Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 10, n° 18 (jan-jun/2016)

O número 18 da Revista Viso abre as comemorações pelo décimo aniversário destes Cadernos de estética aplicada. Ele compõe a primeira parte de nosso volume X, que será completado em dezembro deste ano por um número especial com as 25 colaborações apresentadas pelos professores doutores presentes ao VIII Encontro do GT de Estética da ANPOF, realizado em Ouro Preto em junho de 2016.

É com alegria que constatamos mais uma vez que a proposta fundadora destes Cadernos de estética aplicada tem atraído pesquisadores das mais distintas proveniências. Neste número 18, por exemplo, que contém uma tradução de uma obra clássica de Charles Perrault e nove textos originais, três partem da análise de obras de arte literárias; dois de filmes; um de artes visuais; e três de peças de teatro, conciliando sempre a reflexão filosófica com a crítica imanente de obras de arte específicas.

Na seara da crítica de obras de arte literárias, Marcelo de Araújo propõe uma análise panorâmica da produção literária contemporânea a partir de três conceitos que seriam fundamentais para pensar algumas de suas mais recentes manifestações: os conceitos de intertextualidade, metaficção e autoficção. Para explicitar no que consiste a intertextualidade, o autor analisa Of One Woman or So, de Kabe Wilson, no qual é realizada uma sisífica recombinação de todas as palavras presentes no célebre A Room of One’s Own, de Virigina Woolf. Para tratar do conceito de metaficção, Araújo elege dois romances: O rei pálido, de David Foster Wallace e Sujeito oculto, de Cristiane Costa. Finalmente, fechando essa instrutiva viagem conceitual pela literatura mais contemporânea, o autor elege obras recentes de Ricardo Lísias, Divórcio e Delegado Tobias, para refletir sobre o conceito de autoficção. Cumprindo uma das tarefas mais importantes da “estética aplicada”, seu artigo faz com que o leitor tenha um ímpeto irresistível de ir às obras por ele analisadas.

Affonso H. Vieira da Costa, por sua vez, parte de alguns fragmentos de poemas de Hölderlin, nos quais transpareceria a imagem desse “poeta do poeta” como um pensador ocupado fundamentalmente em “poematizar a essência da poesia”, para se perguntar no que consistiria, afinal de contas, a crítica de arte. Tendo em vista que a verdadeira poesia já contém um inegável germe autorreflexivo, o autor se pergunta: “É possível falar sobre a arte?” Para esclarecer os termos dessa questão e apontar para possíveis caminhos de resposta, sua inspiração fundamental é Heidegger, mas Affonso Costa se vale também de George Steiner para proporcionar ao leitor formulações lapidares como a seguinte: “a crítica literária deve brotar de uma dívida de amor [...] aquele que realmente apreendeu uma pintura de Cézanne daí em diante enxergará uma maçã ou uma cadeira como não havia enxergado até então. Grandes obras de arte nos arrebatam como tempestades, escancarando as portas de nossa percepção, pressionando a arquitetura de nossas crenças, com seus poderes transformadores. Procuramos registrar esse impacto, colocar em nova ordem nossa casa estremecida. Através de algum instinto primário de comunhão, buscamos passar aos outros a qualidade e a força de nossa experiência. Gostaríamos de persuadi-los a se abrirem para ela. Dessa tentativa de persuasão se originam as intuições mais verdadeiras da crítica”.

Daniel Gilly, finalmente, faz uma leitura bastante delicada dos Diálogos com Leucó, de Cesare Pavese, tentando pensar junto com o grande autor italiano de que modo seria ainda hoje possível conceber uma criação poética que não tivesse como principal interesse ser objeto de uma contemplação estética, mas antes fosse capaz de arrancar a arte do domínio da estética e de incorporá-la ao percurso de uma vida, trazendo-a de volta para a história, transformando-a em necessidade. Em uma passagem de Italo Calvino escolhida por Daniel Gilly encontra-se um retrato de Pavese que sua interpretação dos Diálogos com Leucó aqui publicada a um só tempo enriquece e problematiza. Escreve Calvino: “O sentido da ação poética e moral de Pavese encontra-se na laboriosa passagem entre dois modos de estar no mundo: partindo de um dado de passividade e anonimato existencial, chegar a transformar tudo que vivamos em autoconstrução, consciência, necessidade. Uma operação poética e moral, digamos. Enquanto poética, significará sair de uma concepção de criação como abandono à confissão lírica ou ao prazer do gosto compositivo ou do reconhecimento naturalista do mundo externo, para chegar por meio de uma árdua via de exclusões e reduções, até imagens que sejam nódulos de experiência insubstituíveis, comunicações absolutas em todos os níveis. Como opção criativa, significará escavar e escavar o caráter cotidiano de imagens cinzentas, de presenças sem rosto, de falas rústicas e descuidadas, como se apresentam na impoética cidade industrial, no impoético Piemonte agrícola e interiorano, até que se alcance um espaço e uma cor interna à página, um sistema de relações que adquira espessura, uma linguagem calibrada. Em resumo: um estilo”.

Em ensaio dedicado ao cinema sob o viés antropológico celebrizado entre nós por Eduardo Viveiros de Castro, Juliana Fausto propõe uma interpretação que se poderia dizer escatológica do único filme jamais dirigido pelo célebre designer e artista visual Saul Bass, intitulado Phase IV, um retumbante fracasso na época de seu lançamento. A autora propõe que “mais que no Antropoceno –essa nova época em que a humanidade deixa de ser apenas agente para se tornar uma força geológica, na qual as fronteiras entre história natural e história humana se embaralham –,Phase IV se inscreveria melhor naquilo que Donna Haraway vem chamando de Chthuluceno, o tempo e as narrativas dos seres ctônicos”, quando, “por sobre genocídios e entre miríades de fins e começos de mundo, abre-se a possibilidade de interações parciais, difíceis e não-salvacionistas com os outros”. No caso do filme de Bass, com as formigas que ameaçam extinguir a humanidade, mostrando o quanto a ficção científica pode criar mundos virtuais que nos ajudam a pensar em possíveis alianças com os seres ctônicos que possam adiar a queda do céu.

No outro ensaio dedicado ao cinema presente nesta edição, Ernani Chaves propõe-se a “justificar a ideia de que o cinema de Wim Wenders tem uma preocupação de ordem política, que se relaciona diretamente com o problema dos alemães com o passado nazista, a partir de uma breve abordagem do nexo entre memória, história e narração em Der Himmel über Berlin (Asas do desejo). A partir de uma discussão da influência do pensamento de Walter Benjamin (sobretudo de suas Teses sobre o conceito de história e de seu ensaio O narrador) no filme de Wim Wenders, influência aliás conscientemente assumida pelo próprio cineasta, o autor mostra que a desauratização do nosso legado cultural (personificado no filme pela biblioteca de Berlim Ocidental) é condição indispensável para os futuros narradores, homens e mulheres que, como o próprio Wenders, nascido em 1945, precisam aprender a jogar em meio às ruínas.

Alice de Carvalho Lino, no único ensaio desta edição voltado para as artes visuais, parte de uma leitura da leitura que Barnett Newman (em artigo intitulado “The Sublime Is Now”, de 1948) teria feito dos filósofos do sublime (principalmente de Burke, mas também de Longino, Kant e mesmo Hegel), assim como da interpretação feita por Lyotard das próprias obras de Newman inspiradas por sua compreensão do sublime (aquelas que se seguem a Onement 1), para refletir sobre a contribuição que o imperativo de apresentar o inapresentável teria trazido para a pintura após a Segunda Guerra Mundial.

Fechando a seção fixa da revista, com textos submetidos espontaneamente por seus autores e avaliados por nosso corpo de pareceristas, Bianca Vilhena C. Pereira propõe uma leitura da tragédia Antígona, de Sófocles, à luz do pensamento de Jacques Derrida. Partindo do “quase conceito” derridiano de luto, a autora constrói a sua análise de Antígona a partir de uma justaposição entre a peça favorita de Hegel e duas outras, favoritas de Freud: Édipo rei, também de Sófocles, e Hamlet, de Shakespeare. Como pano de fundo para sua discussão sobre o luto, encontra-se uma discussão sobre a própria definição de justiça segundo Derrida. Escreve a autora: “Derrida não nega, mas afirma a necessidade de que haja lei, questiona, contudo, a pretensão do direito como o lugar da justiça. O filósofo, ao problematizar a partir da contraposição entre a força que é legitimada e a força que não é legitimada, mostra que, se a força é aplicada no direito, a justiça só pode ser algo que excede o direito”.

Na sessão especial “Atualidades”, duas teóricas, uma da área da Ffilosofia (Tereza Calomeni) e outra da área da história (Aline Magalhães Pinto) foram convidadas a se aventurar na elaboração de uma crítica teatral. Ambas escreveram sobre a peça Labirinto, que cumpriu temporada no Rio de Janeiro entre novembro de 2016 e janeiro de 2017, no Teatro do Oi Futuro Flamengo, com direção de Daniela Amorim e dramaturgia de Alexandre Costa e Patrick Pessoa (um dos editores destes Cadernos de estética aplicada).

Em um texto sintético, cujo gesto fragmentário de algum modo mimetiza a forma do objeto que se propõe a comentar, contribuindo para um alargamento da “língua de chegada”, a língua da prosa crítica, segundo a célebre definição benjaminiana da “tarefa do tradutor”, Aline Magalhães Pinto fornece uma série de indicações luminosas sobre como entrar e ser capaz de suportar a impossibilidade de sair do labirinto histórico e linguístico apresentado em cena pela peça “Labirinto”.

Já Tereza Calomeni propõe uma interpretação do texto da peça e de muitos de seus elementos cênicos a partir de uma reconstrução minuciosa da relação entre o espetáculo “Labirinto” e a filosofia da história de Walter Benjamin, sobretudo como aparece em suas Teses sobre o conceito de história. Escreve a autora: “Entende-se bem a estrutura do texto. A peça é configurada por fragmentos e a representação, entrecortada por cenas não-lineares, como sinal de uma outra opção: a opção por uma redação que tenta registrar tanto as descontinuidades do tempo e da história quanto a dificuldade de narrá-las. O próprio texto é redigido de modo descontínuo e a representação é figurada num vai-e-vem das cenas e das vozes, não só para que se assemelhe a um labirinto, mas também para demonstrar a escolha por uma linguagem que não apare as arestas e não se compraza numa escrita contínua. Opção estilística por uma redação descontínua, adequada ao pano de fundo adotado: a concepção de história não-homogênea e de tempo não-linear. Interrupções abruptas, bruscas, movimentos frenéticos, silêncios, intervalos e pausas, além de nos colocarem num lugar tão opressor e aflitivo como um labirinto, constituem-se como forma conveniente à tentativa de falar das rupturas – presentes à história e ao tempo supostamente lineares e homogêneos – e dos fragmentos, ruínas e escombros do passado”.

Finalmente, em nossa seção “Tradução”, o leitor brasileiro tem acesso a O século de Luís, o grande, de Charles S. Perrault, em rigorosa tradução de Sertório de Amorim e Silva Neto e Enoque M. Portes. Trata-se de um dos textos mais fundamentais para a compreensão da célebre querela dos antigos e dos modernos, que tantos desdobramentos interessantes trouxe à história da estética. Perrault, como os próprios tradutores deixam claro em sua nota de apresentação, revela-se neste poema como um polemista que apresenta uma posição radical atinente a todas as artes (literatura, pintura, escultura, música) menos em defesa dos modernos que contra os antigos. A distância histórica, no entanto, não deixa de ser irônica: ao colocar os grandes de seu século lado a lado com os grandes do passado que ele elogia de forma quando muito enviesada – nomes como Homero, Virgílio e Ovídio –, sua extensa lista nos apresenta quase que exclusivamente célebres desconhecidos – gente como Régnier, Maynard, Gombauld, Malherbe, Godeau, Racan. Cumpriria formular a seguinte pergunta: com base unicamente no texto de Perrault, não teria sido inequívoca a vitória dos antigos na querela?

Esperamos, em suma, que nossos leitores tenham o prazer de sempre na degustação dos textos apresentados neste número 18 de nossos Cadernos de estética aplicada.

A imagem da capa desta edição é baseada em um still do filme Phase IV de Saul Bass.