas quando penso nos muitos artigos, prefácios, conferências, textos de catálogos de exposições, materiais para cursos, vejo que ainda resta um longo trabalho a ser feito. E se nos reunimos hoje para homenageá-lo, então que transformemos nossos sentimentos em ações e colaboremos na realização deste longo trabalho.

Gerd sempre foi muito disciplinado e requisitado. Como gostava imensamente de ser professor e ter diante de si uma sala repleta de alunos, dividia sua semana em duas metades que só muito raramente se misturavam. Dava aulas sempre no início da semana, quando habitualmente nos encontrávamos, reservando o restante da semana para atender aos convites que recebia de todo o Brasil. Disciplinado por um senso prático que lhe permitia estar sempre em dia com suas obrigações e compromissos profissionais, tinha também o seu método. Ele costumava dizer que as aulas e as conferências eram o seu “laboratório”, porque nelas voltava sempre às questões que o absorviam. Estas questões eram de tal modo determinantes que Gerd muitas vezes modificava – sutil ou abertamente – o tema que lhe fora proposto para uma conferência. E o que se via então era ele mais uma vez às voltas com o conceito de imitação, com a relação sujeito-objeto, o conceito de crise, o teatro de Brecht, a experiência da alteridade, a diferença, para citar apenas algumas destas questões que o absorviam. Ele as tratava como temas, no sentido musical da palavra. Houve quem o comparasse a um bom pianista de jazz. Como todo pianista, cultivava por um certo tempo um mesmo repertório, mas não deixava que sua interpretação se cristalizasse. Seu repertório soava diferente a cada apresentação, aberto ao risco e ao prazer da improvisação e das variações, seja porque algo interessante lhe ocorrera naquele momento em que falava, seja porque uma pergunta de um ouvinte lhe sugerira um caminho inesperado a ser explorado. Nosso pianista de jazz pensava em voz alta e assim elaborava os motivos que depois desenvolveria por escrito, ora pela convicção interna de que chegara o momento de haver-se com o papel em branco, ora porque a solicitação de um texto para publicação o forçasse a recolher-se e a escrever. Neste momento, o pianista de jazz se tornava o ensaísta que reconhecemos em seus textos. Enquanto estava no “laboratório”, falando para seus alunos ou para o público em geral, ele experimentava, improvisava, pensava em voz alta, chegando mesmo a fazer concessões em proveito de uma comunicação mais direta e clara com seus ouvintes. Ao contrário dos alunos e do público, ele nem sempre deixava o “laboratório” satisfeito com o que acabara de dizer, mas nem por isso alterava o seu método. O rigor conceitual e o apuro verbal, que de resto nunca lhe faltaram nestes momentos, eram especialmente cultivados pelo ensaísta no corpo a corpo com as idéias e as palavras. Gerd costumava dizer que nós, os mais jovens, somos um tanto rígidos; que precisamos aprender algo da técnica da conferência, distinta da que usamos quando preparamos nossas aulas e nossos textos. Ele transitava de tal modo por estes registros que os textos que escrevia depois de tanto falar sobre os seus temas eram o resultado de uma experiência sedimentada e, ao mesmo tempo, a sua crítica. Este era o seu método.

Quando comecei a trabalhar como professor no departamento de filosofia da UERJ, Gerd me perguntou se estava satisfeito com esta experiência. Disse a ele que estava me adaptando ao novo cotidiano e gostando especialmente da experiência de escrever as aulas. Ele então me disse que fizera isso no começo de sua carreira, mas que há muito já não mais se preocupava em escrever todas as suas aulas e conferências. Lembro-me de uma ocasião em que não pude assistir a uma destas conferências. Ao chegar na UERJ, perguntei a alguns alunos sobre como Gerd se saíra, se a conferência tinha sido interessante. Como os comentários eram positivos e confiáveis, fiquei chateado e imaginei que poderia minimizar a perda se conseguisse uma cópia do texto da conferência. Foi quando os alunos me disseram que não havia texto algum, que Gerd fora fazer a conferência “como quem sai de casa para comprar pão”. Achei graça desta frase e contei a eles o que disse antes: que o nosso querido pianista já não mais se preocupava com a partitura. Isto porém não quer dizer que a liberdade de pensar em voz alta e de improvisar pudesse prescindir de uma certa ordem nos temas e nos seus encadeamentos. O pianista estava para o ensaísta assim como a capacidade de tocar de ouvido para a de escrever de uma tal maneira que algo do frescor da palavra falada se mantinha no corpo de um texto vertebrado por reflexões prolongadas, metodicamente conduzidas. Como aqueles historiadores, sociólogos e críticos que nos ajudaram a compreender melhor o Brasil, nossa história, nossa sociedade e nossa literatura, mobilizando toda a força expressiva da língua portuguesa, Gerd escreveu numa prosa que resiste a certos limites que a exposição acadêmica nos impõe, nem sempre com razão – uma prosa cuja clareza não dispensava a cor, e cujo rigor não provinha do esforço de dominar a linguagem, mas de entender-se com ela sem coerções.

Se as conferências lhe ofereciam a oportunidade de tentativas de sínteses, os cursos universitários – especialmente os de pós-graduação – lhe davam o tempo necessário para desenvolver com mais vagar suas idéias, esmiuçando-as melhor. Era nestes cursos que a ordem dos temas e dos seus encadeamentos – a base de sua liberdade de improvisar e de pensar em voz alta – tornava-se visível, antecipando o que poderia resultar em trabalhos de maior fôlego. Nos últimos anos, ele andava às voltas com duas obsessões, seus dois últimos planos para dois livros: queria escrever o que chamava de uma “introdução” à filosofia contemporânea e um estudo mais analítico em torno das questões fundamentais da estética. Se terminado, este livro seria talvez a contraface sistemática de Páginas de filosofia da arte, contrastando com sua fisionomia mais dispersa, pois colocaria em primeiro plano o arcabouço conceitual daqueles ensaios escritos em sua maioria entre 1985 e 1997. Assim, ao lado de uma introdução à filosofia contemporânea, Gerd tinha em mente um livro ao qual chegou a dar um título, não sei se definitivo: Categorias estéticas.

Seus cursos de pós-graduação dos últimos anos giraram sempre em torno destes dois projetos não concluídos. No centro do primeiro projeto estavam ao menos três questões básicas. A primeira consistia numa indagação sobre a especificidade da filosofia contemporânea – questão metodológica, como ele a entendia, que implicava a discussão das diferentes abordagens históricas e filosóficas ao tema. A segunda questão concentrava-se no motivo da crise e do fim da metafísica, uma crise que Gerd começava a restrear desde Hegel para, em seguida, analisar o que ele considerava as suas três formas emblemáticas de manifestação no século XIX: as três grandes rupturas protagonizadas por Marx, Comte e Nietzsche, centradas na política, na ciência e na moral, respectivamente. Por fim, Gerd se ocupava do que ele chamava de movimentos de “retorno ao passado” e das tentativas de uma “nova ontologia”. Era quando voltava os seus olhos para autores como Heidegger e Scheler. Já o projeto sobre as categorias estéticas aliava o interesse pelas questões sistemáticas, formuladas a partir de um diagnóstico sobre a situação presente das artes e da estética, com uma investigação histórica que começava sempre pelos gregos e o conceito de imitação, discutia a crise de tal categoria na modernidade e os dilemas da estética desde então, aprisionada nas aporias de um paradigma filosófico centrado na relação sujeito-objeto.

Os dois projetos aos quais Gerd dedicou seus últimos anos estavam também ligados de muitas maneiras, mas creio que uma delas é sintomática, pois ressalta os limites do seu pensamento e, talvez, seu esforço para superá-los. Ao contrário do que se passava em suas reflexões sobre a filosofia contemporânea, nas quais a crítica à dicotomia sujeito-objeto desempenhava um papel central, mas sem que se pudesse sequer entrever um espaço para o tratamento do que, afinal, é inseparável da especificidade da filosofia contemporânea: o continente descoberto pela revolução na lógica, o continente da linguagem, Gerd manifestava sua preocupação com o problema da linguagem apenas em suas últimas reflexões sobre a arte e a estética. Sob este aspecto, nada secundário, os dois projetos não – ou ainda não – se comunicavam. Na paisagem de sua reflexão sobre a filosofia contemporânea não se via o problema da linguagem. Tanto quanto eu saiba, Gerd nunca se aproximou de Wittgenstein, cujo pensamento aforístico, por vezes vazado com a pregnância de quem formara o seu estilo lendo Lichtenberg e Karl Kraus, talvez movesse sua curiosidade, que não era pequena, e dissolvesse resistências intelectuais. Do mesmo modo, Gerd também passou ao largo das diferentes vertentes da filosofia analítica da linguagem. De sua temporada em Oxford, em 1953, voltou convencido de que se fazia má filosofia na Inglaterra. Em Paris, nesta mesma época, viveu a experiência do ensino de grandes mestres, como Merleau-Ponty, Bachelard, Piaget, Guéroult, Jean Wahl e Jean Hyppolite. Pode-se dizer que sua escola foi a da fenomenologia. Marx tornar-se-ia uma grande e constante referência para Gerd, mas o Heidegger que ele aprendeu a conhecer através dos cursos de Wahl e Hyppolite foi o filósofo contemporâneo que mais o inquietou. Desde então, Gerd leu com cuidado o seu Heidegger, sem dúvida, mas o seu Heidegger não era, digamos assim, o “Heidegger da linguagem”, assim como sua relação com a Teoria Crítica limitava-se aos autores da primeira geração, cujo estilo esotérico e algumas idéias – talvez não muito bem compreendidas – deplorava. Por isso creio que ele sempre viu Habermas como um estranho, do mesmo modo que estranho lhe seria Apel e o seu propósito de abrir um caminho para além de Wittgenstein e de Heidegger. Gerd, este descontente com a filosofia da consciência, não se reconheceu nestas tentativas de superação nem no gesto inimitável de Adorno, que levou aquele paradigma aos seus limites.

Gerd se foi num momento em que suas reflexões dariam frutos que talvez resultassem em novos motivos de pensamento e até mesmo numa outra atitude filosófica. Que suas últimas reflexões sobre a arte e a estética pudessem ser o casulo no qual uma nova figura talvez se formasse, diz bem de sua personalidade e do seu temperamento filosófico. Para quem tinha os olhos e os ouvidos abertos como ele, para quem cultivou esta abertura num trato intenso e prolongado com toda a tradição artística do Ocidente – pois quem o conheceu sabe o quanto era impressionante sua familiaridade com o teatro e a literatura, a música e as artes plásticas –, a palavra da filosofia tinha a sua hora, mas o seu tom não sobrepujava a voz dos fenômenos, da experiência. E foi na experiência estética que Gerd sempre se confrontou com os limites do seu pensamento. Foi ela que sempre o levou a pensar diferente e a renovar sua linguagem. Nosso ensaísta foi arrancado do seu piano no momento em que se preparava para dar o melhor de si. No entanto, ao lado dos seus últimos escritos, ainda dispersos, restam ainda muitos registros de suas últimas apresentações. Elas estão em fitas de vídeo e cassetes, à espera de quem organize este material, transcreva o seu conteúdo e o torne disponível, seja por meio digital, seja impresso em livros. Esta seria uma das melhores homenagens ao nosso querido Gerd, mas ela só estará à altura do que ele representou para todos nós quando tornar-se uma iniciativa institucional. Felizmente, os primeiros passos já foram dados. Afinal, Gerd deixou uma obra. Ele talvez achasse uma certa graça em tudo isso; ele, que, em 1998, quando sondado sobre a possibilidade de a nova biblioteca dos programas de pós-graduação em filosofia, história e ciências sociais da UERJ ser inaugurada com o seu nome saiu-se com uma resposta que vocês podem imaginar; ele, cujo desprendimento com o seu próprio trabalho sempre o impediu de manter um currículo atualizado, para o que ele dava de ombros, exibindo aquele sorriso debochado. É pelo que ainda está disperso, e que ele deixou pelo caminho, sem registro, que digo que perder este material seria como perder mais uma vez o seu autor. Mas ao menos desta segunda morte podemos livrá-lo.

* Ricardo Barbosa é professor associado do Departamento de Filosofia da UERJ.
 
* Texto apresentado na mesa redonda “Homenagem a Gerd Bornheim”, no X Encontro Nacional de Filosofia da ANPOF, realizado em São Paulo, de 29 de setembro a 3 de outubro de 2002.

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Rio de Janeiro, Brasil

Aprovado: 11.06.2015. Publicado: 30.07.2015.

 
última ediçãoedições anterioresbusca de artigossobre este sitefale conosco
português english