Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 2, n° 4 (jan-jun/2008)

Além de três ensaios de estética aplicada, dois ensaios que abordam um dos mais obscuros episódios da história da estética e da resenha de uma obra recentemente relançada, a Revista Viso traz uma novidade neste primeiro número de seu segundo ano de existência: um dossiê completo sobre Tropa de elite, certamente o mais controverso objeto estético surgido nos últimos anos. Esse dossiê é composto pelos principais artigos sobre o filme publicados na grande imprensa e por dois textos inéditos de autores com visões bastante divergentes: Paulo Hamilton e Pedro Caldas. Se o primeiro, ator do filme, o defende com grande sobriedade, Pedro Caldas, professor de teoria da história, chama a atenção para os seus principais lapsos estéticos e ideológicos. Com o intuito de aprofundar esse debate, certamente enriquecido pela distância temporal que já nos separa do lançamento do filme, trocamos os textos entre os autores e propusemos que eles escrevessem réplicas às posições de seus “antagonistas”. Fundida com a seção Atualidades, a seção Polêmica da revista chega, neste número, à sua maturidade.

Depois de números abordando as estéticas de Platão, Aristóteles e Plotino, esta edição da Revista Viso apresenta, na seção História da estética, dois estudos sobre os desdobramentos desta disciplina na Idade Média. Dada a virtual inexistência de especialistas brasileiros nesse tema, a editoria da revista optou por traduzir dois textos de colaboradores estrangeiros, ambos professores do renomado Thomas Institut, em Colônia, um dos principais centros de pesquisa de filosofia medieval no mundo.

Em seu artigo, Andreas Speer analisa as principais tentativas filosóficas de, a partir da obra de Tomás de Aquino, encontrar-se algo como um pensamento estético autônomo na Idade Média. Speer, com grande objetividade e erudição, mostra que falar em uma “estética medieval” é um anacronismo que nos desvia da verdadeira tarefa: investigar “como é que aquilo que hoje chamamos de arte, em um sentido moderno, era percebido, experimentado, elaborado teoricamente e interpretado pelas pessoas daquele tempo”. Já em seu ensaio, que persegue uma linha semelhante de argumentação e defende a inexistência de um pensamento estético autônomo na Idade Média, Jan Aertsen oferece ao leitor um rico panorama da reflexão medieval acerca do que modernamente chamamos de “questões estéticas”, mas que, naquele período, sempre foram consideradas apenas incidentalmente no âmbito da tríade Verdadeiro-Bom-Belo.

Na seção fixa da revista, publicamos neste número três ensaios bastante diferentes. Em seu ensaio, Aldo Dinucci aborda um tema pouco estudado: a concepção dos sofistas gregos, e mais especificamente de Górgias de Leontini, acerca da arte. Segundo o autor, “podemos dizer que, para Górgias, esses objetos [estéticos] são como um oásis para o homem, que pode contemplá-los docemente e com eles se deleitar sem o risco de ser arrastado por Eros ou subjugado pelos deuses e pela natureza. Diante desses objetos, portanto, o homem se liberta tanto da natureza quantos dos deuses, contemplando-os, e, em devaneio, pode enfim repousar.” Se, neste ensaio, haveria uma aproximação talvez excessiva entre Górgias e um filósofo moderno como Schopenahauer, cabe ao leitor avaliar.

O texto de Guilherme Foscolo contrapõe as concepções de Danto e Greenberg no que diz respeito a duas questões fundamentais para a filosofia da arte: a questão da definição do que é a arte e a questão da existência de critérios para a distinção entre obras de arte boas e ruins. Como nos mostra o autor, embora Greenberg defenda uma visão progressiva da história da arte, que culminaria no elogio do purismo – momento do desenvolvimento formal de uma arte em que ela afirma a sua autonomia plena diante das demais – e Danto adote uma compreensão pluralista, segundo a qual caberia ao crítico apenas refletir sobre a possível adequação entre forma e conteúdo, ambos os críticos resistem muito em aceitar a subjetividade radical de seu ofício, que no entanto o autor do artigo corajosamente assume.

Finalmente, Patrick Pessoa apresenta uma interpretação de Paris, Texas (1984), de Wim Wenders, à luz da obra Eros e civilização, de Herbert Marcuse. Além de “aplicar” a interpretação marcuseana da teoria das pulsões de Freud à obra de Wenders, o autor investiga de que modo algumas das imagens presentes no filme colocam em xeque a compreensão marcuseana da pulsão de morte.

Este número dos Cadernos de estética aplicada traz ainda a resenha de Brasil em tempo de cinema, de Jean-Claude Bernardet, obra que, relançada trinta anos após a sua primeira publicação, ainda formula questões decisivas para a reflexão acerca das possibilidades de afirmação de um cinema brasileiro em busca de sua própria voz.

A imagem da capa desta edição mostra a estrada-de-ferro que Travis (Harry Dean Stanton) pretende continuar seguindo no filme Paris, Texas, de Win Wenders.