Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 1, n° 3 (set-dez/2007)

Neste terceiro número, a Revista Viso apresenta, em sua seção fixa, três ensaios que, a partir de estratégias distintas, colaboram no sentido de complexificar o conceito de estética aplicada em torno do qual surgiu esta publicação. Nas demais seções da revista, o leitor poderá refletir sobre a imbricação entre ontologia, ética e estética no pensamento de Plotino – tema da seção de história da estética – e sobre a relevância da recente publicação das Passagens, de Walter Benjamin, para a especulação filosófica em língua portuguesa.

Em seu texto sobre a obra do pintor Francis Bacon, cujo “pensador” serve de base para a capa deste terceiro número da Revista Viso, Oswaldo Fontes Filho investiga a gênese e a potência das imagens baconianas. Pergunta-se o autor: “Que significam esses personagens em convulsão? De que catástrofe parecem acometidos? O que dizem, o que anunciam? De que experiência essas aparições espasmódicas dão conta?” Com o intuito de esclarecer a origem da inquietação que responde pela força da pintura de Bacon, o autor vale-se do pensamento de Gilles Deleuze para mostrar o quanto o pintor e o filósofo encontravam-se afinados em seu diagnóstico comum dos descaminhos da razão ocidental.

O texto de Márcia Cavalcante-Schuback, como nos indica o próprio título proposto pela autora, apresenta um diálogo entre filosofia e literatura que tem como ponto de partida a análise do conto “A construção”, de Kafka, à luz do conceito heideggeriano fundamental de “armação” (Ge-stell). Ao longo de sua análise, a autora não apenas apresenta mais uma possível interpretação da obra de Kafka, mas igualmente uma filosofia da interpretação que, inspirada por Heidegger, coloca em xeque alguns dos pressupostos fundamentais da abordagem deleuziana da obra de Kafka em particular e da obra de arte em um sentido mais amplo.

“Proust é o escritor que deu a O Mundo como Vontade e Representação a tradução mais literária”. Concorde-se ou não com essa afirmação, ela é o ponto de partida de uma análise de Em busca do tempo perdido que apresenta a obra proustiana como uma espécie de concretização das especulações teóricas de Schopenhauer. Em seu ensaio, Liliane Marinho discute o modo como a arte, embora expondo o sofrimento inerente a tudo o que é finito, seria não obstante “capaz de justificar a existência e expandir os limites do humano”.

Já na seção de História da estética, única dedicada exclusivamente ao que se poderia chamar de “estética pura” por oposição ao conceito de “estética aplicada” que constitui o próprio fundamento da Revista Viso, o leitor poderá acompanhar duas interpretações da estética de Plotino que, embora cheguem a conclusões semelhantes, afirmando a necessária imbricação entre ética e estética na obra do mais eminente filósofo neo-platônico, brotam de abordagens bastante distintas. Marcus Reis ocupa-se sobretudo em construir uma introdução ao pensamento plotiniano, descrevendo a estrutura das Eneádas e mostrando como o filósofo vai além da condenação platônica da mímesis ao chamar a atenção para o potencial de as artes promoverem uma conversão dos homens ao mundo inteligível. Emmanuel Moraes, por sua vez, concentra-se na discussão da possibilidade de uma estética em Plotino, que teria menos a ver com a fixação de critérios para a apreciação de obras de arte do que com o imperativo ético de cada ser humano tornar-se um artista de si mesmo.

Finalmente, em texto que inaugura a seção Resenhas destes Cadernos de estética aplicada, Renato Kirchner não apenas comenta a recente publicação integral das Passagens, de Walter Benjamin, no Brasil, como também apresenta um panorama detalhado das traduções do filósofo, decerto um dos pais da estética aplicada, em nosso país.

A imagem da capa desta edição foi construída a partir de um detalhe da obra de Francis Bacon: Three Figures in a Room. Óleo sobre tela, 198 x 441 cm, 1964.