Viso: Cadernos de estética aplicada
v. 13, n° 25 (jul-dez/2019)

Ao contrário do que vinha ocorrendo nas últimas edições, em que diferentes formas de arte compareceram com maior equilíbrio numérico, neste número 25 da Revista Viso há uma preponderância quase absoluta da literatura; e, em segundo lugar, do teatro – mas do teatro pensado eminentemente como gênero literário, e não como cena. Além dos sete textos que compõem a seção principal, há duas seções especiais: Tradução, em que apresentamos dois textos inéditos em língua portuguesa de Walter Benjamin, cuja obra recentemente caiu em domínio público; e História da estética, uma seção que marcou os primeiros anos da história destes Cadernos de Estética Aplicada, mas que há muito não tínhamos o prazer de publicar.

Na rediviva sessão História da estética, Cezar Migliorin parte de recortes bastante pessoais de diversas obras de Deleuze (especialmente daquelas escritas em colaboração com Guattari) e apresenta ao leitor uma interpretação do estilo do(s) autor(es), que persegue um acontecimento que não se deixa fixar. Como consequência dessa interpretação do momento produtivo (literalmente poético!) do corpus deleuziano, o autor dá preciosas sugestões para quem pretende se acercar desses escritos, não para neles encontrar a “representação de um saber”, teses e argumentos, mas sim uma experiência de amizade, na qual afetos e sensações, assim como a capacidade de divagar e produzir associações sempre novas, são muito mais fundamentais do que a interpretação como mera decifração de sentido(s).

Na sessão Tradução, temos a alegria de apresentar às nossas leitoras e leitores dois pequenos e pouco conhecidos textos de Walter Benjamin, escritos provavelmente entre 1915 e 1916, na mesma época de seus seminais estudos sobre Hölderlin. Esses textos ficaram perdidos por muito tempo, até que, em 1970, Gershom Scholem encontrou um deles, intitulado “O arco-íris ou a arte do paraíso”, seguido de uma série de “Aforismos sobre o tema”. Já em 1977, foi a vez de Giorgio Agamben encontrar outro desses textos, escrito em forma de diálogo, intitulado “O arco-íris: conversa sobre a fantasia”. Além de revelarem as questões levantadas pelo jovem Walter Benjamin em torno da fantasia e da cor, essas duas joias, que aqui comparecem em tradução de Fernando Bee Magalhães, revelam outras formas de escrever filosofia praticadas pelo filósofo quando jovem, mas que virtualmente desaparecem de sua obra madura. A que se deveria esse desaparecimento?

Na seção principal da revista, o primeiro dos três textos que abordam uma obra literária é assinado por Claudia Drucker. A autora parte de uma análise detalhada do segundo romance de Paulo Lins, Desde que o samba é samba, que se segue imediatamente ao sucesso de Cidade de Deus, para propor uma reflexão em torno das multifacetadas relações entre as vanguardas modernistas brasileiras e os pais do samba como gênero musical. Afinal, é sabido que nomes como Mario de Andrade e Manuel Bandeira frequentaram a famosa casa da Tia Ciata, segundo muitos o berço do samba carioca. Drucker, porém, defende uma hipótese de leitura até certo ponto pouco afinada com a proposta de Lins. Segundo ela, “a reinterpretação dos fatos que Lins apresenta é um tanto anacrônica, quando faz os sambistas do Estácio se autocompreenderem como artistas neoafricanos e por isso brasileiros, assim como atribui um pluralismo artístico aos modernistas pioneiros que os faria aceitar os sambistas em pé de igualdade como criadores”.

Já Juliana Fausto propõe uma leitura de Frankenstein (1818), de Mary Shelley, chamando a atenção para suas figuras femininas ou feminizadas e dissecando o modo como são construídas. Em diálogo com autoras e autores como Halberstam, Mellor, Riskin e Haraway, ela mostra que “é possível que a monstruosidade feminina ou feminizada que se recusa a se tornar plenamente humana, escapando sempre das tentativas de sua pacificação, possa ser uma chave privilegiada de leitura” da obra em questão.

O ensaio escrito em parceria por Renata Pucci, Luiz Carlos Andrade de Aquino e Bruno Pucci é um radical exercício de imersão nos mínimos detalhes e inflexões formais do conto “Buriti”, de Guimarães Rosa. Em interlocução com as reflexões de Theodor Adorno e com estudiosos do escritor mineiro, entre os quais José Maurício de Almeida e Luiz Roncari, o artigo refaz uma série de “com(tra)posições estético-filosóficas de Rosa” que dão a suas leitoras o desejo de ler imediatamente o conto. Trata-se de exercício de “estética aplicada” no sentido em que os editores deste periódico a entendem: não como a aplicação de filosofemas já existentes e de uso disseminado a uma obra de arte, mas sim como escuta atenta aos detalhes aparentemente mais periféricos de uma obra, na qual se revela toda a sua complexidade e a sua torção de quaisquer conceitos filosóficos previamente existentes.

Pedro Telles, em artigo escrito em inglês, serve, neste número 25 da Viso, como uma espécie de transição entre os textos dedicados exclusivamente a obras literárias e textos dedicados a outras formas de arte. Partindo de um romance de Don DeLillo, Falling Man, no qual um personagem discute a obra de Giorgio Morandi e se pergunta pela causa da dificuldade de se representarem artisticamente eventos históricos traumáticos – a questão decisiva da (im)possibilidade de representação do irrepresentável! –, o autor dialoga com autores como Koselleck, Rancière e Barnett Newman para propor que os assim chamados “anti-monumentos” – dos quais o artigo oferece vários exemplos – não seriam uma forma de negar a representabilidade do trauma, mas, antes, de combater a sua representação banalizada.

Em artigo que de algum modo dialoga com a reflexão de Pedro Telles, Ricardo Nachmanowicz propõe um ambicioso panorama dos usos do conceito de sublime como chave conceitual privilegiada para se pensar a arte contemporânea. Tomando por referência a sociologia de Pierre Bourdieu e a historiografia de Carlo Ginzburg e Reinhart Koselleck, o autor analisa as duas primeiras ocorrências dessa tentativa de aliança entre o sublime e a arte contemporânea: (1) um ensaio de Barnett Newman e (2) um artigo de Jean-François Lyotard. O resultado de suas análises demonstra diferenças sensíveis entre os dois autores. Segundo Nachmanowicz, Newman disporia de uma construção criativa e independente de uma ambição metódica para o alcance de uma verdade, produzindo uma estética particular à sua produção artística. Lyotard, por sua vez, disporia de um método heterogêneo e visaria com ele à construção de um conhecimento verdadeiro sobre a arte e a criatividade humana, com o auxílio de juízos associativos, de postulados anistóricos e com a universalização de conceitos.

No primeiro dos dois artigos dedicados a análises detalhadas de obras teatrais canônicas, Daniel Gilly propõe uma abordagem pormenorizada de Fim de partida, de Samuel Beckett. Comparando a peça com diversas outras obras do autor, inclusive com sua trilogia do inominável, Gilly propõe uma leitura que serve de chave para boa parte da produção beckettiana. Segundo ele, em Beckett, “o sujeito não é mais o centro deste drama situado no contexto do capitalismo tardio, não pode ser o seu tema e nem o seu catalisador, mas nele existe somente como resíduo das relações de produção vigentes. A compreensibilidade da peça teatral, que só seria possível se mediada pela existência desse sujeito capaz de conferir sentido para uma dada situação, fica comprometida na medida em que esse sujeito não pode mais ser suposto como uma essência racional do humano, mas como produto da história”. Muitas consequências podem ser tiradas desse postulado, mas a mais interessante é aquela que nasce de uma comparação entre Hamm e Ahab, a personagem de Beckett e a personagem de Melville. Seguindo os passos de Coetzee, a tese central do ensaio é provocadora: “Ahab vai prosseguir até atravessar, ou ser atravessado, por esta outra inteligência, uma que reconhece como estranha e que é aparentemente impenetrável. Onde Hamm vê um limite intransponível, Ahab vê a possibilidade de um pensamento e um sentido que não se reduzem ao mero raciocínio lógico e que por isso não podem ser sistematizados e compreendidos pela razão pura. Ahab lança seu arpão contra a baleia, e a grande parede branca sangra diante dos olhos de todos”.

Fechando esta edição, o ensaio escrito em parceria por Mateus Masiero e Newton Pereira Amusquivar Jr. tem por objetivo mostrar que Nietzsche compreendia Hamlet como uma tragédia dionisíaca moderna. Tem também o objetivo de propor uma leitura da peça de Shakespeare a partir dos conceitos presentes na mencionada obra nietzschiana. Concluindo a sua minuciosa reconstrução da tragédia shakespeariana, os autores afirmam: “Acreditamos poder sustentar que o príncipe da Dinamarca, através de seu fazer artístico, supera o estado de náusea em que esteve submerso ao longo da tragédia. Não podemos desconsiderar que Hamlet é um homem de teatro: escreve, dirige, atua; é autor e intérprete de seu próprio espetáculo, o qual se encontra dentro da peça escrita por Shakespeare. E sendo ele um homem dionisíaco, como Nietzsche atestara, o que ele encontra ao final do caminho percorrido é exatamente aquilo que é apontado pelo filósofo alemão: o consolo metafísico propiciado pela arte, o mesmo que na Grécia Antiga salvava a vida da náusea negadora da vontade, causada pelo conhecimento da verdade”.

Sim, leitoras e leitores deste Brasil em fins de 2019, não é pouca coisa encontrar consolos que salvem a vida da “náusea negadora da vontade”. Que os nove textos aqui reunidos nos ajudem nesta difícil tarefa. Axé para todes nós!

A imagem da capa desta edição é baseada no clássico Frankenstein, de James Whale.