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Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 1, n° 2 (mai-ago/2007)

Neste segundo número, a Revista Viso traz sete artigos que confirmam, cada um a seu modo, a linha editorial adotada por estes Cadernos de Estética Aplicada, que se propõem a levar a reflexão tradicional sobre a filosofia da arte a uma confrontação com objetos estéticos os mais diversos.

No artigo que serviu de inspiração para a capa desta edição, Marcos Martins analisa a poética de Marcel Duchamp à luz da definição deleuziana da obra de arte como “composto de perceptos e afetos”. A questão que move o seu trabalho é aquela que pergunta pela natureza da “sensação” na obra duchampiana, a qual, como o autor concluirá, ocupa uma “zona de indiscernibilidade” entre o erotismo e o tempo, a matéria e a memória.

Cláudia Castro, por sua vez, propõe-se a acompanhar os passos do jovem Walter Benjamin em sua tentativa de lançar alguma luz sobre a hermética lírica de Friedrich Hölderlin. Seu ensaio revela como os dois poemas abordados pelo autor, “Coragem de poeta” e “Timidez”, apontam para a preocupação central que entrelaça ambos os pensadores: a tarefa de pensar como pode o moderno ter uma tradição.

Em seu texto sobre a Medéia de Eurípides, Cláudio Oliveira discute os principais conceitos que constituiriam o campo do trágico. Tomando como ponto de partida uma lição de Jacques Lacan sobre a arte da interpretação como “comentário de significantes”, o autor imerge nos significantes gregos da tragédia para trazer à luz questões que dificilmente aflorariam em uma leitura do texto grego traduzido para outra língua ou em uma abordagem da tragédia que desprezasse a contribuição da psicanálise para a sua inteligibilidade.

Para a seção História da estética, única consagrada exclusivamente à “estética pura”, Fernando Santoro e Francisco José Dias de Moraes foram convidados a fazer uma apresentação da “estética de Aristóteles”. Essa proposta foi compreendida de modos bastante distintos por cada um dos autores. Fernando Santoro empenhou-se em mostrar como Aristóteles refuta cada um dos três aspectos da condenação platônica da poesia. Se tal condenação teria motivado a expulsão dos poetas da cidade ideal, com a obra aristotélica eles recuperariam o seu direito à cidadania.

O artigo de Francisco Moraes, por sua vez, parte de uma interpretação da “estética” de Aristóteles que, ao contrário do que se convencionou na modernidade, tem menos a ver com a idéia de uma “filosofia da arte” do que com a idéia de uma “teoria da percepção”. Deste modo, ele nos apresenta em seu texto os traços fundamentais da teoria aristotélica da percepção e mostra como a criação poética propriamente dita difere apenas em intensidade, mas não qualitativamente, da nossa percepção cotidiana, em si mesmo poética, da realidade.

Na seção Atualidades, Pedro Süssekind relata uma experiência pessoal: no festival de Veneza de 2006, metade da sala abandonou a sessão de Quei loro incontri, último filme de Jean-Marie Straub e Daniele Huillet, ainda nos primeiros vinte minutos de projeção. Este evento é empregado como ponto de partida para uma tentativa de compreender a radicalidade da experiência estética proposta pelo filme e, simultaneamente, a resistência da maior parte dos espectadores a ele. Em seu artigo, o autor esclarece quais teriam sido as intenções do casal de cineastas ao adaptar o livro Diálogos com Leucó, de Cesare Pavese, para o cinema. Mostra-nos, no decorrer de seu texto, que tanto Straub e Huillet quanto Pavese seriam herdeiros de uma compreensão da arte que remonta ao primeiro romantismo alemão, e notadamente a Friedrich Hölderlin.

Por fim, na seção Polêmica, Pedro Amaral parte de uma análise do filme Princesas, do espanhol Fernando León de Aranoa, para propor uma reflexão acerca do “vigor contemporâneo do fascismo tupiniquim”, como ele próprio provocativamente o nomeia no subtítulo de seu artigo. Trata-se, para o autor, de mostrar de que modo os jovens de classe média que saem pelas ruas “pisando em putas”, ou queimando mendigos, outra coisa não fazem do que colocar em prática o discurso moralista das “tias de Marlow” que dominam a grande imprensa. Esses atos fascistas, polemiza o autor, não são aberrações dentro de uma sociedade pretensamente civilizada, mas antes expõem a sua verdadeira face.

A imagem da capa desta edição mostra um detalhe da obra de Marcel Duchamp: Rotorelevo (discos ópticos), seis discos de cartão com desenhos coloridos frente e verso, diâmetro 20cm, 1935.