Apresentação
Ricardo Barbosa
Fabiano Lemos

No dia 22 de setembro de 2019 perdíamos nossa amiga Noéli Ramme. Naquele domingo, não era só a comunidade acadêmica em geral que se entristecia com a partida de uma pesquisadora cujos trabalhos no campo da filosofia da arte, apesar de tão reconhecidos, ainda guardavam promessas de importantes desdobramentos; mas, sobretudo, nós, estudantes, funcionários e professores da UERJ, teríamos de lidar com a ausência de uma pessoa cuja reflexão rigorosa e generosidade gentil haviam configurado muito de nossas relações na graduação e na pós-graduação onde atuava. Noéli foi coordenadora por duas gestões consecutivas de nosso PPGFIL e seu esforço em implementar mudanças sempre fora orientado pela ideia de um convívio estimulante, mas tranquilo, e pela atenção às necessidades específicas de alunos e professores. Era de sua natureza querer estar junto de seus colegas, e organizou, frequentemente, eventos em que a pesquisa filosófica e o prazer do encontro eram premissas fundamentais. Nos últimos anos, havia desenvolvido um forte interesse por filosofia política e mística, e fundara, junto a outros colegas, o Colóquio Permanente de Filosofia da Religião, em atividade atualmente no nosso Programa de Pós-Graduação. Hoje, o Coletivo Noéli, núcleo de debate sobre o papel das mulheres na filosofia, organizado por muitas de suas ex-alunas, é também expressão de que sua presença continua a repercutir.

Nossa homenagem a Noéli Ramme começou na manhã de 31 de outubro de 2019, quando nos reunimos num dos auditórios do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ em torno de questões, artistas e filósofos que sempre inspiraram as reflexões de nossa colega e amiga. Dadas as circunstâncias, tudo foi organizado em pouquíssimo tempo. O que se vai ler a seguir em parte documenta, em parte estende a homenagem iniciada naquela manhã. Jorge Sayão, que abordara a trajetória de Noéli, nos oferece agora uma visão mais rica e matizada do perfil de nossa amiga. Ricardo Barbosa tratou do problema da definição de “arte”, motivo central da pesquisa que Noéli desenvolvera ainda como professora visitante do Programa de Pós-graduação e do Departamento de Filosofia da UERJ. Fabiano Lemos, a quem coube a abertura e a coordenação dos trabalhos naquela manhã, preparou uma contribuição especialmente destinada à presente publicação a respeito da noção de profundidade no campo das imagens da arte contemporânea. O mesmo fez Luiz Camillo Osorio, que àquela altura tratara do “mundo da arte” a propósito dos parangolés de Hélio Oiticica, nos apresentando agora um ensaio sobre o Forensic Architecture.

Teríamos gostado de conversar com nossa amiga sobre cada uma dessas questões – teríamos, sobretudo, desejado ouvi-la mais uma vez. Alguns de nós podem ainda se lembrar do interesse com que Noéli nos falava sobre o que chamava de encontro, algo que, para ela, constituía uma noção central no ofício da filosofia. Já não é possível, infelizmente, que isso aconteça a nós como seus amigos próximos – mas gostaríamos de pensar que estes textos expressam a continuidade desse encontro, também para nós – seus leitores.

* Ricardo Barbosa é professor do Departamento de Filosofia da UERJ Fabiano Lemos é professor do Departamento de Filosofia da UERJ.