Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 15, n° 28 (jan-jun/2021)

Este é o terceiro número da Viso que sai em meio à pandemia do coronavírus. Se o primeiro número saído na pandemia (26) ainda nos permitia talvez ingenuamente crer que aquele estado de exceção logo seria superado, o segundo número (27) já dava algumas mostras do cansaço de nossa comunidade, que submeteu um número de artigos para avaliação pelo nosso corpo editorial menor do que o usual. Já este novo número, um dos mais magros na história da nossa publicação, dado o número muito mais baixo do que o usual de textos submetidos, revela o nível de exaustão a que todos chegamos com o isolamento social. Mais do que isso, revela o quanto o pensamento (especialmente o pensamento orientado pela crítica e a fruição de obras de arte) depende da alegria do corpo. Na atual situação de calamidade pública vivida pelo país, entretanto, como editores só nos resta resistir. E tentar arrancar alguma alegria das garras do mais profundo sofrimento. Para o pessimista Schopenhauer, aliás, essa seria a única alegria verdadeira.

Tendo como pano de fundo estes nossos tempos sombrios, este número 28 conta com duas resenhas e quatro artigos inéditos.

Diogo Gurgel, nosso colega no Departamento de Filosofia da UFF, nos brindou com a resenha de um livro sobre o grande poeta Wallace Stevens publicado em inglês. Comentando as inúmeras contribuições que compõem a coletânea de maneira meticulosa e erudita, o autor organiza uma discussão das mais interessantes em torno das possíveis relações entre poesia e filosofia. Dado todo o seu percurso como pesquisador estudioso das metáforas, sua resenha enfatiza especialmente a questão do estatuto ontológico (ou não) das metáforas, apresentando leituras não raro contrastantes da posição do poeta-filósofo que foi Wallace Stevens no âmbito desse debate.

Já Imaculada Kangussu, a querida Leka, nossa colega há mais de uma década no GT de Estética da ANPOF, redigiu uma resenha curta sobre a nova edição do Discurso sobre o colonialismo, de Aimé Cesaire, uma das obras mais importantes do pensamento decolonial. Em sua resenha, a autora recupera algumas das linhas de força do livro, sobretudo a identificação entre a colonização e o processo de incivilização, entre o colonizador e o bárbaro alienado de si mesmo, para convidar os leitores a comprarem essa edição que conta com a inestimável contribuição das ilustrações de Marcelo De Salete. Nesse ensaio de uma filosofia radical em quadrinhos, torna-se evidente que há muitos modos de nos acercarmos das questões filosóficas e sociais mais urgentes de nosso tempo, como a questão das lutas antirracista e decolonial.

O ensaio de Rafael Zacca sobre a poesia de Leila Danziger, professora da UERJ e renomada artista visual, aproxima o percurso da artista de alguns temas em Walter Benjamin, especialmente o da apocatástase, que o próprio Benjamin extraiu da obra de Orígenes de Alexandria. Nas palavras de Zacca, “a apocatástase materialista de Benjamin levanta a hipótese de que todos os fenômenos do mundo aguardam a sua redenção, a sua reunião redentora em outra configuração. Na poesia de Danziger, o desejo é a técnica que possibilita esse rearranjo – ainda que temporário, ainda que no lampejo do instante”. Essa articulação entre salvação e desejo parece urgente nos tempos que correm.

Já o texto de Fernanda Maffei Moreira e Tom Menezes Pedrosa propõe uma interpretação do filme Volver, de Pedro Almodóvar, à luz do pensamento feminista de Simone de Beauvoir, e mais especificamente de sua leitura da dialética do senhor e do escravo em Hegel. A ideia central do texto é a de que “Almodóvar parece trazer à luz um mundo em que o homem passa a ser o ‘segundo sexo’, assim dinamitando uma compreensão hegemônica da mulher como o Outro, a figura marginalizada pela cultura masculina dominante.

Em texto erudito sobre o pensamento estético de Barnett Newman, Sulamita Fonseca Lino posiciona o artista norte-americano dentro de uma discussão em torno das diferenças entre o belo e o sublime que remonta ao Enquiry de Burke e mesmo a Longino. O texto frisa como a primeira visita de Newman ao Louvre, quando ele já era um artista reconhecido, foi uma espécie de ensaio sobre os prenúncios do próprio Newman na história da arte. “Quando ele vê a pintura dos mestres no Louvre como manchas e composições”, escreve Lino, “ele não está apenas afirmando que seu olhar sobre o mundo é abstrato, mas está reconhecendo ali o pacto desses artistas com manifestações da beleza. [...] Newman reforça a defesa pela pintura do sublime, mas parece ser possível afirmar que seu compromisso é com a destruição da beleza”.

No ensaio intitulado “Wittgenstein e o problema da música em Investigações Filosóficas”, Vitor Leandro Kaizer desdobra a seguinte questão: “Em que exatamente se assemelham a compreensão de um enunciado linguístico e um tema musical?” Para demonstrar a analogia entre a compreensão de um enunciado linguístico e a de um tema musical segundo Wittgenstein, o autor analisa dezoito compassos da Sonata para piano n. 11 em A maior, KV 331, intitulada Tema e variações, do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791).

Os editores da Viso desejam a seus leitores uma boa leitura deste número 28, mas desejam sobretudo que o número 29 já seja publicado após o fim da pandemia de coronavírus, o que, diante do atual governo, infelizmente ainda parece um desejo quase irrealizável.

A capa desta edição é baseada na personagem Irene, interpretada por Carmen Maura no filme Volver, de Pedro Almodóvar.