Apresentação
André de Macedo Duarte

Há filmes que marcam época e atiçam toda uma geração: são aqueles filmes imprescindíveis para um país, aqueles que nos instigam a refletir sobre quem somos, de onde viemos e para onde pretendemos e podemos ir. Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é justamente um desses filmes, assim como também o são Aquarius e O som ao redor, estes últimos dirigidos apenas por Mendonça. Todos eles nos põem diante de nós mesmos, de nossa história passada e do próprio passado colonial que reluta em não passar; ao mesmo tempo, também descortinam futuros que já se deixam entrever no coração do presente. Aliás, pode-se mesmo dizer que estes filmes descortinam aspectos do presente que, de tão imediatamente presentes, por vezes passam desapercebidos. O cinema como diagnóstico do presente, o que poderia haver de mais interessante neste domínio artístico cujo fim tantas vezes anunciado se recusa a chegar, para nossa alegria e deleite?

Assisti a várias sessões de Bacurau. Mas, desde a primeira vez, saí do cinema convencido de que este era um filme destinado a suscitar o pensamento e o debate, uma obra plena de ideias e, portanto, capaz de ideias. Foi sob o impacto dessa impressão inicial que propus organizar este dossiê aos editores da Revista Viso, Vladimir Vieira e Patrick Pessoa, a quem sinceramente agradeço pela rápida concordância e pelo entusiasmo em torno do projeto.

As quatro contribuições aqui reunidas podem ser distribuídas da seguinte forma: os textos de Érico Andrade e de Luzia Margareth Rago, este em co-autoria com Aldo Ambrózio, refletem sobre o cinema de Kleber Mendonça Filho e traçam paralelos entre os três filmes acima mencionados, tomando como focos de referência a história do Brasil, a concepção de temporalidade inerente ao cinema do diretor e as diferentes figuras das contradições sociais que perpassam e estruturam os conflitos encenados em O som ao redor, Aquarius e Bacurau. Já as contribuições de Bethânia Assy e Vera Chueiri, assim como meu texto em co-autoria com Maria Rita de Assis César, resultam de papers apresentados em eventos acadêmicos no exterior, o que demonstra o alcance e o interesse que o filme Bacurau despertou imediatamente na audiência internacional.

Os quatro textos aqui reunidos dão testemunho da exigência de pensar o Brasil no contraponto de uma reflexão sobre o cinema e sobre o cinema brasileiro, estabelecendo ainda um diálogo entre o cinema e alguns conceitos e noções oriundos de expoentes maiores do pensamento contemporâneo como Michel Foucault, Walter Benjamin, Sigmund Freud, Hannah Arendt, Jacques Derrida, Judith Butler, François Hartog, Paul Ricoeur, Eduardo Viveiros de Castro, entre outros. Os textos abordam temáticas assemelhadas a partir de perspectivas teóricas distintas e, assim, compõem um caleidoscópio analítico que comprova a potência estético-política de Bacurau e dos demais filmes de Kleber Mendonça Filho, cineasta talhado para promover encontros e suscitar esforços coletivos de pensamento.

Cabe esperar que esse primeiro impulso de reflexão coletiva provoque novos debates, novas abordagens, novas interpretações, animando a filosofia que se faz no Brasil a se debruçar, cada vez mais, sobre aquilo que nos concerne enquanto cidadãos deste conturbado país.

André Duarte
Curitiba, 13 de junho de 2020

* André de Macedo Duarte é professor do Departamento de Filosofia da UFPR.