Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 4, n° 9 (jul-dez/2010)

A nova edição da Revista Viso não deixa dúvidas quanto à centralidade da especulação filosófica alemã para o desenvolvimento da estética (aplicada) – é quase como se, desta vez ao menos, Caetano Veloso tivesse razão. Os três ensaios da Seção Fixa, embora tenham sido submetidos espontaneamente por seus autores, são todos dedicados à relação entre crítica, filosofia e criação artística no âmbito da cultura alemã, desde Goethe e os primeiros românticos de Jena (sobretudo Schlegel e Novalis) até Thomas Mann. Já no artigo da seção de História da Estética, aprendemos como a obra de Leibniz, grande filósofo e matemático alemão, apesar de anterior à de Baumgarten (considerado o fundador da estética em seu sentido moderno), dá contribuição decisiva para a história da filosofia da arte. Na seção de Atualidades, embora se trate de uma análise de um livro de crônicas do brasileiro Campos de Carvalho, a obra de Nietzsche é mobilizada como principal fundamento teórico. Finalmente, na seção Tradução, estes Cadernos de Estética Aplicada apresentam a tradução, inédita no Brasil, dos diários de Walter Benjamin quando de sua estadia na Dinamarca, na casa de praia de seu amigo Bertolt Brecht. O contrapeso a esta edição especialmente alemã da Viso é o Dossiê de literatura contemporânea, elaborado pelo Professor Felipe Charbel, nosso editor convidado. Tendo em vista que o próprio editor convidado se encarregou de escrever um editorial sobre os textos por ele selecionados, abrimos um subeditorial na página principal da revista em que ele próprio os apresenta. Com relação aos demais textos, talvez seja fecunda uma apresentação menos breve.

O primeiro ensaio da Seção Fixa faz jus à célebre afirmação de Madame de Stäel segundo a qual, nos outros países, a crítica teria surgido depois das grandes obras de arte, ao passo que na Alemanha ela as teria produzido. Wilma Patrícia Maas defende que a estética goetheana do símbolo seria fundamental para a compreensão do enigmático livro VI de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, intitulado “As confissões da Bela Alma”. Segundo nos esclarece a autora, “pode-se reconhecer aí a virada copernicana do autor, que desloca a determinação da obra de arte do campo do objeto para o campo da produção, ou seja, do espírito que cria. O simbólico é resultado assim do tratamento dado ao objeto, ou melhor ainda, da qualidade do afeto que comove o artista, um ‘sentimento profundo’, que, coincidindo com ‘os melhores e supremos objetos [...], no melhor dos casos, os fará simbólicos’. [...] Ao prescindir da retórica teológica e dos suportes físicos da fé no mundo sensível, a Bela Alma realiza, no romance de Goethe escrito entre 1795 e 1796, aquilo que Goethe havia elaborado nos anos de convivência com Moritz em Roma. Em uma palavra, a passagem para a maturidade estética do Classicismo Weimariano”.

Já o ensaio de Aléxia Cruz Bretas sobre o Doutor Fausto de Thomas Mann é exemplar no que diz respeito à adequação à proposta central da Revista Viso, pois mobiliza uma série de conhecimentos acerca de Goethe e Thomas Mann, Benjamin e Adorno, além de muitos outros, tecendo com eles uma estrutura viva que acaba por potencializar a obra de Mann que analisa. A própria autora esclarece o propósito do seu ensaio: “Trata-se não apenas de oferecer uma leitura filosoficamente informada de um dos grandes clássicos da literatura universal, mas, sobretudo, de iluminar a via de mão dupla aberta entre as artes e a reflexão sobre elas, através do consórcio mediado entre as dimensões da literatura, da música e da estética. Para isso, a apropriação das ideias de Kierkegaard, Nietzsche e Adorno no âmago mesmo da forma artística do Doutor Fausto desempenha um papel de suma importância em sua recepção crítica”.

Já em seu texto, o mais puramente conceitual dos três que integram a seção fixa, Guilherme Foscolo, partindo de contundente crítica à visão de Todorov do primeiro romantismo, afirma o seguinte: “A radicalização do esforço crítico inaugurado por Kant transforma a crítica em metacrítica: ao voltar o esforço crítico contra si mesmo, o resultado é uma base cética para o filosofar. A filosofia do primeiro romantismo se opõe assim às filosofias fundacionais de Reinhold e Fichte – na medida em que desonera a razão do poder de apreensão que nela investem Kant e seus partidários”. Como corolário dessa visão anti-fundacionista do filosofar, o exercício da crítica é finalmente descrito como um “exercício de formação, uma vez que o crítico desvelou-se também – artista”.

Na seção Tradução, inaugurada em nosso número 8, o leitor é apresentado a passagens do diário de Walter Benjamin quando de sua estadia na casa de praia de seu amigo Bertolt Brecht, então exilado na Dinamarca. Nessas “Anotações de Svendborg”, Benjamin registra alguns debates acalorados que teve com Brecht, sobretudo em torno da obra de Franz Kafka. A nota introdutória de Luciano Gatti, responsável também pela tradução, ilumina o contexto mais amplo em que esse diálogo pode ser inserido.

Na seção História da Estética, Oliver Tolle parte do pressuposto de que “a estética abarca uma série de problemas filosóficos que não tiveram início nem no século das luzes ou no século anterior, mas fazem parte da própria história do pensamento ocidental”, para mostrar que “Leibniz tem um lugar assegurado na história da estética não só porque as suas preocupações convergem com esses problemas, mas também porque ele, ao lado de Shaftesbury, fornece os parâmetros para discussões mais específicas dos teóricos da estética até a publicação da Crítica da razão pura de Kant em 1781”. Ainda segundo o autor, “a consideração estética de Leibniz se encontra muito mais ligada a analogias entre a criação do mundo e a atividade artística, à concepção de bela alma, a qual, sendo capaz de dar ordem ao caos perceptivo, intenta direcioná-la em direção ao melhor e à perfeição. Assim, mais do que a obra de arte está em jogo aqui o indivíduo e sua realização no mundo”.

Finalmente, na seção de Atualidades, Luisa Buarque discorre sobre o parentesco entre crônicas recentemente publicadas de Campos de Carvalho e os pensamentos de Nietzsche e Camus. Segundo a autora, apareceriam nas crônicas de Campos de Carvalho tanto uma reflexão em torno da estrutura trágica da realidade quanto uma expressão bastante singular do sentimento de absurdo diante dela.