O século de Luís, o grande
Sertório de A. e Silva Neto
Enoque M. Portes

Apresentamos à comunidade brasileira de pesquisa a tradução desta obra que, até onde sabemos, ainda não fora vertida ao português. Trata-se do poema O século de Luís O Grande (Le Siècle de Louis Le grand) do literato francês Charles Perrault (1628-1703). Este poema está inscrito entre as obras mais destacadas do embate que ficou conhecido no século XVII como a querela dos antigos e dos modernos. Com efeito, pode-se afirmar que com a publicação deste poema em 1687 o debate ganhou nova força na França, deixando de figurar como questão secundária e passando a ser discutido com profusão de argumentos tanto pelos partidários dos modernos quanto pelos partidários dos antigos.

Perrault instaurou com esse poema um debate caracterizado por uma beligerância e uma ironia singulares. O tom do poema não deixa dúvidas do que ele pretendeu. Não há sutilezas, não há subterfúgios retóricos para abrandar a virulência dos argumentos. A defesa dos modernos por parte de Perrault era encarniçada e ele fez grande questão de que seu poema apresentasse sua posição de modo inequívoco. Há uma verdadeira ruptura de valores neste poema. Com ele Perrault afronta toda a tradição clássica. Combate a autoridade dos antigos em todos os aspectos, e nega a eles a preeminência do saber e da força criativa. Assim, o texto é um legítimo documento do que o pensamento do século XVII produziu nas consciências. Perrault, ainda que não seja filósofo, reproduz em grande parte os ideais da filosofia moderna, notadamente do pensamento cartesiano. Para além de toda enxurrada de insultos e elogios, de argumentos de ciência e retórica deslavada, de versos poéticos e prosa versificada, o leitor deste poema encontrará um profundo embate de consciência, uma grande busca pela afirmação da identidade de um povo, para não dizer de um século inteiro.

Se pensado em seus atributos literários o poema não é, de fato, uma grande obra. Todavia, não era, ao que parece, este aspecto o preponderante para o autor. Queria menos encantar do que argumentar. Nesse sentido, o leitor perceberá que esta tradução procurou se manter entre dois pólos, isto é, se preocupou em reconstituir a musicalidade do poema e ao mesmo tempo não perder de vista a clareza da argumentação. Assim, mantivemos o quanto pudemos os versos rimados, embora sem nos ater à metrificação original. Conquanto isso, consideramos que o caráter da tradução ainda é o de um poema.

Para essa tradução nos valemos do original francês publicado por Jean-Baptiste Coignard. Optamos também por manter na tradução as notas apresentadas na edição de 1687.

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O século de Luís, o grande

A bela Antiguidade foi sempre venerável,
Mas jamais cri que ela fosse adorável.
Vejo os Antigos sem dobrar os joelhos,
Eles são grandes, é verdade, mas de nós homens parelhos;
E a eles pode-se comparar, sem temer ser injusto,
O século de Luís ao belo século de Augusto.
Em que tempo melhor conheceu-se o duro labor de Marte?
E quando do mais feroz assalto rompeu-se o baluarte?
E quando se viu galgar o cimo da glória
Num curso mais veloz o carro da Vitória?
E se quiséssemos afastar o especioso escolho,
Que a crendice põe-nos defronte o olho,
E, cansados de aplaudir mil erros grosseiros,
Servíssemos por vezes de nossos próprios luzeiros,
Veríamos claramente que, sem temeridade,
Não se pode adorar toda a Antiguidade.
E que enfim, em nossos dias, sem confiança em excedência,
Pode-se disputar com ela o prêmio da ciência.

Platão, que foi divino no tempo dos nossos antepassados,
Começa a se tornar por vezes um enfado:
Em vão seu Tradutor1, ao Antigo leal,
Conserva nele a graça e todo ático sal;
Pelo leitor mais ávido e mais empedernido
Jamais um diálogo inteiro seria lido.

Do famoso Aristóteles a decadência é notória,
Em Física menos seguro que Heródoto em História;
Seus escritos, que já fascinaram os mais inteligentes,
São muito pouco conhecidos de nossos mais pífios Regentes.
Por que nisso se surpreender? Nesta noite obscura
Onde se oculta aos nossos olhos a secreta Natura,
Embora ele, o mais sábio dentre todos os humanos,
Não via então mais do que fantasmas levianos.
Para ele, sem nenhuma consideração às verdades causais,
De simples qualidades operavam todos os materiais,
E seu sistema obscuro fundava-se todo sobre essa receita
Que uma coisa se faz daquilo que não é feita.
De um espesso vapor se formava o Cometa,
Sobre um sólido céu rolava cada Planeta,
E todos os outros fogos em seus vasos dourados
Pendiam do rico fundo de lambris azulados.

Grande Deus! desde o dia em que uma arte incomparável
Descobriu o venturoso segredo deste Vidro admirável,
Para que nada sobre a Terra e na Celeste altura,
Distante o quanto esteja, de nossos olhos não é sobeja lonjura,
De que número de objetos, de que grandeza e resplandecência
Acresceu em nossos dias a humana sapiência!
Neste vasto universo em seus limites incertos,
Mil novos Mundos foram descobertos,
E novos Sóis, quando tem a noite os véus estirados,
Ao número das estrelas doravante equiparados.
Pelos Vidros também não menos engenhosos,
Crescem defronte o olho mil objetos curiosos,
Ele vê, quando num ponto sua força é acumulada,
Do átomo ao nada a distância ilimitada;
Adentra dos ínfimos corpúsculos os recessos,
Da sábia Natura ele descobre os processos,
E até ao seu Santuário conduzindo suas observações,
Admira a arte secreta de suas operações.

O homem, em mil erros outrora aferrado,
E malgrado seu saber a si mesmo velado,
Em repouso ignorava até a rota mais evidente,
Por que corre em suas veias o Meandro2 vivente.
Dos úteis vasos, pelos quais seus alimentos
Fazem, para lhe nutrir, os adequados provimentos.
Ignorava ainda a estrutura e utilidade,
E de seu próprio corpo a divina contiguidade.
Não, não, de milagres em número tão diverso,
Com os quais o soberano Mestre encheu o universo,
A douta Antiguidade, em toda sua duração,
Não fez como em nossos dias igual iluminação.

Mas, se da Natura teve ela vãos Autores,
Vejo a se jactar de seus grandes Oradores,
Os Cíceros, os Demóstenes reconheço
De Roma e Atenas eterno adereço,
Cujo fragor eloquente me faz já temer,
E que, de seus grandes Nomes, venham nos abater.
Que venham, eu o desejo, mas que a vantagem se destitua
Entre os combatentes o terreno se distribua;
Que de nossa Barra lhes vejamos ocupados
A defender de um campo três sulcos usurpados;
Que instruídos no Costume, ponham sua erudição
A provar de uma escória a justa servidão;
Ou que em rica maquinação, a força de sua Arte
Aclame em apoio os direitos de Jean Maillart.
Se sua alta eloquência, em seus soberbos procedimentos,
Recusa-se a descer a esses vis argumentos,
Que nossos grandes Oradores sejam assaz afortunados
Para defender, como eles, os clientes coroados3,
Ou que um grande Povo em massa acorra a lhes ouvir,
Ao pai de Alexandre4 a guerra incidir,
Então, talvez, mais do que eles, persuasivos e veementes,
Dariam conato aos movimentos mais ardentes;
E se, durante o curso de uma longa Audiência,
Malgrado os ardilosos traços de sua viva eloquência,
Veem-se nossos velhos Catões, em suas tapeçarias fornidas,
Em audiências tranquilas, com frequência adormecidas,
Poder-se-ia ver então, ao meio de uma praça,
Emocionar-se, bradar, a ardente Populaça.

Assim, quando sob o esforço dos Austros irritados,
Os pacíficos Lagos são quase nada agitados,
Os menores Aquilões, sobre as planícies salgadas,
Elevam até os céus vagas encapeladas.

Pai de todas as Artes, a quem do Deus dos versos
Os Mistérios profundos foram emersos,
Vasto e poderoso gênio, inimitável Homero,
Com um respeito infinito de minha Musa te venero.
Não, não é sem justiça que tuas invenções
Em todas as eras fascinaram as Nações;
Que de teus dois Heróis, as grandes aventuras,
São tema recorrente das mais doutas pinturas,
E que em grandes Palácios as paredes e lambris
Tomam seus ornamentos de teus divinos ardis:
Contudo, se o Céu favorável à França,
Ao Século em que vivemos te remetesse criança,
O século em que nasceste de cem falhas imputável,
Nunca haveria de profanar tua obra agradável.
Teus soberbos Guerreiros, prodígios de pujança,
Prontos a se trespassar pelo ferro longo da lança,
Não susteriam tanto tempo o braço erguido;
E quando o combate deveria já estar concluído,
Não enfadaria os leitores duma longa Prefaciação,
Sobre os feitos esplendorosos dos Heróis de sua Nação.
Tua verve comporia estes Semideuses valentes
Menos caprichosos, menos brutais e menos inclementes.
De uma arte mais hábil e arranjo mais refinado
Teria de Aquiles o escudo sido forjado,
Obra prima de Vulcano, na qual seu buril excelente
Num ressonante bronze sobre sua frente reluzente,
Gravara o Céu, os Ares, a Vaga e a Terra,
E tudo o que Anfitrite em seus dois braços encerra,
Onde se vê esplender o belo Astro do dia,
E a Lua ao meio de seu Curso luzidia.
Onde se veem duas Cidades falando línguas diversas,
E de dois Oradores arengas controversas,
Onde jovens Pastores, às margens de uma floresta,
Dançam um após outro, e depois todos em uma só festa;
Onde muge um touro que um imponente leão devora,
E doces concertos, e cem coisas afora,
Que um buril, embora em Diva mão,
A linguagem muda aos olhos diria em vão.
Este famoso escudo, em um Século mais dotado,
Seria mais puro e menos rebuscado.
Teu gênio, abundante em descrições,
Não te permitiria tantas divagações,
E moderando os excessos de tuas alegorias,
Evitaria ainda cem doutas fantasias,
Pelas quais teu espírito se perde e toma tantas vias,
Que Horácio gracejava dizendo que tu dormias.

Menandro, consinto-o, dotado de genialidade inaudita,
E para agradar ao Teatro uma perícia infinita.
Virgílio, isto concedo, de Altares merecedor.
Ovídio é ainda digno de imortal louvor.
Mas esses raros autores, que hoje se os adora,
Foram adorados quando viveram outrora?
Ouçamos Marcial5: Menandro, espírito envolvente,
Foi pelo Teatro grego aplaudido raramente;
Virgílio viu os versos do gentil Ênio,
Lidos, queridos, estimados pelos Romanos de Gênio,
Enquanto, com langor, os seus eram ouvidos;
Assim eram os antigos Autores queridos;
E malgrado a doçura de sua verve divina,
Ovídio fora conhecido apenas por sua Corina.

Somente com o tempo, que seu nome avançando,
E sempre, mais famoso, de era em era passando,
Ao fim alcançou essa glória estrondeante,
Que tantos estágios atravessou expectante.

Assim é, em abundância espalhado, um rio impetuoso,
Abordando o mar flui majestoso,
Que fluindo da rocha sobre suas margens relvadas,
Impulsionava, desconhecido, suas ondas obstinadas.

Pois, que alta classe de honra não deverão conseguir
Nos faustos sagrados dos Séculos por vir,
Um Régnier, um Maynard, um Gombauld, um Malherbe,
Um Godeau, um Racan, cujos escritos soberbos,
Partindo de suas veias, desde que abrolharam,
De um laurel imortal se coroaram?
Quão serão queridos pela geração futura,
A galanteria de um Sarrasin, de um Voiture a ternura,
Um ingênuo Molière, um Rotrou, um Tristão,
E ainda cem outras delícias de sua geração?
Mas qual será a sorte de Corneille tão celebrado,
Para o Teatro francês maravilhoso e honrado,
Que soube tão bem mesclar aos grandes eventos
A heroica formosura dos nobres sentimentos?
Que dos povos apressados viu cem vezes a afluência,
Por longos gritos de júbilo honrar sua presença,
E os mais sábios Reis de sua verve fascinados,
Ouvir os Heróis por ele animados.
Destes raros Autores, ao Templo de memória,
Não se pode conceber qual será a glória,
Quando tacitamente, consagrando seus escritos,
O Tempo haverá, para eles, conquistado todos os espíritos;
E por este alto relevo que a toda coisa ele doa,
Preparado o momento de sua Loa.

Agora, em ócio, acerca das outras Artes exemplares,
Para ver-lhes o sucesso, erremos nossos olhares.
Amante dos encantos da bela Natura,
Vinde, e dize-nos, agradável Pintura:
Aqueles Pintores famosos dos Séculos mais recuados
De talentos inauditos foram eles dotados?
E deve-se os julgar pelos raros valores
Dos quais nos enchem os ouvidos seus adoradores?
É preciso uma tão grande arte para ter um pássaro ludibriado,
Um pintor é perfeito por bem pintar um cortinado?
E foi este o golpe de mestre que se diz tão digno e divino,
De fender um fino traço num traço ainda mais fino?
Agora dificilmente estas façanhas singulares
Seriam a primeira tentativa dos mais neófitos escolares.
Aqueles incipientes Pintores, no pouco que instruíram,
Pouco mais sabiam do que estes que os admiram.

No Século passado, homens excelentes,
Possuíam, é verdade, vossos mais ricos presentes;
O ilustre Rafael, esse gênio inaudito,
Para pintar, dotado de graça, de vigor infinito,
E as obras que compôs a perícia de sua mão
Parecem mais que humanas, de tão nobres e grandes que são.
Depois dele apareceu sua escola sapiente,
E aquela dos Lombardos, rival esplendente.
Destes Mestres da Arte, as Telas preciosas,
Serão, em todos os tempos, aos olhos doçuras maravilhosas.
De vossa Arte, entretanto, a confidência mais rara,
Não lhes foi repartida senão por mão avara,
O mais douto dentre eles conheceu somente fragilmente,
Do claro e do escuro o enlaçar-se plenamente.
Nunca se encontra no modo simples como conduzem,
O maravilhoso efeito dos pontos que luzem,
Que sobre um único local, vivo e cintilando,
Vai, a todos os lados, sempre se atenuando,
Que de diversos objetos ajuntados pelo tema,
pelo enlace das cores cria um único esquema,
E apresenta a nossos olhos a exata verdade
Em toda a doçura de sua ingenuidade.
Muitas vezes, sem nenhuma consideração da alteração sensível
Que faz, do ar espesso, a massa imperceptível,
As lonjuras mais débeis e mais enevoadas
São como as defronte distintamente traçadas,
Desconhecendo ainda que um artista em suas pinturas,
Dos objetos distantes deve formar as figuras,
Quando confusamente seu olho as apercebe,
Não tais como são, mas tais como as concebe.
É por aí que Le Brun, sempre inimitável,
Dispensa a tudo que faz um ar tão razoável,
E por isso, no porvir, suas obras eminentes
Serão a estupefação de nossos derradeiros descendentes.

Não longe do belo posto da amável Pintura,
Habita para sempre a tardia Escultura;
Junto a ela está a Vênus, o Hércules, o Apolo,
O Baco, o Lantino, o Laocoonte,
Obras primas de sua Arte, escolhidas entre dez mil;
Suas divinas belezas põem-me imóbil,
E tantas vezes estupefato, parece-me as ver
Respirar como nós, falar e se mover.
É aqui, confesso-o, que a audácia é extrema
Para sustentar ainda meu surpreendente Problema;
Mas se a Arte, que jamais pode-se contentar,
Descobre os defeitos que a ela se pode imputar,
Se do Laocoonte, o talhe venerado,
Ao dos seus filhos é tão desproporcionado,
E se os úmidos corpos das serpentes vis,
Envolvem dois anões em lugar de dois guris,
Se o famoso Hércules tem partes variadas,
Por músculos muito fortes um tanto exageradas;
Embora todos os eruditos pelo Antigo obstinados,
Erijam esses defeitos em belíssimos achados,
Devem eles nos forçar a nada ver de singular,
Nos novos monumentos que Versailles faz-se adornar,
Que crendo apenas em seus olhos, os homens esclarecidos,
Não achem menos belos por não ser tão envelhecidos?
Que em vida plena pareçam, e que sejam a admiração,
Que estejam, assim expostas, aos olhares da Emulação.
Mas o que os séculos longínquos não dirão,
Quando delas braços, narizes faltarão?
Estas obras divinas nas quais tudo é admirável,
São do tempo de Luís, este príncipe incomparável.
Este augusto Apolo, os curiosos dirão,
Nasce do famoso Girardon e sua sábia mão;
Estes Cavalos do Sol, a saltarem, a marcharem,
E que pelo relato dos olhos, crer-se-ia relincharem,
São a obra imortal dos dois irmãos Gaspards;
Este amável Acis, que fascina vosso olhar,
Que em tudo é natural e em tudo é artista,
Nasceu sob o cinzel do gracioso Baptista.

Vamos sem distinção a esses amáveis lugares,
De tão grandes objetos fartar nossos olhares.
Não é um Palácio, é uma completa Cidade,
Soberba em sua matéria, soberba em grandiosidade;
Não, é antes um mundo, no qual do grande Universo
Reúnem-se milagres em número tão diverso.
Vejo de todas as partes os rios a jorrar,
Formando os Mares com vagas a vomitar,
Por uma Arte incrível foram eles forçados
A subir aos pináculos desses lugares elevados.
E sua água, descendo aos jardins que ela irriga,
Em cem ricos Palácios passando se abriga.
Com o que lhe pode opor toda a Antiguidade,
Para igualar sua pompa e sua variedade?

Recentemente em sua Cátedra, um retor cultivado,
Cheio desse louco amor que têm eles pelo Passado,
Louvando estes belos Jardins que ter visto ele dizia;
Por aqueles de Alcino, disse ele, se os tomaria.
O jardim deste Rei, se nisso é Homero razoável,
Que se comprazia em formar quimera admirável,
Utilmente repleto de bons arvoredos fruteiros,
Encerrava em seus muros quatro arpentos inteiros.
Ali a pera, o figo e a laranja coletavam,
Aqui, num recanto, a vindima pisavam,
Acolá, belas uvas sobre a terra a se espalhar,
Expostas ao Sol para ali se secar.
Neste domínio Real, viam-se duas nascentes,
Não elevarem-se ao ar, altivas e imponentes,
Mas formavam dois riachos pacíficos que se rivalizavam,
Cujas águas de um os pés dos arbustos molhavam,
E do outro, esgueirando-se do jardim extraordinário,
Saciavam os passantes no espaço comunitário.

Tais são, nas aldeias das proximidades afins,
Dos nossos bons vinhateiros os rústicos jardins.

Que eu ame o frescor destes bosques umbrosos,
Para os quais se retiram as sombras e os repousos,
Onde sem cessar ouve-se o murmúrio dos ribeirinhos
Que serve de sinfonia ao concerto dos passarinhos;
Mas este concerto tão doce, de seu amor o escrutínio,
Acusa-me de esquecer da Música o fascínio.

A Grécia, sempre frívola, é ainda nesse sentido,
Fabulosa em excesso, e de forma alguma é desmentido,
Se nisso se lhe ousa crer, um Cantor Trácio,
Forçava os animais a lhe seguir o passo,
E mesmo as florestas, até os menores capões,
Tão forte era o fascínio de suas doces canções.
Um outro mais perito, não contente que sua lira
Fizesse caminhar atrás de si os rochedos que atraíra,
Viu esses mesmos rochedos por sua lira encantados,
Postos uns sobre os outros e em Cidades tornados.
Essas fábulas, de fato, sabiamente inventadas,
Pela Grécia com arte foram contadas,
Mas, como ouvi-las, quando em um tom sério,
Pondo à parte todo sentido de mistério,
Ela diz que a tal ponto, no coração da maior prudência,
Seus tocadores de instrumento incitavam a violência,
Ao soarem os acordes do modo Frígio,
Que os melhores amigos e as pessoas de bom convívio,
Gritariam, brigariam, mil tumultos fariam,
E para matarem-se às armas acorreriam;
Que quando estes enraivecidos, espumando de exaltação,
Agarravam-se pelos cabelos e golpeavam-se à exaustão,
Os tocadores de instrumento, para amainar sua bile,
Tocavam o Dório, modo sábio e tranquilo,
E que então os amotinados, por dulçor tão intenso,
Apaziguavam-se rapidamente, retomando seu bom senso?
Ela se vangloria ainda que teve uma Música
Útil ao máximo numa República,
Que de todo louco amor atenuava o ardor,
E do belo sexo conservava o pudor;
Que, de tê-la escutado, uma Rainha de antigamente6,
Por volta de um lustro inteiro foi aliciada inutilmente;
Mas que ela sucumbiu quando seu sedutor,
Banira de perto dela um flautista encantador,
Aquele que, durante todo esse tempo, a alta excelência,
Tivera de cem perigos guardado sua inocência.
Com toda essa pompa e esse rico aparelho,
A Música em nossos dias nada faz de parelho.

Esta bela Arte, por suas maravilhas fascinação,
Não se contenta em arrebatar apenas a audição,
Nem de alcançar o coração por suas expressões
E agitar a seu bel prazer todas as paixões:
Ela vai, passando adiante, por sua suprema perfeição,
Ao ápice do espírito fascinar a própria razão.

Lá esta ordem, estas escolhas e estas justas relações
Dos diversos movimentos e de acordes em conjunções,
O choque harmonioso das partes opostas,
Em suas tonalidades contrastantes sabiamente dispostas,
Nas quais uma segue os passos da outra que já ter-se-á ido,
A sutil mistura do silêncio e do ruído
E de mil artifícios a conduta admirável
Encanta a razão com um prazer inefável.

Assim, durante a noite, quando se erguem os olhos
À abóboda dos céus com seus astros brilhosos,
Enche-se de doce alegria ao contemplar, ao admirar
Este esplendor vivo e puro pelo qual se os vê cintilar,
E de um respeito profundo sente-se tocar o coração
Por seu número incrível e sua vasta dimensão:
Mas se desses belos fogos os cursos calculados,
Daquele que os vê não fossem ignorados,
Se ele conhecesse seus ângulos e suas declinações,
Seu descender e seu regresso, que formam as estações,
O quanto não amaria a infinita Sabedoria,
Que desta numerosa e celestial harmonia,
Com uma ordem simétrica até aos menores momentos,
Regra os grandes acordes e os grandes movimentos?

A Grécia, consinto, teve vozes ímpares em requintes,
Cuja extrema doçura encantava os ouvintes;
Seus Mestres compuseram melodias inspiradas,
Tais quais estas de Lully, naturais e encantadas;
Mas nada conheciam7 da doçura incrível
Que produz dos acordes o encontro aprazível;
Malgrado toda balbúrdia que pela Grécia foi feita,
Nela esta bela arte foi uma arte imperfeita.
Que se de sua Música viu-se-a encantada,
É que ela se orgulhou de dá-la por inventada;
E seu arrebatamento foi o efeito do amor
Com o qual se está embriagado por aquilo de que se é criador.

Assim, quando um infante, cuja língua saboreia,
Começa a pronunciar, faz barulho e tartamudeia,
A mãe que lhe segura tem seus sentidos mais deslumbrados
De três ou quatro palavras que ele a custo tenha formado,
Do que de todos os discursos replenos de arte e ciência,
Que declame em público a mais alta eloquência.

Que eu pudesse evocar o célebre Arion
O incomparável Orfeu, o sábio Anfion,
Para lhes fazer testemunhos de nossas maravilhas singulares,
Que, em seu século venturoso, não tiveram pares.

Quando a cortina se ergue8 e que os sons atraentes
De um inumerável conjunto de instrumentos diferentes,
Formam essa brilhante e grave sinfonia,
Que arrebata todos os sentidos por sua nobre harmonia,
E por quem o menos sensível, nesse primeiro momento,
Sente todo seu corpo movido de doce frêmito,
Ou quando amáveis vozes, que a cena associa,
Fundem seu lamurioso conjunto e sua divina melodia,
E pelos longos acordes de sua triste mansidão,
Tocam profundo o menos sensível coração,
Sobre os mestres da arte, sobre almas tão esplendentes,
Quanto poder não teriam tantas graças recentes?

Toda Arte é composta de segredos mil
Que aos homens curiosos os usos descobriu,
E este útil conjunto de coisas que se inventa,
Sem cessar, cada dia, ou se depura, ou se aumenta:
Assim os humildes telhados de nossos primevos ancestrais,
Cobertos negligentemente de gladíolos e juncais,
Nada tinham de semelhante em sua Arquitetura
Aos nossos ricos Palácios de eterna estrutura;
Assim o jovem carvalho em sua idade incipiente,
Não pode se comparar ao carvalho encanecente
Que lançando sobre a terra espaçosa folhagem
Avizinha o céu com sua vasta galhagem.

Mas é pouco, dir-se-á, que em progressos alongados,
O Tempo de todas as Artes façam os segredos desvendados;
No século em que estamos a Natura decadente,
Já não pode engendrar estes homens surpreendentes,
Com os quais com abundância, em mil lugares diversos,
Ela ornava os belos dias do principiante Universo,
E que replenos de força, de luz e ardor,
Ela oferecia ao mundo em seu primeiro vigor.

Para formar os Espíritos como para formar os corpos,
A Natura em todas as eras faz os mesmos esforços,
Seu Ser é imutável, esta força incontida
Com a qual tudo ela produz nunca é exaurida;
Jamais o Astro do dia que avistamos correntemente,
Teve coroada a face de raio mais esplendente,
Jamais, na Primavera, as rosas empurpurecidas,
De um encarnado mais vivo foram coloridas:
Não menos branco do que outrora brilha em nossos jardins,
O ofuscante esmalte dos lírios e dos jasmins,
E no século de ouro a Filomela tão envolvente,
Que fascinava nossos ancestrais com sua canção recente,
Nada tinha de mais doce do que esta, cujo vozear
Desperta os ecos em nossos bosques a repousar;
Desta mesma mão as forças incontidas
Produzem em todas as eras genialidades parecidas.

Os Séculos, de fato, são entre si dessemelhantes,
Uns foram esclarecidos, uns foram ignorantes;
Mas se de um reino aventurado um excelente Monarca
Fosse sempre seu preço a causa e a marca,
Qual Século por seus Reis, dos homens venerado,
Ao século de Luís pode ser selecionado?
De Luís, que encerra glória imortal,
De Luís, dos grandes reis, modelo sem igual.

O céu ao formá-lo seus tesouros exauriu,
E dos dons do Espírito e do Corpo lhe cobriu;
Pela ordem dos Destinos, a Vitória, submetida
A seguir todos os passos de sua ilustre vida,
Animando os esforços de seu Exército valioso,
Laureando-o desde que reina sobre nós glorioso;
Mas quando ele empreendeu mover de própria mão
Os penosos escolhos da suprema distinção,
De que majestade, com que novo potentado,
Não se viu brilhar a face do Estado?
A pureza das leis por toda parte é restabelecida,
Dos funestos duelos a cólera é abolida;
Seu Valor em todos os lugares sustentam seus aliados,
Sob Ele os ingratos tombam humilhados,
E os orgulhosos povos do Ebro vem-se a ele em convergência,
Pela ordem que sobre eles mantém, render célebre confidência.
Seu braço, anunciando-se por cem façanhas sortidas,
Das praças que ele ataca toma quatro em uma só investida;
Tão longe quanto o quer ele estende suas fronteiras;
Em dez dias subjuga Províncias inteiras;
Sua Armada, sob seus olhos, um rio profundo vadeou,
Que somente por uma ponte César atravessou.
De três vastos Estados as antipatias declaradas
Voltaram contra ele suas armas conjuradas;
Ele abate seu orgulho, confunde sua maquinação,
E para total castigo a paz é sua imposição.

Instruído de onde lhe vem esse excessivo encorajamento,
Dele ele se serve, repleno de zelo e reconhecimento,
Para manter em seu redil os rebanhos transviados,
Que um erro mortal os fizera separados,
E por seus piedosos cuidados, sufocada a Heresia,
Acresceu-se às suas virtudes imortal honraria.

Talvez ofuscados por tão venturosos progressos,
Não os julguemos bem por estarmos demasiados imersos;
Consultemos o estrangeiro e formemos nossas opiniões
Do gosto das nações dos mais longínquos rincões,
Desses povos venturosos, onde maior, mais encarnado,
Sobre um carro de rubis o Sol é elevado,
Onde a Terra, o tempo todo, com mão generosa,
Prodigaliza seus tesouros com pompa ela dadivosa,
Cujos Reis soberbos estão tão enfadados de sua sorte,
Que um único olhar sobre eles é seguido da morte.
O invencível Luís, sem esquadra, sem armada,
Deixa operar nesses lugares unicamente sua fama renomada,
E estes Povos, arrebatados com suas façanhas singulares,
Atravessam sem repouso o vasto seio dos mares,
Para vir a seus pés lhe render uma humilde homenagem,
Para regalarem seus olhos de sua augusta imagem,
E experimentar o prazer de verem a uma só vez,
Dos homens o mais sábio, e o maior dos Reis.

Céu, a quem devemos este imenso esplendor,
Com o qual nosso Século e a França veem-se em fulgor,
Prossiga com tuas bondades os cursos favoráveis,
E de um tão digno Rei conserve os dias admiráveis,
De um Rei que, liberado dos trabalhos da guerra,
Amado de seus súditos, temido por toda Terra,
Não vá mais ocupar todos seus cuidados generosos,
Senão a nos reger em paz, e a nos manter venturosos.

* Sertório de Amorim e Silva Neto é professor do Departamento de Filosofia da UFU. Enoque M. Portes é mestre em filosofia pela UFU.
1 M. O abade de Maucroix.
2 Rio da Grécia que retorna várias vezes sobre ele mesmo.
3 Cícero suplicou pelo rei Dejotarus.
4 Demóstenes perorou contra Filipe, pai de Alexandre.
5 Liv. 5. Epigr. 10.
6 Clitemnestra.
7 Os Antigos não conheceram a música em várias partes.
8 A ópera.