Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 1, n° 1 (jan-abr/2007)

Em seu primeiro número, a Revista Viso traz oito artigos que, pela sua diversidade, contribuem não apenas para a difusão do conceito de estética aplicada em torno do qual surgiu esta publicação, como também para a reflexão sobre temas ligados à estética tradicional e à crítica de arte. A partir de uma abordagem que privilegia a análise de obras específicas, os quatro textos que integram a seção principal da revista procuram explorar as multifacetadas relações entre filosofia e cinema, filosofia e teatro, e filosofia e literatura.

No artigo que serviu de inspiração para a capa desta edição, Vladimir Vieira interpreta o filme “Cidade dos sonhos” (Mullholland Dr.), de David Lynch, à luz de princípios da estética kantiana. O autor sugere que a “Analítica do belo”, seção da Crítica da faculdade de julgar dedicada à categoria da beleza, ainda pode constituir-se como um fecundo ponto de partida para a reflexão sobre a arte contemporânea, afastando-se deste modo de uma certa tradição que só parece reconhecer a atualidade da “Analítica do sublime”.

“O deserto cresce: ai daquele que encobre desertos!” Tomando por mote o célebre aforismo de Assim falou Zaratustra, Pedro Hussak analisa a peça Dias felizes, de Samuel Beckett, a partir do conceito nietzscheano de niilismo. O autor procura mostrar que filósofo e dramaturgo respondem, em suas respectivas obras, a uma mesma questão chave da contemporaneidade.

Pedro Caldas, por sua vez, parte da noção de Bildung como elogio da imperfeição em Herder para indagar como este conceito pôde ser apropriado pelos nazistas para designar o seu ideal de pureza. Compara, em sua exposição, Goethe e Thomas Mann, de modo a mostrar ao leitor o que acontece quando um homem como o Gustav von Aschenbach de Morte em Veneza crê ter encontrado a perfeição, a Urpflanze que Goethe buscara em sua Viagem à Itália.

Em seu texto sobre as Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, Patrick Pessoa estabelece paralelos entre o clássico brasileiro, a Poética, de Aristóteles, a Teoria do romance, de Lukács, e a Retórica da ironia, de Wayne Booth, para defender a idéia de que a inteligibilidade do romance depende de uma consideração da tragédia da linguagem que serviria de fundamento à ironia trágica de Brás Cubas. O autor distancia-se, deste modo, das interpretações mais tradicionais que procuram fornecer um sentido último, filosófico ou ideológico, para a obra machadiana.

Na seção História da estética, única consagrada exclusivamente à “estética pura”, Luís Felipe Belintani Ribeiro e Luisa Buarque foram convidados a discorrer sobre a “estética de Platão”. A provocação embutida na proposta não escapou a nenhum dos dois autores, que, por caminhos diversos, se ocuparam em mostrar a necessidade de considerar o pensamento platônico para além da tradicional contraposição entre poesia e filosofia, entre estético e noético.

Na seção Atualidades, Marcus André Vieira emprega um fenômeno recente – a transformação do cadáver de um condenado à morte nos Estados Unidos em um corpo virtual que substituiria as dissecações de cadáveres reais – para discutir a noção de perda. Valendo-se de conceitos de Freud e Lacan, o autor termina por revelar paralelos insuspeitos entre a psicanálise e a arte.

Por fim, na seção Polêmica, Pedro Duarte apresenta uma instigante defesa do ensaio como forma filosófica por excelência que, em diversos pontos, harmoniza-se com a proposta editorial da Revista Viso. A natureza polêmica do texto, que o próprio autor desautoriza, pareceu evidente aos editores, dado que nosso convidado polemiza mesmo com o fato de seu artigo ser polêmico. Cabe ao leitor, em última análise, avaliar se a decisão de publicar o artigo nesta seção foi de fato acertada.

A imagem da capa desta edição mostra as atrizes Laura Harring e Melissa George, Camila Rhodes & Camila Rhodes, no filme Cidade dos sonhos [Mulholland Dr.], de David Lynch.