Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 4, n° 8 (jan-jun/2010)

A nova edição da Revista Viso está especialmente musical. São dois textos dedicados diretamente à ópera, um à filosofia da música de Adorno, e mais outro, uma carta de Hofmannsthal, inaugurando a nossa nova seção, Tradução, que carrega toda a musicalidade da mais elevada poesia. Outro tema central neste novo número é o conceito de fenomenologia, apresentado com clareza ímpar pelo próprio Edmund Husserl em carta ao mesmo Hofmannsthal e desdobrado em um instrutivo ensaio sobre a gênesse da fenomenologia de Merleau-Ponty a partir de seus estudos sobre a pintura de Cézanne. Marcantes também são dois ensaios sobre teatro, uma naálise do Banquete de Zé Celso Martinez Correa e uma resenha sobre recém-publicado livro dedicado ao legado de Jacó Guinsburg. Apresentamos também neste novo número destes Cadernos de Estética Aplicada dois textos que abordam os desdobramentos mais contemporâneos da estética a partir de Agamben e Benjamin, cujas obras ecoam nas pesquisas de diversos teóricos latino-americanos. Finalmente, retomamos a nossa seção de História da Estética com um texto acerca da reflexão spinozista sobre a criação. Sem a pretensão de substituir a leitura mais detida de cada um dos referidos ensaios, tomaremos a liberdade de apresentá-los agora de forma um pouco menos breve.

Na seção Atualidades, Claudio Vieira parte de uma reflexão sobre o recente fenômeno das óperas filmadas no Metropolitan Opera House de Nova York e exibidas, em tempo real ou não, em diversos cinemas mundo afora, como o Cine Odeon, no Rio de Janeiro, para tentar entender as razões da crise (econômica e... Civilizacional) que levou não apenas a esse novo gênero de “filme-de-ópera”, mas sobretudo à transformação da própria concepção do espetáculo operístico. Com base em instrutiva reconstrução da história da ópera, o autor afirma que essa transformação se deve ao fato de, atualmente, “um elemento ser valorizado acima do texto e acima da música: a montagem. Com ela, o diretor. Um componente que nada tinha a ver com o projeto original. Porém apropriado para enquadrar a ópera na cultura do entretenimento desinteligente. Inevitável. Imperativo de sobrevivência”. Estabelecido o polêmico princípio de sua naálise, Claudio Vieira comenta diversos filmes-de-ópera, como Lucia de Lammermoor, de Donizetti e La Sonnambula, de Bellini, ambos dirigidos por Mary Zimmermann, e o Macbeth, de Verdi, dirigido por Tcherniakov, ajudando-nos a compreender que, também neste “novo gênero”, há que se aprender a separar o joio do trigo.

Renato Nunes Bittencourt também dedica o seu texto a uma reflexão sobre a ópera, ou, mais precisamente, sobre a relação entre Nietzsche e Wagner. Centrando-se no conceito nietzscheano de fisiologia, e definindo a “estética de Nietzsche” como uma “fisiologia aplicada”, o autor inventaria os textos de Nietzsche em que se explicam as razões de sua ruptura com Wagner. Segundo o autor, “Nietzsche considera que Wagner, na última fase de sua produção musical, subverteu o seu próprio ideal estético da música como o elemento sintetizador de todas as artes, ao considerar a ópera como meio de expressão para conceitos e não como um fim estético, tornando a música uma serva das teorias ascéticas e morais vinculadas ao drama operístico”. Além disso, o Wagner da última fase teria sucumbido à inspiração de Schopenhauer e do cristianismo, produzindo obras contrárias ao amor fati. Contra o Parsifal de Wagner, Nietzsche elogia a Carmen, de Bizet, apologia que decerto só pode ser corretamente compreendida no contexto de sua polêmica com o antigo ídolo.

Já Henry Burnett propõe uma interessante aproximação entre a filosofia da música de Theodor Adorno e os estudos da música popular brasileira empreendidos por Mário de Andrade à mesma época da publicação de alguns dos principais ensaios sobre música do filósofo frankfurtiano. Partindo do pressuposto de que “Mário de Andrade tinha como preocupação central a definição de uma música brasileira, que ele gostaria de chamar de definitiva”, o ensaio investiga as múltiplas nuances do nacionalismo de Mário e mostra de que modo o seu projeto nacionalista foi quase sempre o fundamento para a sua avaliação da música produzida no Brasil, fosse folclórica, comercial ou “artística”. Apesar da convergência que motiva a aproximação entre Mário e Adorno, o autor afirma que, curiosamente, “o que há de mais perene nas afirmações de Mário pode ser justamente aquilo que era visto por Adorno como fruto da domesticação: a arte comercial derivada da música folclórica, popular.”

Ainda na seção fixa da revista, passando do campo da música ao da reflexão estética mais contemporânea, Paula Fleisner empreende bela apresentação de uma das obras mais importantes da estética contemporânea, Homem sem conteúdo, primeiro livro de Giorgio Agamben, lançado em 1967 e infelizmente ainda sem tradução no Brasil. Segundo ela, este trabalho do jovem Agamben combina “uma reconstrução do surgimento histórico da estética como disciplina, uma volta à dimensão original da obra de arte (que implicará uma consideração do ‘fazer’ humano em geral) e o esboço de uma proposta de destruição da perspectiva estética tradicional”. Acompanhando esses três movimentos realizados pela obra, a autora mostra como Agamben começa seguindo as pegadas de Heidegger e acaba por chegar a uma série de questões persistentes na obra de Walter Benjamin.

O ensaio de Cecilia Palmeiro, por sua vez, parte de Benjamin para abordar uma extensa bibliografia teórica contemporânea, principalmente latino-americana, a respeito da interação entre as linguagens midiáticas e a constituição da subjetividade, tendo como foco a prática da escrita como o local de construção de identidades. As tecnologias de comunicação atuais, como a internet e a telefonia móvel (com todas as suas interações e derivações), são taxadas de “produtoras” e não mais de “reprodutoras de realidade”, como, segundo a autora, ainda o seriam a fotografia, o disco e o cinema no célebre ensaio benjaminiano “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. O principal interesse do ensaio, entretanto, não é o de polemizar com Benjamin, mas sim o de levantar questões suscitadas por objetos (estéticos ou não) para os quais ainda não existe um aparato conceitual solidamente estabelecido.

Em texto sobre a recente montagem do Banquete de Platão realizada pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, de Zé Celso Martinez Correa, Carolina Araújo, especialista no pensamento de Platão, perfaz dois grandes movimentos. No primeiro, trata-se de mostrar como as peças encenadas por Zé Celso desde o seu retorno do exílio em 1978 têm relações bastante estreitas com o projeto político mais amplo no qual se insere o Oficina: a peça Os Sertões estaria ligada ao projeto de fundação de uma Universidade Antropófaga; a peça As bacantes, ao projeto de construção de um Teatro-Estádio voltado para a realização de festas dionisíacas; e, finalmente, a encenação do Banquete expressaria a proposta utópica de uma prática política fundada em Eros. No segundo movimento de seu artigo, a autora parte da naálise de uma determinada encenação do Banquete, ocorrida no dia 10 de setembro de 2009 no Teatro Tom Jobim, no Rio de Janeiro, para “apontar a tensão lancinante que perpassa a escolha do texto e, eventualmente, o próprio projeto utópico-político como um todo”.

Fechando a seção fixa da revista, Mariana Larison acompanha os desdobramentos da reflexão de Merleau-Ponty em torno da questão fundamental que permitiria sintetizar toda a sua filosofia: “a do sentido e do alcance do fenômeno perceptivo”. O fio condutor do ensaio é a relação entre a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty e a sua interpretação da pintura de Cézanne, exemplo paradigmático do modo como a perspectiva geométrica característica da arte clássica precisou dar lugar, na arte moderna, a uma “perspectiva vivida” que a aproxima do olhar fenomenológico. Apesar de breve, o artigo aborda três ensaios seminais da obra merleau-pontyana, servindo como excelente introdução ao seu pensamento: “A dúvida de Cézanne” (1945), “A linguagem indireta e as vozes do silêncio” (1952) e “O olho e o espírito” (1961).

A nova seção especial da Revista Viso, dedicada à Tradução de textos significativos para história da relação entre filosofia e poesia, gira neste número em torno de Hugo von Hofmannsthal. No belíssimo texto da carta que ele atribui a Lord Chandos, personagem fictício que se dirige a Francis Bacon para explicar por que abandonou a sua promissora carreira literária, encontra-se, em primorosa tradução de Marcia Cavalcante-Schuback, uma das mais pungentes descrições da experiência do acontecer da realidade e da dilacerante impossibilidade, experimentada pelo jovem poeta autor da carta, de traduzi-lo em palavras.

Já no texto da carta que o mesmo Hofmannsthal recebe de Edmund Husserl, agradecendo pelos Dramas breves com os quais havia sido presenteado pelo literato, o pai da fenomenologia esclarece que o método por ele elaborado “exige uma posição essencialmente diversa da atitude ‘natural’ frente a toda forma de objetividade, estando muito próxima do posicionamento e da atitude para as quais a sua arte, enquanto algo puramente estético, nos transfere no que diz respeito aos objetos apresentados e o todo do mundo circundante”. A tradução dessa carta também é de Marcia Cavalcante-Schuback.

No original texto que retoma a seção de História da Estética, Lorenzo Vinciguerra encontra em Spinoza elementos para pensar uma estética da produção, questionando o privilégio quase absoluto das estéticas da recepção na atualidade. O texto defende que um retorno ao spinozismo, portanto a um momento anterior ao da fundação da estética como disciplina filosófica autônoma, pode ajudar a superar algumas das aporias da estética na contemporaneidade, tais como a que envolve a definição de arte e os limites e tarefas da crítica.

Finalmente, na seção Resenha, Pedro Caldas apresenta-nos J. Guinsburg, a Cena em aula: Itinerários de um professor em devir, organizada pelo próprio Guinsburg e por Rosângela Patriota, obra que, embora recém-publicada, já é item indispensável na biblioteca de qualquer um que se interesse pelo pensamento teatral desenvolvido no Brasil.