Teses sobre a estetosfera
Rodrigo Duarte

I

Estetosfera é um conjunto de estímulos sensoriais capazes de atingir, simultaneamente — quando consecutivamente, em modo de alternância ligeira —, pelo menos três dos cinco sentidos da percepção humana, ocasionando a quem esteja a ele exposto um tipo de sentimento que, independentemente de como se inicia (se com irritação, com susto ou com simpatia, por exemplo), se resolve num tipo de agrado que a tradição ocidental tem denominado “prazer estético”.

II

Quando se tenta traduzir a sensibilidade em termos de media, pode-se dizer, antes de tudo, que a visualidade se manifesta primeiramente na formação de imagens e, secundariamente, enquanto escrita, já que os signos gráficos têm também o seu aspecto visual, ainda que apontem para conteúdos exteriores a essa visualidade. Pode-se dizer também que, em termos de expressão estética, a audibilidade se liga, talvez primordialmente, à sonoridade musical. Secundariamente, a audibilidade também se encontra intimamente relacionada com a oralidade, inclusive, mas não exclusivamente, das palavras. Levando em consideração o que foi acima exposto, talvez não seja errado afirmar que a palavra se reparte entre os aspectos de sua visualidade (escrita) e de sua audibilidade (oralidade).

III

Se se consideram também os outros três sentidos, tato, olfato e paladar, pode-se dizer que eles pressupõem uma tal proximidade entre o estímulo e o receptor que apenas ocasionalmente podem engendrar um comprazimento de tipo propriamente estético, no sentido mais familiar do termo. Talvez, por isso mesmo, a lida com esses sentidos seja um campo aberto para experimentações no campo das estetosferas.

IV

O espaço em que se origina e se desdobra uma estetosfera é tipicamente urbano, especialmente numa área suficientemente bem delimitada para que o efeito sinestésico que lhe é indispensável se faça perceber com nitidez. De um modo geral, as exceções a essa realização num espaço urbano delimitado se dão numa proposta de conexão entre o urbano e o não-urbano (referência ao espaço rural ou silvestre, por exemplo).

V

Esse tipo de conexão sugere que pode haver certo tipo de mobilidade associado a uma estetosfera, de modo que, ao lado de um modelo estático, ”clássico”, pode haver também estetosferas “dinâmicas”, nas quais o movimento corpóreo dos participantes é parte constitutiva do comprazimento oriundo de sua experiência. Isso ocorre de modo explícito, por exemplo, nos cortejos, nos quais a polimedialidade típica das estetosferas ocorre concomitantemente ao deslocamento de certo ponto a outro. A delimitação do espaço, nesse caso, adquirindo uma componente temporal, coincide com o percurso realizado.

VI

Além disso, uma das características mais típicas de uma estetosfera é a sua realização em espaços abertos, contrapondo-se a uma tradição secular do Ocidente, segundo a qual — com exceção de obras arquitetônicas ou, eventualmente, escultóricas — as manifestações estéticas mais relevantes se dão em espaços fechados e, portanto, tendencialmente restritivos, tais como museus, galerias de arte, salas de concerto, teatros, casas de ópera, etc.

VII

A estetosfera se distingue da mera confluência caótica de fontes sonoras, visuais, olfativas, gustativas ou táteis que infestam os ambientes urbanos contemporâneos na medida em que, para a sua constituição, devem contribuir um ou mais projetos dotados de intencionalidade e imbuídos de uma consciência estético-histórica, que pode ou não coincidir com aquela que se consolidou no Ocidente a partir da Idade Moderna e se radicalizou na Contemporaneidade.

VIII

No entanto, pode e deve haver espaço para certa espontaneidade, desde que ela, de algum modo, se insira num projeto estetosférico — essencialmente aberto e democrático — e, no espírito da chamada “arte aleatória”, dê vazão à livre confluência de diferentes fontes de estímulos sensoriais do ambiente urbano ou de porção delimitada dele.

IX

A espontaneidade de uma estetosfera pode, no entanto, ser ainda mais radical, na medida em que nenhum projeto prévio explícito pode existir na condição de ser o seu elemento gerador. Esse processo é semelhante ao da gênese de muitos acontecimentos culturais de origem popular, diferindo-se deles, entretanto, pelo seu elemento essencialmente anti-tradicionalista.

X

Nesse sentido, várias experiências contemporâneas claramente estetosféricas são, do ponto de vista das origens culturais que as conformam, tipicamente híbridas, agregando frequentemente aos seus ambientes habituais (por exemplo, ocidentais) contribuições afro-descendentes, autóctones, orientais etc.

XI

Embora a consciência estetosférica esteja habitualmente aberta a esse tipo de hibridismo e de acolhimento de tradições culturais diferentes daquela em que ela primordialmente se insere, deve haver uma forte demanda no sentido de que a realização das estetosferas esteja voltada para a concretização futura (apontando não apenas para experiências do passado) de uma fraternidade humana, para a qual aquela funciona como símbolo e como metáfora — também como antecipação e signo de possibilidade.

XII

Desse modo, é também característica das estetosferas serem totalmente desprovidas de preconceito quanto à origem econômica ou étnica, condição física, opção sexual, identidade de gênero, crença religiosa (ou ausência de), não tolerando apenas atitudes racistas, misóginas, homofóbicas, autoritárias e simpatizantes de totalitarismos, como o neo-fascismo e o neo-nazismo, por exemplo.

XIII

O fato de que a indústria cultural contemporânea, em parte por sua centralidade no capitalismo tardio, em parte por sua inserção na matriz tecnológica de base digital, é praticamente ubíqua e aposta fortemente em fenômenos sinestésicos não deve gerar a falsa impressão de que essa ubiquidade se confunde com uma estetosfera, ainda que, exteriormente, possa vir a existir alguma semelhança.

XIV

Isso não impede que um projeto estetosférico, resguardadas as irreconciliáveis diferenças com relação à indústria cultural, possa se valer de meios tecnológicos tipicamente apropriados por ela, assim como possa se apropriar ironicamente de alguns dos seus recursos de linguagem para melhor atingir os seus objetivos.

XV

Embora o projeto de uma estetosfera possa, excepcionalmente, surgir da mente de um indivíduo, a sua realização depende sempre de uma coletividade — tipicamente de uma comunidade plural de pessoas que vêm a se reunir a partir da identificação com o projeto proposto e se mostra disposta a concretizá-lo.

XVI

A qualidade estética global de uma estetosfera, dada a sua caraterística essencialmente polimedial, normalmente depende mais do conjunto e da confluência poeticamente projetada ou espontaneamente constituída dos media que a compõem do que de suas características artísticas tomadas isoladamente.

XVII

Desse modo — e isso tem a ver com a supramencionada licitude das apropriações de diversas ordens — é possível que uma estetosfera seja gerada por mescla de fenômenos estéticos de diversos extratos, tais como obras de arte no sentido tradicional, obras vanguardistas, mercadorias culturais, peças de culturas populares e/ou autóctones, elementos já hibridizados, construtos estético-sociais1 etc.

XVIII

Em qualquer desses casos, a corporeidade humana é um fator preponderante, pois, além de ser naturalmente “polimedial” (visual, sonora, tátil, olfativa e gustativa), possui um grande potencial para engendrar tipos ainda insuspeitados de sinestesia entre o visual, o gráfico, o auditivo e o tátil. Isso porque corpos humanos reunidos, paramentados, dançantes e cantantes (ou tocando instrumentos musicais) podem perfazer, por si só, a essência de uma estetosfera.

XIX

A se dar crédito à colocação de Walter Benjamin, segundo a qual a percepção da arquitetura adiciona à visualidade um elemento tátil2, então pode-se dizer que a cenografia acrescentada à situação do corpo em movimento, que, por si só, já se constitui num aspecto tátil, perfaz, se não uma estetosfera consumada, pelo menos o embrião do que possa vir a se constituir numa. Uma boa questão seria sobre como os elementos olfativo e gustativo também poderiam contribuir para a integração da corporeidade nas manifestações estetosféricas (cf. tese III).

XX

Uma estetosfera, do ponto de vista de sua constituição temporal, pode ser permanente, intermitente ou periódica (de acordo com um calendário previamente estabelecido e sancionado por uma coletividade), sendo que, em vários desses casos, um arcabouço arquitetônico previamente instituído (no sentido da supramencionada “cenografia”) funciona como locus de realização de um projeto estetosférico.

XXI

Se está em questão abordar o fenômeno das estetosferas do ponto de vista da estética de origem europeia, então pode-se dizer que ele se liga, antes, àquilo que, sob a inspiração de Theodor Adorno, denomina-se arte desartificada3, ou seja, um tipo de manifestação estética na qual seus criadores, cônscios da ameaça representada pela indústria cultural, se adiantam numa espécie de “desidratação” intencional de suas obras com o objeto de se resguardar de sua pura e simples destruição.

XXII

Uma questão que pode surgir é aquela sobre como se relacionam as propostas e realizações estetosféricas com o programa wagneriano do Gesamtkunstwerk (obra de arte total). Na verdade, as semelhanças são apenas aparentes (como no caso em relação à indústria cultural), pois, naquele projeto, o compositor alemão prescrevia a determinação monocrática de todos os elementos expressivos da ópera (música — composição e regência —, libreto, cenografia, guarda-roupa etc.), desconsiderando totalmente o aspecto de co-criação coletiva, que é um elemento essencial nas estetosferas.

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor. Ästhetische Theorie. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1996.

BENJAMIN, Walter. Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit. In: Gesammelte Schriften I-2. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1991.

DUARTE, Rodrigo. “Sobre o construto estético-social”. Sofia: Revista Semestral de Filosofia, v. XII (2007b), p. 16-17.

DUARTE, Rodrigo. “A desartificação da arte segundo Adorno: antecedentes e ressonâncias”. Artefilosofia, v. 2 (2007a), p. 19-35.

* Rodrigo Duarte é professor de filosofia da UFMG.
1 Por construtos estético-sociais entendem-se os fenômenos artístico-sensoriais que não se enquadram em qualquer das categorias tradicionais de manifestações estéticas: não são nem propriamente obras de arte autônomas (no sentido da tradição europeia), nem mercadorias culturais, nem fenômenos da cultura popular “de raiz”, mas uma mescla complexa de todos esses tipos, onde ocorre “a presença […] de uma negatividade de caráter misto, i.e., não apenas estética, já que os critérios formais não estariam aqui observados, mas também estética, uma vez que a adesão […] a esse movimento pressupõe o cultivo de um certo tipo de linguagem expressiva – sonora, visual, cênica, discursiva ou corpórea. Nesse caso, a negatividade, em vez de se traduzir exclusivamente no elemento estético, oscila continuamente entre esse e um posicionamento ético-político de transformação radical do existente” [grifos meus para esta citação/rd] DUARTE, 2007b, p. 261.
2 BENJAMIN, 1991, p. 465.
3 Cf. DUARTE, 2007b.