Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 3, n° 6 (jan-jun/2009)

Na sexta edição destes Cadernos de Estética Aplicada, nossa sessão fixa conta com quatro textos bastante heterogêneos, que mobilizam questões no pensamento de autores tais como Heidegger e Nietzshe a partir de diferentes manifestações estéticas contemporâneas – da poesia de Rimbaud e Juarroz ao cinema de José Mojica Marins, da literatura de Machado de Assis à de André Sant’Anna. Na seção Atualidades, Lucianno Gatti toma o filme Paranoid Park, de Gus van Sant, como modelo para compreender a especificidade de seu trabalho como diretor e dos problemas que ele coloca. Por fim, temos o prazer de retomar a seção de História da Estética, com dois ensaios a um só tempo eruditos e instigantes sobre a estética renascentista.

No primeiro desses ensaios, Felipe Charbel Teixeira apresenta-nos um rico panorama do modo como as questões estéticas foram formuladas e articuladas no contexto da Itália renascentista e, mais especificamente, nas obras de Leon Battista Alberti e Marsilio Ficino. Segundo Charbel, os escritos desses autores permitem entrever “como, a partir do que Burckhardt chamou de ‘redespertar da Antiguidade’ e Aby Warburg de ‘reviver do paganismo’, chegou-se a uma concepção das artes e do fazer artístico que, sem questionar o primado da unidade entre ética, retórica e poética – o bom, o belo e o que convém –, estabeleceu, com ferramentas conceituais antigas, alguns dos alicerces da moderna teoria da arte, sistematizados apenas no século XVIII por autores como Winckelmann e Lessing”.

Já Lavinia Soares Fiorussi apresenta um panorama bastante abrangente da recepção da Poética e da Retórica de Aristóteles na Grã-Bretanha, analisando obras de autores como George Puttenham e Philip Sidney. O fio condutor de seu ensaio é a demonstração de que, nos textos poéticos e preceptivos ingleses do século XVI, a imitação dos antigos, por mais estranho que isso possa soar para ouvidos românticos acostumados à valorização do gênio original, aparece como condição necessária e indiscutível para a elaboração de obras de valor. “Eles não buscavam originalidade e nem entenderiam o significado de ‘auto-expressividade’ – ou, se acaso entendessem, teriam recusado o conceito como algo fácil, vulgar e, portanto, asqueroso”, esclarece-nos o ensaio.

Nesse sentido, os dois textos dedicados ao Renascimento da seção de História da Estética servem à delimitação das principais diferenças entre as “estéticas pré-modernas”, cuja ênfase nas regras de composição é central, e as “estéticas modernas”, que se tornam efetivas filosofias da arte na medida em que concentram cada vez mais o foco na recepção e na especificidade da experiência estética face a todas as outras.

Na seção de Atualidades, Luciano Gatti mostra como, no filme Paranoid Park, Gus van Sant passa ao largo da representação dos “ritos iniciáticos” que caracterizam os filmes convencionais sobre a adolescência e aborda a necessidade de constituição de vínculos mais fortes que os familiares para a constituição de uma verdadeira experiência da realidade. No filme, ainda segundo Gatti, a amizade aparece como a experiência mais importante da adolescência, na medida em que, amparada na articulação entre memória e escrita, é tanto experiência de socialização quanto de conhecimento (de si e do mundo).

O texto que abre a Seção fixa da revista, escrito a quatro mãos por Florence Dravet e Gustavo de Castro, apresenta ao leitor brasileiro a obra de Roberto Juarroz, poeta argentino para o qual, na melhor tradição do (primeiro) romantismo alemão, “unir filosofia e poesia era uma missão, um estilo e uma proposta”. Os autores comparam a sua “estética vertical” – fundada na poesia como forma de “desenlaçar o homem das amarras da realidade material, do prestígio social, da escalada profissional e financeira, dos padrões sociais, enfim, de todas essas horizontalidades que o cercam e seduzem a uma vida prosaica” – à “ética do desaparecimento” de Arthur Rimbaud, cujas iluminações, na obra e na vida, tornariam possível “excluir o refúgio da identidade e se precaver contra as armadilhas do fundamento”.

Já Leandro Salgueirinho, em ensaio que propõe uma leitura dos textos de André Sant’Anna a partir da problematização que Hal Forster estabelece sobre a noção de abjeto, parte da seguinte questão: “seriam apenas estas as opções que o artifício da abjeção nos ofereceria: travessura edipiana ou perversão infantil?” Em diálogo com teóricos como Julia Kristeva e James Donald, o autor defende que, num romance como Sexo, de André Sant’Anna, o artifício da abjeção torna possível uma superação dialética (Aufhebung) da “controvérsia entre arte engajada e arte pela arte, entre a vulgaridade da arte tendenciosa e a vulgaridade da arte desfrutável”.

Em ensaio com título sugestivo, “Zé do Caixão: Humano, demasiado humano”, Marko Monteiro propõe uma leitura do clássico filme À meia noite levarei tua alma, de José Mojica Marins, à luz da crítica da moral empreendida por Friedrich Nietzsche ao longo de toda a sua obra. O autor argumenta que, ao defender a “continuidade do sangue” como “razão da existência” e ao recusar a religião como explicação para a ordem da natureza e como parâmetro para o comportamento humano, Zé do Caixão estaria ecoando a elevação nietzscheana de uma vida guiada pelo prazer dos sentidos, pela saúde do corpo.

Finalmente, Vitor Cei Santos propõe-se a mostrar como a chave para a compreensão das Memórias póstumas de Brás Cubas é uma análise da articulação entre “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” do defunto autor, propiciada pelo esclarecimento do conceito de “solidariedade do aborrecimento humano”. Para empreender esse esclarecimento, o autor recorre às análises heideggerianas da Retórica de Aristóteles e ao próprio texto do estagirita (Problema XXX, I) em que a melancolia aparece como o páthos fundamental de todos os homens superiores, entre os quais Brás Cubas insiste galhofeira e melancolicamente em se colocar.

A imagem da capa desta edição mostra um detalhe do filme Encarnação do demônio, de José Mojica Marins.