Dialética das nuvens: comentário sobre o texto “Arquitetura da resistência no capitalismo global” de Ricardo Fabbrini
Francisco De Ambrosis Pinheiro Machado

O texto de Ricardo Fabbrini, “Arquitetura da resistência no capitalismo global”, como de praxe, é rico em material e reflexões, penetrante e de leitura agradável. Apresenta de modo preciso e esclarecedor, em forma de resenha, o livro Dentro do nevoeiro, de Guilherme Wisnik, publicado pela editora Ubu, em 2018. Fabbrini nos convida de modo convincente à leitura do mesmo, como uma “referência obrigatória para a reflexão crítica sobre práticas cruzadas da arte e da arquitetura no capitalismo digital financeiro”.1 Mais do que um simples convite, porém, o texto de Ricardo Fabbrini torna, a meu ver, o livro de Guilherme Wisnik mais transparente e acessível, esclarecendo certas conceituações, situando-as no debate estético contemporâneo e se posicionando com recorte e desenvolvimentos livres e próprios diante da proposta central do livro. Esta seria uma reflexão em torno do potencial crítico de uma poética do nublamento, da evanescência, na arquitetura e na arte, como possível oposição e resistência à névoa em sentido negativo do mundo atual, capitalizado, globalizado, virtualizado.

Do rico universo conceitual e de referências artísticas e arquitetônicas presente tanto no livro quanto no texto de Fabbrini, gostaria neste comentário de refletir acerca da questão de se uma “dialética das nuvens”, tal como formulada por Guilherme Wisnik em seu livro, pode de fato constituir uma base consistente para o potencial crítico e de resistência que ele atribui à poética do nublamento.

Em primeiro lugar, essa problemática já transparece na possibilidade de se compreender a arquitetura a partir de uma aproximação com a pintura por meio do conceito de nuvem. Logo no início do texto, Fabbrini afirma que “no centro do livro está uma convergência entre arte e arquitetura em uma poética dos materiais”.2

Sendo a névoa o material da poética levada adiante nas análises aqui, temos um estranhamento muito produtivo, que nos faz questionar se de fato, para além das analogias, simbologias e metáforas, é possível pensar uma construção arquitetônica que tenha seu fundamento neste tipo de material. Ou seja, esta convergência entre arte e arquitetura estaria deixando de lado o elemento próprio da arquitetura, que não é só superfície plástica – pele –, mas igualmente estrutura de sustentação e os materiais sólidos necessários para tal. São estes que permitem a constituição de um espaço para morar, trabalhar, orar, transitar de um lugar para outro, fruir, e, portanto, este material não pode ter a consistência de uma nuvem. Enfim, é possível mesmo pensar consequentemente um problema arquitetônico e sua relação com um contexto histórico político, como se se tratasse de fenômeno que ocorre em superfícies como telas de pintura, de cinema, de computador, de celular, em uma fotografia?

Mesmo em instalações artísticas, como os exemplos tratados no livro e os destacados na resenha, não é possível abdicar de uma estrutura de sustentação que permita a vivência do nevoeiro: seja o prédio do Turbine Hall no Weather Project de Olafur Eliasson, seja a estrutura metálica do Blur Building de Elisabeth Diller e Ricardo Scofidio. Certamente, a exploração do vidro leitoso na arquitetura a partir dos anos 2000 sugere uma espécie de reauratização na percepção da relação entre interior e exterior no espaço arquitetônico, opondo-se assim à utopia da transparência, publicidade e igualdade buscada na arquitetura moderna com o uso do vidro transparente; opondo-se igualmente ao historicismo pós-moderno dos anos 1970-80, que faz uso do vidro como ornamento; ou ainda à arquitetura corporativa global dos prédios com vidros espelhados dos anos 1990-2000, tal como Fabbrini ressaltou em sua apresentação. No entanto, trata-se ainda sempre de vidro, material sólido, não névoa. Esse simples fato, sem invalidá-la como um todo, coloca em certos limites a aproximação sob a chave de uma poética da nuvem entre a experiência propiciada pela arquitetura e a propiciada pela pintura, fotografia ou mesmo instalações artísticas.

Fabbrini chama a atenção para este ponto, tanto em seu texto, como em sua apresentação, recorrendo a Hal Foster, que se contrapõe às “tendências contemporâneas de apagamento e sublimação da tectônica da materialidade na arte e na arquitetura”3 e defende a necessidade de se manter a tensão dialética entre literal e fenomênico, estrutura e pele (imagem). Daí a insistência de Foster, aliás referência teórica central no livro do próprio Guilherme Wisnik, no material e na estrutura, que operariam como resistência “à atrofia generalizada do tectônico, bem como ao triunfo da pele ou da imagem edulcorada, na arquitetura do projeto digital, autogerado por softwares de alta tecnologia cegos à presença do fruidor”.4

Essa problemática, em segundo lugar, se amplia e se intensifica no conceito de dialética das nuvens. Guilherme Wisnik aponta que esta dialética estaria operando na oposição entre dois tipos de névoas, nuvens, nevoeiro, entendidos como sinais do mundo atual:

a) um negativo, destrutivo. Os exemplos dados são de registros os mais diferentes: em um registro bélico e político, trata-se da névoa causada pela bomba atômica em Hiroshima; a explosão das torres gêmeas do World Trade Center (Nova York, EUA, do arquiteto Minoru Yamasaki) em 11 de setembro de 2001, por um ataque terrorista; ao que Fabbrini acrescenta, com lucidez, as imagens dos ataques americanos e aliados ao Iraque. No registro artístico, imobiliário, é citada a emblemática implosão em 1972 do conjunto habitacional Pruitt-Igoe (St. Louis, Missouri, EUA, também do arquiteto Minoru Yamasaki). No registro tecnológico econômico, o exemplo é o conceito de nuvem do capital financeiro e da nuvem digital.

b) um positivo, de crítica, como poética do nublamento, restrita ao registro artístico-arquitetônico, como forma interna de resistência ao mundo global.

A questão que se coloca aqui, no entanto, é que a mera oposição entre nuvem com sinal negativo e nuvem com sinal positivo não é suficiente para constituir uma crítica dialética, pois trata-se de uma oposição entre dois termos que se caracterizam por sua indeterminação, faltando então um termo negativo determinado, sem o qual não é possível uma efetiva crítica do real. Seria, assim, necessário no mínimo estabelecer pares conceituais efetivamente opostos: como transparência e opacidade, material e imaterial, forma e informe. Quando Walter Benjamin, por exemplo, em seu ensaio sobre o “Surrealismo” (1929), formula a noção de uma dialética da embriaguez – que, aliás, pode ser entendida como um nublamento da consciência por um afrouxamento do controle do Eu – ele a compreende como tensão entre embriaguez e sobriedade. Sendo que é no jogo tenso destas duas polaridades que se constituiria a iluminação profana como experiência disruptiva e potencialmente crítica.

Em seu livro, Wisnik, mesmo falando explicitamente de uma dialética das nuvens, parece antes alternar entre um sentido e outro de nuvem, sem explicitar exatamente os momentos de inflexão ou de suspensão deste jogo, deixando o leitor entregue a uma certa vertigem diante da desmedida do mundo globalizado e da indefinição da diferença entre a arte que o espelha e a arte que resiste a ele. Fabbrini, por sua vez, nos coloca numa posição mais segura, esclarecendo melhor o imbricamento e a tensão dos polos em questão. Como no momento em que, partindo do livre jogo das faculdades (sensibilidade e entendimento) no juízo reflexivo segundo Kant, afirma a respeito do The Weather Project de Olafur Eliasson:

É na fruição que suspendendo toda a relação de dominação […] que advém da expectação de que alguma coisa haverá de surgir em razão de um impulso que parece forçar a forma […] para fora de si mesma, para o informe, entendido como índice de alternativas ao real.5

Ou, mais para frente, analisando a instalação Blur Building: “As névoas são assim negatividade (o informe) que antecipa a imagem (a forma)”.6

Ou ainda, ao comentar a afirmação de Guilherme Wisnik de que “poética do evanescente” não neutraliza o poder de “negatividade da forma”, quando acrescenta: “até porque […] sempre haverá alguma tensão, ainda que residual, entre a materialidade da forma e a imaterialidade da névoa”.7

Aqui sim, parece surgir uma tensão dialética, que não se limita à mera oposição entre névoa positiva e negativa, e, sem se perder no próprio nevoeiro, coloca em jogo elementos e tensões bem determinados (material/imaterial, forma/informe, ao que poderíamos em algum momento ainda acrescentar transparência/opacidade, sólido/etéreo) que nos mobilizam para ir além daquela oposição superficial, e compreender em que sentido uma poética do nublamento pode consistir em uma:

efetuação estética disruptiva, situada entre a arte e a arquitetura, que opera como índice de alteridade, do efeitismo tecnológico, pirotécnico e decorativo, do eletro-entretenimento, que apenas reafirma a realidade existente.8

Minha questão é, novamente, se a nuvem como negação indeterminada ou por indeterminação pode oferecer por si só essa disrupção crítica, ou é preciso considerar um contexto de tensões mais amplo, para que ganhe o contorno e resistência da negação determinada.

Insisto neste ponto, pois me parece que uma “poética do evanescente” que não explicite como se daria aquela passagem do informe para a forma e vice versa (negação determinada), da imersão nas névoas para aceder à visão, para ver as coisas novamente como pela primeira vez, tal como diz Fabbrini comentando Blur Building9, pode facilmente ser entendida, ou mal-entendida, em uma chave excessivamente mística ou mítica.

Esta fragilidade se manifesta, por exemplo, em posições como a de Jeffrey Kosky, ao qual Wisnik se refere sem uma crítica ou ressalva correspondente que apontaria para o problema exposto aqui. Wisnik, falando de Kosky, afirma que hoje – no mundo da nuvem do capital, da informação, dos desastres ecológicos, ataques terroristas –:

a luz dominante é a da fibra ótica funcionando em escalas incomensuráveis e absolutamente não focais. Afinal, dentro da nuvem, isto é, no mundo atual, a luz é difusa, não permitindo a definição nem de centros nem de margens em sua emissão e recepção. Habitamos, assim, em suas palavras [de Jeffrey Kosky], um global blur, um desfocamento global.10

Estranha descrição esta de um mundo desfocado, difuso e sem centro, análogo às fibras ópticas. Parece não levar em conta que a tecnologia da fibra ótica opera precisamente com um tipo de luz que é a mais focada possível, o laser, que transita em um meio o mais transparente possível, do contrário não serviria à transmissão rápida e controlada de informação. Esta é o suporte e estrutura material que permite o que se denomina armazenamento em nuvem, mas que da opacidade de uma nuvem tem muito pouco. A afirmação de que estamos num mundo sem centro, difuso, além disso, precisaria igualmente ser no mínimo confrontada com o fato de que nunca houve tanta concentração de renda, de propriedade, do controle de informação e dos meios de transmissão destas, do que hoje. As empresas que controlam toda essa estrutura de equipamentos (fibras, servidores, mercado das redes sociais) e nuvem de informação não são mais do que 3 ou 4, conhecidas de todos, e quase todas sediadas em um vale em um único país. Basta pensar que uma das redes sociais a que somos agora como que obrigados a aderir possui nada mais nada menos que algo em torno de 5 bilhões de usuários! Sob este ponte de vista, é bastante desconfortável a afirmação de Kosky de que uma instalação como o Blur Building nos ensinaria a viver nesta nuvem contemporânea do ciberespaço, como certas religiões que entendem revelação não como erradicação da névoa, mas amor a ela, amor ao misterioso, ao desconhecido à nossa volta.11 Mística bastante perigosa, quando se trata da névoa da destruição, da guerra e do terrorismo.

Certamente não é nada disso o que Wisnik busca em seu livro, muito pelo contrário, como a análise de Fabbrini bem o mostra. Mas a imprecisão na concepção de uma dialética das nuvens, tal como procurei apontar aqui, corre o risco de inviabilizar o que se almeja ali como resistência e crítica possíveis em uma poética do evanescente.

Referências bibliográficas

FABBRINI, Ricardo. “Poética dos materiais na arquitetura contemporânea”. Rapsódia, n. 14 (2020), p. 5-32.

_____. “Arquitetura da resistência no capitalismo global”. Manuscrito disponibilizado para ser debatido no X Encontro do GT de Estética da ANPOF, de 11/03/2021.

WISNIK, Guilherme. Dentro do nevoeiro. São Paulo: Ubu, 2018.

* Francisco Pinheiro Machado é professor do Departamento de Filosofia da UNIFESP.
* O presente texto foi apresentado no X Encontro do GT de Estética da ANPOF, por web conferência, em 11/03/2021. Reitero aqui meus agradecimentos ao então coordenador do GT, Pedro Hussak, pelo convite para compor a mesa juntamente com Ricardo Fabbrini e Bernardo Barros. O texto apresentado originalmente pelo prof. Ricardo Fabbrini foi publicado no periódico Rapsódia sob o título “Poética dos materiais na arquitetura contemporânea” (2020).
1 FABBRINI, 2021, p. 18.
2 FABBRINI, 2021, p. 2.
3 FABBRINI, 2021, p. 16.
4 FABBRINI, 2021, p. 16.
5 FABBRINI, 2021, p. 9.
6 FABBRINI, 2021, p. 14.
7 FABBRINI, 2021, p. 17.
8 FABBRINI, 2021, p. 17.
9 FABBRINI, 2021, p. 15.
10 WISNIK, 2018, p. 230.
11 Cf. WISNIK, 2018, p. 231.