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Querer dizer algo ou escrever sobre Ingmar Bergman me parece atrevido, cada comentário, uma petulância: esses filmes falam por si mesmos, como poderosos faróis na história do cinema. Não se poderia melhor homenageá-los do que libertando-os de todo comentário, do grande peso da história de suas interpretações; assim, eles poderiam, novamente, continuar iluminando! Parece-me que, raramente, nenhuma outra obra de qualquer diretor de cinema contemporâneo brilha tanto através das janelas cegas das “ideias”, que quaisquer outros filmes possam ser “vistos” novamente sem culpa, sem conceituação prévia, como os de Ingmar Bergman. Por isso, nesse momento, gostaria apenas de enviar-lhe meus votos de feliz aniversário e não entediá-lo com outras “ideias”. Prometo-lhe, ao mesmo tempo (e me proponho a isso), ficar de novo diante de seus filmes sem a carga da minha própria história da recepção deles.

Se voltar ao passado, me vejo como secundarista, com os amigos da época, indo secretamente ao cinema (contra a expressa proibição da escola, da igreja e dos pais e, portanto, por causa dessas proibições) para assistir a O silêncio. Vejo-me voltando para casa profundamente tocado e evitando nos dias posteriores discutir sobre o filme com os colegas da escola, pois minha comoção não poderia ser expressa em argumentos. Vejo-me alguns anos depois, já como estudante de medicina, tropeçando, tarde da noite, depois de um programa duplo com O sétimo selo e Morangos silvestres, e andando até o amanhecer através da cidade chuvosa, perturbado e mexido por todas essas perguntas sobre a vida e a morte. E então, me vejo novamente, alguns anos depois, como o estudante de cinema que recusa Persona e com isso todo o cinema de Bergman, reivindicando um cinema sem psicologia, no qual tudo deveria ser visível na “superficialidade das coisas”. Um pouco envergonhado, penso na minha fala contra a “profundidade” e a “busca de sentido” dos filmes de Bergman, contrapondo-as à “evidência física” do cinema americano, que agora me aparece totalmente frívola. E após um outro salto no tempo, vejo-me – neste meio tempo, eu já era um diretor de cinema – na América, voltando de um cinema em São Francisco, da avant-prèmiere de Gritos e sussurros, na qual derramei catarro e lágrimas. O “cinema europeu do medo e da meditação”, desprezado dez anos atrás, me parecia como a terra natal, onde eu mesmo me sentia mais em casa e recompensado do que na “amada terra” cinema, onde há pouco me domiciliara, onde a “superficialidade” que eu admirava tornara-se simplória e dura: de fato, não havia mais nada “atrás”. E eu, que como ainda estudante praguejara contra o “atrás das coisas no cinema”, experimentava agora a minha nostalgia por todo “atrás” e me sentia mais do que nunca reconciliado com Ingmar Bergman.

Não sou nenhum “estudioso de cinema” e vejo filmes simplesmente como todas as outras pessoas, como “público”. Por isso, sei: vê-se um filme sempre de um ponto de vista “subjetivo”, isto é, vê-se sempre o filme que o “filme objetivo”, que se passa na frente, na tela, diante dos olhos internos de cada expectador, deixa aparecer. Creio que para os filmes de Ingmar Bergman isso vale com maior intensidade: vemos neles “nós mesmos”, mas não “como num espelho”! Não! Melhor dizendo: “como num filme” sobre nós.

* Ernani Chaves é professor associado do Departamento de Filosofia da UFPA.
 
* WENDERS, W. Die Logik der Bilder. Essays und Gespräche. Frankfurt am Main: Verlag der Autoren, 1988, pp. 85-86. Texto publicado em 1988, em homenagem aos 80 anos de Bergman. Este texto expressa, de maneira eloquente, a decepção de Wenders com a indústria cinematográfica americana. Seu filme Hammet, produzido por ninguém mais do que Francis Ford Copolla, o primeiro que rodou nos estados Unidos, foi muito “mutilado”, para cumprir as exigências do mercado. Um momento em que, como ele mesmo diz, se reconciliou com o “cinema psicológico” europeu e sua metafísica do “sentido”, do que sempre haveria algo “atrás” das imagens (nota do tradutor).

 
Aprovado: 09.03.2015. Publicado: 30.07.2015.
 
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