Gênio, etc
Ricardo Basbaum

Como falar e o que falar do “gênio” nos dias de hoje, em pleno despertar do século XXI? Estamos no início de um novo período, tão cheio de promessas como de catástrofes – parece que se vislumbra o início do fim da humanidade, tantos os relatos que já possuímos dos possíveis acidentes vindouros; ou será que se trata do final de um período repleto de belas conquistas e o início de uma etapa incerta repleta de transformações radicais indicadoras de outros modos de pensar e sentir, de estabelecer contato e se relacionar? Qualquer exercício de futurologia somente faria sentido enquanto ficção – tentativa de invenção, gesto iconoclasta, projeção de si mesmo e conjunto de desejos; mas isso não interessa aqui, agora.

Ao querer desenhar contornos em torno da imagem da genialidade, temos a expectativa de trabalhar ao redor de pontos nodais, fundamentais em sua influência junto ao coletivo – localizar sujeitos (modelos de subjetividade) que construíram modos de atuação que se revelaram decisivos ao seu tempo, deixando marcas, indicando mudanças. Indivíduos com certo grau de exemplaridade – mas cuja marca é a singularidade – excessivos no que se refere ao modelo-padrão em relação ao qual se colocaram em movimento, em dinâmica. Há aí em jogo – para além do anedótico – um modelo de artista, um dispositivo funcional de atuação que está sendo posto em ação. A imagem do gênio é assim a daquele ou daquela que desempenha um papel proeminente qualquer, causando surpresa, assombro, constituindo-se como veículo para algo mais além do mediano, do convencional e do normal.

Em sua abordagem mais tradicional, a figura do “gênio” remete ao encontro direto com Deus, à possibilidade de representá-lo, figurá-lo, encarná-lo aqui na Terra, trazendo-o para o dia-a-dia ordinário: aquele capaz de tal proeza não a realiza simplesmente por querê-la ou por dominar um conjunto de técnicas reveladoras de tal possibilidade; não se trata de escolha, esforço, mas de dom, algo trazido de outro lugar e com o qual já se nasce; é-se escolhido para tal tarefa. Há aí a posição de destaque, a habilidade máxima, o dom absoluto de produzir o belo tal qual a presença de Deus aqui, entre nós. Michelangelo seria o paradigma de tal personagem, aquele iluminado pela extraordinária capacidade artística – sendo o Renascimento o momento propício para o florescimento de tal modelo de subjetividade ao mesmo tempo humana e divina, uma vez que ali os contornos de uma materialidade corpórea finita (que se aventura então na construção de dispositivos técnicos autônomos como ferramentas de emancipação e construção de modelos) se encostam junto ao culto do divino. A mistura é única e só ali, naquele momento, parece acontecer – na relativa clareza de dois campos que se tocam e se combinam em mistura recíproca, em estudo mútuo – o que já se configura como fundamental conquista de espaço de ação e pensamento. A invenção da perspectiva é notável como dispositivo técnico autônomo, maneira de pensar sem Deus; mas ali a arte é que configura a ponte, efetiva a conexão entre o céu e a terra.

Momento diferente já se coloca para Goethe: em sua obra Os sofrimentos do jovem Werther há a indicação de uma subjetividade que se percebe ampla e potente, repleta de sensações e desejos, plena enquanto propositora de jogos de significação de si e da natureza ao seu redor – tudo é intensidade e reverberação; mas pouco é troca e comunicação. Inventa-se certa aventura nos abismos do sujeito, em que se usufrui de espaço inédito de interioridade; mas o caminho se constitui sem saída e se esvai no gozo de si para si. A construção de tal espaço de interioridade se revelará decisiva para o século XX, à medida que instrumentos de troca intersubjetiva vão sendo consolidados – como, por exemplo, a obra de arte, instrumento para uma fala pública e compartilhamento coletivo. Aqui se inicia o aprendizado da diversidade das sensações, a polifonia da alteridade a atingir o corpo por todos os lados, envolvê-lo em ambiência e dinâmica próprias. O panteísmo que então se coloca é índice de que a conversa agora deve se fazer múltipla, entre muitos sujeitos – espécie de finalidade coletiva.

De um salto, seguimos para Marcel Duchamp: talvez ninguém jamais tenha com tanta astúcia desempenhado o papel de “estar à frente de seu tempo”. O francês age com folga em espaço de atuação aberto à custa de um conjunto de gestos claros e precisos – mas não menos provocadores e desterritorializantes. Tratava-se de operar por antecipações, produzir imagens desconcertantes que não se deixavam tomar por apreensões fáceis, zelar por certa construção de dispositivos públicos de atuação e construção de si, não se expor totalmente, compondo cautelosamente um espaço de reserva, região de sombra (mas não de intimidade) cuidadosamente configurada como área de livre movimentação, para além de um consumo público imediato. A imagem do artista não foi mais a mesma: sem necessidade da profundidade romântica, é construída uma subjetividade sensível que funciona aos olhos do outro, produz efeitos – sedução através do cultivo de uma retórica particular; exercício de escuta em sincronia com cada próximo e decisivo passo; ritmo impecável de atuação.

Mais próximo de todos nós, tanto geográfica como temporalmente, Hélio Oiticica desafiou convenções em sua breve e intensa aventura no campo da arte. Como já foi apontado, HO é um dos poucos artistas a efetivamente realizar em vida a travessia entre a arte moderna e a contemporânea – e isso tem um custo de intensidade e envolvimento, que ao fim lhe é cobrado: o corpo não aguenta tal vertigem temporal, não é simples provocar o tempo histórico no sentido de trazê-lo para o ritmo ordinário da vida, e ao mesmo tempo fazê-la operar em uma grandeza que lhe escapa, que deve ser atribuída de fora. HO pretendeu organizar uma quase-impossível economia do viver que só poderia existir em êxtase e vertigem, aceleração absurda e forte, gravitação de intensidade além do solo de fixação das coisas. A obra obsessivamente organizada e catalogada pelo artista parecia inesgotável frente ao seu precoce desaparecimento – sempre um novo texto, projeto ou proposição parecia poder despontar a qualquer momento: ilusão que infelizmente desaparece tragicamente sob as chamas de um incêndio casual, mas cujo sentido poético parece se fazer assombrosamente claro. Afinal, existem obras de artistas que jamais entrarão em combustão espontânea, pois lhes falta combustível, inquietação potencialmente inflamável. Mas este não era o caso, aqui: poética de puro fogo, quase se tem a impressão de que o artista retorna para semear nova inquietação a um trabalho que vinha sendo assimilado no limite da perda da construção de valor, à revelia da radical poética que a gerou. E agora, quando se perde algo da materialidade simbólica original – e são destruídos preciosos cadernos de anotação cujo conteúdo jamais será conhecido – resta a força imaterial das propostas, às quais urge restituir a radicalidade de sua intervenção. Tarefa coletiva.

Um gênio precisa estar morto? Hoje, qual o gênio que em plena atividade, na força de sua atuação, revela a inquietação e o excesso, deixando marcas de sua passagem e presença no ambiente coletivo? Que fique claro: “gênios” não há – ninguém exerce o privilégio de se ver frente a frente com Deus, trazendo para cá qualquer perfeição. Percebem-se os traços e efeitos de uma construção, de atuações cuidadosamente conduzidas e cientes do enfrentamento dos limites de seu tempo – além de sorte, acaso, aleatoriedade, sempre portadoras de uma necessidade de escuta. Entretanto, produções contundentes são necessárias para reconfigurar contornos do previsível e estabelecer horizonte diferenciado de atuação. O quadro da atualidade oferece muitas complicações: ficar apenas no âmbito dominante de referências propostas pela mídia, por exemplo, é de saída perder o ritmo de tal jogo (o índice de provincianismo de uma cidade pode ser medido pelo painel de informação disponível: o Rio de Janeiro aí sucumbe, refém de um único periódico diário, prisioneiro da importância dada às colunas sociais); seria preciso desde logo desviar-se da obviedade, compreender a imposição dominante de determinada pragmática e perceber como as propostas artísticas aí se reorganizam, com todas as dificuldades. Impõe-se forte diplomacia, regrada pragmática, composições com o tecido de compartilhamento de informação, atuação em rede, compreensão do novo regime econômico globalizante, etc – também o tecido financeiro e corporativo parece como nunca querer agenciar as poéticas desviantes da norma (mas a que custo, com qual compromisso, em troca de quê?). Por aí deslizarão as imagens de genialidade na configuração da atualidade, assim tão demarcada pelos signos da eficiência? Curioso e importante será também compreender o valor das regiões de sombra, aquém das superfícies de registro, perceber que processos se multiplicam em espaços não-dominantes. Mas parece ser patético delinear um quadro de espera do “gênio”, a vir redimir a cena presente em suas inúmeras clausuras – não, nada disso interessa. O mais fascinante de qualquer presente – sua singularidade, seu potencial – residiria exatamente em sua dimensão ordinária, cotidiana, banal (vocábulo tomado como antípoda ao “genial”): alguém, qualquer um, uma coisa qualquer. Pois assim o valor tem que ser produzido, negociado, trazido para o presente, destituído (na medida do possível) de preconceitos. Há que combinar cautelas e cuidados e estabelecer negociações – precisar a materialidade das lutas. Ou, enfim, basicamente compartilhar inquietações em regime de proximidade, construindo as necessárias alianças (sobretudo afetivas) que permitem a continuidade da vida. Como foi dito no início, “qualquer exercício de futurologia somente faria sentido enquanto ficção”. Por isso, seria melhor parar por aqui – ou anunciar o início de um novo capítulo, para aflição do ouvinte ou do leitor. Mas não tomarei tal caminho. Hoje, agora, paro por aqui.

* Ricardo Basbaum é artista, crítico de arte, curador e professor do IA/UERJ.