Apresentação
Vinicius Figueiredo
Paulo Reis
Isadora Mattiolli

Esse dossiê reúne cinco textos apresentados e discutidos no ciclo de debates Bienal, precisamos falar sobre isto, organizado por Isadora Mattiolli, Paulo Reis e Vinicius de Figueiredo. O encontro transcorreu nos dias 9 e 10 de dezembro de 2019 em Curitiba, na Universidade Federal do Paraná. Sua motivação inicial foi mais uma edição da Bienal de Curitiba. Promovida pelo Instituto Paranaense de Arte, a primeira edição da Bienal, em 1993, intitulava-se Integração Cone Sul – Mostra de Artes Plásticas. Ao longo dos anos, recebeu outros títulos e funcionou de maneira não periódica até 2007, quando de fato começou a realizar-se a cada dois anos.

Tendo como assunto principal ou ponto de fuga a Bienal de Curitiba, as contribuições versam sobre aspectos institucionais e artísticos que concernem ao quadro mais abrangente em que se situam questões recorrentes em torno da arte contemporânea.

Discute-se, por exemplo, o pressuposto do papel determinante das exposições no circuito artístico, os projetos curatoriais que as acompanham e suas formas de financiamento, assim como o espaço que obras e propostas artísticas adquirem na discussão pública.

Outro ponto do debate é o exame de como diferentes exposições temporárias, das pequenas mostras às grandes bienais de arte, assumem e redefinem as narrativas da arte contemporânea. Os modelos de exposição, assim como suas premissas e implicações artísticas e políticas no circuito das artes visuais no país também são investigados: quais, afinal, são suas implicações com a crítica de arte, o campo artístico, a curadoria e a cidade?

O dossiê abre com o texto de Aline Luize Biernastki, que investiga a questão das bienais espalhadas por diversos países, sua gestão, escolhas e presença quase obrigatória numa nova ordem mercadológica de obras e propostas artísticas, assim como a estratégia política das administrações municipais ou estaduais com apoio das quais são realizadas. Ao abordar a questão do financiamento, a autora levanta o tema, muito atual, da diplomacia cultural ou soft power.

Em seguida, Caroline Schroeder examina a trajetória institucional da Bienal de São Paulo, do seu gerenciamento às suas relações com os governos federal e estadual. Revolve a leitura da Bienal como projeto emancipador cultural da elite paulistana, detém-se nos episódios de censura nos anos 1960 e acompanha sua transformação com a curadoria de Walter Zanini. O quadro fornece um ponto de comparação com a Bienal de Curitiba assim como o faz o texto seguinte, de Felipe Prando, embora a partir de um caso diverso.

Felipe discute o projeto artístico e político Tucumán Arde, transcorrrido na cidade de Rosário, Argentina, no ano de 1968. Adotando uma construção polissêmica em que textos e imagens são justapostos, o autor comenta as relações entre arte e política no contexto de repressão militar na Argentina. Tucumán Arde infletiu na construção da I Bienal de Arte de Vanguarda, tornando os artistas sujeitos propositores de novos circuitos críticos de exposição. Há algo similar a isso no circuito internacional das grandes mostras?

A quarta contribuição, de Milena Costa, detém-se sobre as edições de 2006, 2010, 2012 e 2014 da Bienal de São Paulo, identificando e discutindo a presença de projetos artísticos cujas poéticas abordaram questões de gênero e sexualidade. Assim, examina como as grandes exposições envolvem políticas de visibilidade – o que reverbera nas pautas adotadas pelas novas práticas curatoriais e nas questões que acarretam para a crítica e o arquivo. 

Fechando o dossiê, Vinicius de Figueiredo procura examinar a relação existente entre o circuito artístico local e a Bienal de Curitiba: será de expressão, subordinação ou mútua indiferença? O ponto é abordado através da reconstrução, em linhas muito gerais, da formação de um circuito artístico moderno no Brasil, para, a partir daí, examinar suas repercussões em Curitiba em três momentos decisivos: os Salões de Arte dos anos de 1960, a Mostra de Gravura dos anos de 1980 e a atual Bienal de Curitiba.

Boa leitura.

* Vinicius Berlendis de Figueiredo é professor do Departamento de Filosofia da UFPR. Paulo Reis é professor do Departamento de Artes da UFPR. Isadora Mattioli é mestre em História, Teoria e Crítica de Arte pela UFRGS.