Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 6, n° 12 (jul-dez/2012)

O décimo segundo número da Viso: Cadernos de Estética Aplicada, que fecha o seu sexto volume, correspondente ao seu sexto ano de funcionamento ininterrupto, traz em sua seção principal três textos de genuína estética aplicada – o primeiro sobre Psicose, de Hitchcock, à luz de Zizek; o segundo sobre A montanha mágica, de Thomas Mann, à luz de Franco Moretti; o terceiro sobre Cèzanne, à luz de Merleau-Ponty – e um quarto texto que, embora dialogue com os objetos estéticos analisados por Arthur Danto, apresenta-se principalmente como uma crítica de sua teoria da metáfora, ocupando assim um espaço intermédio entre a estética aplicada e a estética pura. Em uma seção especial inédita, “mídia”, temos o prazer de inovar tecnologicamente, trazendo a interpretação dos poemas de Nietzsche não apenas em prosa filosófica, mas também em música – nossos leitores poderão ouvir o áudio dos poemas de Nietzsche com o suporte da música composta pelo professor e músico Henry Burnett. Em nossa outra seção especial, “tradução”, temos o prazer de apresentar ao público brasileiro um texto inédito em português de Hans Blumenberg, traduzido pelo professor Luiz Costa Lima, e um texto de Detlev Claussen, renomado especialista nas obras de Benjamin e Adorno, traduzido pelo professor Rodrigo Duarte.

A seção principal deste número 12 é aberta por Bruno O. De Andrade, que discute uma questão central para a “estética aplicada”, a saber: o modo como os filósofos devem se relacionar com as obras a partir das quais se propõem a pensar. Sua análise elege Merleau-Ponty como paradigma de uma aplicação da filosofia à arte que não transforma as obras em mera ilustração de teses filosóficas previamente existentes, ignorando assim a sua especificidade. Como mostra o autor, a grandeza de Merleau-Ponty em seus estudos sobre Cézanne está no fato de que ele não pensou “sobre” a pintura, mas sim “com” a pintura, tornando possível, com esse método de abordagem da arte, um ultrapassamento das leituras tradicionais de Cézanne que, na tentativa de encaixá-lo numa linha evolutiva da história da arte, não fariam jus à sua modernidade. Em outras palavras, parodiando talvez a célebre passagem de Novalis, segundo a qual “a poesia só pode ser criticada pela poesia”, o que o texto defende é que “a Modernidade só pode ser criticada pela Modernidade”.

Já Diogo Gurgel construiu o seu texto em duas partes. Na primeira, ele reconstrói com enorme clareza o cerne das principais teses apresentadas por Arthur Danto em The Transfiguration of the Commonplace. Na segunda, ele se propõe a mostrar que, apesar de o filósofo norte-americano ter desenvolvido uma reflexão radical que possibilita distinguir objetos materialmente indiscerníveis (no caso, utensílios como um urinol e obras de arte como a Fontaine de Duchamp), a “teoria da metáfora” pressuposta por sua filosofia da arte seria insuficiente para fundamentar a relação entre arte e (revelação da) verdade. Se este seu ensaio tem um caráter eminentemente negativo, em sua conclusão o autor promete uma continuação do trabalho, em que mostrará como a teoria da metáfora de Paul Ricoeur nos permite ir além das insuficiências teóricas de Danto. Esperamos poder publicar a continuação deste estudo no próximo número destes Cadernos de Estética Aplicada.

Fernando Ribeiro, por sua vez, parte de uma rica interlocução com as análises de Slavoj Zizek da obra de Alfred Hitchcock e propõe-se a analisar, fiel ao perfil editorial destes Cadernos de Estética Aplicada, apenas um dos filmes do “mestre do suspense”: Psicose. Em seu texto, ele mostra de que modo as três partes do filme correspondem a uma tripartição entre Desejo, Pulsão e Interpretação, lendo Freud e Lacan com Hitchcock.

Fechando a seção principal, Pedro Caldas, dialogando com The Way of the World, livro seminal de Franco Moretti sobre a história do Bildungsroman, propõe uma interpretação filosófica de A montanha mágica, de Thomas Mann, que apresenta o processo de formação de Hans Castorp como uma preparação, paradoxal em se tratando de uma “formação”, para a experiência do que está para além de toda forma possível. Se o jovem Castorp oscila ao longo de sua trajetória entre o apego à técnica e alguns mágicos encontros que dão nome ao livro, o desfecho do romance, que não se confunde com o fim da trajetória do herói, mostra-nos um homem em meio às trincheiras da Primeira Grande Guerra convivendo com a destruição causada pelo progresso tecnológico e, ao mesmo tempo, murmurando para si mesmo as mágicas palavras de uma canção. E “não somente pelo prazer”, diz-nos enigmaticamente o autor no desfecho de seu belo ensaio.

Integrando nossa nova seção de Mídia, o texto de Henry Burnett espelha formalmente o teor de verdade que descobre em seu objeto. Se, de acordo com o autor, “Nietzsche mantinha o jogo livre entre poesia/filosofia, sonho/realidade, instinto/razão, natureza/cultura [...], sem que um dos lados fosse escolhido – talvez não possamos nem mesmo distinguir radicalmente poesia e filosofia, se considerarmos que, a rigor, eles acabaram por se fundir no estilo aforismático de Nietzsche”, o mesmo se dá com o próprio ensaio de Burnett. Ao apresentar alguns poemas de Nietzsche tanto em português quanto no original alemão, sua proposta é interpretá-los simultaneamente de duas formas: filosoficamente, através de comentários pontuais sobre alguns elementos desses poemas, e também musicalmente, através da composição de uma “trilha sonora” para os poemas nietzscheanos. Por isso, abaixo da transcrição dos poemas nas duas línguas, o leitor desta edição da Viso encontrará o link para a música composta por Burnett.

Já em nossa seção Tradução, temos o prazer de publicar um texto inédito em português do grande mestre da história dos conceitos que foi Hans Blumenberg, em tradução de Luiz Costa Lima. Partindo de uma discussão bastante erudita do conceito de autoconservação, analisando as suas multifacetadas interpretações desde os gregos até Nietzsche, passando por alguns dos pensadores mais importantes do Medievo, da Renascença e da Idade Moderna, Blumenberg permite-nos formular uma questão decisiva para a estética. Se o problema da autoconservação diz respeito a uma concepção de criação que não a compreende apenas como a força que inicia a existência de algo, mas sobretudo que como a força que a conserva na existência através do tempo, não será possível imaginar que a crítica, como aquilo que eterniza a vida das obras, ocupa de algum modo lugar análogo ao de Deus nas distintas interpretações da autoconservação que perpassam a história da filosofia?

Finalmente, Detlev Claussen, em artigo traduzido por Rodrigo Duarte, propõe-se a pensar a necessidade de uma teoria social que, na tentativa de conceituar Auschwitz, recuse a utilização da denominação genérica e mistificadora de Holocausto, que tende a “identificar” de forma genérica a essência desse acontecimento singular, assim tornando-o palatável e apropriável por uma indústria cultural especializada na produção de sentidos facilmente reconhecíveis e por isso apaziguadores. Além disso, Claussen reflete sobre a tarefa da teoria social de submeter à crítica os modos de atualização, através dos grandes meios de comunicação de massa, do que Fenichel chamou de “religião do cotidiano”.

Mais uma vez, os editores esperam que os textos aqui reunidos possam servir como suporte e estímulo para a reflexão de nossos leitores, os quais, assim esperamos, em breve poderão apresentar novas colaborações a esta publicação.

Na imagem da capa, o olho de Norman Bates acompanha a vizinha Marion Crane em Psicose [Psycho], de Alfred Hitchcock.