Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 3, n° 7 (jul-dez/2009)

A Revista Viso surgiu em 2007 com a proposta de aproximar a reflexão teórica sobre a arte desenvolvida nas universidades da abordagem crítica de objetos estéticos concretos. Ela foi concebida em resposta à constatação de que, em filosofia, a maior parte do que se escreve sobre estética serve antes ao conhecimento da história desta disciplina do que à fruição de obras específicas. Como, desde sua criação, a Revista Viso vem sempre buscando promover o casamento entre o debate filosófico e a crítica de arte, não é surpreendente que ela tenha buscado, ao completar dois anos de vida, a parceria da Escola de Artes Visuais do Parque Lage para promover um evento em que esse casamento foi celebrado ao vivo, para o gáudio tanto de filósofos quanto de artistas – que desde há muito estão lançados em uma conturbada relação, mas não conseguem, a despeito de suas diferenças, viver uns sem os outros.

 

Esse evento, intitulado Gênio, criação, autoria, ocorreu ao longo de três dias consecutivos – entre 3 e 5 de novembro de 2009 – nas belíssimas dependências do Parque Lage. A cada dia, em mesas mediadas por Patrick Pessoa, Vladimir Vieira (editores da revista) e Pedro Duarte de Andrade (mediador convidado), foi promovido o debate entre um filósofo da arte e um artista (ou crítico de arte) em torno de um tema específico.

Os três temas escolhidos para estruturar o evento desempenharam um papel central para o surgimento da estética compreendida como disciplina filosófica autônoma, tradicionalmente situado na época moderna. Neste período, a arte deixa de ser concebida como representação de um mundo organizado como um sistema onde cada elemento realiza a função que lhe cabe de acordo com a sua essência. Ao artista não cumpriria mais revelar, por meio de sua produção, certas estruturas que já estão dadas na natureza, mas antes fabricar algo novo com base em sua própria sensibilidade. Nasce a noção de gênio romântico, o autor original que cria autonomamente, sem submeter-se a regras canônicas de composição – noção de que nossas compreensões cotidianas sobre o que significa a criação artística ainda são, no século XX, claramente tributárias.

Apesar de a estrutura do evento ter sido concebida com base em uma articulação cronológica dos três temas – o tema do gênio seria central para a estética do século XVIII; o da criação, para a do século XIX; e o da autoria, para a do século XX – a agenda dos palestrantes convidados tornou necessária uma pequena subversão dessa cronologia, que ao cabo tornou-se extremamente proveitosa, já que propiciou aos espectadores a nítida percepção de que as séries de questões que se podem desdobrar em torno desses temas permitem articulações muito mais ricas e complexas entre eles do que aquelas calcadas em considerações puramente cronológicas, quase sempre impregnadas de discutíveis preconceitos teleológicos.

Assim, a primeira mesa, dedicada ao tema da criação, reuniu Rosa Dias, professora do Departamento de Filosofia da UERJ e célebre pesquisadora da obra de Nietzsche, e Tania Rivera, psicanalista e professora do Departamento de Psicologia da UNB que desde há muito se dedica à crítica de arte. Curiosamente, ambas partiram de um mesmo pressuposto: a criação não pode mais ser pensada à luz daquela concepção teológica que a identifica como ato de um Criador que, sendo causa sui, sujeito incondicionado, substância absoluta, criaria a partir do nada. Dessa recusa de um conceito de criação como creatio ex nihilo, no entanto, brotaram duas abordagens inteiramente distintas.

Rosa Dias enfatizou, sobretudo, a ontologização do conceito de criação operada por Nietzsche que, desde O nascimento da tragédia, seu primeiro livro publicado, caracterizou o criar como atividade a partir da qual se produz constantemente a vida, e não apenas as assim chamadas obras de arte. Nesse sentido, longe de ser pensada como ato de uma substância que existiria antes e independentemente daquilo que cria, a criação passa a significar o próprio modo de ser e aparecer da realidade, calcado numa co-pertinência originária entre geração e destruição que coloca em cheque a tradicional oposição metafísica entre ser e devir.

Tania Rivera, por sua vez, inicia o seu percurso reflexivo com a “lata-fogo” de Hélio Oiticica, “obra” que consiste na apropriação de um antigo instrumento de sinalização – trata-se tão somente de uma lata que contém uma substância inflamável cuja luz serve de orientação aos viajantes noturnos. A palestrante mostra que, tanto nesta obra como em diversas outras por ela citadas, o movimento concreto de des-teologização do conceito de criação salienta o seu caráter de nomeação, torção, transfiguração do lugar comum. Sob essa ótica, criar teria menos a ver com produzir algo inteiramente novo do que com reacender um sinal ancestral, revivificando a poesia encoberta pela poeira do cotidiano. Essa compreensão do conceito de criação geraria uma redefinição do papel do artista: mais do que propriamente um criador, ele se torna um coletor, um colecionador, um trapeiro – um Lumpensammler em sentido benjaminiano.

No segundo dia, promoveu-se o encontro entre Pedro Süssekind, professor do Departamento de Filosofia da UFF e especialista na reflexão estética alemã produzida nos séculos XVIII e XIX, e Ricardo Basbaum, artista, crítico, curador e professor do Instituto de Artes da UERJ. Como introdução filosófica à problemática do gênio na filosofia, Pedro Süssekind construiu um instrutivo panorama das distintas posições de Kant e de Hegel a respeito desse tema. De acordo com o recorte por ele proposto, o gênio kantiano caracteriza-se pela originalidade, exemplaridade, impossibilidade de explicar a própria criação e é um conceito que se aplica exclusivamente à produção artística. Em Hegel, todavia, a noção de gênio teria uma validade muito mais abrangente, invadindo os âmbitos da história e das ciências, sem no entanto perder uma das principais características presentes na definição kantiana: a ingenuidade. Ocorre que essa ingenuidade, pensada como proximidade da natureza e do mundo objetivo – o que pode ser dito não apenas de Hegel, mas também de Schiller – é incompatível com a auto-reflexividade inerente à configuração propriamente moderna do espírito. Escreve Süssekind:

Quando se pensa o tema do gênio artístico historicamente, torna-se necessário indagar, por exemplo, até que ponto o artista moderno ainda pode ter a pretensão de olhar para o mundo e dar expressão a esse olhar. Qual o papel da criação artística a partir do momento em que ela abre mão, necessariamente, da ingenuidade de um olhar direto, puro, destituído de construções, de imitações, de classicismos? A arte passaria então a precisar da instância da reflexão ou da metalinguagem ou da desconstrução, isto é, a exigir a explicação teórica de seu sentido para poder fazer sentido?

Se a abordagem de Pedro Süssekind partiu de um paradigma filosófico por assim dizer clássico, a de Ricardo Basbaum ateve-se a quatro exemplos concretos que serviram a um só tempo como ilustração e aprofundamento das questões levantadas por seu colega de mesa. Ao tratar de Michelangelo, Goethe, Duchamp e finalmente Hélio Oiticica, Basbaum apresentou aos ouvintes perspectivas distintas a respeito do conceito de gênio com base no trabalho de autores que, em diferentes momentos históricos, a tradição decidiu alcunhar dessa forma. Seu tratamento de Oiticica, em particular, fez eco a considerações que já haviam se manifestado no dia anterior: tendo em vista o então recente incêndio que destruíra parte do acervo desse artista, Basbaum sugere que sua obra expressaria uma “poética de puro fogo”, assim contendo um potencial para a auto-combustão que faltaria à maioria dos artistas ditos contemporâneos. O palestrante encerrou sua fala com uma exortação/provocação:

O mais fascinante de qualquer presente – sua singularidade, seu potencial – residiria exatamente em sua dimensão ordinária, cotidiana, banal (vocábulo tomado como antípoda ao “genial”): alguém, qualquer um, uma coisa qualquer. Pois assim o valor tem que ser produzido, negociado, trazido para o presente, destituído (na medida do possível) de preconceitos. Há que combinar cautelas e cuidados e estabelecer negociações – precisar a materialidade das lutas. Ou, enfim, basicamente compartilhar inquietações em regime de proximidade, construindo as necessárias alianças (sobretudo afetivas) que permitem a continuidade da vida.

No terceiro e último dia do colóquio, consagrado ao tema da autoria, reuniram-se Bernardo Barros Coelho de Oliveira, professor adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), especializado sobretudo nas estéticas de Kant, Benjamin e Gadamer, e Glória Ferreira, critica de arte, curadora, professora da EBA/UFRJ (1996-2007) e organizadora de inúmeras obras de referência sobre (a crítica de) arte. Seguindo o exemplo dos dois primeiros dias, o representante da filosofia inaugurou os trabalhos. Partindo da afirmação romântico-benjaminiana de que “o verdadeiro leitor é o autor ampliado”, Bernardo Oliveira, contrariando a tendência dos dias anteriores, concentrou-se mais no momento da recepção das obras de arte do que no momento da produção. Depois de opor dois tipos extremos de leitores/espectadores, o que frui sem julgar e o que julga sem fruir, ele se ocupou em caracterizar aquele tipo intermediário que julga fruindo e frui julgando. O palestrante desenvolveu, ainda, a tese da perda da aura tal como apresentada por Walter Benjamin no seu célebre ensaio sobre a reprodutibilidade técnica, que pode ser interpretado como uma tentativa de descrever a crescente supremacia do valor de exibição sobre o valor de culto na modernidade tecnocrática. Para Bernardo Oliveira, a questão central que decorre dessa tese é a de saber se o potencial pós-aurático revolucionário de manifestações artísticas inteiramente dependentes da reprodutibilidade técnica, tais como o cinema – inimigas, portanto, do culto ao original e da mistificação do autêntico – teriam como fazer frente ao igualmente poderoso potencial neo-aurático embutido nessas mesmas manifestações que, em vez de propiciarem uma recepção efetivamente profana, acabariam por promover novas formas de culto, como o star system.

Glória Ferreira, finalmente, partiu da definição de autor do dicionário Houaiss para chamar a atenção para a polissemia desse termo. Em seguida, referindo-se aos célebres escritos de Foucault e Roland Barthes sobre a morte do autor, defendeu a idéia de que o surgimento do “cinema de autor” seria uma reação ao diagnóstico foucault-barthesiano. Esse diagnóstico, no entanto, poderia ser confirmado se observássemos atentamente não apenas a proliferação de coletivos de artistas, nos quais a noção clássica de autoria é subvertida, mas igualmente um dos traços fundamentais da arte contemporânea em geral: a idéia de que a assinatura tem cada vez menos relação com a autoria do que com complexas estratégias de auto-legitimação por parte dos assim auto-proclamados artistas, que cada vez mais precisam operar na interseção entre a estética e a política.

Todos os problemas resumidos de forma breve neste editorial encontram-se desenvolvidos em maior profundidade nos artigos que integram esta edição especial da Revista Viso. Esperamos que o leitor tenha com os textos o mesmo prazer que tivemos ao longo dos três dias de discussão no Parque Lage. Seria tentador fazermos um balanço final com as principais conclusões avançadas pelos palestrantes convidados, mas acreditamos que essa é uma tarefa pessoal, que cada um deve executar individualmente, a partir da própria leitura. Qual é, afinal, a força de quaisquer respostas frente à potência das questões persistentes aqui levantadas?