Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 14, n° 27 (jul-dez/2020)

Independentemente de nossas predileções estéticas, neste inesperado, inesquecível e sem dúvida trágico 2020, a nossa familiaridade com as distopias e os filmes B de Hollywood adquiriu uma materialidade de pesadelo. Ainda que este número 27 da Viso: Cadernos de estética aplicada, não tenha sido construído com base em uma chamada específica de textos que tratassem diretamente da atual pandemia de COVID-19 – no momento em que escrevemos este editorial, ela já completou mais de 9 meses e atinge a marca de 190.000 mortos apenas no Brasil –, o fato é que a impensável situação atual do mundo está presente em diversos textos reunidos neste volume, que traz seis ensaios em sua sessão principal e outros quatro no dossiê especial em memória da professora Noéli Ramme, falecida precocemente em 2019.

Organizado por Ricardo Barbosa e Fabiano Lemos especialmente para essa edição, o dossiê conta com textos individuais de seus dois organizadores, ambos professores da UERJ e colegas de Noéli Ramme há muitos anos, além de contribuições de Luiz Camillo Osório (da PUC-Rio) e de Jorge Sayão, um dos grandes amigos de Noéli, que em seu artigo faz uma espécie de retrospectiva de seu percurso. Como o dossiê conta com uma apresentação autônoma e mais detalhada escrita por seus organizadores, não cabe aqui um comentário mais detido sobre os textos que o compõem. É importante registrar, no entanto, que a rememoração de uma figura tão importante para o pensamento estético brasileiro como Noéli Ramme é parte imprescindível não apenas do trabalho de luto pela sua perda, mas do esforço para manter viva a memória de sua obra. Em um contexto histórico-político no qual as constantes troças de nosso distópico presidente ofendem as famílias de milhares de mortos, a Viso se une a tantas outras vozes e luta pelo luto devido a todas e todos que morreram antes da hora.

Na sessão principal, o ensaio de Matheus Fernandes propõe uma análise perspicaz de algumas das principais obras de ficção científica publicadas ao longo do século XX (Admirável mundo novo, de Aldous Huxley; 1984, de George Orwell; e sobretudo Nós, de Yevgeny Zamyatin, publicado em 1921 e precursor dos dois primeiros) para esboçar as linhas mestras do que o autor chama de “paradigma da distopia na contemporaneidade”. Ainda que seu texto tenha sido escrito antes da pandemia de COVID-19, a leitura que Matheus Fernandes empreende de fenômenos da cultura de massas como os filmes intitulados Jogos vorazes e a série O conto da aia, baseada em romance homônimo de Margaret Atwood, fornece preciosas indicações para pensarmos as dimensões progressistas e reacionárias embutidas nas referidas distopias, nas quais o individualismo não raro é problematicamente endeusado como se fosse uma panaceia universal para os problemas sociais.

Em dois textos que estabelecem um curioso diálogo subterrâneo, Tereza Calomeni e Theo Fellows parecem partir de um pressuposto comum: o de que o nosso século XXI, que teria ou bem começado com o atentado às Torres Gêmeas de Nova York em 2001, ou bem com a atual pandemia, marca o ressurgimento, com toda a força, daquilo que Miguel de Unamuno chamava de “sentimento trágico do mundo”. Diante daquilo que não podemos compreender e muito menos controlar, pois que, lançados no olho do turbilhão, nos falta a distância crítica necessária, Tereza e Theo propõem, cada um a seu modo, uma retomada da tragédia Édipo rei, de Sófocles, com vistas a responder a uma questão urgente: como interromper uma tragédia que miticamente (em sentido benjaminiano) não cessa de se repetir? Se, para encaminhar uma possível resposta, Theo Fellows recorre à centralidade da obra de Hölderlin (em especial, do conceito de “cesura”) para a compreensão do “sem expressão” no pensamento de Walter Benjamin (em especial, em seu célebre ensaio sobre as Afinidades eletivas, de Goethe), Tereza Calomeni faz uma reconstrução erudita de todos os textos e seminários em que Michel Foucault se debruça sobre Édipo rei. Hölderlin, Benjamin e Foucault aparecem nesses dois ensaios como possíveis guias capazes de nos conduzir para fora de nossa própria Tebas empesteada.

Em outro belo texto que parte do pensamento de Michel Foucault, Daniela Blanco vale-se do conceito foucaultiano de heterotopia para revelar de que modo Jacques Rancière, ao apropriar-se desse conceito, constrói uma crítica eloquente às compreensões mais vulgares do que seria um pensamento utópico. Tendo como fio condutor a análise de algumas obras contemporâneas que se valem da fotografia como dispositivo principal (a série Balloons, House Beautiful: Bringing the War Home, 1967, de Martha Rosler; a série Sem título, 2005, de Josephine Meckseper; e finalmente a obra A la ca(sz)a de Rosa, 2003, de René Francisco), a autora busca construir, em suas próprias palavras, “a figura de uma imagem heterotópica, na qual não se trata de pensar um engajamento político no sentido de desvelar a verdade aos espectadores, mas, antes, de operar pequenos desvios e fendas na ordenação comum das coisas, aproximando, assim, as noções de heterotopia e de partilha do sensível. Trata-se de ver pequenos lampejos, fugazes e frágeis, tais quais aqueles pensados por Georges Didi-Huberman, cujo pensamento da persistência do olhar será apresentado em diálogo com Rancière”.

Além desse texto de Daniela Blanco, que parte de uma aplicação da filosofia à fotografia, e dos outros três textos dedicados a análises filosóficas de obras literárias (os textos de Matheus Fernandes, Tereza Calomeni e Theo Fellows), os últimos dois textos que completam a seção principal desta edição dedicam-se às relações entre filosofia e pintura. No texto assinado conjuntamente por Adriano Francisco de Araújo Júnior e Guilherme Müller Junior, o pensamento de Foucault comparece mais uma vez como referência central (a terceira, apenas neste número!). Trata-se, para os autores, de investigar de que modo a pintura de Édouard Manet guarda diversas possíveis relações com o cinismo antigo, ao menos como este é teorizado por Foucault no último curso por ele ministrado antes de sua morte precoce, intitulado A coragem da verdade. Já o texto de Tiago Nunes Soares se debruça sobre as possíveis relações entre o pintor René Magritte e o filósofo Maurice Merleau-Ponty. Partindo de uma carta nada simpática de Magritte à abordagem da pintura empreendida por Merleau-Ponty, o autor do ensaio se propõe a mostrar que, quando lida a contrapelo, essa crítica revelaria afinidades entre o pensamento do pintor e o do filósofo que talvez deixassem o próprio Magritte desgostoso, mas de forma alguma aquelas pessoas que, ao contrário do pintor, acreditam na intimidade entre crítica e criação, poesia e verdade.

Felizes, apesar de tudo, por terem conseguido fechar dois números repletos de excelentes textos mesmo em meio a esta trágica pandemia, os editores da Viso desejam a suas leitoras e leitores que o ano de 2021 seja menos distópico do que foi este de 2020, muito embora, dado o atual contexto mundial, esta esperança soe neste momento como talvez utópica demais.

A imagem da capa desta edição é baseada em uma obra do coletivo de Forensic Architecture.