Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 9, n° 17 (jul-dec/2015)

Neste número 17, a Revista Viso inicia uma nova forma de organização de conteúdo. Trata-se de um volume temático, sob a responsabilidade de um curador, que propõe o tema e convida articulistas que sabidamente têm interesse no tema. Nem sempre será assim, mas a intenção é que a inciativa tenha seguimento. O número 17 é dedicado ao tema da narrativa. Foram convidados autores com sabido interesse por literatura de ficção ou pelas interseções entre filosofia e literatura. Sim, filosofia, pois todos os que participam deste número, sem que isso tenha sido exatamente premeditado, possuem um traço em comum: uma passagem ou permanência pelas searas da filosofia e, paralelamente, uma frequentação dos caminhos da literatura. O convite para escrever para esta edição da Viso trazia apenas o pedido para que fosse algo sobre “narrativa”. Cada um ouviu a seu modo. Boa parte dos artigos aborda uma obra escrita em particular, buscando ressaltar os efeitos de sua leitura. Os textos narrativos, como outras obras de arte, desejam ser continuados no discurso do outro, daqueles a quem se dirige, como já mostrava Walter Benjamin em seu trabalho sobre a ideia de crítica de arte dos primeiros românticos. Talvez nem todos aqui se sentissem à vontade com a palavra “crítica” denominando o que fizeram em seus textos. Mas se entendermos essa atividade não como a avaliação ou o julgamento das obras lidas, mas como o gesto de ressaltar um relevo ou uma virtualidade já contida na obra, talvez a palavra se torne mais aceitável. Crítica seria o ato de um leitor ressaltar o que está na obra e, ao mesmo tempo, o que de algum modo lhe diz respeito. O que de melhor pode fazer um leitor, para atender ao convite da obra para ser retomada e desdobrada, do que se sentir interpelado naquilo que mais lhe diz respeito, naquilo que encontra o eco mais forte na sua própria bagagem e nas suas experiências?

Além dos textos que falam a partir de uma narrativa, há também neste número, em quantidade ligeiramente menor, os que tentam falar a partir de discursos sobre a narrativa. Isto é, foram produzidos por quem escutou no convite uma oportunidade para pensar as próprias questões evocadas pela palavra narrativa, evocando discussões e referências textuais mais do campo da própria filosofia do que do da literatura. Questões sobre a relação entre os dois discursos distintos, o teórico e o narrativo, questões sobre a forma narrativa do discurso da teoria, ou sobre a relação entre as narrativas em geral e a experiência. Sendo estes os dois tipos de artigos que compõem o nosso número, falemos do primeiro tipo, e depois passamos ao segundo.

Os ensaios de Jeanne Marie Gagnebin e de Simone Brantes têm em obras de Kafka seus pontos de partida. Ambas, por caminhos e através de obras diferentes, falam do lugar estranho produzido pela narrativa kafkiana. Jeanne Marie o faz percorrendo algumas aporias da primeira recepção à obra do autor tcheco, e depois se centrando no conto “Preocupações de um pai de família”, mostrando durante sua análise vislumbres do lugar que somos levados a habitar quando entramos no espaço narrativo de Kafka. Um espaço impossível e necessário, nos quer mostrar o texto de Simone Brantes, através dos contos de Contemplação, primeiro livro do autor, e da história “A construção”, uma das últimas. O trajeto das personagens, para Simone, combina busca de autonomia e alienação na linguagem, ao mesmo tempo em que seria uma compreensão do lugar do poeta, do fazer poético, lato sensu.

Os textos de Marcela Oliveira, Izabela Bocayuva e Pedro Süssekind partem os três da Odisseia. Marcela e Izabela examinam Odisseu através do seu célebre traço da astúcia. A primeira mostrando a personagem como narrador de si mesmo no decorrer de sua própria história, retomando a relação entre narrativa e experiência, entre ardil e “verdade épica”, mostrando então no herói os traços da imagem do narrador. Já Izabela entrevê no bisneto de Hermes, olhado de certo ângulo, interseções com a imagem do filósofo. Analisando a cena da reaparição do herói para Penélope e também uma outra história por onde passa a personagem, contada por Platão no mito de Er, que fecha a República, a autora interpreta a reaparição de Odisseu e a escolha que ele faz ali. É também do Odisseu narrador que trata o artigo de Pedro Süssekind, dos momentos da Odisseia em que ele ou outras personagens, como Menelau, assumem a voz narrativa dentro da própria história. O artigo analisa recorrências e repetições nestas cenas de relatos dentro do grande relato e, remetendo a Adorno e Horkheimer, compara as temporalidades épica e mítica.

Além destes dois grupos de artigos (Kafka e Odisseia), temos mais três artigos claramente focados em alguma narrativa específica. O de Carla Francalanci se apóia em uma passagem de Hannah Arendt sobre o conto Billy Bud Sailor, de Melville. O seu foco inicial é o modo arendtiano de tomar a narrativa e as ações narradas em seu caráter de exemplaridade. Carla retoma elementos do tema da exemplaridade ética na literatura filosófica e adentra o conto, refazendo por conta própria o argumento e realizando a virtude da narrativa de dar a ver uma situação humana em sua singularidade exemplar. Luciano Gatti faz da análise do romance O inominável, de Beckett, oportunidade para, evocando Lúkacs e Adorno, recolocar questões históricas a respeito da constituição da forma romanesca no século XX, investigando a significância de temas tais como a identidade da voz narrativa e a relação do episódico com o conjunto. Pedro Caldas, em artigo que adota o tom de um relato pessoal de leitura, envereda pela narrativa A trégua, de Primo Levi, levantando indagações a respeito de uma possível forma aberta, sem desfecho ou transformações nítidas nas personagens ou no narrador, e introduz a noção de “variação experimental” para descrever um modo específico de construção temporal narrativa.

O outro grupo de artigos, menos ancorados em algum texto narrativo particular, retoma questões e configurações teóricas da literatura filosófica em torno do tema. O artigo de Marco Aurélio Werle reconstitui a leitura crítica que Hegel faz de Solger, o qual tem como pano de fundo a produção literária de diversas facetas formais de Tieck, Hoffmann, Novalis, Goethe e F. Schlegel. A leitura que Hegel faz do teórico da ironia romântica serve como oportunidade para Marco Aurélio tecer um painel da cultura estética literária alemã do século XVIII e sua relação com temas eminentemente narrativos como o romance e o drama. O artigo de Hélio Salles Gentil combina o mergulho na leitura de uma obra narrativa com a apresentação de uma teoria bastante abrangente da interação entre leitor e narrativa, a de Paul Ricoeur. A retomada dos traços principais da teoria do arco hermenêutico do filósofo francês é trazida para a vizinhança do romance As horas, de Michel Cunningham, que com suas camadas de personagens leitores elabora um entretexto com o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, que, por sua vez, é um dos romances sobre o tempo analisados em Tempo e narrativa. Gilvan Fogel tece um conjunto de reflexões sobre o entretecer e a interdependência de experiência, tempo, vida e palavra, na narrativa e na poesia, ou na poesia em um sentido geral. A palavra filosófica e a poética, narrativa ou não, seriam modos diversos (e de certo ângulo até opostos) de frequentação de gênese. Pedro Duarte faz uma aproximação entre a escrita filosófica e a ficcional através da noção de enredo. Hegel seria a culminação entre os edifícios sistemáticos da metafísica e da arte de narrar entendida como gesto totalizador. Mas a arte do ensaio, na direção do que Lukács, Benjamin e Adorno viram nesta forma literária, abriria uma nova janela para entrever outro parentesco profundo entre a arte de contar e um modo diverso de pensamento. Por fim, eu mesmo, Bernardo Barros, não quis ficar de fora, e compus um relato de minhas tentativas recentes de abordar as narrativas seriadas, tão à vontade nos nossos dias, pinçando dois exemplos, um do meio audiovisual, as séries, outro da tradição do romance, em uma obra contemporânea.

Fica à disposição dos leitores da Viso, então, um conjunto de artigos que, se não tem nenhuma pretensão de representar toda a categoria dos filósofos que pensam a narrativa no Brasil de hoje (claro!), fornece um panorama fiel do que alguns deles pensam e escrevem quando o assunto é esse. Desejamos a todos uma boa e divertida leitura!