Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 13, n° 24 (jan-jun/2019)

Depois de um robusto número especial – o número 23, com os 26 textos apresentados no 9o Encontro do GT de Estética da ANPOF –, estes Cadernos de Estética Aplicada retomam neste número 24 a sua proposta e o seu propósito originais: publicar textos que, apoiados sobre uma base teórica filosófica (em sentido amplo), propiciem uma visão (um viso!) das múltiplas camadas de sentido presentes em objetos estéticos específicos.

Neste novo número, temos nada menos do que três textos voltados ao teatro – um número excepcional, tendo em vista a nossa história; dois textos voltados à poesia lírica; três textos voltados às artes visuais contemporâneas e um texto filosoficamente muito denso sobre o conceito de imagem em A queda do céu, escrito pelo xamã ianomâmi Davi Kopenawa em parceria com Bruce Albert, um dos maiores acontecimentos editoriais deste começo de século XXI.

Além dos nove textos que integram a sessão principal destes Cadernos de Estética Aplicada, o leitor encontrará a tradução, feita diretamente do sueco por Cecília Schuback, de alguns pequenos textos do dramaturgo August Strindberg que jamais haviam sido vertidos para o português. Nesses opúsculos escritos para polemizar e sobretudo para provocar, Strindberg apresenta sua “Pequena catequese: uma denúncia das mentiras da classe dominante; sua visão dos “direitos do homem em uma sociedade civilizada e cristã”, libelo misógino em prol da emancipação dos trabalhadores e da construção de uma igualdade real que deixará a maior parte dxs leitorxs contemporânexs de cabelo em pé; e finalmente dois breves textos – “O democratismo de Tolstói” e “Tolstói e a classe dominante letrada” – que são uma verdadeira apologia do grande escritor e militante que foi Liev Tolstói, visto pelo dramaturgo sueco como espécie de “campeão da classe dominada”.

Já na sessão “Atualidades”, Alexandre Costa faz uma análise erudita de uma peça de teatro recentemente apresentada em São Paulo intitulada Medea Mina Jeje, concebida pelo ator Kenan Bernardes, com dramaturgia de Rudinei Borges e direção de Juliana Monteiro. Alexandre, especialista na filosofia e no teatro gregos, mostra como o sacrifício dos próprios filhos, que tanto horrorizou os espectadores de outrora e ainda horroriza os de agora, pode ser compreendido e mesmo justificado no contexto do mundo grego, mas sobretudo no contexto da violência colonial brasileira que serve de pano de fundo à tragédia dessa Medeia negra, sequestrada de seu país natal e escravizada nas minas brasileiras, que protagoniza o espetáculo por ele analisado.

Arthur Kon, em outro ensaio exemplar do que seria uma possível “estética aplicada”, dedica-se novamente, como já fizera no número 21 da Revista Viso, a desdobrar o seu conceito de “antiteatrodocumentário” com base na análise detalhada de um espetáculo apresentado em 2016 pelo Coletivo Bruto: Vergonha. Com base em uma leitura das críticas de Rancière a um teatro que, movido pelo intuito de “emancipar o espectador”, acaba por infantilizá-lo e por reforçar o seu lugar de submissão, ele mostra como o Coletivo Bruto consegue tematizar e subverter em cena a tendência dogmática de um certo teatro documentário contemporâneo que acaba espetacularizando narcisicamente as próprias dores pequeno burguesas.

Diego Reis, por sua vez, propõe uma leitura da peça Savannah Bay, de Marguerite Duras, como uma espectropoética, mostrando como a fragmentação sonora e a polifonia características da obra de Duras criam zonas de tensão entre temporalidade e espacialidade, entre a matéria sonora das palavras e as imagens daí resultantes. A voz, segundo o autor, iria nesse teatro muito além dos sentidos imediata e univocamente compreensíveis, conquistando a força de choque de um objeto material, que convida o espectador a participar da dramaturgia da cena.

Alexia Bretas, no primeiro dos dois ensaios desta edição dedicados à análise de poemas líricos, realiza uma abordagem dos poemas de As flores do mal nos quais Charles Baudelaire retrata uma espécie de “heroísmo lésbico”. Trata-se, para a autora, de submeter as sublimes composições baudelairianas ao crivo de uma certa genealogia do gênero informada por autoras contemporâneas como Monique Wittig, Judith Butler e Paul Beatriz Preciado. A título de conclusão, Alexia Bretas escreve: “A caracterização baudelairiana das heroínas lésbicas como porta-vozes da rejeição aos dispositivos que regulam a ordem médica, moral e legal de seu tempo encontra-se, de certo modo, alinhada aos princípios motrizes do queer como expediente genealógico de desconstrução dos binarismos – homem-mulher, heterossexual-homossexual, normal-anormal – que estão na base do patriarcado e da heterossexualidade normativa como instituições fundantes da Modernidade ocidental”.

Cristian Perius, por sua vez, inspirado pela fenomenologia de Merleau-Ponty, compõe um longo ensaio em torno da poesia de João Cabral de Melo Neto no qual um olhar fenomenológico, renunciando aos conceitos prontos, vai em direção “às coisas mesmas” e torna visível a “espessura” que é toda a profundidade superficial da poesia de João Cabral. Estruturado em seis capítulos – (1) “metalinguagem”, (2) “antilírica”, (3) “Cabral da peste”, (4) “faca só lâmina”, (5) “o conceito de profundidade” e (6) “cão sem plumas” – seu ensaio busca mostrar como, a partir de imagens centrais que muito se repetem – “pedra”, “faca”, “cabra” e “cão” –, a poesia de João Cabral descreve o profundo segundo a concepção de Merleau-Ponty.

Juliana Moraes, em ensaio que brotou do choque de uma experiência estética realizada na Casa França-Brasil, parte de uma questão instigante: “Na medida em que o fazer artístico expõe-se como um produzir obras de arte para serem acumuladas ou trocadas, como é possível, dentro da própria atividade de alguns artistas singulares, apresentar uma saída que escape à supremacia da economia e do capital que se apodera de nossa existência no mundo? Como é possível pensar uma atividade que não seja trabalho e que nos devolva o espaço da política?” Na tentativa de elaborar uma possível resposta a essa questão, ela se vale do conceito de “inoperosidade”, de Agamben, para empreender a leitura de um trabalho de Laura Lima que, de algum modo, resiste a se deixar converter em obra e, portanto, em mercadoria. Suas palavras conclusivas abrem um interessante caminho de reflexão a partir do encontro entre o pensador italiano e a artista contemporânea brasileira: “A arte é a atividade inoperosa por excelência, porque, a partir do momento em que se não restringe a oeuvrer, isto é, a produzir obras, permite escapar a todo fim produtivo imposto pelo capitalismo e porque relembra ao homem que o sentido ético e político da sua atividade pode não estar nem na sua realização nem no seu agir, mas na suspensão e na sua ausência, naquilo que nela se oculta, mas que, justamente por isso, pode se apresentar como o mais essencial”.

Francisco Camêlo, em ensaio que funciona quase como uma exposição, pela bela curadoria das obras que comenta – reproduzidas na Viso em fotografias bem escolhidas –, parte da relação entre a teoria da linguagem e a teoria da história na obra de Walter Benjamin propondo que um ponto de intersecção privilegiado entre ambas essas teorias seria o apego do filósofo à infância, aos brinquedos, às coleções, a tudo aquilo que, sendo “pequeno”, permanece à margem da história oficial e assim preserva a possibilidade de revolucioná-la. Justificando o sentido de sua “curadoria”, escreve o autor: “A menor mulher do mundo de Clarice, as caixas de Duchamp e de Bispo do Rosário, os brinquedos eróticos de Márcia X, os mundos liliputianos esculpidos em agulhas e alfinetes por Willard Wigan, o pensador alemão de letra minúscula e colecionador de brinquedos são uma pequena amostra da coleção de imagens recolhidas por um pesquisador – ao modo do “Corcundinha” [de Walter Benjamin] –, que aposta nas ações de colecionar e miniaturizar e no cruzamento de escritores e artistas com o universo da infância”.

Michel Masson, no terceiro texto desta edição dedicado às artes visuais contemporâneas, realiza delicada interpretação de algumas fotografias de Luiza Baldan, também reproduzidas na Viso. Segundo o autor, Luiza Baldan “opera em registro que se coaduna ao esforço teórico de John Dewey, no sentido de ‘restaurar a continuidade entre as formas refinadas e intensas que são as obras de arte e os eventos diários’. No entanto, em princípio, Luiza vai além. Sua prática parece levar ao limite a relação entre experiência estética e experiência comum quando aparentemente as iguala. Em outras palavras, como alguém que estica uma corda, Luiza força os termos da equação de Dewey ao trabalhar com a matéria relativa à experiência diária em seu estado quase cru. [...] Eis a difícil tarefa de Baldan: fazer ver o notável comum, evidenciar os pequenos − porém vigorosos − deleites estéticos cotidianos, desvelar, enfim, ‘a potência de significação inerente às coisas mudas’, para usar os termos de Rancière”.

Marco Antônio Valentim, em um dos textos filosoficamente mais densos e inspiradores já publicados nestes Cadernos de Estética Aplicada, coloca em relação alguns dos principais nomes da história da filosofia ocidental (de Platão a Deleuze) com o pensamento da imagem desenvolvido pelo xamã ianomâmi Davi Kopenawa em seu livro A queda do céu. Tentando ouvir e compreender as palavras desse outro do pensamento ocidental que é a cosmogonia ianomâmi, Valentim abre seu texto com uma provocação que evoca a própria essência do ensaio como oriunda da consciência da não identidade entre o pensamento e seu objeto. Escreve o autor: “O conceito de imagem é decisivo na explicação da própria natureza ‘literária’ da obra A queda do céu, caracterizada por uma defasagem irremediável entre imagem e letra, bem como pela apropriação da escrita para a produção de um corpo-arma xamânico, capaz de provocar, mediante ‘peles de imagens’, uma vertiginosa alteração no pensamento letrado dos brancos: trata-se de ‘um livro único que libera da ilusão do livro’.” Ensaio para ler e reler.

Relendo em conjunto os textos que os leitores têm agora diante dos olhos, os editores se permitem uma pequena nota pessoal: trata-se de uma das edições da Viso de maior qualidade estético-literária em seus 12 anos de história.

Bom proveito!

A imagem da capa desta edição apresenta o ator Kenan Bernardes em cena em Medea Mina Jeje.