Tropa: debate de elites
Paulo Hamilton

Antes de começar, que fique muito claro o seguinte: o autor deste texto não é escritor, nem acadêmico. Sua arte é outra, a de representar. Ocorre que, como participou do filme mais polêmico já feito no Brasil, não pôde se recusar a defendê-lo num debate sobre ele. Não leia o texto pensando que irá encontrar uma justificativa estética de alta qualidade, apoiada em pensadores e estetas da história da arte. O que se vai ler é apenas uma opinião de alguém que vive da arte e que a considera fundamental. E de um artista que se orgulha muito de ter participado deste filme.

Tropa de elite já se tornou um marco do cinema nacional. Nunca um filme causou tanta polêmica, seja pelo seu conteúdo, ou pela pirataria que o colocou nas manchetes dos jornais antes mesmo de estrear nos cinemas. O longa de José Padilha foi tema obrigatório de qualquer conversa de botequim, de debates acalorados das classes mais baixas às mais altas elites brasileiras. Talvez nunca uma obra de arte tenha possibilitado um debate entre o dono da empresa e o mais humilde faxineiro. Todos viram o filme e têm uma opinião sobre ele. De norte a sul do país, o filme foi festejado ou odiado, mas sempre muito comentado.

Há quem diga que a arte não tem uma função, uma razão de existir. Há quem diga que ela serve apenas para a diversão, para o entretenimento; há aqueles que vêem na arte uma forma de contestação dos valores da sociedade de cada época; há outros que pensam que ela deve ser um veículo para expressar uma nova forma de ver o mundo, ou de expor as mazelas sociais e a injustiça do homem com sua própria espécie. Há quem ache que ela deve provocar o debate. Como artista não sei exatamente qual é a função da arte (há toda uma filosofia para discutir o tema), mas sei que Tropa de elite cumpre todos os requisitos mencionados acima. É um filme que entretém, que denuncia, que faz pensar e que estimula o debate.

A primeira polêmica em torno do filme se deu antes mesmo de ele estrear nos cinemas. Como ator de Tropa de elite, lembro-me da primeira vez que alguém me abordou na rua falando do meu personagem, o Soldado Paulo. Um “flanelinha” da rua do Catete, sorrindo, disse-me a frase que ouviria muitas e muitas vezes depois: “e então, tem ou não tem carburador?” Estupefato, indaguei ao homem onde ele tinha visto o filme. E ele, surpreso com a minha ignorância, disse que tinha pegado o filme emprestado de um amigo, e que todo mundo na vizinhança dele já havia visto também. Inclusive, acrescentou, “VAI PASSAR NA TV A CABO DA FAVELA!”

Este foi só o primeiro susto. Nas semanas que se seguiram, me acostumei a ser reconhecido pelas pessoas, principalmente as de classes sociais mais baixas. Flanelinhas, porteiros, jornaleiros, camelôs, caixas de supermercados, entregadores de pizza, seguranças e, claro, policiais. Aproximadamente um mês depois, O Globo noticiava o fenômeno que estava acontecendo com um filme que nem havia sido lançado e já era um dos mais comentados do cinema nacional. A partir daí, amigos começaram a me contar que haviam visto o filme, vizinhos meus também me cumprimentavam e parentes ligavam para me felicitar. A pirataria havia subido de classe. Das mais baixas para as mais altas, o brasileiro mostrava que não dava a mínima para a legalidade. Até um amigo que mora na Espanha me ligou para dizer que lá também todos os brasileiros já haviam visto Tropa de elite, e que ele “tirou a maior onda porque era meu camarada”.

Curioso isso acontecer com um filme que fala de corrupção, de moral, de certo e errado. Sintomático. Num país onde se reclama o tempo inteiro das maracutaias dos políticos, fala-se nos jornais e nas rodas familiares da corrupção como um mal a ser extirpado, todo mundo, quando pode, dá o seu jeitinho. Todo mundo dá um dinheirinho ao PM para escapar de uma multa. Todo mundo vê um filme pirata sem o menor constrangimento.

Dizer que isso é um fenômeno natural e que os direitos autorais tendem a desaparecer, etc., como quis dizer nosso Ministro da Cultura, é uma outra discussão. O fato é que é ilegal comprar um filme pirata que foi roubado antes mesmo de ficar pronto. Há todo um mercado criminoso que trabalha com a pirataria. Era curioso ouvir, dos lábios de quem havia comprado o filme num camelô, a exaltação da tese do Capitão Nascimento de que o culpado pelo tráfico é o consumidor de drogas ilícitas. Dava vontade de gargalhar.

Tropa de elite é fascista? Essa pergunta foi colocada na ordem do dia, por todo um grupo de intelectuais que se sentiu atingido pela suposta moral do filme. Primeiramente, vamos entender o que eles querem dizer com o termo: Tropa de elite seria fascista porque apresenta como narrador um policial que tortura suspeitos para conseguir informações, que mata sem o menor escrúpulo aqueles que julga desonestos e, finalmente, que culpa o usuário de drogas pelas mortes e pela violência que o tráfico acarreta. E, pior ainda, Tropa de elite transforma esse policial num “herói”, aplaudido aos gritos nas salas de cinema e com incontáveis comunidades criadas no Orkut em sua homenagem.

Para começar, quem disse que o filme coloca o Capitão Nascimento como herói? O filme é narrado a partir do ponto de vista dele, o que é uma coisa bem diferente. Não me recordo de outro filme na história do cinema brasileiro que tenha sido feito sob a ótica de um policial. Há incontáveis filmes sobre os criminosos, filmes que contam suas histórias e suas formas de ver o mundo. Lucio Flávio, O bandido da luz vermelha, Lili Carabina, O homem do ano, Madame Satã e tantos outros mostram o ponto de vista ou a história dos fora-da-lei. Por que no Brasil não havia nenhum filme contando a história de um policial? José Padilha quis fazer este filme. Documentarista que é, escolheu fazer do seu primeiro longa de ficção o testemunho de um policial sobre seu mundo. E o que assusta e incomoda no filme é exatamente perceber como pensa o “bom” policial carioca. A elite da polícia do Rio de Janeiro tortura culpados e inocentes, mata sem julgamento traficantes ainda adolescentes, invade a casa de moradores de comunidades pobres sem mandado judicial, ou mesmo sem qualquer acusação. O Capitão Nascimento toma remédios para não enlouquecer, zomba de um aluno que ficou surdo num curso comandado por ele e tortura uma jovem que não cometeu crime algum apenas para obter informações que lhe interessam para sua vingança pessoal. Como um filme que mostra essas cenas pode fazer do Capitão Nascimento um herói? Se o público brasileiro acha que ele é um herói, a culpa não é do filme e sim do público. Como diz Arthur Xexéo no título de seu artigo sobre o filme, “o chocante é a platéia”.

É claro que culpa aqui talvez seja uma palavra muito forte. A verdade é que a população das grandes cidades brasileiras vive em permanente estado de tensão. Os mais afortunados moram enjaulados em seus prédios e condomínios, cercados de seguranças, alarmes e muitas grades. Dirigem seus carros amedrontados com a possibilidade de uma moto encostar ao lado e anunciar um assalto. Os mais pobres, moradores de favelas e conjuntos populares, sofrem a violência diária e ostensiva tanto do tráfico quanto da polícia. Para estes existe, além do medo, a coerção diária do traficante armado que está em sua esquina e exige respeito e submissão, e do policial que o revista na subida do morro, sem o menor respeito ou motivo e ainda invade seu barraco quando bem entende, seja para procurar um bandido ou para interrogar sua família. É claro que isso não justifica nada, mas pelo menos ajuda a entender a reação de ódio de parte do público que aplaude as técnicas do Capitão. E, obviamente, ajuda a entender que a polícia que temos também é produto da sociedade que somos.

Além da suposta transformação de Nascimento em herói, outro ponto que sensibiliza boa parte dos detratores do filme é a tese defendida pelo Capitão de que o culpado pela violência do tráfico é o usuário. Essa, ao meu ver, é uma tese perigosa que está contando em boa parte da sociedade com o apoio, inclusive, de propaganda oficial. Não concordo de modo algum com essa afirmação. Acho que, num nível mais profundo, a “culpa” é de quem proíbe que alguém faça consigo mesmo o que bem quiser. A humanidade sempre usou drogas e isso não mudará jamais. Faz parte de ser humano. De qualquer forma, em todos os países do mundo há tráfico de drogas, porém em nenhum deles – incluindo os subdesenvolvidos – encontram-se em pleno território urbano traficantes de drogas que exibem fuzis e controlam partes da cidade. Por que só no Brasil e, particularmente, no Rio de Janeiro é que isso acontece?

Apesar de acreditar que o usuário é o culpado pela violência do tráfico, o próprio Capitão Nascimento aponta que o verdadeiro problema é a corrupção do sistema. Logo no início do filme, vemos um bando de policiais desonestos vendendo armas de grosso calibre para os traficantes, e a primeira parte inteira de Tropa de elite é dedicada a mostrar como funciona a polícia carioca. E como dois aspirantes honestos e com as melhores intenções acabam de alguma forma caindo no vício da corrupção, mesmo que seja para afrontá-la. O sistema é cruel com quem a ele não se submete. Seja com os dois aspirantes que tentam confrontá-lo ou com o pobre soldado honesto, meu personagem, que se recusa a subornar um sargento para obter o que é seu de direito e acaba punido por isto. Não há saída para a polícia carioca. O sistema é podre.

O Capitão Nascimento também tem consciência de que é produto de um sistema preparado para a corrupção, um sistema que “coisifica” o homem, transforma em objeto o bandido, o morador da favela e o próprio policial. Tanto é assim que o principal objetivo de Nascimento é sair do BOPE. Os policiais corruptos são desumanos porque pensam somente em seu próprio benefício. Chegam a vender para os traficantes armas que serão usadas contra eles mesmos. Os policiais de elite, honestos, corajosos, são transformados em monstros sanguinários que não tem o menor respeito pela vida humana. O curso do BOPE é uma fábrica de assassinos como qualquer curso de tropas de elite em qualquer exército do mundo. Ocorre que, no Brasil, este batalhão é usado no contato com civis, com moradores de favela.

O filme mostra como o Capitão Nascimento consegue transformar o Aspirante Mathias num monstro. Um rapaz doce e cheio de boas intenções não pode ser um bom policial. O Capitão, utilizando-se da dor pela perda de um amigo do rapaz, o ensina a torturar e a matar com requintes de crueldade. O fim do filme marca a transformação de Mathias: de um rapaz com sonhos e boas intenções, emerge um monstro capaz de atirar no rosto de um traficante. Nascimento encontrou seu substituto. Como diz Jurandir Freire Costa em seu artigo sobre o filme, “boa parte do desconforto provocado por Tropa de elite vem do fato de percebermos que o odioso ciclo do crime não tem saída, posto que se alimenta da própria deterioração. Combater o comércio de drogas com BOPEs é quere extirpar a violência com mais violência, isto é, mais da mesma coisa”.

Obviamente, essa é apenas uma de muitas interpretações que o filme, como qualquer boa obra de arte, pode suscitar. Mas dizer que o filme é “fascista”, que defende o BOPE, que é contra o usuário de drogas e outras afirmações reducionistas desse estilo, é não conseguir apreciar uma obra de arte como se deve. É compactuar com a visão limitada do Capitão Nascimento pelo seu inverso. Tropa de elite foi um fenômeno e ganhou o Festival de Berlim não porque tenha uma mensagem ou uma moral. Ao contrário, o filme provoca o tempo inteiro uma reação do espectador e exige um posicionamento. José Padilha mostra seu personagem como ele é e atira na cara do espectador uma realidade sabida, mas sempre omitida nesse nosso Brasil, terra de samba e carnaval. Como escreveu Daniel Caetano, “Tropa de elite torna-se um caso bastante interessante, estruturando-se como cinema contemporâneo essencialmente político ao abrir mão de certos bons-modos da gramática cinematográfica em nome da maior capacidade de despertar reações no seu espectador, seja a favor ou contra o que assiste”.

Um filme que desperta o debate que despertou, que obriga todo um país a discutir suas mazelas mais profundas como jamais havia acontecido, não pode ser acusado de fascista. O fascismo, como qualquer regime autoritário, é contra o debate. E isso, o debate, é a principal reação que tem causado Tropa de elite em quem o assiste.

* Paulo Hamilton é ator do filme Tropa de elite e graduado em direção teatral pela UFRJ.