Resenha de Discurso sobre o colonialismo
Imaculada Kangussu

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Tradução de Claudio Willer, com ilustrações de Marcelo D’Salete. Notas e uma cronologia contextualizada da vida e obra de Aimé Césaire por Rogerio de Campos. São Paulo: Veneta, 2020.

Traduzida pelo poeta Claudio Willer e ilustrada por Marcelo D’Salete, essa é a primeira edição brasileira do Discours sur le colonialisme, do poeta e político Aimé Césaire (1913-2008). Publicada pela primeira vez em 1950, por uma pequena editora, Éditions Réclame, a obra teve discreta acolhida e, se nesse primeiro momento, não despertou atenção do grande público, mas foi fazendo história aos poucos: em 1952, Franz Fanon abre o livro Pele negra, máscaras brancas com uma citação do Discours; e, em 1955, Césaire faz uma nova versão ampliada e atualizada que se tornou uma grande arma nos discursos anticolonialistas e agora é traduzida como Discurso sobre o colonialismo.

O texto lança luz sobre a perversidade inerente ao processo de colonização – não só sobre aquele que tem como tema o processo europeu de criação de colônias, mas sobre todo processo de colonização – e traz à tona o horror nele implicado. As sombras que então aparecem são as geradas pela desmesurada ambição que desumaniza o colonizador à medida que este desumaniza o colonizado. Esse é o foco da narrativa de Césaire: a colonização é indefensável, racional, cultural e moralmente. Colonização é o oposto de civilização, é barbárie. Nos estatutos coloniais, voltados à dominação e ao saque, não há um único valor humano, salienta o autor. Em suas palavras, que justificam longa citação,

a colonização funciona para descivilizar o colonizador; para brutalizá-lo no sentido apropriado da palavra, degradá-lo, despertá-lo para instintos soterrados, cobiça, violência, ódio racial, relativismo moral, e mostrar que toda vez que no Vietnã há uma cabeça decepada e um olho perfurado, e na França se aceita isso; uma menina é estuprada, e na França se aceita isso; um malaxe é torturado, e na França se aceita isso; há um acréscimo de peso morto na civilização, ocorre uma regressão universal, uma gangrena se instala, um foco de infecção se espalha

e, no final de todas as torturas toleradas, há um veneno introduzido nas veias e um “asselvajamento do colonizador” (p. 17). A ideia de fundo é que não há colonização inocente. Devastar, saquear, queimar, destruir, massacrar, torturar, assassinar são atos bárbaros realizados pelos colonizadores para submeter o outro a seu domínio. Uma civilização que aceita colonizar já está doente, é uma civilização moribunda, decadente.

No Discurso sobre o colonialismo, apresenta-se também o outro lado. O pensamento do colonizador é exposto em trechos de dezenas de autores defensores da superioridade do homem branco e da consequente necessidade de colonizar – e de colônias. Césaire contesta essa perspectiva e dá nome aos bois, que muitas vezes são vacas sagradas (Ernest Renan, Octave Mannoni, Rudyard Kipling, Roger Caillois, entre outros).

Como um outro nome para dominar e submeter civilizações nativas a um poder que lhes é estranho, a colonização desumaniza. Para justificar a carnificina, a ação colonial precisa ver o nativo como inferior, como animal, e esse desprezo pela humanidade alheia não pode excluir o desprezo pela humanidade tout court. Na equação denunciada por Césaire, colonização = coisificação.

Às pseudo justificativas dos colonizadores em nome do “progresso”, da elevação dos níveis de vida, dos tiranos depostos, dos quilômetros de estradas, etc e tal, Césaire responde trazendo à tona o preço injusto das não solicitadas “vantagens”: “sociedades esvaziadas de si mesmas, culturas pisoteadas, instituições solapadas, terras confiscadas, religiões assassinadas, magnificências artísticas destruídas, possibilidades extraordinárias suprimidas”. E mais: sociedades arrancadas à força de “seus deuses, suas terras, seus costumes, sua vida, a vida, a dança, a sabedoria”. É antes pelo coração do que pela cabeça que as civilizações enfraquecem, considera o poeta. Em suas possantes palavras:

Estou falando de milhões de homens em que foram inculcados o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, o ajoelhar-se, o desespero, o servilismo.

Dão-me a visão total da tonelagem de algodão ou cacau exportado, acres de oliveiras ou videiras plantadas.

Mas eu falo de economias naturais, economias harmoniosas e viáveis, economias na medida do homem indígena que foram desorganizadas, culturas alimentares destruídas, subnutrição instalada, desenvolvimento agrícola orientado para o benefício único das metrópoles, roubo de produtos, roubo de matérias-primas (p. 25).

E acrescenta o roubo de obras de arte, dos bronzes de Benin, das esculturas Shongo. O argumento encontra eco nos estudos do etnógrafo alemão Leo Frobenius sobre povos africanos: “Civilizados até a medula dos ossos! A ideia do negro bárbaro é uma invenção europeia” (p. 39). Também na Crítica da razão negra, e remetendo-se à poesia de Césaire, Achille Mbembe desenvolve essa ideia e observa como o termo “negro” (que só aparece escrito no século XVI), inventado para expressar embrutecimento, degradação, exclusão, em espetacular reviravolta torna-se signo de vida, de força pujante, de criatividade. Foi no discurso estético – sobretudo no das vanguardas da década de 1920 – que essa reviravolta se cristalizou.

É conhecido o impacto produzido na Europa pela arte africana, como possibilidade de dar forma sintética aos mais arcaicos desejos e terrores. A importância da descoberta da arte da África pelos artistas europeus modernos já foi comparada à da cultura grega no Renascimento, tendo em vista a inflexão provocada por ambas nas visões de mundo então em curso. Às vanguardas europeias modernas interessava sobretudo a concisão das formas plásticas, menos que o conteúdo primeiro das obras. A síntese expressiva, considerada como possibilidade de ultrapassar os limites da simbolização então existentes, parecia permitir expressão precisa de estados interiores espontâneos.

Ainda assim, a barbárie colonizadora europeia continuou seu curso e, considera Césaire, só foi superada pela norte-americana. A esse respeito, em suas últimas páginas, o Discurso sobre o colonialismo traz um diagnóstico temporal cuja atualidade merece ser salientada: “Chegou a hora do bárbaro. Do bárbaro moderno. A hora americana. Violência, excesso, desperdício, mercantilismo, blefe, o comportamento de manada, estupidez, vulgaridade, desordem” (p. 75).

Na atual edição brasileira, o texto do Discurso vem acompanhado de um “Retorno a Aimé Césaire, uma cronologia”, onde são apresentados fatos determinantes na vida do autor, configurando uma breve biografia de Césaire. Particularmente interessante é a lembrança da versão de A tempestade (1612), de Shakespeare, publicada pelo poeta em 1969. Vale lembrar a recorrente apropriação das personagens criadas por Shakespeare, Caliban, Ariel e Próspero, em ensaios, poemas e outras ficções, escritas sobretudo nos países que foram colônias (inclusive no Brasil), como se fossem máscaras de agentes envolvidos no processo colonizador.

Em via de mão dupla, por outro lado, a peça de Shakespeare parece ter sido inspirada na leitura dos Ensaios, de Montaigne (sobretudo nos relativos aos tupinambás), traduzidos para o inglês por Florio, em 1603. No British Museum conserva-se um exemplar dessa tradução, bastante apreciada na época, que se julga ter pertencido a Shakespeare.

A tempestade, conhecida, entre outras coisas, como uma alegoria da colonização, tem seus personagens transformados por Césaire. A partir da peça original – na qual Próspero, o culto senhor branco, domina Ariel e Caliban, os primitivos moradores da ilha onde ele se vê jogado pela tempestade, pela natureza – Césaire cria Une tempête (d’après “La tempête” de Shakespeare – adaptation pour un théâtre nègre). Caliban é apresentado como um escravo negro e Ariel como um escravo mulato. Conforme observa Rogério de Campos, autor do minucioso “Retorno a Aimé Césaire”, Caliban pode ser considerado uma alegoria de Malcom X e Ariel de Martin Luther King Jr (assassinado neste ano de 1969). Aos personagens iniciais, Césaire ainda acrescenta um Deus-Diabo negro, Exu.

Com problemas cardíacos, Césaire morreu no dia 17 de abril de 2008. O então presidente da França, Nicolas Sarkozy, homenageou o poeta com honras de estado, distinção até então concedida a apenas três escritores: Victor Hugo (1885), Valéry (1945) e Colette (1954). Nas palavras de Campos: “Mas sua obra continua a escandalizar”.

* Imaculada Kangussu é professora do Departamento de Filosofia da UFOP.