Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 14, n° 26 (jan-jun/2020)

Mesmo sendo lançado em meio a um tempo triste nestes trópicos, por conta da pandemia de COVID-19 e do desgoverno federal, o número 26 da Viso traz uma grande inovação tecnológica: obedecendo a uma orientação das agências de fomento e dos indexadores nacionais e internacionais, o site da revista foi inteiramente reformulado e reconstruído com tecnologias mais seguras e open source. As páginas são responsivas e funcionam adequadamente em celulares e tablets. Os endereços dos artigos são mnemônicos, com o uso de pretty URLs. O sistema de submissões foi totalmente reformulado com a adoção da plataforma OJS. E, com o apoio inestimável da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da UFF (em particular, na pessoa da incansável Thaiane Oliveira), todos os nossos artigos agora contam com DOI.

Para comemorar esse grande salto tecnológico dado por estes Cadernos de Estética Aplicada,o número 26 conta com dois dossiês especiais organizados pelos queridos subeditores convidados André de Macedo Duarte e Vinicius Figueiredo – ambos, por coincidência, professores do Departamento e da Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Paraná.

André Duarte preparou um dossiê com 4 ensaios sobre o filme Bacurau, sem dúvida o lançamento mais importante do cinema brasileiro em 2019 (para se pensarem as múltiplas possíveis relações entre estética e política, arte e resistência). Além de ter contribuído, em parceria com Maria Rita de Assis César, com um ensaio verdadeiramente luminoso sobre o filme, André Duarte elaborou um texto de apresentação articulando as contribuições dos autores e autoras por ele convidados (Érico Andrade; Luzia Margareth Rago e Aldo Ambrózio; Bethania Assy e Vera Karam de Chueiri).

Já Vinicius Figueiredo organizou um dossiê especial com 5 ensaios sobre a última edição da Bienal de Curitiba, originalmente apresentados no âmbito de um colóquio que visava pensar a conturbada história dessa Bienal, assim como a sua inserção no cada vez mais pujante (e controverso) universo das bienais internacionais de arte (contemporânea). Além de ter dado sua própria contribuição a esse debate, em seu texto de apresentação do dossiê, Vinicius Figueiredo entretece as contribuições dos outros quatro autores e autoras por ele convidados: Aline Luize Biernastki; Caroline Saut Schroeder; Felipe Prando; e Milena Costa de Souza.

Além de Vinicius e André, que já haviam sido responsáveis por contribuições importantes em números anteriores, temos ainda um terceiro convidado para este número-festa: o professor Henry Burnett, da UNIFESP, um dos colaboradores mais assíduos ao longo dos nossos 14 anos de história. Em artigo muito inspirado pelo texto de Lorenzo Mammì sobre “A era do disco”, Henry Burnett investiga a regressão na audição que marca a escuta contemporânea na “era do streaming”, partindo de uma análise do modo como distintos suportes materiais (78 rotações, LP em vinil, CD, e finalmente streaming) implicam diferentes maneiras de ouvir música. O autor mostra como, na avançada era do streaming, a unidade musical LP ou CD dá lugar a uma fragmentação na escuta de músicas individuais que remonta à época dos singles em vinil e mesmo dos discos mais antigos em que, por razões técnicas, só cabia uma música de cada lado.

Em sua sessão principal, com o primeiro conjunto de submissões feito integralmente pelo sistema OJS, estes Cadernos de Estética Aplicada contam com textos que analisam obras do campo da escultura, da instalação, da curadoria, da arquitetura e do cinema: (1) a contribuição de Alice Mara Serra analisa e problematiza o modo como Didi-Hubermann lê a questão da opacidade do sentido da imagem nos cubos negros de Tony Smith; (2) o texto de Osvaldo Fontes Filho lê a série Ama de leite, de Rosana Paulino, à luz da definição de Jacques Rancière de “arte política”; (3) o ensaio de Fernanda Proença pensa os impasses do lugar institucional dos museus à luz do pensamento de Adorno e, mais especificamente, de seu ensaio “Museu Proust Valéry” (assim dialogando diretamente com o dossiê organizado por Vinicius Figueiredo sobre a Bienal de Curitiba); (4) o texto de Otavio Leonídio culmina em uma intrigante apresentação dos diagramas do arquiteto Peter Eisenman à luz de sua filiação à performatividade típica do minimalismo norte-americano; (5) e, finalmente, o ensaio de Diego Viana lança luz sobre o alcance crítico e potencialmente revolucionário da obra do cineasta Harun Farocki, que recentemente mereceu longas retrospectivas nos IMS do Rio e de São Paulo.

Com os 15 ensaios aqui coligidos e apresentados em um sistema operacional inteiramente novo, a Revista Viso espera realizar um raro casamento entre tecnologia e pensamento crítico, assim resistindo aos usos contemporâneos nos quais a tecnologia quase sempre tem servido à destruição da crítica.

Boa leitura!

A imagem da capa desta edição é baseada em uma cena de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.