Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 5, n° 10 (2011)

Comemorando a sua décima edição em cinco anos de existência, a Revista Viso traz a seus leitores um conjunto de textos bastante singular. Em vez do primado de ensaios sobre obras de arte literárias que marcou as edições anteriores, neste número 10 chegou a hora de a música e o teatro ocuparem o proscênio, tendo o cinema como coadjuvante. Dentre os sete textos selecionados por nosso Conselho Editorial, três dedicam-se exclusivamente a questões filosófico-musicais – no Anel do nibelungo de Wagner, no Rap, e na assim chamada Vanguarda Paulista de Itamar Assunção, Arrigo Barnabé e do grupo Rumo; três às multifacetadas relações entre teatro e filosofia – no Macbeth de Shakespeare, no Gato de botas de Tieck e em Depois do filme, peça recentemente encenada por Aderbal Freire-Filho; e um à análise filosófica de uma obra de arte cinematográfica, o filme Cópia fiel, de Abbas Kiarostami. Se o conjunto de artigos é, quanto à temática e ao alcance, de fato bastante singular, é com alegria que constatamos que nenhum foge ao perfil editorial desses Cadernos de Estética Aplicada, que, após cinco anos de vida, parece encontrar cada vez mais profissionais da Filosofia (da Arte) dispostos a escrever ensaios sobre obras de arte específicas, em vez de simplesmente retomar ad infinitum os mesmos textos e temas tornados canônicos na história da Estética pensada como disciplina filosófica autônoma.

Quanto aos textos dedicados à música neste número, dois provêm de uma base teórica semelhante: dos estudos de Luiz Tatit sobre o primado da entoação sobre a melodia como tendência progressista da nossa música popular, afinada com o que há de mais contemporâneo nos desenvolvimentos da música do século XX e começo do XXI. Em seu artigo, de cunho mais teórico, Ivan de Bruyn Ferraz mostra de que modo a Vanguarda Paulista enfatiza a fala cotidiana, deixando a entoação da língua falada impregnar a melodia musical como resposta à necessidade de retomar o desenvolvimento da assim chamada “linha evolutiva da música popular brasileira”. Thiago Rodrigues, por seu turno, defende – contra Zuza Homem de Mello, que questiona o estatuto do Rap como canção – o fato de que essa manifestação musical ganha uma outra inteligibilidade quando pensada a partir da dicotomia entre a função da prosa e a da poesia tal como estabelecidas por Jean-Paul Sartre em Que é literatura? Segundo o autor, o Rap seria talvez o ponto culminante no movimento em que pode ser inserida também a Vanguarda Paulista, na medida em que, por privilegiar a função comunicativa que caracteriza a prosa segundo Sartre, “a canção pura é o rap, pois tem o essencial da canção que é a entoação” (Luiz Tatit).

Já o terceiro texto devotado à música nesta edição foi incluído na seção Polêmica, pois opõe polemicamente duas montagens contemporâneas do Anel do Nibelungo, de Richard Wagner: o Cólon-Ring, a ser encenado em Buenos Aires, que reduzirá pela metade a partitura original, enxugando-a de todas as repetições e excessos que o maestro Cord Garben considerou supérfluos e inconvenientes para plateias contemporâneas que não têm mais tempo a perder; e a montagem brasileira de apenas uma das peças do ciclo, A valquíria, dirigida por André Heller-Lopes em 2011 que, como mostra o autor do ensaio, se manteria muito mais próxima do espírito do original de Wagner. Segundo Vladimir Vieira, para além da puerilidade de uma interpretação que não enxerga a importância da repetição de certos motivos na ópera wagneriana, o que a montagem de Garben perde de vista é sobretudo o alcance filosófico do Anel, tão bem ressaltado por Heller-Lopes: se uma das linhas mestras do Anel seria justamente a crítica impiedosa daquela compreensão burguesa e produtivista do tempo que o transforma em dinheiro, em vez de transformá-lo em experiência, “enxugar” a partitura original de Wagner é agir francamente contra o seu alcance político-filosófico mais amplo.

O primeiro dos três textos dedicados ao teatro, escrito por Romero Freitas, mestre na escola da ironia, apresenta uma interpretação a um só tempo saborosa e tecnicamente consistente do conceito de “ironia romântica” como aparece na peça O gato de botas, de Ludwig Tieck, um dos principais expoentes do primeiro romantismo de Iena. Segundo o autor, a proposta do dramaturgo seria a de promover “um retorno adulto (portanto, crítico) às formas de pensamento e sensibilidade próprias da infância”, assim produzindo a “imagem da ‘criança irônica’, síntese impossível (mas necessária) do conto de fadas e da filosofia crítica”.

Já em sua interpretação do Macbeth, de Shakespeare, Theo Fellows constrói um rico panorama da filosofia do trágico produzida na Alemanha entre Schiller e Nietzsche como uma resposta à inadequação de Shakespeare às normas das poéticas neoclássicas com vistas a estabelecer, na parte final de seu artigo,uma série de diferenças entre as concepções do humano presentes numa tragédia clássica como Édipo rei e numa tragédia moderna como Macbeth.

Finalmente, em uma crítica escrita no calor da hora, que por isso integra a seção de Atualidades desta edição da Viso, Patrick Pessoa analisa a encenação de Depois do filme, peça escrita e dirigida por Aderbal Freire-Filho, na qual ele é também o único ator em cena. Isolando os elementos filosóficos e cênicos constitutivos da montagem, o autor mostra como Aderbal a um só tempo dialoga com pensadores tão heterogêneos quanto Paul Lafargue, genro de Karl Marx, os pré-socráticos Tales, Anaximandro e Heráclito e, na construção da posição do narrador dentro da peça, com os mecanismos auto-reflexivos usados por Machado de Assis na elaboração das Memórias póstumas de Brás Cubas, que, como a peça de Aderbal, teriam sido escritas contra o seu “pseudo-narrador”.

Fechando esta edição exclusivamente dedicada à estética aplicada, João Pedro Cachopo propõe uma interpretação do filme Cópia fiel, de Abbas Kiarostami, a partir de uma releitura do célebre texto A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, segundo a qual, contra o diagnóstico histórico-filosófico de Walter Benjamin, mesmo em um mundo dominado pela indistinção entre original e cópias, haveria ainda espaço para alguma modalidade de experiência aurática das obras de arte.

No fechamento deste número 10 da Revista Viso, que acaba de ser reavaliada pelo Qualis da Capes, alcançando uma nota um pouco mais condizente com o trabalho que foi realizado nos últimos cinco anos, o que os editores esperam é que venham outros dez números e mais muitos anos de vida para esta publicação que começa a garantir o devido reconhecimento nesse campo de estudos em franca expansão que é o da Estética Aplicada e o da Filosofia da Arte.

A imagem da capa desta edição mostra a atriz Carla Camurati no filme Cidade oculta, de Chico Botelho. Arrigo Barnabé, que compôs a trilha sonora, participou também como ator, co-produtor e co-roteirista.